A estadia do rei nas terras do Marquês durou apenas quatro dias. Embora não fosse tão grandioso quanto o palácio real, Robert dedicou corpo e alma para atender aos dois convidados ilustres. Desde a qualidade dos aposentos até as refeições e o entretenimento, não houve um único detalhe que não passasse pelas mãos de Robert.
Talvez por conta desse esforço, o rei não soltou uma única reclamação durante os três dias, e a Princesa Hailot começou a se afeiçoar ao castelo. Na verdade, o maior motivo para ela ter se adaptado e criado laços com um castelo menor que o real não foi o tratamento requintado, mas sim o próprio senhor daquelas terras.
— Este lugar parece ser mais maravilhoso do que eu imaginava, Lorde Russell. Mal posso acreditar que partiremos amanhã.
— Fico aliviado em saber que a senhorita se sentiu confortável aqui.
— Confortável? Com certeza. Meu pai também ficou satisfeito. É uma pena que ele tenha bebido demais e se recolhido cedo. Não sei se conseguiremos partir cedo amanhã.
— Felizmente, o vinho desta região não causa ressaca. Espero que o clima esteja ensolarado amanhã pela manhã.
Curtis, ignorando a insinuação, ergueu sua taça. Depois de lidar com o rei durante toda a manhã, ele precisava entreter a princesa como o senhor daquele castelo todas as noites. Ele já estava cansado de contar os dias para a partida daquele pai e filha. Mas, na manhã seguinte, tudo aquilo chegaria ao fim. Tanto o banquete grandioso quanto as formalidades.
Sem saber o que se passava na mente dele, Hailot sorriu timidamente.
— Não sei se é uma pergunta indelicada, mas, considerando que está na idade de se casar e ter filhos, posso perguntar por que ainda permanece solteiro?
Em vez de responder, Curtis exibiu uma expressão sutil. Hailot olhou para algum ponto e acrescentou rapidamente:
— Refiro-me a uma esposa oficial.
Os olhos cinzentos de Curtis seguiram o olhar de Hailot e pousaram sobre uma mulher. Roxana, vestida de forma sóbria, desfrutava do banquete ao lado de Frey. Era a mesma mulher que, mesmo quando a princesa a provocava abertamente ou quando ela se agarrava ao braço dele de forma exibicionista durante os três dias, não piscava um olho sequer e fingia não notar.
— Lorde Russell?
Curtis, que estava absorto em pensamentos, forçou um sorriso tardio.
— Ainda não tenho planos. E provavelmente não haveria nenhuma dama disposta a vir para um lugar como este.
— Será mesmo?
Com um sorriso malicioso, Hailot pousou a mão sobre o dorso da mão dele. Com a sedução evidente, muitos olhares começaram a recair sobre os dois. Curtis colocou uma máscara fina sobre o rosto. Encorajada pela embriaguez e pelo sorriso dele, Hailot deu um passo à frente.
— Se você se esforçar um pouco, haverá muitas damas que desejarão vir para cá. Mesmo que seja um pouco árido, todas desejam um marido jovem, bonito e capaz.
— Agradeço por me ver dessa forma.
Ele não repeliu a sedução, mas também não reagiu. Quando Curtis retirou a mão suavemente, Hailot mordeu o lábio inferior. Até aquele momento, nenhum homem a havia rejeitado. Com seu status nobre, rosto belo e atitude cativante, ela possuía tudo o que os homens desejavam. Ela sempre conseguia o que queria sem hesitação e, quando se cansava, descartava sem remorso. Quando os jovens nobres que frequentavam o palácio real começaram a entediá-la, ela encontrou o homem à sua frente durante uma visita impulsiva às províncias.
— É uma honra conhecê-lo, Princesa Hailot.
A aparência que prendia o olhar à primeira vista, a estatura alta, os ombros largos e o peitoral robusto. Acima de tudo, havia um charme indefinível que a cativava. O fato de ele ser gentil e educado, mas manter uma barreira que não permitia nada além disso. No início, ela pensou que ele a rejeitava por ter uma amante, mas, vendo agora, não parecia haver muito afeto entre eles. Ela achou estranho, mas não se importou. Afinal, isso significava que ela tinha uma chance.
Tendo feito seus cálculos, Hailot tocou a testa e fechou os olhos.
— Ah. Acho que bebi demais. Estou um pouco tonta.
— Princesa!
Uma criada se aproximou e segurou os ombros de Hailot.
— A senhorita tem pouca resistência ao álcool, por que bebeu tanto?
— Estava me sentindo tão bem que acabei perdendo a conta.
— Gostaria de ir para o seu quarto? Eu a ajudarei.
— Não. Não quero entrar ainda.
Hailot riu baixinho e pediu a Curtis:
— Se não se importar, poderia me acompanhar para tomar um pouco de ar fresco?
* * *
— Roxana, você não pode perder para aquela princesa raposa.
Frey, que bebia vinho sem parar, continuava a insistir. Roxana silenciosamente retirou a taça de vinho da frente de Frey.
— Você bebeu demais, como da última vez. Frey. Vá dormir agora.
Roxana sinalizou para Olivia, que estava parada um pouco mais longe, e pediu que ajudasse a amparar Frey.
— Eu acho que você é a pessoa certa para ficar ao lado do meu irmão. Sim?
— Entendi. Já entendi, agora vá dormir. Olivia, eu ajudo.
— Obrigada.
Roxana, que acariciou suavemente as costas de Frey, ajudou Olivia a levá-la para o quarto.
Somente depois de deitar Frey na cama e trocar suas roupas, Roxana pôde respirar aliviada. Roxana, que arrumou o cabelo de Frey enquanto ela dormia profundamente, chamou Olivia, que estava puxando o cobertor.
— Olivia.
— Sim?
— Alice e Kesi ficaram muito decepcionadas comigo, não ficaram?
— …
Em vez de responder, Olivia baixou o olhar. A sombra de autodepreciação passou pelos lábios de Roxana ao interpretar aquele silêncio como uma confirmação.
— Elas devem se arrepender de ter feito amizade comigo sem saber que eu era esse tipo de mulher.
Embora ninguém pudesse tratá-la mal abertamente, pelas normas sociais, uma “amante” — mesmo que fosse amante do rei — era geralmente alvo de desprezo. Como exemplo, diziam que o Visconde [glossario termo=”Filho ilegítimo do rei, conhecido por seu comportamento dissoluto.”]Derek Otis[/glossario], embora nascido como o filho mais velho do rei, era abertamente desprezado por ser filho de uma amante de baixo status. Tudo o que estava fora da relação matrimonial abençoada por Deus era considerado sujo e vergonhoso.
Claro, nem todos tinham uma visão negativa. Havia aqueles que pensavam que era melhor ser amante de um senhor rico do que esposa de um fazendeiro pobre. Mas Roxana não era como eles.
Ela nunca pensou em se casar com ninguém, mas tornar-se uma amante? E, ainda por cima, ser amante de Curtis era algo que não estava em seu futuro.
As pessoas do castelo faziam uma reverência ao vê-la, mas ninguém falava com ela ou a cumprimentava como antes. Embora ela soubesse que era inevitável, seu coração se partia.
— Eu não sei bem sobre as outras, senhorita. Elas não me dizem essas coisas.
Olivia, que hesitou por um momento diante do rosto triste de Roxana, respondeu cautelosamente.
— É… imagino. Perguntei algo inútil. Desculpe.
— Bem, eu…
Roxana engoliu o nó na garganta e se levantou, mas Olivia reuniu coragem.
— Bem, eu não acho que a senhorita Roxana… não, a senhorita seja uma pessoa má.
— …
— No nosso primeiro encontro, a senhorita se preocupou comigo antes mesmo da senhorita Frey, que era sua mestra. Fiquei tão surpresa e grata naquela época… Uma pessoa assim não pode ser má. É o que eu penso.
As palavras, que começaram hesitantes, tornaram-se firmes à medida que ela continuava. Roxana, que arregalou os olhos de surpresa por um momento, sentiu o nariz arder e sorriu levemente.
— Obrigada, Olivia.
— Sinto muito por não poder ser de grande ajuda…
— Não, isso já foi uma ajuda suficiente.
Não era hora de ficar desanimada. Embora não pudesse sentar-se na mesa principal, ela era, publicamente, a senhora daquele castelo. Ela precisava voltar ao banquete, verificar quanto vinho e comida ainda eram necessários, oferecer o jantar aos artistas e ajudar Robert.
* * *
Roxana, após lavar o rosto, dirigiu-se diretamente ao Grande Salão. Ao se dirigir aos fundos, encontrou duas pessoas logo após descer as escadas. Quando estava prestes a passar por elas, Roxana as chamou apressadamente.
— …Alice, Kesi. Esperem um momento.
As duas, que tentavam passar rapidamente após uma reverência, pararam assustadas com as palavras de Roxana. Roxana falou abertamente para elas, que se viraram.
— Vocês não devem querer olhar para o meu rosto.
— …
— Eu disse que não tinha esse tipo de relação com o Lorde e, no fim, acabei traindo a confiança de vocês. Deve ser ruim até lembrar que um dia fomos amigas. Eu entendo. Eu só…
A embriaguez estimulou sua coragem. Roxana continuou a falar, encarando diretamente os dois pares de olhos que a observavam em silêncio.
— Se vocês se sentiram traídas, eu queria dizer que sinto muito. Não vou mais falar com vocês ou cumprimentá-las primeiro. Sinto muito por tê-las deixado desconfortáveis.
Quando Roxana terminou de falar e tentou seguir seu caminho, Alice, que a observava com uma expressão indecifrável, segurou seu braço.
— Roxana!
Roxana, surpresa, arregalou os olhos. As duas, após trocarem olhares, gritaram quase ao mesmo tempo:
— Desculpe, Roxana!
— …Hã?
Era uma situação inesperada.
— Desculpe. Não é porque passamos a te odiar ou te desprezar. Claro que ficamos surpresas, mas…
As duas, que soltaram o abraço, falaram apressadamente:
— Sabíamos que havia algo entre você e o Lorde. Mas ficamos magoadas por você não ter nos contado até o fim, e por isso, sem querer…
— Não nos importa se você é uma criada ou a amante do Lorde a quem servimos. Gostamos de você pelo que você é, não pelo seu status. Estávamos divididas entre a mágoa e a dúvida sobre como te tratar, por isso te evitamos. Se você se sentiu ferida… desculpe.
À medida que as palavras de Alice e Kesi continuavam, os olhos de Roxana ficavam cada vez mais vermelhos. Ao mesmo tempo, os nós em seu peito começaram a se desfazer um a um. Foi bom ter tido a coragem de abrir o coração primeiro. As duas ainda eram suas amigas.
Comentários