“Preciso da sua habilidade.”
Pensando bem, Curtis Russell era um homem a quem o vermelho caía muito bem. Quando o conheci, ele estava coberto de sangue vermelho da cabeça aos pés. O garoto, que não devia ter mais de quinze ou dezesseis anos, já possuía um olhar de quem havia atravessado o próprio inferno. Foi um instinto astuto que me fez segui-lo.
Uma crença cega de que apenas este homem seria capaz de me usar da maneira necessária. Essa crença provou-se correta, e o garoto temível tornou-se, com o tempo, um homem semelhante a uma ave de rapina.
Deixando os pensamentos de lado, Robert entrou no assunto principal.
“Na verdade, mudei o quarto de Roxana para o cômodo ao lado do quarto da senhorita Frey.”
Ele agiu por conta própria, pois não suportava mais a situação. No entanto, Curtis, de quem ele esperava uma repreensão, apenas piscou os olhos, surpreso.
“Por quê?”
“O senhor não viu anteriormente? A senhorita dormia profundamente.”
“Deve ter sido porque ela gastou todas as energias fugindo.”
“Ainda assim, nunca se sabe.”
“…Bem. Ela deve ter sofrido o suficiente. Então, está bem.”
Murmurando com desdém, Curtis levantou-se abruptamente.
“O que Frey está fazendo agora?”
“Ela está dormindo… Senhor!”
“Preciso ir vê-la.”
Curtis agiu no instante em que pensou. Após bater à porta e abri-la silenciosamente, viu que, como Robert dissera, Frey já dormia profundamente. Curtis sentou-se na cadeira à cabeceira da cama. Em seguida, puxou o cobertor grosso que caía até a cintura dela, cobrindo-a até os ombros. Frey franzia o rosto, talvez por causa de um pesadelo. Enquanto ele pressionava o indicador entre as sobrancelhas dela para suavizar a expressão, Robert, que o seguira, falou:
“Dizem que ela recusou o café da manhã e o jantar hoje também. A criada responsável só conseguiu convencê-la a comer um pouco no almoço.”
“Com razão, suas bochechas estão abatidas.”
Murmurou Curtis, observando o rosto da irmã com um olhar afetuoso. Sendo sua única parente de sangue e o único tesouro que precisava proteger, Frey sempre foi seu ponto fraco e um espinho sob sua unha. Embora fosse mimada e um tanto indisciplinada por ter crescido como uma princesa, a imagem da irmã inocente e radiante não existia mais. Apenas uma garota pálida e frágil, que perdera a visão, jazia na cama.
“Então, com licença. Tenha uma boa noite.”
Robert despediu-se respeitosamente e saiu, deixando o quarto mergulhado em silêncio novamente. Curtis, que havia cochilado, despertou ao ouvir vozes vindas de algum lugar.
“…O que é isso?”
Levantando-se, Curtis aproximou-se de onde o som vinha. A fonte não era outra senão o quarto ao lado. As palavras de Robert passaram por sua mente. Ele dissera que havia transferido Roxana para aquele quarto.
Caminhando silenciosamente, ele se aproximou do cômodo.
Roxana. Roxana Dalton.
Todos que a conheciam eram favoráveis a ela. Talvez preocupada que ele a submetesse a trabalhos forçados, a Madre Superiora insistira várias vezes:
“A irmã Roxana é uma pessoa fiel e bondosa. Não a odeie tanto, Curtis.”
“Madre Superiora.”
Ela era uma das poucas pessoas que presenciara seu passado mais miserável. Uma benfeitora que lhe estendeu a mão sem condições quando ele estava no fundo do poço. Por isso, as palavras da Madre Superiora tinham um peso maior que as de qualquer outro.
“Quando estiver perdido, examine novamente o ponto de partida. A resposta, inesperadamente, não está longe, mas dentro do seu coração.”
Enquanto voltava para o castelo na carruagem, Curtis mergulhou em pensamentos ao observar a mulher sentada à sua frente. Era desconfortável tratá-la de qualquer jeito, mas ele também não podia oferecer mais consideração do que o necessário. Enquanto ponderava, a carruagem parou e, naturalmente, ele desceu e estendeu a mão para ela. A expressão de choque e confusão dela ainda estava vívida em sua mente. Uma reação de quem não esperava nem mesmo aquele pequeno gesto.
Eles eram inimigos mortais. O pai dela tirara tudo o que ele tinha, e, em troca, ele tirara tudo dela. Era um relacionamento que cruzara um rio sem volta, impossível de perdoar ou ser perdoado.
No entanto, no momento em que ela tropeçou, assustada com um tumulto repentino, foi quase instintivo estender o braço. A cintura fina que cabia em um único braço e o breve contato com o peito dela. Ele sentiu claramente o batimento cardíaco acelerado, como o de um cervo preso em uma armadilha.
Retirando a mão bruscamente, Curtis tentou justificar seu desconforto de qualquer maneira. Era por causa das memórias de infância. Era porque o passado, que ele tolamente não conseguira apagar, o prendia. Por isso, ele queria ver o lado mais sórdido de Roxana. Esperava que ela estivesse roncando ou amaldiçoando a família do Marquês da Fronteira Russell.
Mas o que ouviu foi uma oração, o oposto exato de suas expectativas.
“Sou uma pessoa insuficiente. Sou tola, infiel e incapaz de ver além. Em vez de olhar para o recipiente do meu próximo para ver se ele tem mais do que o meu, que eu seja alguém que se preocupa se o recipiente do meu próximo é menor que o meu, e que eu cuide dele. Além disso…”
A mão que segurava a maçaneta apertou-se.
“Peço fervorosamente, devolva a visão da senhorita Frey. Leve a minha em troca, e se isso não for possível, leve a minha voz. Se nem isso for possível, desejo que as noites da senhorita sejam sempre quentes e suaves, como se envoltas em seda.”
Com um clique, a maçaneta girou. Roxana, assustada com a presença de alguém durante sua oração, virou-se. No momento em que reconheceu quem era, seus olhos violetas vacilaram.
“…Conde?”
“Parece que você ainda se ilude achando que é uma freira.”
O choque durou pouco. Curtis, escondendo rapidamente sua expressão, ficou no batente da porta e percorreu o quarto com o olhar. Era um quarto maior que o das outras criadas por ser dedicado a servir a um único mestre, mas ainda assim era pequeno e simples. Uma cama de palha e uma mesa de cabeceira que parecia prestes a desmoronar. Sobre ela, um crucifixo de madeira humilde e um rosário. Roxana, que estava ajoelhada no chão de pedra frio, sem nem mesmo um tapete, levantou-se hesitante.
“Peço perdão se fiz barulho.”
“Acredita mesmo que orar a Deus faz as coisas mudarem?”
“Sim?”
Roxana inclinou a cabeça diante da pergunta repentina. Curtis, com um sorriso de escárnio, aproximou-se até ficar bem à frente dela.
“Acha que algo muda com algumas palavras de oração insignificantes?”
Curtis lembrou-se de quando deixou tudo para trás e fugiu com sua irmã cega. Parentes que costumavam visitá-los e até os moradores do feudo com quem eram próximos tratavam os irmãos como se fossem uma maldição. Como se fossem lâminas que cortariam quem os tocasse, ou animais selvagens indomáveis, eles gesticulavam, expulsavam e ignoravam.
O mundo é cruel. Quando se tem fartura, todos estão ao seu lado, mas quando se passa fome, ninguém ajuda.
Enquanto Roxana ficava sem palavras diante da pergunta repentina, Curtis, após lançar um olhar para a borda do cobertor gasto, sentou-se pesadamente na cama.
“Falando nisso, lembro-me do homem que tentou te estrangular. Harold, não era? Diziam que era um mordomo que estava com você há muito tempo.”
“…”
“Sentiu-se aliviada quando o matei diante dos seus olhos?”
O passado terrível permanecia como um jugo, pressionando sempre suas costas. Sua família foi exterminada, e ele deixou a irmã mais nova em um convento. Como irmãos sem identidade, eles eram muito visíveis, então ele partiu sozinho, deixando para trás Frey, que chorava e implorava para que ele não fosse. Fez de tudo para viver em um lugar onde ninguém o conhecesse. Sujou as mãos de sangue para se vingar. Cortou pessoas como um açougueiro. Se necessário, matou mulheres também. Ao olhar para trás, para o rastro que deixou, via apenas poças de sangue cheias de ódio, fúria e maldição.
“Seja honesta, Roxana. De qualquer forma, estamos apenas nós dois aqui.”
Curtis queria arrastar a nobre e bondosa Roxana Dalton até o lugar onde ele estava. Queria ver com seus próprios olhos ela se contorcendo de forma feia, amaldiçoando e ressentindo as pessoas que a traíram. Queria confirmar que ela não era diferente dele. Se visse isso, toda essa agitação e instabilidade inexplicáveis desapareceriam.
“Soube que viu Mary no caminho? Sua antiga criada.”
Roxana baixou o olhar. Curtis segurou o cotovelo dela para forçá-la a mostrar o rosto escondido entre os cabelos ruivos ondulados.
Roxana, cambaleando, caiu sobre a cama e tentou levantar o tronco apressadamente. No entanto, uma força poderosa pressionou seus ombros.
“Como foi o reencontro?”
Cabelos negros desgrenhados sobre a testa, olhos longos e elegantes, pupilas cinzentas afiadas como as de uma ave de rapina. A ponte do nariz reta e bem definida. Enquanto a encarava como se estivesse prestes a deixar marcas de mordida em seu pescoço novamente, o toque que acariciava sua bochecha era terno e suave.
“Não sentiu raiva ao vê-la bem alimentada e vivendo bem, mesmo tendo te traído? Não se arrepende de não ter dado um tapa na cara dela?”
Diante das palavras cortantes, Roxana desviou o rosto em vez de responder. Os cabelos cobriram seu rosto novamente. Curtis, estalando a língua mentalmente, estendeu a mão para afastar os fios e ver seu rosto, mas Roxana ergueu a cabeça novamente.
“Não. Não é assim.”
“O quê?”
O tom respeitoso que ela usava desapareceu. Curtis não conseguia desviar os olhos dela.
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