O pai dela, o Marquês Dalton, era um homem que desconhecia o orgulho. Era ganancioso, egoísta e não possuía nem um pingo de compaixão ou misericórdia.
“Não se misture com gente vil, Roxana. Se surgir qualquer boato de que você conversou com plebeus na alta sociedade, seu valor — que já é nulo por ser mulher — cairá ainda mais.”
“Harold. Se não há dinheiro, aumente os impostos! Se não puderem pagar, venda as filhas deles. Não faltam bordéis por aí, não é? Se não quiserem isso, que se tornem servos da gleba!”
“Estão morrendo de fome e implorando por redução de impostos? Os súditos são meras ferramentas que existem apenas para servir ao seu senhor! Como ousam se rebelar? Capturem os líderes e executem-nos em praça pública!”
Sob a permissão do senhor, as pessoas do marquesado sob seu comando também cometiam todo tipo de atrocidades. Executavam súditos famintos, e pais, incapazes de suportar o peso do trabalho e dos impostos, eram forçados a vender as próprias filhas. Tratavam os servos da gleba como gado, sem lhes conceder qualquer dignidade humana.
Roxana não ficava apenas observando as maldades do pai. Com a ajuda de Mary, ela escondia sua identidade para patrocinar orfanatos secretamente ou estender a mão a gestantes que, sem ter para onde ir, estavam à beira da morte. Ela procurava as criadas expulsas injustamente do castelo, sem receber seus salários, e lhes entregava cartas de recomendação e o pagamento atrasado.
Mas isso foi há quinze dias. Por fim, suas saídas noturnas foram descobertas, e o Marquês Dalton, furioso, ordenou seu confinamento.
“Inútil. Pensei que você tivesse se acalmado um pouco depois que sua mãe morreu de doença há dois anos, mas… Fique reclusa até o dia em que se casar com seu noivo!”
No fim, Roxana perdeu sua liberdade e foi trancada no topo da torre principal. Tudo o que podia comer por dia era uma porção de mingau de aveia e um pedaço de pão duro. Estava com a saúde debilitada, exausta pelos sucessivos choques.
“Ninguém virá nos salvar.”
“O que quer dizer com…”
“Pense bem, Harold. Por mais que o poder real não seja o mesmo de antes, você acha que uma invasão como esta aconteceria sem a autorização de Sua Majestade?”
Além disso, os invasores que tomaram o castelo, embora parecessem ser formados por súditos, eram tão bem treinados quanto soldados de elite. Sob o comando de um homem de elmo negro, cercaram o castelo e subjugaram todos lá dentro com precisão absoluta. Eram soldados de um exército minuciosamente forjado e disciplinado.
“Tudo isso é o preço que precisamos pagar por nossos pecados. Temos que aceitar.”
À medida que as palavras de Roxana continuavam, o rosto de Harold se contorcia. Ele pareceu refletir por um momento, e então seu olhar mudou.
“Por acaso, você… Você está mancomunada com esses desgraçados?”
“O que está dizendo?”
“Não é isso? Com rancor por estar presa, você mandou alguém abrir os portões. Caso contrário, este castelo não teria caído tão rápido! É tudo culpa sua!”
Roxana não respondeu. Os olhos dele, injetados de sangue, giravam freneticamente.
“Eu vou te matar! Sua bruxa que traiu o próprio pai!”
Harold avançou num instante e apertou o pescoço dela com uma força aterrorizante. A dor invadiu seu corpo devido ao aperto brutal. Mesmo com o rosto de Roxana ficando pálido, nenhum dos homens armados interveio. Sentindo sua consciência se esvair, Roxana fechou os olhos.
Foi então.
“Aaaargh…!”
Algo respingou em seu rosto, seguido por um grito de agonia lancinante.
Assim que Roxana abriu os olhos, viu Harold caído ao lado, com o rosto desprovido de cor. Antes que ela pudesse processar a situação, uma voz grave penetrou seus tímpanos.
“As pessoas da família Dalton são sempre tão impacientes?”
Ao levantar a cabeça, ela viu um homem. Um guerreiro armado, limpando sua espada longa manchada de sangue, a observava de cima.
“…”
O homem do elmo negro. O líder que comandava aquele exército.
Sob a pressão esmagadora que lhe sufocava, Roxana encolheu os ombros. O homem possuía ombros largos e um porte físico notável, capaz de fazer qualquer um baixar a cabeça. Com uma estatura uma cabeça maior que a dos outros e uma expressão afiada, ele emanava uma autoridade inata. Quando ele se aproximou, os que o cercavam recuaram dois passos.
“Já que todos vão acabar na forca de qualquer jeito, por que tanta pressa para morrer?”
Ao cruzar o olhar com ele, ela prendeu a respiração. Ele sorria, mas a intenção assassina era sufocante. O brilho que emanava de dentro do elmo impedia Roxana de se mover.
“Ouvi dizer que havia uma filha que era uma vergonha para a alta sociedade. Vejamos.”
Sua língua travou. Enquanto Roxana permanecia paralisada, o rosto dele se aproximou para examiná-la.
O olhar dele parecia vasculhar até o interior das dobras de seu vestido. O calor que emanou de seu queixo, onde ele a segurava, fez Roxana tremer. Por alguma razão, ele não lhe parecia estranho. No momento em que foi tomada por uma estranha sensação de desconforto, o homem, tendo removido a manopla, estendeu a mão para ela.
Não houve tempo para desviar. Uma mão grande e de nós dos dedos grossos se aproximou. O homem limpou a bochecha de Roxana, manchada de poeira, cinzas e sangue.
“Não é feia.”
Sussurrando como se estivesse satisfeito com o rosto dela agora limpo, o homem ordenou que seus subordinados removessem o cadáver de Harold.
“Bem, então, vamos continuar nossa conversa.”
Como se não gostasse que Roxana observasse o mordomo sendo levado, o homem dobrou os joelhos para ficar na altura dos olhos dela. Em seguida, estendeu a mão novamente e afastou os cabelos desgrenhados de Roxana.
Diante da ação repentina do homem, Roxana congelou. A mão que tocou a curva de sua orelha roçou levemente seu pescoço. O contato com sua pele parecia queimar como fogo. Ao recuperar o juízo, Roxana afastou a mão dele.
“Tocar uma mulher dessa forma… Não conhece a cavalaria?”
“Cavalaria?”
O homem repetiu as palavras de Roxana e soltou uma risada contida. Os cavaleiros ao redor também começaram a zombar dela. Embora sentisse o rosto arder de humilhação, Roxana proferiu as palavras que havia preparado.
“Poupe os soldados e cavaleiros que se renderam. E torne as criadas, servos e súditos capturados em seu próprio povo. Como súditos livres, não como servos da gleba.”
Foi um pedido audacioso. O homem inclinou a cabeça e perguntou:
“Por que eu faria isso?”
“Se prometer fazer isso, entregarei o selo do Marquês com minhas próprias mãos.”
Diante da condição de Roxana, o homem silenciou por um momento. O selo. Era o símbolo necessário para conquistar e ocupar um território. Por mais que se esmagasse pela força, sem o selo, não se poderia ser reconhecido como o novo senhor.
Em meio ao frio que lhe invadia o corpo, Roxana forçou a voz.
“Se não aceitar, mesmo que revirem tudo, jamais encontrarão o selo. Eu o escondi muito bem.”
Em vez de fugir para salvar a própria vida, ela enviou Mary e usou até o último segundo para concluir aquela tarefa.
Era seu dever como filha do senhor. Se o pai não pôde proteger as pessoas, ela deveria fazê-lo.
“Que insolência!”
“Vamos torturá-la até que confesse!”
Diante do pedido que era mais do que ousado, era descarado, alguns dos cavaleiros sob o comando do homem proferiram insultos. Mesmo diante da intenção assassina que parecia pronta para avançar, Roxana permaneceu calma. Quando seus lábios começaram a ficar azulados, uma risada súbita quebrou o ar gélido.
“Hahaha!”
O homem se levantou e levou a mão à bainha da espada. Num piscar de olhos, a lâmina, brilhando com um gume azulado, cortou finamente o pescoço de Roxana. Junto com uma dor ardente, seus cabelos ruivos, cortados como palha, caíram aos montes.
“Se você usou a cabeça para tentar sobreviver, parabéns, funcionou. Mas que pena, não tenho a menor intenção de incorporar este lugar fétido ao meu território. Portanto, não preciso de selo algum. Basta transformar tudo em terra arrasada.”
O homem pisoteou e insultou o marquesado. Rejeitou até mesmo a coragem que ela reuniu com todo o seu esforço. Enquanto Roxana, com a mente em branco, perdia a fala, o homem removeu lentamente o elmo.
O que apareceu primeiro foram os cabelos negros como azeviche. Diante daqueles fios, de alguma forma familiares, os olhos de Roxana começaram a tremer violentamente.
Em seguida, ela encontrou olhos cinzentos de um brilho misterioso, como os de um lobo. Outrora um cinza vibrante e enigmático, agora escurecidos a um ponto de profundidade insondável.
“Implore, Roxana. Quem sabe? Se você for boa em bajular, talvez eu te poupe.”
Ele arrastou a ponta afiada da lâmina pelo pescoço dela. Sentada na lama misturada com sangue, Roxana olhou fixamente para aquele homem estranho.
Você… você certamente estava morto.
Meu primeiro amor.
* * *
“É Curtis Russell. Treze anos.”
“Vou te valorizar mais do que qualquer um. Roxana. Mais do que qualquer joia.”
Era o garoto que aparecera em seus sonhos. Lágrimas escorriam por suas bochechas pálidas. Estaria tendo alucinações? Mas, se fosse o caso, todos os seus sentidos estavam vívidos demais.
“Eu ouvi… que você tinha morrido.”
O culpado pela aniquilação da família do Marquês de Fronteira Russell não foi outro senão seu pai, o Marquês Dalton. Ele usou evidências e testemunhas forjadas para acusar a família de traição. Queimou o castelo e executou todos, sem poupar nem as crianças. Disseram que os corpos da família Russell foram jogados aos cães selvagens, sem deixar vestígios.
“Sobrevivi dentro do inferno. Meu criado morreu em meu lugar.”
“Não pode ser…”
Diante da resposta direta, Roxana baixou a cabeça. Sentia como se a pata de uma fera estivesse esmagando sua garganta. Choque, tristeza, alegria e desolação. Culpa.
As gotas de chuva, que caíam uma a uma, tornaram-se mais intensas e desabaram sobre suas cabeças. Sob a chuva torrencial, as costas magras de Roxana tremiam silenciosamente.
Observando aquela cena, Curtis chamou seu nome em silêncio.
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