Capítulo 8: A Empregada Fugitiva (Parte 2)
“Quem está aí a esta hora?”
Lizbeth, que trabalhava como criada na mansão ducal, frequentemente saía para chamar o médico. O pai de Bieren, o antigo duque, estava sempre acamado, então muitas vezes o Dr. Dale ficava na mansão por vários dias seguidos. Lizbeth se lembrou do caminho até a casa do Dr. Dale e bateu à porta. Ela hesitou ao ouvir a voz fria do outro lado e falou.
“Sou eu, Lizbeth.”
Desde que Bieren, agora chefe da propriedade, trocara o médico da família que cuidava da fazenda, fazia muito tempo que Lizbeth não via o Dr. Dale, que atendia o antigo duque. Era certo que, mesmo que ela fosse procurar o Dr. Dale, a notícia não chegaria aos ouvidos de Bieren. O médico e sua esposa franziram a testa ao saírem de seus pijamas para receber a visitante indesejada que batera à porta após o anoitecer. Contudo, assim que viram Lizbeth, seus olhares se suavizaram e perguntaram sobre seu bem-estar.
“Lizbeth, é você mesmo. Nossa, faz muito tempo que não te vejo.”
Lizbeth curvou a cabeça e cumprimentou o Dr. Dale. O bondoso doutor e sua esposa prontamente abriram a porta ao verem Lizbeth inesperadamente. A esposa do Dr. Dale ofereceu chá quente e expressou preocupação com Lizbeth, mencionando que ouvira rumores de que todos os criados haviam sido dispensados após a morte do antigo duque. Desde a mudança do médico-chefe na mansão do duque, o Dr. Dale não recebera notícias da casa do duque, o que o intrigava. Ele pigarreou e falou.
“O que poderia ter enfurecido o duque a ponto de ele recorrer à demissão de todos os criados…?”
“…”
“É estranho. Mesmo que fosse esse o caso, aqueles criados nunca pareceram se manifestar. Talvez tenham sido ameaçados de terem suas línguas cortadas.”
Lizbeth não conseguia nem imaginar que tipo de ameaça os antigos criados poderiam ter recebido de Bieren para não falarem dela. Certamente, pensou, devia haver algum boato circulando pela cidade de que o novo duque tinha uma criada que mantinha trancada em seu quarto, mas ninguém tinha ouvido falar dela. Era como se Bieren tivesse apagado a existência de Lizbeth ao trancá-la no quarto. Esse fato fez o coração de Lizbeth afundar. Mesmo que vivesse uma existência sombria em seu quarto pelo resto da vida, esse sentimento de saudade dele era um grande problema.
“É que eu, eu…”
Lizbeth hesitou por um longo tempo diante do médico e de sua esposa, esforçando-se para explicar sua situação. A menção de uma possível gravidez fez com que a esposa do médico empalidecesse mortalmente. Moças solteiras só engravidavam se tivessem conhecido um rapaz ou se tivessem sido estupradas. O médico e sua esposa trocaram olhares silenciosos antes de se voltarem para Lizbeth.
“Onde está o pai do seu filho?”
Lizbeth balançou a cabeça em silêncio, incapaz de revelar que o homem com quem se envolvera dia e noite era o duque. O casal olhou para Lizbeth e presumiu que ou um homem a havia estuprado ou que um homem lhe prometera amor e fugira. Com raiva, a esposa do Dr. Dale amaldiçoou o covarde, enquanto o próprio Dr. Dale jurou conduzir uma investigação, começando pelo exame médico.
“…Você está grávida.”
No momento em que Lizbeth recebeu a confirmação da gravidez do Dr. Dale, sentiu como se todo o sangue tivesse escorrido do seu corpo e se acumulado sob seus pés. Parecia que ela podia ver um futuro onde seria separada da criança bem diante dos seus olhos. Bieren detestava a ideia de Lizbeth, meramente um receptáculo para seus desejos, gerar um filho. Ela não conseguia esquecer as palavras duras que ele havia proferido, dizendo que lhe daria o anticoncepcional todas as vezes, prometendo repreendê-la severamente caso engravidasse.
‘Se você engravidasse, quanto tempo acha que eu conseguiria suportar sem te punir?’
Para Bieren, ejacular entre as pernas de Lizbeth era apenas a expressão de seus desejos. Ele não tinha nenhum desejo por um filho que se parecesse com qualquer um deles. Lizbeth sabia disso muito bem, o que a enchia de desespero. A criança seria tirada dela, e ela inevitavelmente ficaria presa em seu quarto, preocupada com o bem-estar do bebê.
Ela nem sequer seria capaz de amamentar a criança. Se Bieren se casasse com uma nobre, a criança seria criada como bastarda pela esposa dele. Só de pensar nisso, seu coração doía. Tendo crescido em um orfanato, Lizbeth conhecia muito bem a dor de uma criança sem família. A esposa do Dr. Dale conversou com Lizbeth, tentando confortá-la.
“Lizbeth, não chore por causa desse homem covarde. Você precisa pensar no seu próprio bem-estar.”
“Sim, você também foi expulsa da mansão do duque, então, se precisar de um lugar para trabalhar, tenho uma recomendação. É uma vila um pouco rural, longe daqui, mas se não se importar, pode ir para lá, trabalhar e ter seu filho.”
O Dr. Dale também falou com sinceridade, disposto a fazer tudo ao seu alcance para ajudar Lizbeth. Lizbeth curvou a cabeça em gratidão pela generosidade deles. Naquele dia, ela ficou na casa deles até o amanhecer e depois pegou carona na carroça de um vendedor de frutas que ia para o pomar no campo. Enquanto a carroça chacoalhava e balançava, Lizbeth se lembrou do caso que teve com Bieren na carruagem a caminho do funeral. Bieren, por se opor à ida de Lizbeth ao funeral, havia lhe dito isso.
‘Quando foi que alguma vez escondi os meus desejos?’
Em certo momento, Lizbeth quase se alegrou com o fato de ele ser tão possessivo. Ela havia romantizado a possessividade de Bieren, confundindo-a com uma declaração de amor. Os insultos que ele lhe dirigiu naquele dia na carruagem foram incontáveis. Ela se lembrou de sua juventude, quando se interessara pelos livros que ele lia e ele, gentilmente, os entregara a ela.
No reino de Leryanne, como parte de sua política diplomática, foram buscados casamentos com países vizinhos. Para fomentar a prosperidade diplomática entre os dois reinos, exigia-se interação pública em locais onde funcionários reais, convidados e servos estivessem presentes.
Naquele instante, Lizbeth ficou horrorizada com a menção de relações sexuais em público, seu rosto corando intensamente. Contudo, só então percebeu que, para cortesãos e convidados, assuntos diplomáticos como o nascimento de um herdeiro do trono eram cruciais. A relação sexual entre Bieren e Lizbeth ocorreu em um local onde ninguém poderia testemunhá-la. Foi meramente um ato de prazer sexual para Bieren, e o nascimento de seu filho não teria importância.
Como o nascimento de filhos reais é um evento importante para a família real, todos esperavam testemunhar o ato sexual. É impossível ter relações sexuais propriamente ditas na frente de todos. Por outro lado, ninguém jamais viu uma relação sexual com uma concubina.
Casamentos entre nobres, predominantemente por razões de aliança, jamais poderiam ser tão licenciosos quanto o caso de Bieren com Lizbeth. Bieren certamente se casaria com uma nobre delicada. Ela exalaria uma fragrância agradável enquanto vestia graciosamente trajes suntuosos, tal como a duquesa anterior. Bieren jamais tocaria nessa nobre da maneira como a tocou, nem permitiria que ela usasse vestidos extravagantes em todos os lugares. Tudo o que ele fez com Lizbeth só foi possível porque ela era uma criada fácil.
‘O motivo de haver tantos bastardos na realeza é que, ao contrário das esposas legítimas, as concubinas podem ter relações sexuais apaixonadas.’
Lizbeth sentia como se as palavras que ele proferira ao explicar a história do Reino de Leryanne a perfurassem. Bieren a violentava como se fosse sua concubina. Humilhava a criada como bem entendia, sem sequer lhe dar uma peça de roupa para se cobrir, e a atacava implacavelmente entre as pernas dia e noite, ejaculando enquanto ela se debatia sob o fino cobertor. Não importava quanta poção anticoncepcional Lizbeth bebesse, era evidente que não resistiria à quantidade que ele ejaculava dentro dela. Se tivesse permanecido confinada ao quarto, Lizbeth teria dado à luz inúmeros filhos ilegítimos.
“Senhorita, veja só. O dia está amanhecendo.”
O comerciante de frutas, que geralmente não era um homem de muitas palavras, maravilhou-se com a vista diante de si. Os campos começaram a brilhar com o sol nascente. Lizbeth, ao ouvir suas palavras, também olhou para o outro lado da colina, onde o sol começava a se pôr. Como o sol podia ser visto de qualquer lugar, ela se perguntou se Bieren estava testemunhando a mesma cena. Ela estava curiosa sobre o bem-estar dele. Queria perguntar como ele estava, se havia comido, se havia se machucado, mesmo que ele tivesse dito que a viagem não fora perigosa. Lizbeth imaginou o rosto dele se zangando quando ele retornasse à propriedade sem ela. Contudo, haveria inúmeras criadas lascivas para substituí-la em seus desejos. Apesar de se sentir deprimida com esse fato, ela rezou por seu bem-estar enquanto o sol nascia sobre a colina.
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