“O que você está fazendo!”
Tup.
Antes que pudesse estender o braço para impedi-la, o objeto caiu no chão. O olhar do guarda desceu e subiu lentamente. O que Roxana havia cortado com a adaga eram seus longos e belos cabelos ruivos.
“Isso é… o que…”
Neste país, o cabelo de uma mulher era um valor mais importante do que qualquer outra coisa. Independentemente da classe social, manter o comprimento até a cintura era uma regra tácita; mesmo que fosse uma freira, cortar o cabelo durante um ritual era uma coisa, mas cortá-lo de qualquer jeito no meio da rua era algo inaudito. O cabelo cortado de forma irregular acima dos ombros era um choque proporcional.
“O, o que, que diabos você…”
Diante do guarda, que gaguejava de choque, Roxana pediu novamente, de forma educada.
“É uma emergência. Por favor, abra o portão. Eu lhe imploro.”
Olhos sem um pingo de mentira. Apesar do corpo frágil e do rosto delicado, havia um espírito inegável alojado naqueles olhos. O guarda, que estava atordoado e apenas piscava, acabou levantando a bandeira branca.
“…Entendido. Espere um pouco. Vou enviar alguém para a cidadela interna.”
O guarda, que se ausentou por um momento, logo retornou. Ele estava acompanhado por um cavaleiro montado.
Roxana reconheceu o rosto dele instantaneamente. Era Greg, o braço direito de Curtis, que havia encurralado seu pai, o Marquês Dalton, até o topo da torre. Era um homem impressionante, com o cabelo cortado curto como o de um monge e um porte físico grande como uma rocha. Ele também acompanhou Curtis quando ela foi transferida para o convento.
“Por que você está aqui?”
Greg, que a reconheceu da mesma forma, contorceu a expressão. Como era uma reação esperada, Roxana respondeu calmamente.
“É uma emergência.”
Os olhos, que primeiro foram tingidos de perplexidade e depois de raiva, pousaram lentamente nos cabelos cortados de forma grotesca. Tendo acalmado suas emoções, Greg desceu calmamente da sela.
“Suba atrás de mim. A cidadela interna é um pouco longe daqui.”
Assim que Roxana assentiu e subiu com ajuda, Greg se posicionou atrás dela. Ao manejar as rédeas, o cavalo disparou pela estrada pavimentada. Ao passar pela zona do feudo, ela viu o fosso e a ponte levadiça ao longe. Embora estivesse escuro por toda parte, as altas torres que se erguiam além das muralhas da cidadela interna podiam ser vistas em vários lugares. Greg zombou de Roxana, que por um momento esqueceu a situação e ficou fascinada com a vista.
“Está impressionada? Isso também foi muito destruído há mais de dez anos.”
“Entendo…”
“O Conde foi reconhecido por Sua Majestade, restaurou seus direitos e reconstruiu este castelo. Pode-se dizer que setenta por cento dele foi recuperado.”
Talvez achando que falou demais, Greg fechou a boca após essas palavras. Ao passar pelo portão da cidadela interna, havia alguém esperando por ela. Era um velho, vestido impecavelmente e com uma postura ereta. Assim que ela desceu do cavalo, ele se aproximou.
“Seja bem-vinda. Fez uma longa viagem.”
“Ah… obrigada por me receber. Com licença, poderia me dizer quem é?”
“Sou Robert Karl. Sou o mordomo deste castelo.”
Robert, que se apresentou suavemente, em seguida direcionou o olhar para o cabelo dela.
“Ouvi sobre a grosseria do guarda. Sinto muito. É que os tempos são difíceis.”
“Não precisa se dar ao trabalho de ser cortês.”
Greg, que se intrometeu, olhou friamente para Roxana. Ao receber aquele olhar, Roxana leu o aviso. Era um olhar que dizia que, se fosse uma conversa trivial, ele não a deixaria passar.
“Se ela fizer qualquer bobagem, avise-me imediatamente.”
“Não há necessidade de dizer algo assim. Haha.”
Ela engoliu um sorriso amargo. Esse nível de tratamento frio era esperado. Na verdade, o mordomo Robert, que a recebeu calorosamente, era quem a surpreendia.
“Ouvi dizer que veio por um assunto urgente. Por favor, entre.”
Robert, que dispensou Greg, guiou Roxana para dentro do castelo. Passando pelo saguão de entrada, grandioso e imenso, típico de castelos antigos, seguiu-se um espaço que, embora não fosse luxuoso, era antigo e elegante. Um sofá macio forrado com couro de búfalo, uma mesa de chá feita de jacarandá, a borda da lareira esculpida em marfim e a tapeçaria vermelha pendurada acima dela. Era uma elegância de um nível diferente do Castelo do Marquês Dalton, que estava ocupado exibindo riqueza ao trazer até mesmo itens de luxo estrangeiros raros.
Roxana explicou brevemente as circunstâncias que a levaram até ali. Felizmente, Robert, que ouviu a história seriamente, assentiu.
“Ora… febre? Isso é realmente grave. O Conde deixou o castelo há duas semanas porque houve uma inundação no feudo do sul.”
“Cada segundo é precioso. De alguma forma…”
Diante da notícia inesperada, a boca de Roxana secou.
“Como já está tarde hoje, enviaremos um médico e suprimentos médicos assim que o sol nascer amanhã. O Conde também ordenou que não poupássemos apoio necessário ao Convento Angela.”
“Ah! Obrigada. Muito obrigada…”
Roxana, que suspirou de alívio com a confirmação, curvou-se repetidamente para agradecer. Quando toda a tensão se dissipou, seu corpo vacilou. Robert, que percebeu suas mãos tremendo, embora ela tentasse agir com naturalidade, respondeu como se a consolasse.
“Não é a mim que deve agradecer. Estou apenas cumprindo as palavras deixadas pelo Conde.”
“Ah.”
Os suprimentos médicos e itens de primeira necessidade que chegavam ao convento de vez em quando vinham, de fato, deste castelo. Embora fosse um local subordinado ao feudo, ela se perguntava como ele tinha uma ligação tão profunda com o Convento Angela. Enquanto Roxana estava imersa na dúvida que lhe surgiu de repente, Robert sugeriu.
“Que tal ver o Conde antes de ir? Por acaso, amanhã por volta do almoço…”
“Não.”
Roxana, que despertou, balançou a cabeça.
“Sei que não é educado, mas quero voltar ao convento o mais rápido possível. Partirei junto amanhã mesmo.”
“Entendo. Compreendido.”
A conversa fluiu como água. Chamaram o médico, explicaram os sintomas da doença e organizaram os medicamentos que precisavam levar.
Quando o relógio de pêndulo anunciou a meia-noite, Robert levantou-se e encerrou a conversa naturalmente.
“Já é meia-noite. Como está tarde, chamarei uma criada para guiá-la ao seu quarto.”
“Sim, obrigada.”
Foi no momento em que Roxana, que agradeceu sinceramente, levantou-se logo atrás.
Clang.
“Aaaah!”
De algum lugar, o som de algo sólido quebrando no chão ecoou, seguido por um grito agudo de mulher.
Em um instante, a sala de estar congelou. Antes mesmo que pudessem entender a situação, alguém abriu a porta com força, acompanhado pelo som de passos apressados.
“Mordomo! Agora mesmo!”
Era uma criada, com o rosto pálido de terror. Era certo que algo havia acontecido. Robert, que engoliu um gemido, levou a mão à testa.
“Estava tudo tão calmo e tinha que ser logo hoje… Já vou. Primeiro, tranque a porta. Para que ninguém possa sair.”
“O que está acontecendo?”
Parecia que algo sério havia ocorrido. Robert, que virou levemente o rosto para Roxana, que perguntava cautelosamente, respondeu com firmeza.
“Não é nada.”
“…”
“Guie a irmã ao quarto de hóspedes.”
Ele fez um sinal para a criada que entrou e saiu apressadamente da sala de estar. O som de vários passos ecoou simultaneamente dentro do castelo, que antes estava silencioso. Era óbvio que algo havia acontecido, mas ela não podia se intrometer. Afinal, se sua identidade fosse revelada, ela estaria em uma situação tão frágil quanto uma vela diante do vento. Roxana tentou ignorar.
“Então, descanse bem. Virei acordá-la quando for partir amanhã.”
“Sim, obrigada.”
O quarto onde chegou, guiada pela criada, era aconchegante e acolhedor. A cama era macia o suficiente para acalmar a ansiedade de pouco tempo atrás.
Assim que a porta se fechou, Roxana tirou o manto desconfortável e pendurou-o no cabide. Como ela vivia praticamente como uma sem-teto há dias, seu corpo estava exausto da jornada. Foi quando ela estava prestes a arrastar seu corpo pesado e deitar-se na cama.
Alguém bateu na porta.
“Socorro! Por favor, abra a porta!”
Era uma voz urgente, como se estivesse perdendo o fôlego. Assim que Roxana, assustada, abriu a porta, uma garota se lançou sobre ela. Antes que pudesse gritar, Roxana foi empurrada e caiu para trás. A dor atingiu seu corpo ao bater no chão. Quando ela abriu os olhos, que fechara por reflexo, sentiu uma pressão pesada. E também cabelos negros espalhados como algas marinhas sobre seu peito.
“…Pessoa?”
Era uma garota jovem, que parecia ter uns quatorze ou quinze anos. O que se lançou como um animal selvagem tinha cabelos desgrenhados e pés cheios de feridas, como se tivesse pisado em cacos de vidro. O rosto era estranhamente familiar.
Roxana, perplexa, empurrou a garota. No entanto, quanto mais ela a empurrava, mais a garota a segurava com uma força brutal.
“Q, quem é você?”
“Quem é você?”
“Eu…”
Roxana abriu os lábios, mas ouviu alguém gritando de repente do lado de fora da porta aberta.
“Parece que ela foi por ali!”
“Esconda-me. Eles querem me matar.”
A garota, que se levantou rapidamente, fechou a porta com cuidado e tateou a parede. Então, bateu a cabeça no guarda-roupa. Mesmo que estivesse escuro, a luz da lua entrava, permitindo identificar os objetos.
Ela não consegue enxergar? Roxana, que observava intrigada, aproximou-se da garota. Sua testa estava coberta de suor frio e seus lábios estavam pálidos. Independentemente da situação, ela estava aterrorizada. A garota agarrou a gola de Roxana.
“Eles vão me levar para a forca. Eu não quero morrer!”
“Ouvi um barulho naquele quarto!”
Passos de várias pessoas se aproximando foram ouvidos. Não havia tempo. Roxana tomou uma decisão.
“Então, esconda-se aqui.”
Independentemente do que fosse, ela não podia ignorar uma garota tremendo de medo. Assim que abriu a porta do guarda-roupa, a garota se escondeu agilmente lá dentro. Ao mesmo tempo, as criadas bateram na porta.
“Irmã? Podemos entrar?”
“O que houve?”
Roxana, que fechou a porta do guarda-roupa sem fazer barulho, abriu a porta do quarto. A criada espiou lá dentro.
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