Frey foi levada para seu quarto nos braços de Robert. Assim que os dois deixaram o local, restaram apenas a filha do inimigo e o homem que se vingou dele.
Talvez por ter cavalgado sem descanso assim que os assuntos no território do sul foram concluídos, uma exaustão profunda, como uma paralisia, invadiu o corpo de Curtis. Quando ele indicou um lugar no sofá, Roxana sentou-se à sua frente, quieta, como se esperasse que ele falasse. Após um silêncio sufocante, Curtis só abriu a boca quando a criada trouxe uma bebida forte.
“Ouvi o relato geral de Robert.”
“…….”
Roxana apertou a barra de seu vestido, aguardando as próximas palavras. Como alguém sedento, Curtis virou a garrafa de bebida. Seu pomo de adão moveu-se sob o pescoço inclinado.
“Primeiro.”
O homem que pousou a garrafa exibia um rosto calmo e racional, como se nunca tivesse sacado uma espada ou se exaltado momentos antes. O olhar de Roxana desviou-se para os cantos escuros de seus olhos e para o queixo, onde uma barba rala começava a despontar.
Ele era alguém livre e indomável, como um caçador cruel das montanhas. Difícil de acreditar que fosse um jovem senhor de um vasto território. No entanto, em sua mandíbula afiada, nos lábios cerrados com teimosia, na ponte nasal reta como uma cordilheira e nos olhos amendoados, sentia-se a dignidade e a opressão de um governante.
Dois anos não era um tempo longo, mas também não era curto. Muitas coisas mudaram, mas o reencontro com aquele homem, gravado intensamente em sua memória, ainda parecia vívido.
Roxana, sem perceber, buscou no rosto do homem os traços do antigo rapaz. O olhar brincalhão. A personalidade travessa, porém gentil. O coração que oscilava sem parar, ora querendo se afastar, ora querendo encurtar a distância de uma só vez.
“Como prometido, enviarei médicos e suprimentos assim que o dia clarear. Não pelo caminho original, que sofreu o deslizamento, mas por um atalho.”
Tendo organizado seus pensamentos, Curtis entrou no assunto principal. À medida que ele falava, a expressão de Roxana iluminava-se. Ele ainda guardava bondade dentro de si. Contudo, o alívio durou pouco.
“Obrigada,”
“Porém, Roxana. Você não pode voltar.”
Cortando as palavras de Roxana de forma impiedosa, Curtis inclinou-se e massageou as têmporas com força. Seus cabelos desgrenhados caíram sobre a testa.
“O que quer dizer com isso?”
Diante daquela sentença de morte, Roxana prendeu a respiração. Apoio era uma coisa, juramento era outra. Ela fora ingênua demais. Agora, não podia mais retornar ao Convento Angela. Não poderia cumprir a promessa de voltar em segurança.
“É o preço pelo apoio?”
“Não se engane. Proteger os habitantes do território é meu dever como senhor.”
“Então!”
“Você se lembra da promessa que fez comigo há dois anos.”
“……Eu me lembro.”
“Em troca de aceitar todos os habitantes de Pewi e as pessoas do castelo como cidadãos livres, Roxana Dalton viverá como se estivesse morta no convento pelo resto da vida.”
Curtis, mantendo as costas eretas, encarou Roxana fixamente em vez de continuar. Sob aquele olhar que aguardava uma resposta, Roxana abriu os lábios.
“As pessoas que salvei desta vez são os habitantes do Condado.”
“E daí?”
“Então, deixe os habitantes de Pewi em paz. Eles não são mais habitantes do território de Pewi, são o seu povo.”
“Ainda tão altiva e arrogante, Roxana. Mesmo sem ter absolutamente nada.”
“Estou lhe pedindo de pessoa para pessoa. Eles não têm culpa de nada. São pessoas simples e sinceras que não desejam nada além de trabalhar duro dia após dia e viver felizes com suas famílias.”
Ao observar a mulher que endireitava os ombros antes encolhidos, Curtis sentiu uma sensação que o atingira há muito tempo roçar seu peito.
“Curtis. Espero que você seja um tritão, como na primeira impressão.”
“Por quê?”
“Quero que me leve para o castelo no fundo do mar. Para um lugar que não seja este.”
“Mesmo que nunca mais possa voltar à terra firme?”
“Sim. Eu gosto de você, Curtis. Acho que isso é amor.”
Era uma sensação estranha, como se uma lâmina suave cortasse seu coração finamente. Algo que o devorava como um ataque surpresa.
Uma sensação há muito esquecida. A mesma que sentira no momento em que cruzou o olhar pela primeira vez com a mulher que, entre cinzas sufocantes, implorava com dignidade pela segurança das pessoas do castelo e pela vida dos habitantes, mais do que pela própria vida.
De repente, sobrepôs-se a imagem de seu eu mais jovem, que, segurando a mão da irmã mais nova e usando a vida de um servo parecido com ele como escudo, não conseguia fazer nada além de sobreviver. Embora ambos fossem impotentes e sem força, Roxana era diferente.
No momento em que se concentrou na sensação desconhecida, um grito desesperado ecoou em sua mente, como se alguém tivesse golpeado a nuca.
“Fuja! Curtis! Agora!”
“Você deve sobreviver. Cuide de Frey.”
Ao mesmo tempo, sua mente clareou, como se despertasse de um abismo profundo.
A mulher à sua frente era a filha do inimigo. A única filha do Marquês Dalton, que ele mataria e cujo corpo jogaria no campo sem remorso. Curtis não podia mais suportar aquela sensação estranha e bizarra.
“Não posso voltar? Entendido. Mate-me. Mas isso é um problema entre você e eu. Não faça daquelas pessoas reféns.”
O rosto firme de Roxana rachou. Sentindo uma satisfação vil, Curtis levantou-se bruscamente. Com o rosto aproximando-se num instante, Roxana teve o queixo agarrado antes que pudesse desviar.
“Roxana.”
Um hálito quente fez cócegas em seu rosto. Sua cabeça foi jogada para trás. Roxana encarou os olhos cinzentos que brilhavam de forma estranha. Ela deveria se afastar, mas, como se estivesse presa em uma armadilha, não conseguia se mover diante daquele olhar fixo.
Nariz com nariz, o hálito quente tocou sua testa tensa, suas bochechas e seus lábios. A mão que segurava seu queixo desceu lentamente, roçou atrás de sua orelha e agarrou a nuca dela.
O hálito quente tocou seu pescoço e, então, uma dor como se estivesse em chamas a atingiu.
“Ah!”
Roxana, que empurrou Curtis devido à dor, levou a mão ao pescoço por reflexo. Sentiu a marca de dentes profunda. Com um rosto de fera que marcara sua presa, Curtis lambeu os próprios lábios com a língua.
“I-isso, o que é?”
“Uma coleira. Esse rosto agora é muito melhor do que aquele que falava fingindo ser altiva.”
Curtis, que riu franzindo o nariz, voltou para seu assento. Roxana, com o rosto vermelho, esfregou a palma da mão para apagar a marca de dentes. No entanto, quanto mais esfregava, mais a dor latejante se aprofundava, sem desaparecer.
Observando aquilo com desaprovação, Curtis lançou uma pergunta.
“Quer que eu te conte por que Frey ficou cega?”
Diante da pergunta repentina, Roxana parou as mãos em vez de responder.
“Ela viu a morte dos pais diante dos olhos. Por causa desse choque, ela ficou cega e ainda não se recuperou. Isso aconteceu quando ela tinha cinco anos.”
“…….”
“Se eu tivesse mantido aquela maldita cavalaria até hoje, minha irmã cega teria sido vendida para um bordel frequentado por pervertidos, e eu já estaria enterrado em algum campo de batalha, restando apenas meus ossos.”
À medida que ele falava, o rosto de Roxana empalidecia cada vez mais. Curtis, afundado no encosto do sofá, cruzou as pernas longas e colocou as mãos entrelaçadas sobre os joelhos.
“Eu disse, não disse? Roxana. Você não tem o direito de morrer como bem entender.”
“…….”
“E ainda assim, tem a audácia de pedir para morrer? Quem você pensa que é?”
“Curtis.”
“Absurdo. Você deve morrer quando eu quiser, da maneira que eu quiser.”
Como correntes, cada palavra dele envolvia Roxana firmemente. A marca de dentes vividamente deixada em seu pescoço latejava ainda mais, como se provasse isso.
“Isso significa.”
“Eu acabei de dizer. Você não pode voltar ao convento. Torne-se uma criada deste castelo. Vou mantê-la por perto e atormentá-la.”
Dois anos atrás parecia nítido. Depois de jogá-la no convento, ele pensou que bastaria ouvir a notícia de que ela morrera algum dia. No entanto, como um espinho sob a unha, a imagem dela entrando no convento de forma desolada, sempre que ele tentava esquecer, vinha à mente. Ele não suportou e foi visitá-la uma vez. Ficou surpreso ao tocar seu rosto, mas, ao ouvir o motivo, sentiu-se confuso e furioso ao mesmo tempo.
Ele queria ver a face feia desta mulher, nem que fosse uma vez, apenas uma vez. Se isso acontecesse, ele poderia esquecer a garota em suas memórias de uma vez por todas.
“Você sabe. Você não pode ser feliz, Roxana.”
“Espero que você seja feliz.”
A voz sussurrada sobrepôs-se à voz anterior. Curtis levantou-se e saiu da sala de recepção. Para Roxana, deixada sozinha, não havia escolha. Nem antes, nem agora.
* * *
Como prometido, Curtis forneceu todos os recursos necessários ao convento. Com a adição de médicos competentes, o cuidado dedicado das freiras e medicamentos preciosos, pouco tempo depois, o estado das crianças começou a apresentar melhoras.
As crianças, que sofriam com febres altas a ponto de quase perderem o fôlego, foram gradualmente se recuperando, e os moradores da vila, que olhavam com desconfiança, também se acalmaram e tornaram-se dóceis. Assim que a última criança se curou, Roxana obteve o pedido de desculpas e a retratação do homem que havia proferido palavras imprudentes contra a madre superiora.
“Eu cometi um erro. Des-desculpe-me.”
O homem, segurando o chapéu e curvando a cabeça, pediu desculpas várias vezes. Roxana olhou para a madre superiora em vez de responder. A madre superiora sorriu e segurou a mão do homem.
“Está tudo bem. Que pai estaria em seu juízo perfeito com os filhos doentes?”
“Obrigado. Muito obrigado…….”
“Você sofreu muito. Como não pôde fazer refeições adequadas por algum tempo, quando voltar para casa, faça com que eles se alimentem por alguns dias com mingau de aveia ralo e pão macio.”
“Sim. Obrigado. Obrigado, irmã.”
Depois que os moradores da vila, comovidos pelo perdão e conforto calorosos, voltaram segurando as mãos de seus filhos, Roxana finalmente avistou o homem que a observava de longe. Ele estava encostado de lado sob um abeto nu, com os braços cruzados.
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