Capítulo 1: Jovem Criada (Parte 5)
Um clima estranho tomou conta das criadas que testemunharam os acontecimentos do dia. Enquanto antes elas se ocupavam em difamar Lizbeth com todo tipo de palavras depreciativas e críticas, agora a evitavam como se fosse uma presença incômoda. Se por acaso a vissem, trocavam olhares e rapidamente se viravam na direção oposta. Lizbeth podia imaginar por que a consideravam problemática. Parecia que elas haviam interpretado mal seu relacionamento com Bieren e a viam como sua amante, mas não havia como corrigi-las. Ela não podia se antecipar a algo que ninguém havia perguntado.
“Será que ela aprendeu a flertar com esse rostinho inocente?”
“Talvez ela o tenha tentado com seus seios fartos, como os de uma vaca.”
Lizbeth se escondeu atrás de uma parede ao ouvir as criadas reunidas fofocando. Para onde quer que fosse, falavam de Bieren e a amaldiçoavam, mas ela se sentia em êxtase. Não conseguia parar de pensar em como estava sentada, encharcada, à beira do riacho, como ele estendeu sua mão grande e tocou seu tornozelo, como a pegou no colo e a levou embora. Parecia um sonho estar nos braços de um homem a quem ela só precisara dizer olá. Ela nunca fora tão feliz.
“Lizbeth, hoje você vai limpar o quarto do jovem mestre.”
Algumas das criadas lançaram olhares para Lizbeth ao ouvirem as palavras da governanta. Apesar de saber o significado por trás daqueles olhares, a governanta idosa não corrigiu as instruções. Lizbeth entrou no quarto de Bieren para limpar, apenas para encontrar seu patrão ocupando o espaço novamente.
“Estou aqui para limpar a bagunça.”
Bieren não demonstrava nenhuma intenção de ir embora novamente. Lizbeth, observando-o ler confortavelmente na cama, abriu a janela. Desde o mal-entendido sobre ser sua amante, ninguém ousara tirar-lhe o esfregão e o balde. Enquanto Lizbet varria o chão, notou seu lenço na mesa de cabeceira ao lado da cama dele.
Por que estava ali?
Lizbeth inclinou-se, perguntando-se se tinha visto errado. Era mesmo dela.
‘Me dê o lenço.’
Era o lenço que ela lhe entregara junto ao riacho naquele dia. Fora um presente da Duquesa, por isso ela o guardara com carinho, mas agora parecia gasto e desfiado. Lizbeth ponderava as perguntas que rondavam sua mente enquanto limpava o chão, aproximando-se inconscientemente dele.
“Venha e sente-se.”
Por fim, Bieren disse para Lizbeth, que estava rondando por perto. Naturalmente, Lizbeth se ajoelhou e sentou no tapete em frente à cama de Bieren. Ele estendeu o livro que estava lendo, como se quisesse que ela o visse.
“Se você quer ler, não precisa ficar espiando. Recite.”
Embora quisesse apenas puxar conversa com Bieren, que estava lendo, acabou recebendo o grosso livro de história que ele lia, para sua grande confusão. Bieren recostou-se confortavelmente na cabeceira da cama, como se esperasse que ela lesse. Sentindo o olhar dele sobre ela como uma pressão, ela baixou a cabeça e começou a ler em voz alta.
“No reino de Leryanne, como parte de sua política diplomática, buscavam-se casamentos com países vizinhos. Para fomentar a prosperidade diplomática entre os dois reinos, exigia-se interação pública em locais onde funcionários reais, convidados e servos estivessem presentes.”
Lizbeth interrompeu sua recitação após apenas duas frases.
Relação sexual.
Ela duvidava que aquilo significasse o que ela sabia. Ficou nervosa e se virou para Bieren com uma expressão confusa no rosto.
“Eu… eu tenho uma pergunta.”
“Falar.”
“Será que o ato sexual também tem um significado político?”
“Aqui, significa relação sexual entre um homem e uma mulher. Como ter filhos reais é um evento importante para a família real, todos esperavam testemunhar o ato sexual entre eles.”
Bieren respondeu preguiçosamente, olhando para Lizbeth com uma expressão lânguida de sua posição afundada na cabeceira de couro.
Relações sexuais em público.
A ideia de famílias, empregados e estranhos testemunhando tais atos fez seu rosto corar. Mesmo depois de adulta, Lizbeth nunca havia lido um livro que abordasse relações sexuais entre homens e mulheres. Ela não conseguia se obrigar a falar sobre isso.
“É impossível ter relações sexuais adequadas na frente de todos. Por outro lado, ninguém jamais viu relações sexuais com uma concubina.”
“……”
“O motivo de haver tantos bastardos da realeza é que, ao contrário das esposas legítimas, as concubinas podem ter relações sexuais apaixonadas.”
Bieren continuou a explicar casualmente, como se fosse um professor respondendo à pergunta de um aluno. Quanto mais ele explicava, mais o rosto de Lizbeth ficava vermelho. Ela mal conseguia ouvir as palavras sobre concubinas ou esposas legítimas. O fato de, como adulta, não conseguir compreender tais discussões a fazia sentir-se ainda mais envergonhada. Ele olhou para o rosto de Lizbeth e falou.
“Seu rosto está vermelho como uma fruta madura.”
Ela corou incontrolavelmente quando ele apontou a vermelhidão em seu rosto. Sentiu como se pudesse ser repreendida por ter uma visão tão severa da família real. Parecia que, sempre que estava diante dele, só podia ser vista como alguém que se entregava à promiscuidade e à lascívia. Além disso, aquele era o quarto dele.
“Eu… eu não consigo mais ler.”
Lizbeth implorou, quase às lágrimas. Parecia que seu mestre, que a olhava com malícia, não a deixaria ir. Bieren examinou Lizbeth lentamente com um olhar frio e disse:
“Pode ser difícil fazer isso publicamente. Imagine todos os homens que veriam seu rosto e os vários pensamentos que poderiam ter…”
Talvez sejam apenas pensamentos ou algo mais. Talvez eu esteja apenas inquieto por ainda não poder desejá-la.
Só de pensar no toque de um estranho na pele clara de Lizbeth, ele se sentia desconfortável.
Como ele se atreve?
Lizbeth não passava de uma simples criada, que jamais se tornaria a esposa principal, mas Bieren não conseguia deixar de pensar nas histórias do reino de Leryanne.
Bieren não conseguia entender por que considerava Lizbeth da nobreza, quando ela era apenas uma simples criada.
Ela não é apenas um objeto de desejo?
Era ridículo um nobre imaginar-se apaixonado por uma serva e sequer considerar o casamento.
Então isso só podia ser luxúria.
Lizbeth, sem conseguir compreender suas palavras, piscou e perguntou.
“…Como assim?”
Ele sabia como aquela empregada de aparência inocente coraria ao vê-lo. Ela se escondia quando o via, mas sempre o encarava enquanto ele caminhava pela rua, e o incomodava que ela o observasse pelas costas. Nos dias em que Lizbeth não o via, ele a fazia propositalmente vir até ele no dia seguinte. Hoje, Lizbeth veio limpar seu quarto, porque ele havia ordenado.
O dia estaria incompleto sem uma criada que corasse ao vê-lo, mas isso não significava que fosse amor. Ele pensava que o amor tinha que ser como o de seu pai, que não conseguia se desapegar mesmo sabendo que sua esposa tinha um caso com outro homem. O amor tinha que ser a ponto de um nobre se apaixonar perdidamente por sua criada e se casar com ela.
Então isso não poderia ser amor.
Bieren tentou imaginar Lizbeth ajoelhada aos pés de sua cama, a cabeça enterrada entre suas pernas. Imaginou seus olhos esmeralda fitando-o, murmurando algo grande demais para sua boca conter. Então, ele se excitou. Mesmo sem ter certeza de sua pureza, sua luxúria era evidente.
“Bem, você pode ir agora.”
Bieren cerrou os dentes até a mandíbula se fechar, e então falou com voz grave. Ao sair, ela sentiu o suspiro de Bieren atrás dela. Estava prestes a se virar, mas lembrou-se do líquido branco pingando no riacho para onde olhava.
O que é que foi isso?
Ao se lembrar do hálito áspero que o homem lançou sobre sua cabeça, ela lamentou não ter visto sua expressão. Ela estava curiosa sobre tudo relacionado a Bieren.
Como, por exemplo, por que ele ainda guardava o lenço dela, aquele que ele havia tirado do riacho.
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