“Não.”
Diante da resposta curta e direta, Roxana baixou o olhar. A mão que segurava seu queixo, forçando-a a encará-lo, hesitou. Após um longo tempo observando o chão, Roxana ergueu a cabeça lentamente.
“Eu te odeio.”
“…….”
“Eu te odeio tanto que não consigo suportar. Por que me salvou na floresta? Deveria ter me deixado morrer para os lobos.”
O ressentimento e a fúria, crus e sem filtros, foram direcionados a Curtis. A mulher que, até então, parecia uma santa nobre e inabalável, expunha suas emoções mais profundas. Curtis não disse nada. Embora tivesse previsto e até esperado por aquelas palavras, sentiu-se como se tivesse sido pego de surpresa, incapaz de mover um único dedo. Ele sabia o motivo: ela não era feia. Nem mesmo naquele momento.
“……Claro, deve ser apenas um capricho. Como sempre.”
Tendo chegado a uma conclusão antes mesmo de ouvir uma resposta, Roxana levantou-se cambaleante. Dominado por uma inquietação inexplicável, Curtis levantou-se e agarrou seus ombros.
“Aonde você vai?”
“Vou embora. Você já se vingou, então não resta mais nada entre nós. Absolutamente nada.”
Nada. A firmeza naquelas palavras fez o fogo arder em seus olhos cinzentos. Sentiu o sangue subir à cabeça. O calor fervia das profundezas de seu peito, a ponto de ele se perguntar se estava perdendo a sanidade.
“E Frey?”
Frey. Ao ouvir o nome que ele tentava evitar pensar, Roxana arregalou os olhos pela primeira vez. Sentindo uma satisfação vil, ele a pressionou.
“Ela mal começou a abrir o coração. Depois de tanto tempo presa naquela caverna, finalmente…”
“Ela é forte. Mais do que você imagina. Ela ficará bem mesmo sem mim.”
“Irresponsável. Digamos que eu não me importe comigo. Mas que culpa a Frey tem? Ela nem sabe quem você é, ela confia e te segue. Como um filhote de pássaro seguindo a mãe.”
A acusação certeira atingiu seu coração como uma adaga. No entanto, a raiva superou o remorso. Desviando o olhar, Roxana falou calmamente.
“É melhor partir enquanto ela ainda não conhece minha verdadeira identidade. Diga que eu fugi.”
Ela parecia uma parede alta e sólida. Enquanto Curtis permanecia sem palavras, Roxana virou as costas e caminhou em direção à porta. No momento em que segurou a maçaneta, uma voz sinistra penetrou seus ouvidos.
“Certo. Fuja. Eu também farei o que tenho que fazer.”
“……O que você quer dizer?”
Roxana virou a cabeça lentamente, questionando-o. Curtis, sentado desleixadamente na poltrona, usou um atiçador para rasgar parte de uma tapeçaria na lareira.
“Não toque nos meus [glossario termo=”Povo que vive em terras sob a jurisdição de um nobre”]jovens mestres[/glossario] e nas pessoas do castelo. Você já prometeu.”
“Já disse várias vezes, não retiro o que digo.”
“Então, não me diga que o [glossario termo=”Local de residência e oração para freiras”]Convento Angela[/glossario]…”
“Não tem graça pressionar duas freiras velhas. E parece que você esqueceu, elas também são meu povo.”
Após verificar a tapeçaria queimada, Curtis a empurrou de volta para a lareira. Era um presente do rei, mas como já estava arruinado, não havia o que fazer. Sentado profundamente na poltrona, ele falou:
“Sua família materna.”
Foi algo que ela jamais imaginou. Em sua memória, surgiu a imagem de uma casa aconchegante.
“Minha avó e meu avô já faleceram há muito tempo.”
“E seu único primo?”
“……O quê?”
As pupilas de Roxana tremeram. Ela tinha um primo materno. Jonathan, filho de sua falecida tia.
“Ele vive bem sob a tutela de um artesão de couro desde pequeno.”
“Parece que vocês não tinham contato algum.”
Curtis estalou a língua e cruzou as pernas longas.
“Disseram que, depois que a [glossario termo=”Família nobre que foi exterminada por Curtis”]Família do Marquês Dalton[/glossario] se envolveu em traição, ele foi expulso por ser considerado um presságio de má sorte.”
“…….”
“Dizem que agora ele vive afogado na bebida, em estado de desespero. Como não tem esposa nem filhos, suponho que não importe.”
Outra culpa apertou sua garganta. O coração dela parecia se despedaçar ao saber da situação do primo, que ela acreditava estar vivendo bem. Após um longo silêncio, Roxana mal conseguiu mover os lábios.
“O que você pode fazer por Jonathan?”
Jonathan, que perdeu os pais cedo, cresceu na casa de seus avós maternos. Quando criança, sempre que ela visitava a casa deles com a mãe, ele a seguia como se fosse seu irmão mais novo.
“Enviarei uma carta para a guilda de artesãos de couro mais influente da capital. Criar um emprego não é uma tarefa difícil.”
Uma tarefa fácil. Aquela tarefa fácil era impossível para ela. Era como se alguém tivesse despejado água fria sobre sua cabeça. Roxana tomou consciência de onde estava. Ela não tinha mais títulos nem status. Seu sobrenome fora arrancado e ela nem podia retornar ao convento, que antes era seu refúgio.
“O que você quer?”
Em vez de responder, Curtis estalou os dedos. Roxana, como se estivesse sendo levada ao matadouro, parou diante dele. Assim que se aproximou, ele agarrou seus cotovelos e a forçou a se ajoelhar no chão.
“Roxana.”
“…….”
“Você mesma.”
Satisfeito com a postura dela, que parecia um cão olhando para o dono, Curtis procurou com os olhos a marca de mordida, agora desaparecida, dentro da gola de seu vestido. Ele encerrou todas as emoções complexas e agitações, chegando a uma conclusão. Desde o primeiro encontro, há mais de dez anos, ela era dele. E isso não tinha nada a ver com vingança.
Aquela mulher deveria estar em seu campo de visão e sob seu domínio. Afinal, foi ele quem salvou a vida dela na infância. Curtis definiu lentamente seus sentimentos. Eles não eram personagens de um conto de fadas, e seus sentimentos não eram algo terno ou nobre. Portanto, de certa forma, era uma história simples.
O arrependimento de um primeiro amor não realizado. O desejo por uma mulher bela.
Não. Talvez fosse apenas um mecanismo de compensação por uma infância destruída. Seja o que fosse, era algo que ele precisava manter em suas mãos.
“Claro, não precisa ser para a vida toda.”
Com o acréscimo, o rosto de Roxana iluminou-se visivelmente. Curtis, com o humor distorcido, continuou com o semblante sombrio.
“Por quê? Já quer escapar?”
Diante da pergunta óbvia, Roxana também olhou fixamente para o homem à sua frente. A luz da lareira crepitante subia pelo maxilar esculpido do homem, tingindo de vermelho seu olhar afiado. De repente, a voz da Madre Superiora ecoou em sua mente.
“O diabo às vezes nos visita assumindo a forma mais fascinante.”
“Então, me ame.”
A voz doce e suave sussurrou. Roxana, momentaneamente chocada com a declaração, deu um sorriso amargo.
Dizer que a descartaria se ela o amasse? Isso significava que ele lhe causaria uma ferida ainda maior. Curtis estava balançando um veneno doce diante dela. Mas, para ela, não era hora de escolher. Se pudesse escapar daquele lugar, até mesmo um veneno amargo seria bem-vindo.
“Digamos que eu o ame. Como você provaria isso?”
Curtis, que ficou em silêncio por um momento diante da reação inesperadamente calma, respondeu:
“Você é quem deve encontrar o método.”
Era algo que ela já tinha ouvido antes. Em uma situação semelhante. Roxana riu com desânimo e balançou a cabeça.
“Nesse caso, é impossível. Porque isso nunca vai acontecer.”
“Não seja tão categórica ainda, Roxana. Pretendo ser muito bom com você daqui para frente.”
Curtis, que acariciou a bochecha de Roxana enquanto afirmava, notificou:
“Vou lhe dar um quarto novo.”
“…….”
“E quando estivermos a sós, pare com as formalidades. Isso esfria o clima.”
“……Você é vulgar.”
“Como se fosse novidade.”
Curtis, que respondeu ao olhar dela com um sorriso, baixou a mão e acariciou seu pescoço. Ele queria marcar novamente a pele dela, criar uma coleira que não pudesse ser apagada. Se não pudesse gravar em seu corpo, gravaria em sua mente. Era o momento em que ele revelava suas presas ocultas.
“Prometa-me uma coisa. Se não prometer, não posso aceitar.”
“O que é?”
“Não espere nada de mim como sua amante. Especialmente… não me force a dormir com você.”
Foi a primeira vez que ela pronunciou aquela palavra crua. Roxana tremeu de vergonha. Curtis soltou uma risada baixa ao ver as bochechas dela ficarem vermelhas, apesar da audácia de suas palavras.
“Nunca forcei uma mulher a dormir comigo. Então, fique tranquila. Isso não acontecerá. A menos que você se jogue sobre mim primeiro.”
A última frase foi um escárnio. Curtis levantou-se, caminhou a passos largos até a porta e girou a maçaneta. Quando estava prestes a sair do quarto, uma voz baixa o deteve.
“Tenho uma última pergunta.”
“O que é?”
Curtis virou o corpo.
“Você realmente está satisfeito com isso?”
Era uma pergunta carregada de significados. As pupilas roxas, como vidro transparente, encaravam-no como se perfurassem seu coração. Curtis mal conseguiu mover os lábios.
“Sim.”
Antes que a resposta pudesse ser processada, ele saiu rapidamente do quarto.
De filha única de um marquês a freira, e agora, amante. Roxana estava sempre sob seu domínio, na forma que ele desejava. Portanto, não havia necessidade de sentir inquietação ou presságios sem motivo. Em breve, a promessa feita a Greg seria cumprida. Depois que o tempo passasse e esse sentimento persistente chegasse ao fim.
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