Dentro da carruagem que sacolejava, Frey estava com uma expressão radiante de empolgação.
“Uma casa de veraneio do Marquês. Não deve ser algo magnífico?”
“Com certeza. Parece que a senhorita está com grandes expectativas.”
“Claro. Você não está?”
“Frey.”
Curtis, que ouvia a conversa através da janela aberta, chamou o nome da irmã em voz baixa.
“Ah. É verdade. Melanie.”
Frey corrigiu-se imediatamente e repetiu o nome como se temesse esquecê-lo. Melanie, Melanie, Melanie.
“Tenho que chamá-la de Melanie por enquanto, mas não consigo me acostumar.”
“Não seria melhor me chamar de Roxana enquanto estivermos na carruagem?”
“Se você quer ser descoberta e acabar com o pescoço em risco, fique à vontade.”
Curtis respondeu com um tom sarcástico e fechou a janela. Frey, sem entender o peso daquelas palavras, balançou a cabeça negativamente.
“Mesmo que descubram que você é uma criada, seria um problema, mas não é como se fosse um crime capital. Não sei como o meu irmão acabou com esse tipo de personalidade.”
“Ele deve estar preocupado à maneira dele.”
Roxana defendeu Curtis, embora sentisse como se tivesse uma espinha atravessada na garganta.
“Ele sempre teve um lado um pouco rabugento, mas não era desse nível. Parece que é ainda pior com você.”
Frey murmurou e guardou as palavras para si, como se estivesse pensando profundamente. Depois de um bom tempo, ela levantou a cabeça com uma expressão resoluta.
“Roxana. Por acaso você…”
“…”
Diante do tom sério, Roxana engoliu em seco. *Será? Não, não pode ser.*
Quando a tensão atingiu o ápice, Frey concluiu a frase.
“Você tem cara de quem é fácil de manipular?”
“…”
“É brincadeira.”
Enquanto Roxana suspirava aliviada, a carruagem parou de repente. Frey abriu a janela e procurou por Curtis.
“Irmão, o que houve?”
“Parece que uma das criadas está sofrendo muito com enjoo.”
Se era uma criada, só podia ser uma. A boca inútil que Robert enviou sem mais nem menos.
“Lizzie!”
Frey chamou o nome com irritação e começou a resmungar.
“Não podemos simplesmente deixá-la para trás? Dar um pouco de dinheiro e mandar ela voltar para o castelo?”
“E se algo acontecer com ela?”
“Não vai acontecer nada. E não é culpa dela? Ela deveria ter dito que não podia vir quando Robert mandou.”
“Senhorita.”
Roxana, que interrompeu Frey devido ao tom cada vez mais agressivo, abriu a porta da carruagem.
“Vou verificar o estado dela por um momento.”
* * *
Não era fingimento. Ao ver o rosto pálido de Lizzie, Roxana perguntou preocupada.
“Você está pálida. Está se sentindo muito mal?”
“Sim. Sinto que vou morrer agora…”
Lizzie balançou a cabeça e respondeu com dificuldade.
“É a primeira vez que ando de burro, por isso é pior.”
“Então…”
Não havia ervas medicinais para enjoo entre as coisas que ela trouxera. Mesmo que houvesse, era duvidoso que Lizzie as aceitasse. Roxana sabia que ela a detestava. Embora estivesse agindo de forma submissa ultimamente, sempre havia hostilidade no olhar daquela mulher.
“Se continuar assim, posso acabar morrendo. Você não pode fazer algo?”
Lizzie implorou, tomada pela ansiedade diante do silêncio de Roxana. Roxana suspirou internamente ao ver o olhar desesperado. Não podia hesitar por muito tempo diante de alguém claramente doente.
“Acho que você terá que subir na carruagem. Terei que pedir permissão, mas…”
“Sério? Obrigada, Roxana!”
“Venha comigo.”
Roxana virou as costas. Ao mesmo tempo, a expressão de Lizzie, que antes sorria abertamente, mudou completamente. Até agora, tudo estava saindo como planejado.
“Sabe de uma coisa, Lizzie? O clima entre a Roxana e o Lorde está estranho, não acha? O que você vai fazer?”
“O que eu vou fazer? Como assim?”
“Pense bem. O Lorde nunca teve nem uma amante, muito menos uma esposa oficial. Se ele decidir fazer da Roxana uma amante, o que você acha que vai acontecer com você, que a tratou tão mal e a atormentou?”
“Isso não vai acontecer. O Lorde nunca escolheria uma garota com uma origem tão incerta.”
“Ora, você não viu o jeito que ele olha para a Roxana? Você está em apuros, Lizzie.”
A mulher à sua frente, de origem incerta e cabelos ruivos vulgares, de repente ocupou o lugar ao lado da senhorita Frey. Era um posto que ela pedira várias vezes ao mordomo Robert, mas fora recusada sob a alegação de que não era capaz. Ela pensou que a garota seria expulsa rapidamente por pura frustração, mas, por algum tipo de mágica, agora ela agia como se fosse a irmã mais velha da senhorita.
E não era só isso. Ela era habilidosa com ervas, e o castelo estava cheio de pessoas que já haviam recebido a ajuda de Roxana. Os olhares que a desaprovavam mudaram um a um, e, como resultado, Lizzie se viu isolada. Já era difícil suportar aquilo, e agora ela poderia se tornar amante do Lorde?
Isso não podia acontecer de jeito nenhum. Enquanto pensava, ela ouviu uma conversa interessante.
“O mordomo disse para nunca falarmos sobre isso… mas a Roxana estava usando um hábito de freira quando chegou aqui.”
“Será que ela tem algum segredo? O jeito de falar e o comportamento dela têm certa elegância.”
Sua mente pareceu clarear. Aquela mulher certamente escondia algo. Talvez fosse uma criminosa. Se descobrisse sua identidade e a denunciasse, ganharia uma recompensa e se livraria daquele rosto que tanto detestava. Por isso, ela fez a aposta de sua vida: seguir nesta comitiva.
‘Vou descobrir sua verdadeira identidade, custe o que custar.’
Lizzie rangeu os dentes e jurou para si mesma.
* * *
O local do convite era uma luxuosa mansão cercada por um lago congelado. Era um lugar belo como um conto de fadas, mas quem ali residia possuía um status nobre. A carruagem atravessou a escolta que cercava o local e parou lentamente na escuridão.
“Fico feliz que tenham feito uma boa viagem. Não estão exaustos?”
Quem recebeu os convidados foi uma nobre tão elegante e bela quanto um cervo branco.
“Estávamos cansados, mas a fadiga desapareceu ao chegar aqui. Obrigado pelo convite, Vossa Alteza, a Princesa Consorte.”
A nobre não era outra senão a Princesa Consorte Margaret, mãe do jovem mestre Theo e irmã do Duque Enoch Ferentz. Margaret, que observava Curtis beijar o dorso de sua mão com um olhar curioso, fez uma brincadeira.
“Diziam que o Marquês da Fronteira tinha dois pares de olhos e carregava uma espada terrível, mas os rumores estavam errados.”
“Parece que a senhora estava secretamente esperando por isso. Peço desculpas por decepcioná-la. Deveria ter caçado um urso no caminho e vindo coberto com a pele.”
“Ora, que tipo de coisa é essa para se dizer.”
Curtis, que soltou a mão da Princesa Consorte, respondeu com um tom brincalhão. Ela soltou uma risada e fez um gesto de negação com a mão.
“Você veio ao banquete da Baronesa Philomena para corrigir os rumores? As senhoritas estavam desesperadas para conversar com o Lorde Russell naquele banquete.”
“Na verdade, estou me arrependendo de ter ido sem motivo. Rumores são melhores quanto mais assustadores forem. Só assim os bandidos não se atrevem a atacar. É claro.”
Curtis, com os olhos semicerrados, perguntou ao homem que estava atrás do ombro dela.
“Como o Visconde Otis deve saber muito bem.”
“…Humm.”
Derek, franzindo a testa, tossiu de forma desconfortável.
“Ora, parece que vocês já se conhecem.”
“Nossas terras são vizinhas. Como ele é parente de Vossa Alteza, presumi que teria sido convidado.”
Diante da resposta suave, os olhos de Margaret brilharam. Ele era um homem sobre quem circulavam muitos rumores sinistros, já que era um nobre de nascimento, mas com um passado como mercenário. Diziam que ele se escondia em suas terras e não saía, mas parecia que os rumores eram exagerados. Ele tinha uma aparência afiada, mas era mais sociável e espirituoso do que ela imaginava. Esse era o seu charme.
“Entendo. Na verdade, meu irmão, que fez o convite, não pôde vir devido a um assunto urgente. É uma falta de consideração ter convidado os hóspedes e não estar presente. O Visconde veio em seu lugar por causa disso. Sou grata.”
Em um instante, a alegria e a tristeza se cruzaram nos rostos de duas pessoas. Roxana suspirou aliviada. Por outro lado, Otis, com uma expressão amarga como se tivesse mastigado um fruto verde, forçou um sorriso.
“Vamos considerar o incidente desagradável anterior como algo que nunca aconteceu. Acredito que o Marquês da Fronteira sinta o mesmo.”
“Com certeza.”
Curtis, rindo com naturalidade, apresentou sua irmã conforme o protocolo.
“Frey. Esta é a Princesa Consorte.”
“É, é uma honra conhecê-la, Alteza. Ouvi dizer que o Ducado de Anatol é um lugar muito bonito.”
Era a primeira vez que ela se encontrava com alguém de status tão elevado, quase comparável à realeza. Frey cumprimentou com a voz trêmula, seguindo a etiqueta. Margaret sorriu e respondeu.
“Oh. Fico grata por dizer isso. Com certeza terei que convidá-la, Lady Russell.”
Após terminar os cumprimentos com Frey, o olhar de Margaret se voltou para a senhorita que estava parada silenciosamente atrás dela.
“Então você é a Lady Dalton que cuidou do meu filho no banquete.”
“Cuidar dele? De forma alguma, não sou digna de tal elogio. É uma honra conhecê-la, Princesa Consorte.”
Roxana, que estava tão tensa quanto Frey, cumprimentou educadamente. O olhar perspicaz de Margaret percorreu Roxana de cima a baixo.
“Melanie curou a insônia do meu tio!”
“Para ser exata, não foi uma cura completa, apenas um alívio.”
“Isso já é muito! E ela também é muito boa em dobraduras de papel!”
Melanie Dalton.
Era a mulher que havia conquistado o favor daquelas duas pessoas exigentes. Mesmo sendo estrangeira, ela conhecia todos os nomes dos nobres de alto escalão. Como era um nome que ela ouvia pela primeira vez, supôs que não deveria ser de um status muito elevado. No entanto, ao encontrá-la, a atmosfera que ela emanava e sua postura elegante pareciam estranhamente familiares.
“Ouvi histórias de Enoch e Theo. Eu estava realmente curiosa para saber quem era. É um prazer vê-la aqui.”
Roxana, sentindo-se desconfortável com o olhar inquisidor, apenas sorriu. Margaret, que encarava Roxana de forma quase rude, inclinou a cabeça.
“Mas… nós não nos vimos em algum lugar antes?”
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