Naquele momento, dentro da carruagem de quatro rodas, alheia ao tumulto na última fila, reinava o silêncio. Apenas o som das páginas sendo viradas preenchia o ambiente, sem espaço para qualquer outro ruído. Em meio a um silêncio tão profundo que até o ato de engolir em seco parecia audível, o Barão Boden observava o jovem sentado à sua frente.
Cabelos de um loiro platinado deslumbrante e olhos azuis como lagos. O contorno elegante do maxilar e a ponte nasal alongada. Seu senhor possuía uma beleza quase pictórica, mas, com sua personalidade perfeccionista e exigente, ninguém era capaz de superá-lo.
“Tem algo a dizer?”
“A-ah, não.”
“Como ficou a limpeza da retaguarda?”
“Perdão?”
O Barão hesitou por um momento, sem compreender a pergunta, até que um olhar gélido o atingiu. Só então ele se lembrou de um dos regentes que fora expurgado pouco tempo antes. Engolindo em seco, o Barão respondeu com cautela.
“Como exemplo, cortamos as duas mãos e as exibimos. Para que os vassalos sob o comando do regente nunca mais ousem praticar agiotagem contra os moradores da ilha.”
“Gado que não obedece deve ser domado com o chicote.”
O Duque murmurou como se falasse consigo mesmo e fechou o livro que lia. Enquanto massageava a nuca, sentindo-a tensa, o perspicaz Barão Boden bateu duas vezes na janela da carruagem. O responsável, que cavalgava ao lado, aproximou-se.
“Meu senhor. Alguma ordem?”
“Reduza a velocidade da carruagem. Sua Alteza parece exausto.”
Era um aviso implícito de que, se o Duque acordasse, sua vida estaria em risco. Sentindo a espinha enrijecer, o responsável respondeu com gravidade.
“Transmitirei a ordem.”
Enoch Ferentz, o outro homem que mantinha os olhos fechados sem sequer olhar para o lado, era o único pequeno duque deste país e o único sobrinho do rei.
* * *
“Irmã. Vista isto agora mesmo.”
Sem o sinal combinado, a vibração cessou. John, que descera da boleia, subiu na carroça e abriu o baú sem rodeios. Em seguida, entregou seu manto a Roxana. Era um manto com capuz que permitia ocultar o rosto. Sem entender o motivo, Roxana vestiu o manto como ele ordenou. John, com a voz o mais baixa possível, informou em um sussurro.
“A situação mudou. Inventei que um dos cavalos estava doente para parar a carruagem por um momento. O destino não é longe daqui, então desça rápido.”
“Entendido. Obrigada.”
Ouviu-se o som de alguém se aproximando. John afastou levemente a cortina que cobria o interior da carroça e, após verificar os dois lados apressadamente, sussurrou.
“Quando eu der o sinal, corra para a direita. Você verá o portão da cidade em pouco tempo.”
Roxana assentiu em vez de responder.
“Então…”
John respirou fundo, com o peito subindo e descendo, e abriu a cortina imediatamente.
“Corra!”
Roxana, com o manto bem ajustado, saltou para fora. Como estava a uma certa distância do grupo da frente, o ambiente estava silencioso. Ela estava prestes a correr rapidamente para a direita, conforme as instruções, quando…
“…Ah!”
“Como eu pensei, havia um rato escondido.”
Alguém agarrou seu braço com força.
“Quem é você? Uma ladra atrevida?”
Era uma voz conhecida. No instante em que percebeu quem era, seu coração despencou. Uma espada fria tocou seu pescoço.
Enoch Ferentz.
O corpo de Roxana enrijeceu. No momento em que o Barão Boden estava prestes a intervir, Enoch, ao notar as vestes de Roxana, ordenou:
“Vou lhe dar uma chance. Tire o capuz por conta própria e revele sua identidade e nome.”
Não houve resposta. Ele podia sentir o braço que segurava com firmeza tremer como se estivesse em convulsão. Com um pressentimento de que algo estava errado, Enoch estendeu a mão em direção ao capuz. Foi então.
“Por acaso, o senhor sofre de insônia, não consegue dormir profundamente e, mesmo ao acordar, sente que o sono foi superficial, vivendo em constante fadiga?”
“O quê?”
Enoch hesitou diante da pergunta inesperada.
“Como sabia que sofro de insônia?”
“Deduzi pelo tom escuro sob seus olhos, sua tez pálida e a falta de cor em seus lábios.”
Ao contrário do braço que tremia, sua voz era calma e clara. Sentindo uma aura incomum, Enoch trocou olhares com o Barão Boden.
Em seguida, a mulher continuou com algo que ele jamais esperaria.
“Posso ajudá-lo.”
“Ajudar?”
“Sim.”
“Qual o preço?”
“Que não retire meu manto. E que não puna o senhor John.”
Enoch franziu a testa. Era uma proposta interessante. A insônia era sua antiga doença incurável. Nenhum médico que trouxesse, nenhum remédio que tomasse, conseguia curá-la.
“Parece ter um olhar aguçado, mas é imprudente. Já tentei todo tipo de remédio, mas nenhum surtiu efeito.”
“Verá o efeito. O que recomendarei ao senhor não é um remédio, mas uma vela aromática.”
“Vela aromática?”
Era a primeira vez que ouvia aquele termo. Diante da palavra estranha, Enoch fez um gesto para que ela continuasse.
“Por motivos pessoais, não posso revelar meu rosto, mas, na verdade, sou uma pessoa dedicada à religião. Como administramos uma enfermaria no convento, costumo lidar muito com ervas medicinais.”
“Ah. Entendo.”
Enoch murmurou diante da resposta de Roxana. Havia jovens que se tornavam freiras por motivos que não podiam contar a ninguém. Algumas ficavam viúvas cedo, outras eram filhas ilegítimas de nobres ou tinham engravidado antes do casamento. Essas pessoas geralmente evitavam revelar sua identidade. O fato de ela não querer mostrar o rosto devia ser por causa disso. Além disso, era comum que freiras fossem versadas em ervas.
Enquanto Enoch assimilava a informação, a história continuou.
“Certo dia, uma gestante me procurou, pois o cheiro da gordura animal queimando nas velas a incomodava. Naquela época, fiz uma vela adicionando eucalipto, hortelã-pimenta e limão. Ela não era grande nem durava tanto quanto as velas comuns, mas o odor era certamente reduzido. Além disso, um efeito inesperado surgiu. Ao dormir com aquela vela acesa, o marido dela, que sofria de insônia, também dormiu profundamente.”
“Dormiu profundamente…”
“Sim. Antes de dormir, acenda a vela com os ingredientes que mencionei e mantenha as mãos e os pés aquecidos. Tente relaxar os músculos de todo o corpo, começando pelas pontas dos dedos, e conte carneirinhos em sua mente.”
Após terminar a explicação, Roxana aguardou a sentença. Era uma explicação detalhada demais para ter sido inventada na hora. Mesmo sendo uma mulher que não revelava o rosto, estranhamente, ela transmitia confiança. Desde a voz suave até a postura, que não era nem insolente nem servil.
Após um silêncio que pareceu uma eternidade, Enoch concluiu.
“Tudo bem. Mas, ainda assim, não posso aceitar a ajuda de alguém cuja identidade desconheço.”
Ele sabia que, por sua natureza, não seria fácil, e foi exatamente como esperado. Diante da resposta firme, o mundo de Roxana escureceu. Foi o momento em que ela pensou que tudo acabaria ali.
“Eu me responsabilizo!”
John, que observava a situação com ansiedade, interveio e ajoelhou-se diante de Enoch.
“Eu garanto por ela. Esta irmã é, na verdade, uma velha conhecida da minha esposa.”
“Uma velha conhecida, é?”
“Sua Alteza.”
Em meio à tensão que voltava a pairar, o Barão Boden, após receber o relatório do administrador, falou suavemente.
“Verifiquei e os tributos dentro da carruagem estão intactos. Já está tarde, talvez pudesse deixar passar desta vez…”
Enoch, em silêncio, examinou lentamente a mulher à sua frente, de cima a baixo.
Sob aquele olhar perscrutador, Roxana engoliu em seco. Ele não saberia que era ela. Durante o longo noivado, eles mal haviam trocado palavras. Ele não a reconheceria.
Um silêncio eterno passou entre os dois. Somente quando sua respiração trêmula parou e ela sentiu uma tontura avassaladora, Roxana foi libertada.
“Muito bem. Deixarei passar desta vez. Mas, se não houver efeito, esteja preparada para as consequências.”
Com a tensão abandonando seu corpo, Roxana suspirou aliviada. Ela fez uma reverência respeitosa e, quando se virou para sair…
“Sua voz me parece familiar. Qual o seu nome?”
Roxana disse o primeiro nome que lhe veio à mente.
“…Melanie. Meu nome é Melanie.”
Era o nome da protagonista de um romance que ela gostava antigamente.
* * *
Até chegar ao castelo, Roxana não relaxou a tensão. Pegou carona em algumas carroças que passavam e, onde não havia transporte, caminhou e caminhou.
Chegou ao castelo do Marquês da Fronteira ao anoitecer. Respirando fundo, ela se aproximou do portão. O guarda da muralha externa, de aparência rude, examinou a forasteira tardia de cima a baixo.
“Por favor, abra o portão.”
“Quem é você? A esta hora?”
“Sou uma noviça do Convento Angela. Vim por um assunto urgente.”
“Tire o capuz.”
Seguindo a ordem, Roxana retirou o capuz do manto. Não era mais ‘Roxana Dalton’, mas sim o rosto da irmã ‘Roxana’ do Convento Angela. Pois era a única coisa que lhe restava.
“Convento…?”
O guarda, examinando o hábito surrado de cima a baixo, fez uma expressão de desconfiança.
“Sim.”
“Uma freira sozinha, vinda de tão longe a esta hora? Não recebi aviso de que alguém viria.”
“É um assunto de extrema urgência.”
“Sim, isso eu ouvi. Mas, ainda assim, meu trabalho é…”
O guarda, interrompendo sua fala apressada, endureceu a expressão. Então, com um rosto cheio de cautela, ele a interrogou bruscamente.
“Ainda assim, parece suspeito. Como posso confiar em você?”
“O quê…?”
“Ultimamente, espiões estão por toda parte e dizem que usam todo tipo de truque.”
Roxana ficou sem palavras. Como vivera isolada do mundo secular por dois anos, era ignorante sobre as disputas de poder e a política entre os nobres. No entanto, quanto mais longo o silêncio, mais profunda seria a suspeita. Recuperando a compostura, Roxana balançou a cabeça imediatamente.
“Por favor, acredite em mim. Não sou nada disso.”
“Em que devo acreditar? E, além disso, freiras geralmente não cortam o cabelo curto? Ouvi dizer que noviças também o fazem.”
“Isso é…”
Ela vivera uma vida de devoção por dois anos, mas como ainda não fizera os votos perpétuos, não era uma freira completa. Tivera vontade de cortar o cabelo várias vezes, mas a Madre Superiora sempre a impedia. Com as mãos cerradas pela ansiedade, Roxana vasculhou suas vestes e retirou algo.
No instante seguinte, o guarda, surpreso, arregalou os olhos.
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