Capítulo 9: Quando você aprende a amar a coisa frágil que tem em seus braços (Parte 6)
Bieren implorou a Lizbeth, embora já devesse saber, ao observá-la de longe enquanto dormia, que se sentia atraído por ela. Deveria ter percebido quando, ao acariciar seus cabelos enquanto ela dormia, beijou a ponta, mesmo sem ter o direito de fazê-lo. Deveria ter percebido quando, apesar de chamá-la de mera camareira por causa de seus desejos lascivos, se viu cuidando dela, limpando-a entre as pernas com um pano. Bieren percebeu tarde demais que todos aqueles momentos eram amor.
“O que posso fazer para te reconquistar?”
Lizbeth não podia acreditar no que via ao contemplar o rosto abatido do homem. Sempre fora seu lugar implorar e suplicar, mas o arrogante homem que queria ser seu mundo se aproximara e se ajoelhara diante dela. Ela não podia acreditar no que via enquanto observava o homem enorme ajoelhado, sua figura imponente desmoronando e puxando delicadamente sua mão.
“Diga-me.”
Ali estava ele, ajoelhado no campo de malvas coberto pelo pôr do sol, pedindo-lhe que pedisse qualquer coisa. Bieren, que tratará Lizbeth como a pessoa mais preciosa do mundo, mas a fizera sentir-se a mais miserável, tornara-se o mais desprezível dos desprezíveis.
“Se você quer ser o mais desprezível de todos, eu me ajoelho agora mesmo e beijo seus sapatos.”
Se Lizbeth dissesse que não iria embora, ele poderia oferecer qualquer coisa. Ele daria qualquer coisa se ela simplesmente ficasse ao seu lado. Não, mesmo que ela o tratasse como o maior canalha do mundo, ele aceitaria.
“Trate-me como eu te tratei, como uma prostituta vil e lasciva.”
Ele sempre a acusava de lascívia, como se a culpasse por agitar sua vida, que antes era um sono tranquilo. Ele sempre a chamava de lasciva, mas era tudo lascívia dele. Era ele quem a olhava daquela maneira. Portanto, era ele, e não Lizbeth, quem merecia ser tratado como uma prostituta.
“Já que eu te servirei como a mais vil das meretrizes, não me permitirás estar ao teu lado?”
Bieren queria qualquer tratamento, contanto que pudesse estar ao lado dela. Apesar do afeto sincero de Lizbeth, seu coração era corrupto e teimoso demais. Se ela o deixasse ficar ao seu lado, ele viveria acreditando nela, como se ela fosse sua religião.
“Não me atreverei a te confinar. Podes ir aonde quiseres. Se quiseres confinar-me, confine-me o quanto quiseres.”
Bieren esperava que Lizbeth o tratasse com todo o desprezo que ela detestava. Ele queria receber dela o tratamento de uma prostituta, ficar trancado num quarto o dia todo, esperando por ela, sentindo e se repreendendo pela vida que ela havia levado. Olhando para Lizbeth, que estava rígida, ele disse:
“Sua palavra agora é lei para mim.”
Ele daria tudo para se redimir com ela por não ter reconhecido o que era mais precioso na vida.
Lizbeth não conseguia acreditar, mesmo vendo seu mestre ajoelhado a seus pés, implorando por amor e perdão enquanto os juncos desapareciam no crepúsculo. Ainda assim, ela queria acreditar nele novamente. Ela se amaldiçoou por querer confiar nele novamente.
“Eu… eu não quero nada tão grandioso assim.”
Havia apenas uma coisa que Lizbeth desejava: passar o resto da vida criando um filho que se parecesse com ele. Ela não queria mais nada. No entanto, assim que ouviu as palavras de Bieren, seus desejos ressurgiram, voltaram com força total. Apesar de saber o quão mal aquele homem a havia tratado, ela ansiava por imaginar a felicidade que sentiria se ele a amasse. Mas sabia que não devia. Lizbeth deixou de lado todas as preocupações que a confundiam em meio à súbita onda de dor. Ao longe, ouviu a carruagem do Duque se aproximando, aquela que Bieren havia chamado.
“Ah…”
Quando o som das rodas se dissipou, um gemido escapou de seus lábios. Ela desabou em uma agonia terrível que percorreu sua espinha, turvando sua visão. Lizbeth caiu como se estivesse se desfazendo, e Bieren a amparou imediatamente.
“Lizbeth!”
“Argh, ah…”
Ela se aninhou em seus braços, seus dedos amassando incessantemente a fina seda de suas vestes. Soluçou como um animalzinho, soltando suspiros intermitentes. A sensação de estar sendo dilacerada por baixo era nítida. Uma dor como nenhuma outra atravessou seu corpo.
“Ugh, aaah…”
Bieren percebeu a água escorrendo entre as pernas caídas de Lizbeth. Seu vestido estava encharcado por baixo. Bieren, que costumava se alegrar quando a água jorrava de baixo, agora não conseguia se alegrar de forma alguma. Não era fluido de excitação, mas líquido amniótico. Lizbeth agarrou a barriga e estremeceu como um peixe fora d’água.
“Sa… salve… salve-me, por favor, ah…”
Ela implorou por sua vida, pingando suor frio e com um olhar precário, como se sua vida fosse se extinguir a qualquer momento. Bieren gritou em direção ao cocheiro e aos criados que guardavam a carruagem.
“Chamem um médico! Tragam uma parteira imediatamente!”
As pessoas se dispersaram em todas as direções. Bieren abraçou Lizbeth, que chorava como se lamentasse a própria vida, com força. Se a soltasse por um instante sequer, sentia como se a vida dela lhe escapasse por entre os dedos. Sentia como se estivesse agarrando a areia.
“Não. Lizbeth, não. Você consegue suportar isso. Você aguenta.”
Bieren repetia palavras sem saber a quem se dirigia. Sentia-se como uma besta miserável que, tolamente, invadira as pernas de uma mulher grávida. Se soubesse que ela estava fugindo, deveria ter trazido a carruagem imediatamente.
Não, eu não deveria tê-la deixado fugir. Como pude fazer uma coisa tão estúpida, sem saber quando a criança iria sair?
“Maldito idiota.”
Bieren se amaldiçoou enquanto segurava a figura frágil em seus braços. Ao contrário dos tempos em que conseguia manipular facilmente o corpo delicado de Lizbeth, agora sua forma emaciada parecia frágil demais para ele suportar. Bieren a segurava com delicadeza, com medo de que ela se quebrasse se a apertasse demais.
“Precisamos transferi-la para a carruagem!”
Por fim, quando o médico e a parteira chegaram, Bieren carregou Lizbeth em direção à carruagem. O médico sugeriu que seria melhor o marido esperar do lado de fora, pois a visão de sangue e vísceras poderia ser perturbadora, acrescentando que muitas mulheres morriam no parto. Mas, com semblante determinado, Bieren dirigiu-se ao médico.
“Eu a segurarei, mesmo que ela pareça um cadáver. Comecem a tirar a criança de lá.”
O médico tinha certeza de que o Duque finalmente havia perdido a cabeça. Seus olhos sinceros certamente não eram de um ser humano normal. Sem mais tempo a perder, o médico fechou a porta da carruagem e cuidou do vestido gasto de Lizbeth. Quando a cabeça da criança apareceu entre as pernas, Lizbeth já não conseguia gritar. Seu rosto, banhado em lágrimas, estava entreaberto como se estivesse sendo torturado.
“Lizbeth… Lizbeth…”
Bieren continuou a chamá-la, beijando sua testa, acariciando seus cabelos, desejando desesperadamente aliviar sua dor. Se pudesse tirar seu sofrimento, ele o faria. Se existissem demônios, ele venderia sua alma naquele instante.
Se dar à luz significasse torturar outra vida dessa maneira, ele jamais teria ejaculado dentro dela. Ele deveria tê-la feito viver com delicadeza. Poderia ter lhe dado um emprego que ela desejasse, como costura ou aulas de etiqueta. Poderia tê-la ajudado a desenvolver outros hobbies… Havia inúmeras maneiras de mantê-la ao seu lado sem esmagá-la e explorá-la.
Mas ele não o fez. Exerceu controle sobre Lizbeth de forma imprudente, encontrando maneiras cada vez mais convenientes de oprimi-la. Deleitou-se em reduzi-la a um estado semelhante ao de uma besta, incapaz sequer de vestir uma peça de roupa e de quatro, regozijando-se com o poder que exercia sobre ela. Tratou-a com descaso, alheio ao valor do que tinha em mãos.
“Eca, uma criança…”
Um bebê vermelho-sangue emergiu de entre as pernas de Lizbeth e chorou como um pedaço de argila moldado em uma forma disforme, nascido da exploração do corpo de sua mãe. Ignorando a parteira que tentou lhe entregar a criança, Bieren sussurrou algo urgente para Lizbeth.
“A criança já nasceu. Agora tudo ficará bem.”
“O sangramento não vai parar.”
O médico deu a terrível notícia. O tapete e as almofadas da carruagem estavam encharcados de sangue. Lizbeth parecia sem forças para emitir um único som. Era uma luta pela vida, como se estivesse expulsando a vida de entre as pernas, enquanto se esvaía. Bieren gritou em desespero.
“Pegue a lanceta, rápido! Agora mesmo!”
O médico paralisou diante do rosto determinado dele. Nos asilos, algumas pessoas haviam coletado sangue às escondidas e o vendido por dinheiro. Contudo, jamais houvera um caso de um nobre ter sua carne perfurada para extrair sangue. Aqueles que haviam sido criados no luxo e na autoridade, governando sobre os outros por toda a vida, jamais haviam solicitado tal coisa. A voz de Bieren foi como um trovão, despertando o médico endurecido de seu torpor.
“O que você está esperando!”
“Eu… eu farei isso.”
O médico gaguejou, tremendo enquanto pegava a lanceta. Após algumas tentativas frustradas, gotas de sangue pontilharam a pele de Bieren, mas ele não sentia a agulha perfurando-o. Finalmente, quando a lanceta foi inserida e conectada às suas veias, ele sentiu a dor aguda.
“Lizbeth, agora tudo vai ficar bem.”
Pela primeira vez, algo útil escorria dele e a preenchia, mas o sangramento não parava e continuava a manchar o tapete. Bieren desejava poder drenar todo o sangue de cada orifício do seu corpo e preenchê-la com ele. Diante dela, que sofria, mesmo na posição que lhe conferia poder, ele se sentia inútil e insignificante.
“Duque…….”
“Não.”
“Bieren…….”
Como se pressentisse a própria morte, Lizbeth chamou o nome dele, um nome que nunca ousara pronunciar antes. Bieren sentiu como se ouvir ela chamá-lo pela primeira vez enquanto a vida lhe escapava fosse como uma ferida que lhe dilacerava o coração.
“Por favor… crie a criança.”
Lizbeth murmurou, com as pálpebras tremendo. Bieren queria implorar por sua vida. Ele acariciava suas bochechas incessantemente, balançando a cabeça vigorosamente. Temendo que ela perdesse a respiração, pressionou a bochecha contra a dela, ficando de frente para ela.
“Você precisa viver. Não há vida para mim sem você.”
Lizbeth sorriu levemente para o homem que pressionava a testa contra a dela, declarando seu amor. Era a primeira vez que seus rostos estavam tão próximos sem que seus lábios se tocassem. Ela poderia ter compartilhado mil beijos com ele em sua vida. Mil beijos que nenhum outro casal no mundo jamais compartilharia, enquanto ele a tratava como uma amante, mas cada uma daquelas horas humilhantes era preciosa para Lizbeth.
“Qual o sentido de uma criança sem você? Por favor…”
Bieren murmurou, pressionando a bochecha contra a dela. Lizbeth parecia prestes a chorar. Era evidente que ela estava sentindo uma dor imensa. Apesar da agonia que deveria concentrar todos os seus nervos na parte inferior do corpo, uma sonolência insuportável a invadiu. Entre os pacientes terminais que Lizbeth cuidará na enfermaria, alguns mencionaram sentir sonolência. Aqueles que adormeciam nunca mais acordavam. Ela estava prestes a enfrentar esse momento.
“Não, não. Lizbeth, Lizbeth!”
Ignorando o homem que a chamava carinhosamente, Lizbeth fechou os olhos. Ela pressentia que jamais acordaria novamente. Tivera o privilégio de morrer nos braços do homem que amava, após uma vida comum. Tentou se agarrar à sua consciência que se esvaía, preocupada com o homem que deixaria para trás, mas era um destino inevitável.
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