“Alguém entrou aí?”
“Não. Nada aconteceu. O ambiente está agitado, o que está acontecendo, afinal?”
“Ah… não é nada. Peço perdão por acordá-la.”
Com uma expressão confusa, a criada gaguejou e inclinou a cabeça em um pedido de desculpas. Somente depois que a porta se fechou novamente, Roxana soltou um suspiro de alívio. Ela encostou o ouvido na porta para confirmar o som dos passos se afastando antes de se aproximar do guarda-roupa.
“Eles foram embora. Pode sair agora.”
“……”
“Ei?”
Não houve resposta. Roxana inclinou a cabeça, intrigada, e ao abrir a porta do guarda-roupa, um corpo pequeno tombou para frente. Surpresa, Roxana amparou a menina em seus braços. Talvez tivesse adormecido nesse meio tempo, pois a menina soluçava enquanto falava durante o sono.
“Mamãe… papai… irmão… me salve… irmão…”
No mesmo instante, o corpo de Roxana enrijeceu. Cabelos negros como azeviche, olhos alongados e uma ponte nasal bem definida. Lábios carnudos. Ela achou que o rosto lhe era familiar, e agora a identidade da garota era inegável.
“Minha irmã mais nova tem a saúde frágil e raramente sai. Nossos pais se preocupam tanto que evitam que ela conheça estranhos. Tenho medo de que, de tanto ser mimada, ela acabe se tornando uma pessoa difícil.”
A filha caçula, a joia da Família do Marquês Dalton. A irmã que era a cópia fiel de Curtis Russell.
Frey Russell.
* * *
A inundação nas terras do sul foi, felizmente, contida em pouco tempo. Graças às ordens experientes do senhor feudal, os soldados e os camponeses agiram em perfeita sintonia. Em vez de comandar de um lugar elevado, Curtis colocou a mão na massa dia e noite. Ele reconstruiu casas, avaliou os danos e transportou o gado morto para valas. Como resultado, o retorno, que estava previsto apenas para a hora do almoço do dia seguinte, foi antecipado em meio dia.
“O senhor voltou cedo.”
“Não posso deixar o castelo vazio por muito tempo.”
Massageando a nuca tensa, Curtis desceu da sela. Robert recebeu seu casaco. O olhar perspicaz de Curtis notou algo estranho. Robert estava com as roupas impecáveis como quando partiu, mas seus cabelos grisalhos estavam desalinhados. Fingindo não notar, Curtis observou os arredores.
“De qualquer forma, o castelo parece um pouco agitado. Robert?”
“Sobre isso…”
Diante da observação silenciosa, a boca de Robert secou. Havia dois incidentes que ele precisava relatar. O caso de Roxana Dalton e o caso da senhorita Frey. Ele não sabia por onde começar. Ao ver o olhar de Curtis se tornar afiado, Robert forçou um sorriso desconfortável e escolheu o caminho menos arriscado.
“A senhorita insistiu que não tomaria o remédio.”
“Hoje também.”
Cerrando os dentes, Curtis caminhou rapidamente. Não era a primeira vez. Toda noite, ela gritava dizendo que via fantasmas e, nos piores momentos, chegava a se automutilar.
Tudo começou quando ela perdeu a visão devido ao choque no dia em que sua família foi exterminada. Após perder os pais, que a tratavam como uma joia, e tudo o que possuía da noite para o dia, Frey fechou-se cada vez mais. Ela não confiava em ninguém, não dependia de ninguém e suspeitava de tudo. Até mesmo dele, seu próprio irmão.
“E a criada que se feriu?”
“Hoje, felizmente, não houve feridos. No entanto.”
Robert, que perseguia o mestre ofegante, parou bruscamente.
“Frey.”
Sem aviso, Curtis escancarou a porta do quarto de Frey e entrou na escuridão. Na penumbra, seus olhos cinzentos vasculhavam cada canto como um falcão em busca de presa.
“Frey?”
Curtis entrou no quarto e abriu a porta do guarda-roupa. Pensou que ela estaria escondida ali, mas não estava. Ele dobrou os joelhos e verificou embaixo da cama.
“Sou eu. Pode sair agora.”
Embora seus olhos estivessem acostumados à escuridão, não importava o quanto procurasse, não encontrava ninguém. Assim que Curtis se virou, Robert, com a cabeça baixa, confessou.
“A senhorita Frey saiu do quarto pela janela.”
“Por que está me dizendo isso só agora?!”
Uma repreensão cortante caiu sobre sua cabeça. Robert, curvando-se ainda mais, desculpou-se.
“Felizmente, a encontramos rapidamente. Mas.”
“Mas?”
Se ela tivesse sofrido o menor arranhão, alguém pagaria o preço. Os olhos negros de Curtis, que o encaravam como se fossem devorá-lo, ardiam. Robert, paralisado como gelo, mencionou o segundo incidente que havia adiado.
“Ela está… com a senhorita Roxana.”
Era um nome inesperado. A temperatura no quarto caiu abaixo de zero em um instante. Enquanto Robert, sem coragem de levantar os olhos, não sabia o que fazer, uma voz seca e monótona perguntou:
“O que disse?”
“……”
“Por que Roxana está aqui?”
“Dizem que uma [glossario termo=”Doença que causa erupções cutâneas vermelhas semelhantes a flores.”]Febre das Flores[/glossario] se espalhou pelas vilas ao redor do Convento Angela. Ela veio pessoalmente pedir ajuda por ser uma situação de emergência… Senhor!”
A explicação não pôde continuar. Curtis, que havia pegado uma adaga decorativa afiada sobre a lareira, ordenou:
“Então, onde ela está agora?”
A voz era assustadoramente suave. Com um leve sorriso no rosto, Robert sentiu os lábios tremerem desde a ponta dos pés. Apenas estar diante dele causava calafrios.
“Eu o guiarei.”
Enquanto Robert o conduzia ao quarto de Roxana, Curtis não disse uma palavra, com o rosto inexpressivo. Consciente dos passos que o seguiam, Robert rezava para que não houvesse uma tragédia. Era a segunda vez que via o mestre tão perturbado. A primeira foi quando invadiram a residência do Marquês Dalton. E agora.
Quando uma única mulher estava envolvida, o Marquês da Fronteira frequentemente perdia a razão.
“É aqui.”
Afastando Robert, que estava paralisado, Curtis encostou o ouvido na porta. De dentro do quarto, ouviu-se uma voz suave.
“Onde dorme o passarinho? Dorme sob as asas aconchegantes da mamãe passarinho. Onde dorme o cabritinho? Dorme sob o pelo macio da mamãe cabra. Onde dorme o nosso bebê…”
Uma voz carinhosa e gentil. Uma melodia baixa, mas que fluía suavemente como a brisa da primavera. A mão de Curtis, que segurava a espada, tremeu levemente.
Era a canção que sua mãe cantava para os irmãos quando não conseguiam dormir. Uma marquesa excêntrica que, mesmo sendo esposa de um senhor feudal, não contratava babás e criava os filhos pessoalmente. Quando Frey tinha crises de sono, ela passava a noite inteira abraçando a filha e repetindo a mesma canção. Uma canção de ninar antiga e esquecida que quase ninguém mais conhecia.
“Se eu ouvir essa música, a mamãe realmente dormirá bem?”
“Frey também dormia bem. Ela vai gostar.”
E era a canção que, certa vez, ele havia ensinado a ela.
“……Senhor?”
Ao ver Curtis parado como se o tempo tivesse congelado, Robert falou com cautela. Voltando a si, Curtis afastou o ouvido da porta apressadamente, como se tivesse se queimado.
No instante seguinte, ele chutou a porta com violência.
“Aaaah!”
Um grito agudo ecoou pelo quarto. Frey, que parecia ter acabado de acordar, agarrou-se à cintura de Roxana.
“Me salve!”
“Frey. Sou eu.”
Curtis aproximou-se com cuidado e falou com a irmã.
“Você precisa ir para o seu quarto dormir.”
A voz era gentil, mas seus olhos eram sinistros. O olhar, que parecia capaz de estrangular alguém a qualquer momento, cravou-se em Roxana.
Diante da reação esperada, Roxana não abriu a boca precipitadamente, mas acariciou as costas de Frey, que tremia violentamente.
“Ela está muito assustada. Precisamos acalmá-la.”
No momento em que a porta se abriu, tanto Frey quanto Roxana ficaram profundamente chocadas.
“Acalmar?”
Curtis hesitou ao ouvir o tratamento formal pela primeira vez vindo dela. Para que Frey não ficasse ainda mais agitada, Roxana continuou o mais calmamente possível.
“Agora ela não ouvirá nada. Por favor, dê-nos um momento.”
“……”
“Eu lhe peço. Ela está muito assustada. Só um momento. Por favor, saia.”
Nos olhos de Roxana, que mantinha a cabeça baixa, era possível ver a espada longa que ele segurava com tanta força que os tendões saltavam. A sensação da lâmina afiada cortando o pescoço colava-se à sua pele de forma gélida.
Ela viera até ali porque tinha certeza. Pensou que ele, sendo um homem de forte senso de responsabilidade, não ignoraria seus próprios súditos. Mas não havia pensado no que viria depois. No que aconteceria com ela por ter quebrado a promessa.
Com uma arma branca diante de si, seu coração batia acelerado. Como se para provar isso, a voz cortante como uma lâmina caiu novamente sobre sua cabeça.
“Frey não precisa de uma babá.”
Roxana sentiu o ombro úmido pelas lágrimas de Frey. A menina estava apavorada, à beira de um desmaio. Se uma carnificina terrível ocorresse naquela situação, não haveria volta.
“Não estou tentando tratá-la como uma criança. Será rápido. Eu lhe peço.”
Ela não podia recuar. Estava decidida, mas sua voz tremia. Roxana levantou o olhar e encontrou os olhos negros que a encaravam como se quisessem sufocá-la. O ar parou, como se apenas os dois existissem naquele quarto amplo.
Raiva, confusão, choque, sentimento de traição e uma tênue saudade.
As emoções entrelaçadas contidas nos olhos cinzentos infiltraram-se nos pulmões de Roxana.
Era um olhar familiar. Sempre que Curtis a encarava, várias emoções intensas colidiam como ondas antes de serem varridas em um instante. Elas nunca vinham em curvas, mas em linhas retas que perfuravam e assolavam seu coração.
“Senhor.”
Em meio à atmosfera tensa como uma corda esticada, Robert interveio de repente.
“A senhorita Frey…”
Ao mesmo tempo, o fluxo tenso se rompeu e a espada caiu da mão de Curtis. Frey dormia tranquilamente nos braços de Roxana, que a protegia como uma mãe pássaro. Pela primeira vez, sem remédios.
Era um milagre.
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