“Contudo.”
“Contudo?”
“Não podemos forçar alguém que sente uma aversão tão profunda.”
As opiniões se dividiram após a fala. Curtis franziu a testa diante da ambiguidade.
“Então, o que sugere? Dê-me uma conclusão.”
“Daqui a uma semana é o dia de São Bento. Os chefes de vilarejos de outras terras, que não são governadas pelos cavaleiros delegados pelo senhor, virão para o culto. Por que não perguntamos a opinião deles?”
Era uma solução inesperada. Os cavaleiros arregalaram os olhos e, um a um, começaram a balançar a cabeça em concordância.
“Isso… é uma boa ideia.”
“De fato. É objetivo e razoável.”
“Como as opiniões aqui estão divididas, podemos decidir com base na maioria dos chefes de vilarejos.”
O clima era de consenso geral. Finalmente, a liberdade daquela reunião entediante. Curtis espreguiçou-se longamente e levantou-se, sacudindo a roupa.
“Muito bem. Faremos assim. Estão dispensados.”
Após a ordem de encerramento, a primeira pessoa a sair da sala de reuniões foi o próprio interessado. Robert o seguiu. Foi apenas um pouco depois que Curtis, que caminhava em direção ao quarto de Roxana, parou subitamente.
“Onde está Roxana?”
“Está na cozinha.”
“Trabalhando desde o amanhecer, como sempre.”
Curtis estalou a língua e dirigiu-se rapidamente para a cozinha.
“Roxana.”
Ao contrário de seus passos decididos, ele abriu a porta silenciosamente, encontrando a cozinha em paz. Ainda era cedo, antes do horário de trabalho do cozinheiro e das criadas. O local estava desordenado, cheio de grãos e utensílios. Ele olhou ao redor, mas não a encontrou. Ao entrar mais, seus olhos pousaram sobre uma mulher sentada em um banco baixo, com a cabeça apoiada na bancada, de olhos fechados.
“Roxana?”
Ele a chamou, mas não houve resposta; ela parecia dormir profundamente.
“Mandei que ela fosse carinhosa e sussurrasse palavras de amor, mesmo que falsas, e ela está fazendo algo completamente diferente.”
Curtis estreitou os olhos e retirou cuidadosamente o utensílio de cozinha que ela segurava. Foi então que ouviu uma voz murmurando.
“Não….”
Ele se assustou, achando que ela havia acordado, mas era apenas um sonho. Curtis balançou a cabeça e, no momento em que a levantou nos braços, ela falou.
“Mãe….”
Uma voz quase inaudível penetrou seus tímpanos. Roxana enterrou o rosto no peito de Curtis.
“Leve-me embora…. Por favor…. Não me deixe aqui….”
“…….”
Diante daquela voz embargada, Curtis petrificou. Desde a infância até o reencontro, Roxana sempre fora uma mulher corajosa que nunca derramava lágrimas diante dele. Aquela faceta, que ele desconhecia e jamais poderia ter imaginado, causou-lhe uma sensação como se alguém estivesse apertando seu coração com força. Enquanto ele se perguntava sobre aquela dor estranha, alguém entrou pela porta da cozinha.
“Se…… Senhor?”
Era a criada que costumava ser próxima de Roxana. Alice, era esse o nome? Curtis, afastando a dúvida que sentia momentos antes ao ver aquele rosto familiar, levantou o dedo indicador e o colocou sobre os lábios.
“Shh.”
“…….”
Diante daqueles olhos cinzentos que o observavam, Alice respondeu apenas balançando a cabeça repetidamente. Ela sabia que ele era bonito, mas, visto de perto, era um homem verdadeiramente belo. Embora seu olhar afiado desse uma impressão de difícil aproximação, de alguma forma, agora que ele segurava Roxana, parecia um pouco mais suave que o habitual.
Enquanto ela estava distraída, sentindo-se privilegiada por ter visto aquela cena rara, Curtis passou por ela carregando Roxana.
“Ele realmente não tem nada com a princesa. Preciso contar para Kesi agora mesmo.”
Alice, recuperando a consciência, saiu saltitando à procura de Kesi.
* * *
Frey reagiu com grande interesse à pequena novidade dentro do castelo.
“Então este é o prato de feijão? É bem diferente do que eu imaginava.”
Frey tateou o prato, que já havia esfriado, com as mãos, inclinando a cabeça.
“É só comer com a colher?”
“Fica mais saboroso se adicionar um pouco de molho de soja.”
“Certo. Vou provar um pouco.”
Roxana, em silêncio, colocou o garfo na mão de Frey e a ajudou a pegar um pedaço do tofu cortado. Frey levou o pedaço, levemente temperado com o molho, à boca, mastigou e engoliu calmamente. Roxana engoliu em seco, aguardando a avaliação.
“Como está…?”
“Hum….”
Frey pareceu pensativa por um momento, mas logo abriu um sorriso radiante.
“É melhor do que eu pensava! Quem diria que o feijão poderia ter essa textura. Incrível!”
Felizmente, foi aprovado. Roxana soltou um suspiro de alívio e sorriu de volta.
“Tentei várias formas de preparo. Fico feliz que tenha gostado.”
“Roxana, você é realmente incrível.”
“Qualquer um poderia ter pensado nisso. Foi apenas porque eu estava no convento.”
“É verdade! O convento.”
Frey, animada, estendeu a mão à procura da de Roxana. Roxana prontamente a segurou.
“Fiquei sabendo há pouco tempo. Você ficou um tempo no [glossario termo=”Convento Angela”]Convento Angela[/glossario], não foi? As freiras estão bem? E a Madre Superiora? Faz tempo que não as vejo. Eu deveria ter te visitado quando você preparou aquele ensopado.”
“…….”
“Elas continuam as mesmas, não é? Sinto muita saudade.”
À medida que Frey continuava a falar, a cabeça de Roxana ia se inclinando cada vez mais para baixo. Sob a insistência, Roxana suprimiu a emoção que subia até sua garganta.
“Sim. Elas estão bem. Elas também devem sentir sua falta.”
“Como está muito frio agora, quando o tempo esquentar e a primavera chegar, vou visitá-las!”
Frey, rindo com a boa notícia, prometeu.
“Você vai comigo, não vai, Roxana?”
“…….”
“Sim?”
“……Sim.”
Roxana respondeu com dificuldade e mudou de assunto discretamente.
“Aliás, o que se faz no dia de São Bento?”
“Roxana, você realmente veio do campo. Perguntar algo assim.”
Frey a repreendeu gentilmente e explicou.
“É um dia comemorativo para homenagear o mártir São Bento. Os chefes de vilarejos e cavaleiros de cada terra vêm para realizar um culto com o senhor e participar de um banquete. Na verdade, serve para promover intercâmbios.”
Roxana ouviu atentamente a explicação calma. Comparada às suas atitudes infantis, Frey era uma garota bastante inteligente e perspicaz.
Era um desperdício que uma garota tão inteligente fosse excluída da administração do castelo apenas por não enxergar. Será que não havia um jeito?
Enquanto ela estava imersa em pensamentos, a voz de Frey a trouxe de volta.
“Espero que os chefes de vilarejos fiquem do seu lado.”
“Sim. Eu também espero.”
Roxana sorriu timidamente diante do apoio caloroso. Desde que sua posição mudou de criada para amante, muitas coisas se transformaram. As roupas, a comida, o quarto. Havia muitos olhares de desprezo, mas ela já não se importava. Pessoas que realmente importavam confiavam nela, a apoiavam e a sustentavam.
Foi uma verdade que ela percebeu após se reconciliar com Alice e Kesi. Seja como filha de um marquês, freira ou amante, ela continuava sendo ela mesma. Ela queria viver como si mesma, sem ser influenciada pelos olhares e julgamentos alheios. Ela praticaria tantas boas ações quanto os inúmeros pecados que seu pai cometeu. Esse era um juramento que não tinha nada a ver com Curtis ou Frey.
“Ei, Roxana.”
Enquanto ela agradecia mentalmente por ter pessoas como Frey ao seu lado, uma voz suave a chamou.
“Sim?”
“Embora ela já tenha partido, não há nada entre o meu irmão e a princesa.”
“…….”
O tom era incomumente cauteloso, como se ela tivesse escolhido bem as palavras.
“Se for por causa do status, você nunca deve abrir mão do meu irmão.”
“Frey….”
“Na verdade, não sei qual é a relação entre você e meu irmão. Como não posso ver, não sei como vocês se olham. Mas você mesma disse: não é porque não se pode ver que não se pode enxergar tudo.”
Foi quando foram convidadas para o banquete da Baronesa Philomena. Roxana ouviu Frey em silêncio.
“Uma coisa é certa. Meu irmão precisa de você, Roxana. E você também precisa dele. Vocês são pessoas que precisam uma da outra. Não devem se separar.”
Diante da insistência convicta, Roxana baixou o olhar. Não. Não era algo tão doce.
Eles eram um casal que estrangulava um ao outro. Ele encontrava consolo ao atormentá-la, e ela, ao sofrer por ele, aliviava sua própria culpa. Curtis era carinhoso, mas tudo aquilo era mentira. A relação deles era assim. Por fora, fingiam paz, mas, ao olhar por dentro, era o inferno mais profundo.
“Prometa-me. Que não vai ceder meu irmão à princesa.”
“Está bem. Mas, mudando de assunto….”
Roxana forçou um sorriso e mudou de assunto naturalmente. Antes mesmo de ceder, ela seria descartada. Roxana achava que o capricho de Curtis não duraria muito. No máximo, até o próximo ano. Talvez, mesmo que não pudesse voltar ao convento, pudesse abrir uma pequena farmácia em algum lugar. Uma vida onde, durante o dia, ajudaria os fracos com o pouco talento que tinha e, à noite, rezaria silenciosamente pelos irmãos Russell.
Parecia uma vida aceitável.
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