“Tenho três erros a confessar, Vossa Majestade.”
A voz calma ecoou pelo tribunal solene. Abaixo do rei, sentado em seu alto trono, a multidão que lotava o recinto concentrava-se no homem que ocupava o centro, na posição de réu.
Curtis Russell, o Marquês da Fronteira.
Cabelos negros como corvos e olhos tingidos de cinza. Estatura alta, ombros largos. O maxilar esculpido e um espírito que dominava a todos ao redor.
O homem fora, outrora, um Marquês cujo poder rivalizava com o do próprio rei. Ao mesmo tempo, era o líder da organização mercenária que fizera o país inteiro tremer de medo. O homem, protagonista do caso mais infame e o réu mais notório da história, estava diante do rei como um traidor.
As damas da nobreza, ao verem o homem em carne e osso, soltaram suspiros de pesar, enquanto os cavaleiros que antes reverenciavam sua fama mantinham-se em silêncio. Os nobres, posicionados nos degraus abaixo do rei, encaravam-no com olhares gélidos. No tribunal, onde olhares e emoções de todos os tipos se entrelaçavam, apenas o rei mantinha a compostura.
“Qual é o primeiro?”
“Lembra-se? Certa vez, conversamos sobre vingança, Vossa Majestade.”
“Eu me lembro.”
“Eu disse que a vingança é devolver na mesma moeda. A humilhação, a vergonha, a traição, até mesmo a fúria.”
Mesmo vestindo uma túnica gasta e com as mãos e pés acorrentados, o homem permanecia altivo. Ele era assim mesmo quando não possuía nada. Um sujeito audacioso, beirando a insolência. Os lábios do rei se curvaram em um sorriso torto.
“Então, foi isso que você fez?”
“Não. Eu exterminei a família do Marquês Dalton, mas poupei a filha, enganando a mim mesmo. Esse é o meu primeiro erro.”
“E qual é o segundo erro?”
“O segundo é.”
Curtis inclinou a cabeça e percorreu o salão com o olhar. Ao encontrar os olhos da mulher que o encarava sentada à esquerda do rei, ele não desviou o olhar e disparou:
“Sinceramente, a corte unilateral da princesa era um incômodo. Portanto, ser desleal ao rei, esse é o meu segundo crime.”
A declaração arrogante mergulhou o tribunal em choque instantâneo. A princesa, com o rosto vermelho de fúria, desmaiou. Assim que ela foi retirada do tribunal, carregada nas costas de um criado, uma onda de críticas violentas desabou sobre ele.
“Veja só! Que sujeito profano!”
“Devemos cortar sua cabeça imediatamente!”
“Silêncio!”
Foi o rei quem interrompeu o alvoroço que tomou conta do tribunal. Com as veias do pescoço saltadas, ele baixou a mão que havia levantado. Quando o silêncio retornou, Curtis concluiu com naturalidade.
O rei fechou a boca, contendo o desejo de ordenar a execução ali mesmo. Se fosse dominado pela emoção, perderia aquele jogo. Ele veria, com seus próprios olhos, aquele homem morrer de forma miserável.
“…Sim. Foi assim. Eu lhe devolvi o título de Marquês da Fronteira, embora você fosse apenas o líder de um bando de mercenários, mas você trouxe desonra à minha princesa.”
A maior honra era casar-se com a princesa. No entanto, Curtis Russell fugiu com a filha de um traidor. Ele desafiou a autoridade real abertamente. O rei sentiu o perigo. Era um período em que a autoridade do rei, outrora chamado de Deus do Sol, enfraquecia, enquanto o poder dos nobres crescia. Portanto, aquele caso não poderia ser ignorado. Mesmo que tivesse que esmagar as petições dos cavaleiros, ele precisava executar o homem à sua frente como um exemplo.
“De qualquer forma, não há como salvar sua vida. Mas, considerando seus serviços passados, ouvirei tudo. Qual é o terceiro erro?”
“O terceiro erro é.”
Curtis, que recebeu a fúria do rei de frente, despejou palavras chocantes.
“O fato de eu estar com o Visconde Otis, ou seja, o filho ilegítimo de Vossa Majestade.”
“…O quê?”
Ele pensava que o rapaz estivesse jogado em algum lugar, embriagado e viciado em jogos.
“Seu maldito!”
Diante da declaração inesperada, o rei levantou-se de um salto. Os cavaleiros, reagindo prontamente, forçaram os ombros de Curtis para baixo. O tumulto repentino fez a plateia murmurar.
Com a bochecha pressionada contra o púlpito, Curtis olhou para cima, encarando o altar onde o rei fervia de raiva. Através da túnica entreaberta, seu pomo de adão e clavícula sobressaíam. Cabelos desgrenhados colavam-se à sua testa. Seus olhos, ao fitar o estrado, eram de um cinza profundo.
“Sua audácia não tem limites. Ousar sequestrar meu filho bastardo. Você cometeu esse ato patético apenas para tentar salvar sua própria vida?”
“Não. Como eu faria algo assim? O erro de sequestrar o filho ilegítimo do rei foi apenas…”
“Apenas?”
“Para corrigir o que estava errado e oferecer minha última lealdade a Vossa Majestade.”
O significado contido naquelas palavras era claro. O rosto do rei empalideceu instantaneamente. Embora fosse algo que apenas ele pudesse compreender, sentiu como se todo o sangue de seu corpo tivesse drenado.
Diante das palavras enigmáticas do réu prestes a ser executado, a plateia começou a sussurrar novamente.
“Cale a boca, todos vocês!”
Com o grito cortante do rei, o tribunal silenciou-se de imediato. Diante da situação absurda, Curtis soltou uma risada.
O rei, rangendo os dentes, ordenou que os cavaleiros recuassem um passo. Curtis levantou-se com naturalidade e alongou o pescoço.
“Você planejou tudo isso, não foi?”
O Visconde Otis era o ponto fraco do rei. O filho mais velho, mas um homem que nunca poderia ascender ao trono. O rei sempre fechava os olhos para suas transgressões. Já havia uma forte oposição no conselho nobre devido ao fato de ele ter engravidado e abandonado várias filhas de nobres.
Até então, ele conseguia abafar os casos por serem filhas de nobres menores, mas o assassinato era diferente. A pessoa que Derek matara, após uma disputa por uma cortesã de luxo, não era ninguém menos que o filho do Grande Duque, o segundo homem mais poderoso do conselho nobre.
Ele pensou ter eliminado bem as evidências. Se esse fato fosse descoberto, para apaziguar a facção do Grande Duque, ele teria que executar Derek.
“Marquês.”
O rei, que se levantara, desceu do altar e parou bem à frente do prisioneiro. Um soco violento atingiu o rosto de Curtis.
Curtis cuspiu o sangue que se acumulava em sua boca no chão, sentindo a dor latejante. O cabelo suado grudado no pescoço era incômodo.
“Em troca de poupar o Visconde Otis, você quer que eu não procure por Roxana Dalton. É isso?”
“Vossa Majestade é perspicaz.”
Curtis, com os olhos semicerrados, elogiou-o. O rosto do rei endureceu diante da insolência crescente.
“E quanto a implorar por sua vida? Pretendo despedaçá-lo agora mesmo e espetar sua cabeça na torre do castelo.”
“Como desejar.”
“Já é tarde demais.”
O rei, com os lábios trêmulos, soltou o colarinho dele com um puxão. Então, gritou em direção à porta que estava firmemente fechada.
“Tragam-na.”
Ao mesmo tempo, a porta pesada se abriu e uma mulher apareceu. O tempo pareceu fluir lentamente, como se fosse eterno. Ao reconhecê-la, os olhos de Curtis vacilaram pela primeira vez.
“Roxana.”
Ela era uma mulher que não deveria estar ali.
Sua vida, sua luz, seu amor. Tudo o que ele possuía.
Por um breve momento, seus olhares se cruzaram. Os olhos violetas passaram por ele com indiferença e se voltaram para o rei. Mesmo em meio ao choque, ele percorreu com o olhar, com angústia, os pés descalços e feridos sob a camisola branca, gasta e esfarrapada.
Os passos pararam, e o rei ordenou que o soldado que a escoltava a fizesse ajoelhar-se. Mesmo estando amarrada, suas costas retas e o olhar fixo à frente emanavam uma nobreza à qual ninguém ousava se aproximar.
“Ouvi dizer que você se entregou voluntariamente esta manhã.”
“Sim.”
“Por quê?”
Os lábios rachados dela se moveram.
“Pela vingança. Aquele homem é o inimigo que exterminou minha família.”
O ar do tribunal, que estivera fervendo, congelou instantaneamente.
“Vingança? Como pode ser vingança se você se entregou aqui, jogando fora a própria vida?”
Em vez de responder, Roxana desviou o olhar. Os olhos cinzentos de Curtis a encaravam como se estivessem prestes a incendiar tudo.
“Porque aquele homem me ama.”
Roxana sorriu radiantemente pela última vez e percorreu com o olhar as inúmeras pessoas que a encaravam como se fossem adagas.
“A morte da mulher amada… existe vingança mais perfeita do que esta no mundo?”
Simultaneamente, uma onda de choque varreu o recinto. Traidor. Renegado. Bruxa. Até mesmo os olhares de compaixão que alguns tinham pela amante apaixonada mudaram instantaneamente.
“Temos que matá-la!”
“Executem-na imediatamente!”
“Queimem essa bruxa na fogueira!”
Roxana, em meio ao ódio e à fúria que jorravam como uma enchente, encarou Curtis, que a observava em silêncio.
Dentro do olhar dele, que aceitara a morte, uma chama negra começou a arder violentamente. Um olhar que perguntava se ela estava louca. Para aquela chama, que queimaria a si mesma e envolveria todo o tribunal, Roxana sussurrou sem som:
‘Você é quem deve encontrar o caminho.’
Foi o que ele lhe dissera um dia. Ao entender o movimento dos lábios, Curtis soltou uma gargalhada fria. Com um olhar que parecia querer estrangular o pescoço dela com as próprias mãos e devorar seus lábios.
Diante daquele riso, Roxana fechou os olhos lentamente. O passado, que ela havia enterrado em um canto do coração, passou como um relâmpago. Ela retornou, em um instante, à ilha remota onde se podia ouvir o som das ondas quebrando.
O lugar onde tudo começou.
Comentários