“Eu ouvi o que as pessoas diziam quando nem você nem seu irmão estavam por perto. Diziam que eu sou digna de pena. E que seu irmão é um coitado.”
“Por que a senhorita seria digna de pena? E por que o Lorde seria um coitado?”
“Ora, por causa disso!”
Irritada com Roxana, que continuava fingindo não entender, Frey levantou-se de um salto.
“Por que seria? Qualquer um que não seja um tolo sabe a resposta.”
“…….”
“Eu insisti para que meu irmão me trouxesse aqui não apenas pelo que você disse, mas por curiosidade e teimosia. Afinal, sou a joia preciosa da nobre família do Marquês da Fronteira Russell. Mesmo que eu seja cega, não queria abrir mão do que deveria ser meu por direito. Mas…”
“Senhorita.”
“Aquelas pessoas diziam que o Marquês continua solteiro apenas para cuidar de uma irmã cega. Uma irmã que não pode se casar, não traz benefícios à família e apenas consome os recursos…”
A voz de Frey falhou e ela parou para recuperar o fôlego. Roxana levantou-se logo atrás dela. Frey, com o rosto corado, apertou o peito esquerdo.
“Quer saber um segredo, Roxana?”
“……O que é?”
“Na verdade, há um grande buraco no meu peito. Não é visível… então eu vivo ignorando-o, mas agora sinto como se um vento frio entrasse e saísse por esse buraco.”
Era a primeira vez que ouvia aquilo. Frey era uma garota arisca e arrogante, mas que possuía um lado adorável. Embora parecesse ter se aberto um pouco mais com ela do que com os outros, nunca havia compartilhado algo tão profundo. Roxana, em silêncio, segurou os ombros da garota e a sentou no banco. Frey, que se deixou levar sem resistência, perguntou com desânimo:
“Você também disse que não tem pais, não é?”
“Sim.”
“Mas você ainda se lembra do rosto deles?”
“……Sim.”
“Eu nem isso consigo. Eles morreram quando eu era muito pequena. E agora não há como vê-los novamente.”
Era a verdade. Independentemente da cegueira de Frey, quando a família foi exterminada, o castelo foi completamente consumido pelas chamas, e até mesmo os anuários e retratos da família Russell foram destruídos. Não restara nenhum retrato dos antigos Marqueses.
Roxana mordeu o lábio inferior silenciosamente. Lembrou-se de algo que Curtis dissera um dia.
“Vi a morte dos meus pais diante dos meus olhos. O choque a deixou cega e ela nunca se recuperou. Ela tinha cinco anos na época.”
Quando a família Russell foi dizimada, os irmãos eram crianças. Curtis tinha treze anos. Frey, apenas cinco.
Era difícil imaginar a dor e o choque que uma criança tão pequena deve ter sofrido a ponto de perder a visão. Provavelmente, o buraco no peito de Frey começou ali. E ela tinha responsabilidade sobre isso.
“Sabe de uma coisa? Todas as crianças se parecem com seus pais. Mesmo que não sejam idênticas, pelo menos os olhos, o nariz ou a boca costumam ser herdados.”
“……Sério?”
Interessada pela observação inesperada, Frey mostrou curiosidade. Roxana sorriu suavemente e abraçou os ombros dela.
“Com certeza. Comigo é assim.”
Roxana olhou para os cabelos cor de ébano e continuou:
“Por exemplo, o cabelo da senhorita é de um preto muito bonito. Seus olhos são negros como obsidiana. E…”
“E?”
“O cabelo do seu irmão, Curtis, também é desse mesmo tom de preto. E os olhos dele…”
Roxana parou de falar por um momento. De repente, lembrou-se da primeira vez que viu os olhos dele. Era uma imagem que, nos últimos dez anos, aparecia frequentemente em seus sonhos. Os olhos cinzentos que se aproximavam dela no meio de um mar azul-escuro.
“Os olhos dele?”
“……São de um cinza misterioso. Às vezes parecem bem escuros por dentro, mas, sob a luz do sol, tornam-se uma cor linda e multifacetada.”
“Entendo. É verdade. Era assim mesmo.”
Frey, rememorando a lembrança em silêncio, sorriu levemente.
“Acredito que os olhos da sua mãe e do seu pai fossem da mesma cor.”
Não era uma suposição, era um fato. Roxana vira os antigos Marqueses Russell. Eram um casal de beleza estonteante, como se tivessem saído de uma pintura. Os irmãos Curtis e Frey eram a imagem viva deles.
“Sim… consigo imaginar.”
Com os olhos marejados, Frey assentiu. Roxana segurou a mão dela com firmeza.
“Senhorita. Não é porque não pode ver que não pode enxergar tudo. Não é porque não tem memórias que não foi amada.”
“…….”
“Existem pessoas no mundo que, mesmo enxergando, não veem nada, e pessoas que, mesmo sendo amadas, não percebem. É o caso daquelas pessoas que falam sem saber que a senhorita é digna de pena ou que seu irmão é um coitado.”
Sua voz embargou. A pessoa que, mesmo enxergando, não via nada e, mesmo sendo amada, não percebia, era ela mesma. Se ao menos tivesse percebido os sinais antes de seu pai destruir a família Russell. Se tivesse dado um aviso a Curtis. Também se arrependia de não ter confiado no amor das freiras no convento. Ela pensava que era apenas a filha de um pecador, indigna de amor, e que deveria estar sozinha para sempre.
“Portanto, senhorita, não fique triste por não conseguir visualizar o rosto de seus pais. A senhorita pode imaginá-los. E mais uma coisa.”
Roxana, que ajeitou o cabelo desgrenhado de Frey, continuou:
“A senhorita sempre foi amada. E continua sendo. Seu irmão, Curtis, a ama. E eu também a amo.”
“……De?”
Frey, que ouvia Roxana atentamente, murmurou algo baixo. Roxana, que não ouviu bem, piscou os olhos.
“O que disse?”
“……Mesmo eu sendo má?”
“Mesmo sendo má.”
“Não é verdade. Ninguém vai gostar de mim. Sou um estorvo e faço tudo do meu jeito. Meu irmão, as criadas, os servos… todos me odeiam.”
Era uma queixa adorável. Roxana sorriu para Frey, que exibia uma expressão amuado, e respondeu de bom grado:
“Não é assim. Pelo menos duas pessoas amam a senhorita.”
“Você não vai dizer que as outras pessoas não pensam assim?”
Roxana soltou uma risada baixa diante do tom manhoso, levantou-se e ajoelhou-se diante dela. Era a mesma postura que adotara quando Frey derrubou o café da manhã de uma criança pequena. Roxana segurou as duas mãos de Frey e disse:
“Não conheço o coração dos outros. Não posso entrar nele e sair. Mas isso é importante? É impossível que todas as pessoas gostem da senhorita. Isso vale para qualquer um.”
“Você é fria. É gentil e carinhosa, mas às vezes é realmente cortante como uma lâmina.”
“A senhorita não é um bebê nem uma criança pequena. Como a própria senhorita disse.”
Foram as palavras que Frey dissera ao irmão quando pediu para ser trazida ali. Sem argumentos, Frey mudou de assunto discretamente.
“……Tudo bem que meu irmão me ame porque sou sua única irmã, mas por que você me ama? Eu nem fui legal com você.”
Desta vez, quem ficou sem palavras foi Roxana. Seus lábios tremeram levemente.
Por que a amava?
Embora agora pensasse que Frey era realmente adorável e fofa, o início daquele sentimento fora culpa, responsabilidade e egoísmo. Ela certamente tinha responsabilidade pela situação da garota. Se não fosse por seu pai, a família Russell não teria sido exterminada, e Frey não teria perdido a visão.
Por isso, jurou tornar-se os olhos e os pés dela como forma de expiação. Pensou que, ao ver o rosto feliz de Frey, sua culpa diminuiria um pouco. Que motivo egoísta.
“Não sei.”
Após um longo silêncio, Roxana respondeu de forma vaga.
“Não sabe?”
Frey franziu a testa diante da resposta insatisfatória. Roxana segurou com firmeza a mão que a outra tentava soltar e sussurrou:
“Mas, senhorita. Isto é um fato. Amar apenas quando alguém se comporta bem não é amor. Amar apenas sob certas condições também não é amor.”
“…….”
“O amor verdadeiro é amar ‘apesar de tudo’. Se a pessoa tem falhas, amar até mesmo essas falhas e rezar por ela. Assim como o seu nome, ‘Frey’.”
Frey, que ficou atordoada com a resposta serena, começou a soluçar pouco depois, com os ombros tremendo.
Roxana acariciou as costas de Frey em silêncio. Amar Frey. Estar ao lado dela e ser seus olhos. Essa era a forma de expiação que ela havia escolhido.
O olhar que observava as duas de longe afastou-se silenciosamente.
* * *
Depois de chorar bastante, Frey acabou caindo em um sono profundo devido à embriaguez. No fim, Curtis teve que carregar Frey nas costas até a carruagem. Mesmo dormindo, ela não queria se separar de Roxana, então Roxana acabou servindo de travesseiro para ela.
Curtis, que tirou o casaco para cobrir Frey como se fosse um cobertor, permaneceu em silêncio durante todo o trajeto. Parecia estar imerso em pensamentos profundos ou preocupado com algo.
Roxana observava a reação dele enquanto acariciava o cabelo de Frey. Como um bebê que se agarra à mãe, Frey segurava a cintura de Roxana com força, sem soltá-la.
“Você saiu com um jovem rapaz.”
No meio do silêncio da viagem, Curtis abriu a boca de repente.
“……Sim.”
Ela não o seduzira para sair. Ele vira que ela saíra com o rapaz, apesar de ter sido sarcástico antes. Roxana baixou o olhar.
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