“Por que não leva a senhorita Frey para passear?”
“O quê?”
“Peço perdão pela ousadia, mas não há ninguém no Sul que não saiba que a senhorita é cega. No entanto, isso não significa que ela deva ficar trancada dentro deste castelo para sempre.”
Certamente, ser cega não era um pecado. Tampouco alguém cego era um criminoso. Contudo, a curiosidade e a piedade, por vezes, tornavam-se mais venenosas que qualquer coisa. Frey era uma irmã mais nova delicada e frágil como uma boneca de vidro. Uma irmã que ele precisava proteger e esconder em seus braços por quanto tempo fosse necessário.
“Ainda é cedo.”
Curtis, recusando com firmeza, fez um gesto com a mão para encerrar o assunto. Robert, suspirando por dentro, virou-se antes de sair.
“Dito isso, o que faremos com o pedido de entrada?”
“Deixe passar. Feche o portão da muralha externa um pouco mais tarde. Deixe os soldados de guarda. Dentro da muralha interna, a entrada de estranhos é estritamente proibida.”
Curtis, que havia voltado a examinar os documentos, acrescentou:
“Exceto pela máscara branca.”
* * *
A teimosia de Frey era mais forte do que a de qualquer boi. Mesmo após o sucesso em alimentá-la, ela comia de forma caprichosa, limpando a boca com o guardanapo logo em seguida, o que fazia Roxana tratá-la com o coração de uma mãe pássaro alimentando seu filhote.
“Se comer só isso, não pedirei mais. É verdade.”
“Por que eu deveria? Quem você pensa que é? Ficou atrevida só porque me trouxe um pouco de comida?”
As pessoas não mudam facilmente. O fato de ter ficado comovida com a comida não alterava a personalidade ou o caráter de Frey. Roxana não esperava gratidão, mas a resposta ácida fez seu corpo perder um pouco da energia.
“Sim. Eu não sou nada. Mas a senhorita é a única e preciosa filha da família do Marquês da Fronteira. Precisa estar saudável para viver muito tempo, comer coisas boas e visitar lugares maravilhosos.”
“O que há de bom em visitar lugares se não consigo enxergar? Você está me provocando por estar trancada no castelo por ser uma cega que não vê nada!”
Irritada, Frey derrubou a comida.
“Ah, Roxana!”
Alice, que trouxera a comida junto, aproximou-se apressadamente de Roxana. Roxana, que acabou coberta pelo ensopado, limpou o caldo que manchava sua bochecha com as mãos.
“Você está bem?”
Alice, inquieta, estendeu seu lenço. Roxana, agradecendo com o olhar, limpou calmamente o ensopado que estava em sua bochecha, nariz, lábios e pescoço. Então, falou suavemente com Frey.
“Estou bem, senhorita. Já estava frio. A senhorita derrubou de propósito, não foi?”
“Derrubei de propósito? Quem dera você tivesse se queimado. Assim, nunca mais veria seu rosto.”
“Sei que não diz isso de verdade.”
“…Você é realmente irritante.”
Alice ficou boquiaberta com a conversa das duas. Ela achava que apenas a senhorita Frey era teimosa, mas Roxana não ficava atrás. Parecia ver uma lança que perfurava tudo contra um escudo que bloqueava qualquer coisa.
“Sinto muito se a forcei quando a senhorita realmente não queria comer.”
“Se tivesse tirado logo, isso não teria acontecido.”
“Da próxima vez, farei algo ainda mais saboroso.”
“Chega, limpe isso e saia. Vou dormir por hoje.”
“Ah. Então, vou preparar a cama e…”
“Saia!”
Devido aos gritos estridentes, Roxana e Alice saíram do quarto como se tivessem sido expulsas. Com medo de que Frey ouvisse e reclamasse, Alice caminhou na ponta dos pés. Só conseguiram recuperar o fôlego ao chegar na cozinha.
“Ainda sinto aquela voz estridente ecoando nos meus ouvidos.”
“A voz dela é realmente potente.”
“Como você consegue não mudar nem um pouco a expressão? Quando disse que ia preparar a cama e sair, achei que meus ouvidos estivessem me enganando.”
“Porque esse é o meu trabalho.”
Roxana deu de ombros e, com o dedo indicador, provou o resto do ensopado que ficou na tigela. Não estava sem tempero nem salgado demais. Será que ela apenas não queria jantar hoje?
“Roxana, você não tem medo da senhorita Frey?”
“Medo?”
“Sim. Se vacilar, pode levar um tapa e, na pior das hipóteses, ser odiada pelo Marquês da Fronteira e ser punida.”
“Ela pode ser exigente, mas não é uma pessoa assustadora.”
“O quê?”
“Ela parece um gato bonito e sensível.”
“Um gato?”
Ela preferia os dias agitados e frenéticos de agora do que a rotina repetitiva de antes. Embora se assustasse ao ver o rosto de Curtis toda vez que olhava para Frey, ao contrário do irmão, Frey era uma garota bastante pura. Ela queria se tornar os braços e pernas daquela que não podia ver. Ao pensar que esse era o único caminho para a expiação, sua determinação se fortaleceu.
“Meu Deus. Você não está bem da cabeça.”
Roxana, ignorando a chocada Alice, colocou a tigela na água que já havia separado e começou a lavar a louça. Alice balançou a cabeça, sem nem pensar em pegar o pano de prato.
“Pensei que você fosse chorar e fugir em poucos dias, mas você é bem resistente…”
“Hm?”
“Nada. Esquece.”
Alice deu um sorriso forçado e, quando estava prestes a se concentrar na louça:
“Roxana! Alice!”
A porta dos fundos se abriu de repente e Kesi entrou correndo. Era a criada com quem Roxana se tornara muito próxima desde que salvara sua irmã mais nova.
“Vocês ouviram a notícia? Que o Banquete das Fadas será realizado hoje à noite?”
“Ah, é verdade! Já chegou a época?”
Alice bateu palmas e jogou o pano de lado. Seu rosto, assim como o de Kesi, estava corado.
“Banquete das Fadas?”
“Ah, é verdade. Você veio de fora, não é?”
Alice, parecendo ter se dado conta tardiamente, trocou olhares significativos com Kesi.
“Pelo visto, você é uma novata. Pode esperar ansiosa por hoje à noite, senhorita.”
O ‘Banquete das Fadas’ era, na verdade, a visita de um grupo de ciganos.
A chegada do grupo de ciganos, que viajava por todo o país vendendo danças, músicas e artes, era um festival emocionante que acontecia uma vez por ano. Em tempos de paz, a maioria das pessoas recebia bem a visita dos ciganos. Eles ficavam pouco tempo, mostravam coisas raras e, em troca, recebiam apenas um pouco de comida e dinheiro.
“Olhem aquele traje! O umbigo e os braços estão à mostra. Onde será que conseguem essas roupas e como as vestem?”
“Olhem aquela pele lisa. Deve ser porque compram poções de bruxas e passam, não é?”
“Aquele macaco está acenando para nós!”
Liderado por carruagens luxuosas, o grupo de ciganos de pele bronzeada e roupas reveladoras entrou na muralha interna. Como se estivessem assistindo a um desfile de vitória, os moradores do feudo ficaram parados na beira da estrada principal, acenando. No meio da multidão, Roxana logo perdeu Kesi e Alice de vista.
“Kesi? Roxana?”
Enquanto era empurrada de um lado para o outro, a multidão seguiu o grupo de ciganos e se afastou. Roxana, que parecia ter sido abandonada na beira da estrada, estava limpando a poeira de suas roupas quando algo rolou à distância.
“Será que um dos ciganos deixou cair?”
Ao pegar, viu que era uma máscara branca. Era um modelo que cobria completamente o rosto, exceto pelos pequenos orifícios para os olhos, e possuía um tecido preto atrás que cobria até o cabelo.
“Ei!”
Roxana, que girava a máscara curiosa com o visual, gritou para os ciganos que já haviam se tornado um ponto distante. No entanto, o som estridente dos instrumentos e os aplausos das pessoas abafaram sua voz.
Somente após atravessar a multidão, Roxana conseguiu se aproximar do grupo. Ao bater na porta da carruagem, um cigano que estava se maquiando para a apresentação a atendeu.
“Máscara branca? Ah, essa é do nosso líder.”
“É mesmo? Onde ele está agora?”
“Quem sabe. Mas, senhorita, por acaso está livre agora?”
O cigano, com um sorriso malicioso, acariciou a ponta do cabelo dela. No momento em que Roxana se sentiu desconfortável com o contato repentino, uma cigana que usava uma peruca lá dentro bateu na mão do homem.
“Pare com isso. Não é como se estivesse no cio.”
“Só estava tentando conversar. Não estou traindo você, está brava?”
“Cale a boca. E você, senhorita?”
A cigana, tendo afastado o homem, examinou Roxana de cima a baixo.
“Você trabalha naquele castelo?”
“Sim, trabalho.”
“Então que bom. O líder foi para lá. Você pode entregar diretamente a ele.”
“O quê?”
“Sem isso, não haverá apresentação nem nada hoje. É mais precioso que a vida para a nossa velha, então entregue logo. Entendeu?”
Os olhos de Roxana se arregalaram de perplexidade. A cigana, com um sorriso frio, fechou a porta da carruagem com força.
De qualquer forma, ela já tinha visto o grupo de ciganos e pretendia voltar ao castelo. Não estava acostumada com tanta agitação e precisava dormir como de costume para servir a senhorita Frey na manhã seguinte.
“Será que me envolvi em algo desnecessário…”
Mas o desconforto em algum lugar não podia ser evitado. Roxana, suspirando, apresentou seu documento de identificação e entrou na muralha interna. Pensando em devolver logo a máscara e ir para o quarto, ela percorreu vários lugares da muralha interna. No entanto, por algum motivo, não havia soldados patrulhando como de costume e todos tinham ido ver os ciganos, deixando o ambiente completamente silencioso.
“Onde será que ele está?”
Ao continuar andando, a sola de seus pés começou a latejar. Depois de vagar muito, ela chegou em frente à árvore zelkova no pátio central. Havia um balanço baixo pendurado, talvez para crianças. Ela já o tinha visto algumas vezes, mas nunca tinha se sentado nele por causa do olhar das pessoas. Roxana, observando os arredores, sentou-se no balanço.
A máscara que ela carregava era de um estilo difícil de ver por ali. Havia letras com um padrão misterioso escritas na testa. No momento em que ela examinava aquilo com atenção, um homem se aproximou por trás, acompanhado pelo som de passos sobre a grama.
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