Era uma expressão que ele já tinha visto antes. No primeiro encontro, quando ela estava ajoelhada com as mãos e os pés atados. Naquele momento, quando ela tentava negociar a segurança dos moradores da cidade e do castelo em troca do selo.
“Eu pensei que fosse uma sorte. Senti um alívio genuíno. Não me importa se você me vê como uma mentirosa ou uma hipócrita.”
Roxana, que havia empurrado o peito de Curtis enquanto ele hesitava, levantou o tronco.
“Certamente existem pessoas más. Aqueles que traem, enganam, roubam e saqueiam.”
Sua voz era clara. Roxana não tinha a menor dúvida sobre suas próprias convicções e crenças. Sua mãe dizia que ninguém nasce mau, mas, na opinião dela, tais pessoas definitivamente existem.
Começando pelo seu pai, o Marquês Dalton, até os moradores da vila que, apesar de terem recebido tanta ajuda do convento, ergueram ferramentas agrícolas para ameaçá-la ao menor sinal de suspeita.
“Mas não existem pessoas totalmente más ou totalmente boas no mundo. O ambiente em que vivem e a vida que enfrentam é que moldam as pessoas dessa forma.”
“Qual é a base para isso?”
“Primeiro, Harold, que tentou me estrangular. Quando eu era criança, ele me colocava nos ombros e encontrava minhas bonecas. Com o passar do tempo, nos tornamos distantes, mas ele foi alguém que tornou minha infância calorosa. Embora o cavalinho de pau e as bonecas agora tenham virado cinzas, essas memórias não foram corrompidas nem desapareceram.”
“…….”
“Por isso, fiquei triste quando ele morreu. Na época, eu estava atordoada, mas espero, do fundo do coração, que ele esteja em paz.”
Ela esperava uma refutação, mas os olhos cinzentos que encontrou estavam serenos. Diante daquele olhar que parecia aguardar uma resposta, Roxana continuou.
“E Mary. Mary certamente me traiu e abriu os portões do castelo do Marquês. No entanto, foi também Mary quem me avisou para fugir pouco antes de você invadir.”
Dar ajuda e receber ajuda. Receber auxílio de alguém hoje e levantar alguém que caiu amanhã. O mundo gira dessa forma e é assim que deveria girar. Foram sua mãe e a Madre Superiora que lhe ensinaram isso. Os ensinamentos daquelas a quem ela mais respeitava e amava criaram raízes profundas dentro dela.
O silêncio pairou sobre o quarto aconchegante. Roxana esperou pela resposta de Curtis, fosse uma refutação ou uma explosão de raiva.
Contudo, nada veio. Apenas aqueles olhos insondáveis a observavam. Ele era um homem que expressava suas emoções de forma mais direta que qualquer outro, mas cujos pensamentos eram impossíveis de decifrar.
“Ouvi bem o sermão da idealista.”
Mas a suposição foi curta. Refutando os pensamentos de Roxana que acabaram de passar, Curtis respondeu de forma ácida, com um canto da boca curvado, como se nunca tivesse ficado em silêncio.
“É bastante comovente para alguém que nunca sujou as mãos com uma gota de sangue.”
Curtis sussurrou, curvando-se como se quisesse esmagar as pupilas roxas que tremiam.
“Não me importa a fé daqueles que são fracos, não possuem nada e não conseguem se proteger. Se você voltar a balbuciar sofismas na minha frente, terá que entregar essa língua.”
Com uma voz carregada de intenção assassina, como se estivesse mastigando as palavras, Roxana não suportou e desviou o olhar. Zombando dela, Curtis levantou-se sacudindo as roupas.
“Você já deve ter ouvido de Robert, mas a partir de amanhã cuidará de Frey. De dia ou de noite.”
“…….”
“Se causar o menor dano a ela, perderá muito mais do que isso.”
Era uma voz tão fria que causava arrepios. No entanto, Roxana, de alguma forma, lembrou-se de uma fera ferida que mostrava os dentes. Aquela que, se alguém estendesse a mão descuidadamente, morderia os dedos.
Para Roxana, que olhava fixamente para as costas dele, veio uma ordem gélida.
“Responda.”
“……Cuidarei da senhorita com toda a minha dedicação.”
Mal terminou de falar, a porta foi aberta e fechada com violência.
* * *
No dia seguinte, o trabalho como criada exclusiva de Frey encontrou dificuldades logo de início. A primeira tarefa era abrir as cortinas do quarto de Frey e abrir as janelas para ventilar o ambiente. Frey, que se levantou de um salto ainda de camisola, gritou irritada.
“Está frio! Você está tentando me congelar até a morte?”
“Você acordou, senhorita.”
Embora tenha se assustado, Roxana respondeu sem se virar. Com a voz desconhecida, Frey inclinou a cabeça.
“É uma voz que nunca ouvi. Quem é você?”
“Meu nome é.”
A resposta que viria naturalmente ficou presa na garganta. Ela era alguém que, originalmente, não deveria estar no castelo do Conde Russell. Não era ela a pessoa que deveria ter morrido e sido enterrada sob a lâmina de Curtis há dois anos? Hesitante, Roxana pensou em dizer um nome falso, mas acabou dizendo apenas o nome, omitindo o sobrenome.
“Chamo-me Roxana. Nós nos vimos uma vez da última vez.”
“Da última vez?”
“Sim. Não se lembra?”
Felizmente, parecia que ela não sabia que ela era a filha do Marquês Dalton. Roxana, sentindo um peso sair de suas costas, sorriu suavemente.
“Você veio ao meu quarto tarde da noite e se escondeu no guarda-roupa.”
“Foi? Não sei. Não me lembro.”
Frey, balançando a cabeça, tateou a cama como se fosse descer. Como não enxergava, poderia cair. Roxana aproximou-se apressadamente e segurou seu braço.
“Eu a ajudarei.”
“Não preciso.”
Como um gato com os pelos eriçados, Frey afastou o braço de Roxana e colocou os pés no chão. Ao sentir o tapete grosso sob os pés descalços, sentiu-se um pouco mais calma.
“Como está o tempo hoje?”
“O céu está alto e o vento está fresco. O inverno deve chegar em breve.”
Roxana respondeu gentilmente e entregou a bengala que estava sob a cama para Frey.
“Se estiver com frio, colocarei um xale em você.”
“Não preciso.”
Recusando novamente, Frey tateou o chão com a bengala e foi sentar-se no sofá. Roxana, que a seguia com passos curtos, realizou o primeiro serviço.
“Trouxe a água para lavar o rosto. Coloquei aqui na frente.”
Em vez de responder, Frey tateou a mesa à frente e mergulhou as mãos na água. Após alguns segundos, franziu a testa e virou a bacia.
“Está fria! Vá buscar outra.”
“Sim. Peço perdão.”
Ela tinha certeza de que havia aquecido, mas parecia ter esfriado. Roxana, assustada, ajoelhou-se e tentou limpar a camisola molhada de Frey com uma toalha. Frey empurrou suas mãos com força.
“Chega. Limpe o que derramou e vá buscar água nova. Posso trocar de roupa depois.”
Roxana assentiu e saiu do quarto.
A senhorita que ela passou a servir, Frey Russell, era uma pessoa muito diferente da primeira impressão. Se na noite anterior ela parecia um gatinho tremendo de medo e desespero, naquela manhã ela era como uma gata selvagem afiando suas garras.
Será que ela está de mau humor hoje? Roxana, após buscar água novamente no poço, colocou-a no fogão da cozinha. Enquanto observava as chamas para aquecer até a temperatura ideal, alguém se aproximou por trás.
“Ei, você é a criada chamada Roxana?”
“……Sim. Por quê?”
“Então é verdade! Eu sabia!”
A pessoa que falou era uma criada, assim como ela. Uma mulher de idade semelhante, vestindo o mesmo uniforme, sorriu abertamente e estendeu a mão para um aperto.
“Meu nome é Alice. Prazer em conhecê-la. Roxana, certo?”
“Ah. Sim. Prazer em conhecê-la também.”
Roxana, que apertou a mão de Alice por impulso, sorriu sem jeito. Percebendo sua dúvida, Alice continuou a conversa alegremente.
“Eu cuidava da senhorita Frey até ontem. Fiquei surpresa quando mudaram meu posto de repente.”
“Ah. Entendo.”
Roxana, com os olhos arregalados, finalmente relaxou.
“Sinto muito que seu trabalho tenha mudado por minha causa.”
Como se tivesse ouvido algo absurdo, Alice balançou a cabeça.
“Não! Pelo contrário, estou grata. O trabalho na cozinha combina mais comigo. Eu estava prestes a pedir demissão, já que, apesar de trabalhar há muito tempo, recebi essa mudança de função.”
“O quê?”
Diante da resposta inesperada, Roxana piscou. Ops, Alice sorriu timidamente e disfarçou o deslize.
“Você entenderá o que quero dizer em breve. Se precisar de ajuda com alguma coisa, venha aqui a qualquer momento. Como sua veterana, estarei disposta a ouvir.”
Foi a primeira demonstração de bondade que recebeu no castelo, excluindo o mordomo Robert. Com aquelas palavras gentis, uma sensação de calor se espalhou pelas profundezas do coração de Roxana.
“Muito obrigada.”
“Ah, pode me tratar de forma informal. Parecemos ter a mesma idade. Não vamos nos preocupar com essa coisa de veterana e novata.”
“Mas… posso?”
“Claro.”
Alice, que assentiu, observou Roxana atentamente por um momento. O fato de a nova criada ter colocado a detestável criada sênior, Lizzie, em seu lugar já era um assunto espalhado por todo o castelo. Ela também havia sido duramente intimidada por Lizzie quando era novata, então sentiu-se vingada. Como disseram que ela a dominou facilmente pela força, ela esperava uma mulher grande e robusta, mas, ao vê-la, em vez de ter porte físico, era uma senhorita frágil que parecia que voaria se um vento forte soprasse.
Embora se preocupasse se ela conseguiria suportar o cargo de criada exclusiva da senhorita Frey, o mais difícil e exaustivo deste castelo, por algum motivo, ela parecia ter determinação, o que lhe dava confiança. As chances eram baixas, mas talvez ela se adaptasse bem.
“Você deve estar ocupada. Parece que já está quente, leve logo para cima.”
Alice, que sorriu de volta, empurrou suas costas. E, em pensamento, prestou suas condolências.
De qualquer forma, será difícil por um tempo.
E o pressentimento de Alice se confirmou. Assim que ela trouxe a nova água com dificuldade, o que recebeu de volta de Frey foi irritação.
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