“Irmão, é assim que se fala com uma irmã cega? Seu língua afiada. Rabugento. Velho rabugento.”
“Pelo tom da sua voz, vejo que está bem o suficiente. Fico feliz que esteja saudável, Frey. E eu não sou um velho.”
Não havia como vencê-lo no argumento. Frey tentou controlar a respiração ofegante.
Lembrou-se de quando era criança, vendo o irmão sentado em um galho alto, provocando-a. Mesmo sem olhar, tinha certeza de que ele estava com aquela expressão irritante de sempre: braços cruzados, olhos semicerrados e um ar de desprezo.
No fim, Frey, com os punhos trêmulos, caiu na provocação.
“Tudo bem.”
Com o rosto transbordando teimosia, Frey aceitou a aposta.
“Senhorita!”
Roxana e Robert, horrorizados, chamaram por Frey quase ao mesmo tempo. Ignorando-os, ela ergueu o queixo e declarou:
“Em cinco dias, vou dançar com perfeição. Mas, se eu vencer, você terá que me levar com você, sem condições.”
* * *
Fazia tempo que os irmãos não conversavam cara a cara. Desde que Curtis a buscou, Frey sempre fora fria com ele. Já se passavam dois anos desde que a relação distorcida entre os dois se mantinha por um fio. Robert tentou aproveitar a situação para sugerir que Curtis ensinasse Frey a dançar, mas ambos recusaram prontamente.
“Vou dançar de um jeito que você vai ter que ver. Espere só.”
Determinada, Frey queimava em vontade. Robert contratou um professor de dança para ensiná-la duas horas por dia. Ela se esforçou, mas o progresso era lento. Quando faltavam apenas três dias para o banquete, Frey confessou honestamente:
“Não consigo visualizar na minha cabeça, professor. Entendo os movimentos femininos, mas não sei como o homem deve conduzir.”
“O que faremos? Não há tempo para aprender passo a passo agora. Acho que não resta alternativa a não ser confiar na condução do seu parceiro.”
“Eu não quero isso. Não seria eu mesma dançando.”
Frey fez um bico e virou o rosto. Mesmo quando o professor suspirou em silêncio e saiu do quarto, ela continuou de mau humor. Foi apenas ao anoitecer que Frey encontrou uma solução.
“Roxana.”
“Sim?”
“Você pode fazer o papel do homem.”
“…Eu?”
Roxana, que estava guardando a bacia de lavar o rosto, paralisou com a ordem repentina.
“Sim. Você viu tudo por cima do ombro, não viu? Você é inteligente, deve ter decorado rápido.”
Era verdade, mas ela não tinha confiança para ensinar ninguém. Além de uma única vez em um pequeno banquete aos quinze anos, nunca tinha dançado com ninguém. Naquela época, foi tão desajeitada que chegou a pisar no pé do parceiro.
“Pedir ao professor seria mais desconfortável do que pedir a você.”
“Senhorita.”
“Pensando bem, em parte estou indo por sua causa. Então, conto com você a partir de amanhã.”
Antes que pudesse recusar com cautela, Frey, tendo tomado sua decisão, deitou-se na cama com uma expressão aliviada.
* * *
No fim, não restava alternativa a não ser praticar a noite toda. Tarde da noite, quando todos dormiam, Roxana foi ao quintal praticar os passos masculinos. Assumindo que havia um parceiro, ela estendeu uma mão como se envolvesse a cintura de alguém e a outra como se segurasse uma mão, movendo-se passo a passo.
“É assim?”
Ela forçou a memória até o fim, mas algo parecia estranho. Enquanto praticava os movimentos de forma desajeitada e hesitante, ouviu um farfalhar. Ao virar a cabeça pelo som de passos na grama, Roxana congelou como uma estátua.
“Pensei que fosse um fantasma vagando por aí.”
Curtis, vestindo um roupão leve e segurando uma espada longa em uma das mãos — talvez estivesse praticando esgrima —, olhava para ela com desdém.
“Que desastre.”
Roxana, pega em flagrante, escondeu o constrangimento.
“É natural, já que não estou acostumada.”
“A fortuna da família do Marquês é uma das maiores do país, e você me diz isso?”
Curtis, com um tom sarcástico, estendeu o braço para ela. Desta vez, graças a experiências passadas, Roxana desviou da mão dele. Quando ela o encarou em silêncio, ele apontou para o ombro dela.
Uma lagarta que caíra de alguma árvore estava pousada ali. No entanto, Roxana, que ele esperava que pulasse e chorasse, calmamente deixou a lagarta subir em seu dedo indicador e a transferiu para um galho. Pensando bem, ela sempre fora uma garota com peculiaridades desde pequena.
“O que há de errado em eu montar em um pônei? Não existe lei que diga que apenas homens podem montar. E, aliás, nisso eu sou melhor que você.”
Ela nunca se importou com o olhar alheio, nem pensava muito em sua reputação como dama nobre. Costumava pegar emprestadas as roupas de um garoto cavalariço, prender o longo cabelo em um rabo de cavalo e montar no pônei.
As memórias antigas, que ela pensava ter apagado há muito tempo, subiram à superfície justamente quando pareciam ter se acalmado. Curtis detestava a mulher à sua frente, que o fazia lembrar do passado constantemente. E, ainda assim, desprezava a si mesmo por continuar a segui-la com o olhar. A causa de tudo sempre era Roxana Dalton.
“Acho que calculei mal, Roxana. Trouxe você para cá para sofrer mais do que no convento, e você acaba entrando na onda da dança.”
“Se é assim que parece, então deve ser.”
Roxana respondeu evasivamente e desviou o olhar. Queria sair dali. A mão que a abraçara e a voz suave de pouco tempo atrás ecoavam em sua mente. Eram o oposto do olhar frio que a observava agora.
“Com licença.”
Roxana inclinou a cabeça e passou por ele. Quando tentou apressar o passo, sentiu o braço ser agarrado. Antes que pudesse se debater, foi puxada pelo ombro e virada.
“Repito: sua dança é um desastre. Não sente pena dos meus olhos por terem visto tal cena?”
“…….”
Mesmo sem ele repetir, ela sabia. O homem à sua frente era mestre em sarcasmo. Roxana mordeu o lábio inferior e respirou fundo, quando, de repente, uma frase devastadora foi lançada.
“Está pensando em se vingar por ter sido feita de criada e humilhar minha irmã?”
“Eu nunca pensei nisso! Meu Deus.”
Uma voz aguda escapou sem que ela percebesse. Curtis, com os olhos semicerrados, pressionou sem hesitação.
“Não? É certo que você instigou minha irmã. Caso contrário, ela, que vivia enfiada em uma caverna, não teria interesse algum em bailes.”
Ela queria negar, mas, na verdade, havia um fundo de verdade. Roxana lembrava vagamente de ter dito algo a Frey enquanto estava sonolenta.
Ela pensou que, não importava que tipo de bronca recebesse no dia seguinte, teria que aceitar, mas o que aconteceu foi ainda mais chocante. Roxana não conseguiu dizer nada e apenas mordeu os lábios.
“Com certeza foi a Frey quem mandou.”
Curtis, observando obsessivamente os lábios dela que ficavam mais vermelhos conforme ela os mordia, propôs de repente:
“Vou te ensinar a dançar.”
“O quê?”
Roxana arregalou os olhos, surpresa. Curtis acrescentou com malícia:
“Isso é o que chamam de dar pérolas aos porcos.”
Antes que ela pudesse recusar, sua cintura foi envolvida por uma mão grande. Curtis, que a abraçou com destreza, segurou suavemente a outra mão dela. A cintura fina e o leve perfume de flores que emanava dela estimulavam seus sentidos. Os cílios baixos, que ela mantinha por não saber o que fazer, eram da mesma cor vermelha de seu cabelo. Ele cedeu ao impulso repentino.
“Aprenda enquanto estou disposto a ensinar, Roxana.”
“Vou te ensinar a nadar também. Para que você não seja levada pela correnteza como um tronco de madeira.”
Uma voz brincalhona e carinhosa. O rosto do garoto que se sobrepunha ao homem de expressão afiada fez com que a tensão no corpo de Roxana se dissipasse.
Interpretando o silêncio como aceitação, Curtis começou a conduzi-la passo a passo. Movimentos fluidos, como o curso de um rio, seguiram-se.
Banquete das fadas. Roxana lembrou-se subitamente do termo usado para as apresentações noturnas dos ciganos. Sentia-se como se estivesse enfeitiçada pela noite.
O luar suave banhava o topo de suas cabeças, e apenas o som desconhecido dos insetos e o canto dos pássaros ecoavam no quintal silencioso. A cada passo, o farfalhar da grama misturava-se como uma orquestra. Roxana, que era conduzida por ele, só voltou a si quando a elegante valsa terminou.
“Acho que já estudou o suficiente.”
Curtis, com naturalidade, soltou a mão dela e recolheu os braços. Antes mesmo que ele pudesse dar um passo para trás, Roxana empurrou o peito dele.
“Roxana.”
Curtis franziu a testa diante do rosto cheio de repulsa dela. Roxana engoliu em seco. Aquele olhar que parecia querer devorá-la a qualquer momento. O olhar azul profundo que a observava de dentro do elmo estava diante dela.
“Por que faz isso?”
Tanto Frey quanto os irmãos Russell eram volúveis, cruéis e atraentes. Eles agiam com uma ternura que lembrava o passado, apenas para mudar de expressão e empurrá-la logo em seguida.
Frey ainda era jovem e ingênua, então suas intenções eram visíveis, mas o homem à sua frente era um enigma quanto mais ela o conhecia. Ele parecia desejar que ela se sentisse intimidada, mas não aterrorizada. Como se a desprezasse, mas não desejasse que ela morresse imediatamente.
“Você me trancou no convento para que eu vivesse miseravelmente e agora quer que eu seja uma criada. Dizia que odiava até mesmo olhar para mim, mas me segurou quando tropecei no caminho de volta. Zombava de mim dizendo que eu só falava bobagens, e agora…”
As palavras não puderam ser concluídas. Roxana piscou, com a boca entreaberta, enquanto o dedo dele acariciava seus lábios.
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