“Ele é apenas uma criança e parecia entediado, então brinquei com ele. Não sabia de qual família ele era o jovem mestre.”
Pensando bem, ela nem sequer perguntou o nome. Curtis, afundado profundamente no encosto da poltrona, fechou os olhos lentamente.
“É o Jovem Mestre Theo. O herdeiro do Ducado de Anatol.”
“Ah….”
Roxana abriu a boca, atônita. Com razão, sua postura confiante e aquela aura incomum denunciavam que ele era filho de uma linhagem nobre. No entanto, ela jamais imaginou que fosse alguém de tão alto escalão.
“Se por acaso eu fui indelicada…”
“Pelo contrário, Roxana.”
Curtis interrompeu a fala dela e abriu os olhos.
“Ele disse que gostou muito de você e que gostaria de vê-la novamente antes de partir.”
Sua expressão parecia oscilar entre a irritação e o puro cansaço. Chamas dançavam em suas íris cinzentas. Era novamente aquele olhar. Um olhar que parecia prestes a incendiar tudo, envolvendo-a e consumindo-a por completo. Roxana engoliu em seco, tomada pela tensão.
“Isso não é possível. Minha identidade e meu passado não podem ser revelados. Não há como recusar?”
“Roxana.”
Curtis, que antes estava recostado, endireitou o tronco e estendeu a mão. A peruca loira e longa foi removida, revelando os cabelos ruivos que chegavam aos ombros. Foi tudo em um instante.
Segurando o queixo dela com firmeza, como se dissesse para não pensar em fugir, Curtis perguntou em voz baixa:
“Você sabe quem é o tio do Jovem Mestre Theo?”
“O quê?”
“Eu perguntei se você sabe quem é.”
Um hálito quente passou pela curva de sua orelha e aqueceu seu pescoço. O contorno afiado dos olhos, a ponte nasal altiva e os lábios teimosos estavam tão próximos que pareciam prestes a se tocar. Era o olhar de uma ave de rapina diante de sua presa. A mão que segurava seu queixo desceu. Zombando da pulsação acelerada em seu pescoço, Curtis aproximou o rosto ainda mais. Quando seus narizes se tocaram, Roxana fez um esforço desesperado para empurrá-lo.
“…Não. Eu não sei.”
Embora ela tenha negado, a força da mão dele não diminuiu. Roxana permaneceu imóvel, encarando os olhos do homem que parecia pronto para devorá-la.
“É alguém que você conhece.”
“…….”
“Enoch Ferentz. Seu…”
Curtis calou-se por um momento antes de completar, como se estivesse mastigando as palavras.
“Seu ex-noivo.”
As pupilas de Roxana tremeram sem rumo. Ele retirou a mão e deu o veredito.
“Daqui a dez dias, fomos convidados para a casa de campo dele.”
“Você recusou, é claro?”
“Não. Até que o Jovem Mestre Theo retorne ao seu país, você terá que viver como Melanie Dalton, minha prima.”
Inacreditável. Não fazia sentido. Ele aceitou? Roxana balançou a cabeça involuntariamente.
“Não havia como recusar? Ou será que…”
“Você quer dizer se eu não recusei de propósito?”
Foi uma pergunta afiada. Curtis interrompeu Roxana com um sorriso de canto.
“Isso é algo que você deve julgar. Como sabe, sou muito inconstante, Roxana.”
O encontro com o Duque ocorreu enquanto Frey e Roxana estavam a caminho de encontrar alguém, logo após saírem.
“Há quanto tempo, Marquês da Fronteira.”
Quem falou foi um homem que parecia a própria personificação da palavra nobreza. Cabelos loiro-platinados e olhos azuis profundos, sem qualquer mancha ou defeito. Enoch Ferentz.
Preto e branco. Mal e bem.
Todos comparavam os dois. A razão era que, além de terem a mesma idade, ambos possuíam grande influência apesar da juventude.
Os nobres e cavaleiros que receberam seus títulos recentemente apoiavam Curtis, que era progressista e quebrava vários precedentes. Por outro lado, os nobres tradicionais, que buscavam preservar a legitimidade e os costumes, apoiavam o Duque.
Curtis achava ridículo e desprezível o fato de as duas facções tentarem intencionalmente compará-los e colocá-los em conflito. Como o outro lado parecia pensar o mesmo, os dois nunca haviam se enfrentado diretamente. Na verdade, nem sequer haviam trocado palavras adequadas nas reuniões de nobres.
No entanto, embora não se deixassem levar pelos desejos alheios, para ser franco, eles já eram figuras desconfortáveis um para o outro. Afinal, ele havia exterminado a família da ex-noiva do Duque.
“Entendo. Por qual motivo me abordou?”
Quando ele perguntou o objetivo, descartando qualquer cortesia, o Duque, com a testa levemente franzida, foi direto ao ponto.
“Parece que a parente que veio com você se ausentou por um momento.”
“…Algum assunto pendente?”
“Ouvi dizer que ela brincou com meu sobrinho. Theo deseja convidá-la para a casa de campo de inverno.”
Naquele momento, algo violento surgiu em seu peito. Roxana era dele. Ele a matou uma vez e a salvou uma vez. Se ele a mataria ou salvaria novamente, era uma questão de sua própria vontade. *Você não é a noiva que ele abandonou há muito tempo? Se fosse para salvá-la, deveria ter feito isso há dois anos.* Consciente da expressão rígida de Curtis, o Duque deu um passo atrás.
“Ah, parece ser uma proposta muito repentina. Se não for conveniente, pode recusar.”
“…….”
“Não tenho segundas intenções. Parece que você preza muito por sua parente, Lorde Russell.”
O olhar dele era como o de um guardião superprotetor. Quando Curtis estava prestes a abrir a boca, as palavras de Greg surgiram em sua mente.
“Você não vai, por acaso, tomar a filha da família Dalton como esposa, vai?”
Sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Aquilo não era nada além de possessividade.
Para provar isso a si mesmo, aceitou a proposta por impulso. Quanto à identidade, bastava não ser descoberto. Roxana Dalton era a única falha do Duque, uma falha que não deixaria rastros se fosse bem escondida. Era famoso o fato de ele ter tratado sua noiva com frieza. Certamente, ele não a reconheceria. Na verdade, foi uma aceitação meio imprudente.
“É muito imprudente. E perigoso. Não podemos recusar agora?”
“Por quê?”
“Bem, porque…”
“Dizem que você mal viu o rosto do Duque, era mais do que isso?”
O tom era leve, como se estivesse testando, mas havia algo afiado por trás. Roxana, sobressaltada, balançou a cabeça.
“Não havia nada além disso. É como dizem os rumores. Mas não é esse o problema.”
A expressão rígida dele suavizou-se com a resposta sincera. Curtis, recostando-se novamente, propôs:
“Vamos fazer outra aposta, Roxana?”
“Uma aposta?”
“Se o Duque te reconhecer enquanto estivermos na casa de campo, é minha vitória. Se ele não te reconhecer, você ganha.”
Com um tom tão leve quanto alguém sugerindo uma aposta para o almoço, Roxana baixou o olhar. Mesmo em uma situação grave onde sua vida estava em jogo, o rosto diante dela permanecia indiferente. Ele era um homem que, em um dia, ensinava-a a dançar sob o luar e, no outro, agia com crueldade sem hesitação. Como se estivesse brincando com um rato encurralado.
Talvez tê-la tornado uma criada fosse apenas para mantê-la por perto e vê-la definhar. Roxana engoliu um sorriso amargo e moveu os lábios.
“Já que propôs uma aposta, vou perguntar. O que eu ganho com isso?”
Após um momento de silêncio, como se estivesse pensando, Curtis respondeu:
“Te darei uma semana de folga.”
De qualquer forma, a recusa não era uma opção para ela. Era melhor ganhar algo. Com um brilho nos olhos, Roxana continuou:
“Tudo bem. E se eu perder?”
“…….”
“Será minha vida, novamente?”
“Não.”
Absurdo. Curtis negou antes mesmo de pensar.
“Eu disse, se você fizer exatamente o que eu mandar, sua vida estará garantida.”
“Então o que será?”
O olhar estreitado observava atentamente o rosto tenso dela. Sob uma tensão inexplicável, Roxana ficou paralisada como um sapo diante de uma serpente.
“Ainda não decidi. Quando decidir, eu te direi.”
Era uma aposta unilateral. No entanto, Roxana aceitou em silêncio. Os dados já haviam sido lançados e ela não estava em posição de contestar. Sentia-se completamente dominada por Curtis. Ele a fazia lembrar, a cada passo, que ela era a parte fraca.
* * *
Após participar do banquete, Frey começou a sair do quarto aos poucos e a iniciar suas atividades. Ela ajudava a amassar a farinha na fábrica e até auxiliava na ordenha das vacas no estábulo.
“Oh, senhorita, não precisa fazer isso! Eu farei!”
“Se o Lorde nos vir, estaremos perdidos! Por favor, deixe conosco!”
As criadas, aterrorizadas, arregaçaram as mangas para impedi-la, mas foi em vão. A única pessoa em quem podiam confiar era Roxana, a criada responsável, mas ela, para piorar, incentivava Frey a fazer várias coisas.
“Que tal tentar ordenhar a cabra desta vez? Eu a segurarei firme.”
“Roxana!”
Kesi, pálida, puxou Roxana para fora.
“Você está louca? O que você está fazendo! Se o Lorde nos vir, estaremos arruinadas!”
“Não se preocupe. Ele está muito ocupado agora, e é algo que a senhorita deseja fazer.”
“Não, mesmo assim!”
Roxana sorriu para Kesi, que batia os pés de ansiedade.
“Você não vê a expressão da senhorita agora, Kesi?”
O olhar de Kesi voltou-se para Frey, que ordenhava a vaca com esforço, embora de forma desajeitada. No momento em que percebeu a expressão dela, Kesi abriu a boca em choque.
“Ela está… sorrindo?”
“Ela está muito feliz. Está mais cheia de vida do que quando foi ao banquete.”
Frey acabara de sair de uma longa vida na caverna e estava sob a luz do sol. Roxana sentia-se orgulhosa e comovida pela grande decisão de Frey. Ela queria realizar todos os desejos dela.
“Roxana!”
Frey, com um balde de leite cheio, olhou ao redor.
“Sim!”
Roxana respondeu como se estivesse esperando e, ao retornar para Frey, viu um rosto familiar. Era Olivia, que quase se meteu em problemas ao trabalhar no castelo no lugar de sua irmã, Kesi. Olivia havia sido contratada como criada de serviços gerais graças à bondade de Robert.
Roxana ficou radiante ao ver o rosto que raramente encontrava devido à correria do trabalho.
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