“Irmã Elin!”
O rosto de Roxana se contorceu em choque, ressentimento e mágoa. A Irmã Elin continuou a falar com calma.
“Vivemos como irmãs nos últimos dois anos. Por isso, eu a conheço bem. Roxana, se você ficar aqui, continuará se torturando. Sentirá culpa pela Madre Superiora e assumirá toda a responsabilidade, não importa qual seja a verdade.”
Ela não podia negar. Roxana fechou os olhos com força. Embora tivesse mudado após passar por tantas coisas, sua essência permanecia a mesma. Frequentemente, ela ainda voltava em sonhos ao dia em que o castelo desmoronou. Os rostos dos cavaleiros e das pessoas do castelo que morreram surgiam em sua mente, um por um. Como filha do senhor, ela arriscara a vida para proteger os súditos e os sobreviventes o máximo que pôde, mas aqueles que morreram ainda pesavam em seu peito como um jugo.
“Eu não vou permitir que você se veja assim, Roxana.”
A Irmã Elin soltou o abraço e segurou o rosto de Roxana com as duas mãos.
“Você não deve fugir do passado com remorso e depressão. Deve encará-lo, assim como encarou o Marquês da Fronteira Russell para salvar as crianças. Pense e repense em como se perdoar e como ser perdoada.”
Russell. Curtis. Ao ouvir o nome inesperado, Roxana entreabriu os lábios. Ela nunca havia mencionado isso em voz alta, mas o olhar da irmã mostrava que ela já sabia o que havia acontecido entre eles.
“Encontre a resposta. Não volte até que a encontre. Irmã Roxana… não, Roxana.”
Foi um aviso gentil e cruel. Roxana baixou a cabeça em silêncio.
De ‘Roxana Dalton’ para uma ‘noviça’ em um convento remoto. E agora, ela voltava a ser apenas ‘Roxana’, alguém que não era nada.
Ela não era mais a senhorita da família do Marquês, nem uma noviça.
Agora, ela era apenas ‘Roxana’. Uma Roxana que não era nada.
* * *
Ao contrário do plano de ficar alguns dias, as férias terminaram em apenas dois. Como ela não tinha trazido quase nada, arrumar a bagagem foi simples. Após se despedir das duas irmãs, Roxana prendeu a bolsa que trouxera na sela do cavalo.
Greg ajudou Roxana a subir na sela sem dizer uma palavra. Quando ele se virou após confirmar que ela segurava as rédeas, Roxana o chamou baixinho.
“Tenho uma pergunta.”
“…….”
“Posso perguntar?”
Em vez de responder, Greg assentiu com o rosto rígido. Roxana fechou o punho, abriu-o novamente e baixou a cabeça.
“Curtis… não… o Marquês também… sabia? Sobre o que aconteceu há dez dias?”
Não podia ser. Por mais que ele a odiasse, ele não era alguém capaz de tal coisa. Seu estômago deu um nó e sua boca ficou seca. Roxana pressionou o homem silencioso por uma resposta.
“Não é…? Não é verdade, é?”
No entanto, o que recebeu foi uma admissão direta.
“Ele sabia.”
Seu corpo vacilou e pendeu para o lado. Greg, surpreso, a segurou. Roxana afastou a mão dele como se estivesse repelindo algo sujo e, com esforço, endireitou as costas. Seu coração, que batia descompassado, esfriou. Sentiu como se estivesse caindo em um abismo sem fim. Ao ver o rosto dela, pálido como se o sangue tivesse evaporado, Greg montou em seu próprio cavalo em silêncio.
* * *
Roxana não disse uma palavra durante todo o caminho de volta ao castelo e, assim que atravessou a ponte levadiça, desceu da sela como se tivesse saltado. Alice e Kesi, que estavam saindo naquele momento, a cumprimentaram alegremente.
“Roxana? Já voltou?”
“Por que seu rosto está assim? Aconteceu alguma coisa?”
As duas ficaram paralisadas ao ver a expressão dela, que nunca tinham visto antes. Sem responder, Roxana passou por elas e encontrou Robert. Assim como as duas anteriores, ele a recebeu com um rosto surpreso.
“Roxana. Voltou cedo.”
“Mordomo. Onde está o senhor?”
“Perdão?”
“O senhor está no quarto?”
O tom era o de sempre, mas seu olhar era frio como gelo. Diferente de como ela sempre mantinha a calma mesmo diante das provocações de Lizzie, parecia que ela explodiria a qualquer momento. Robert, hesitante diante daquele olhar perigoso, bloqueou seu caminho.
“Não sei o que aconteceu, mas primeiro tente se acalmar…”
“Ele está, não está?”
Lendo a confirmação no rosto de Robert, Roxana passou por ele sem hesitar e subiu as escadas. Com passos rápidos que ninguém poderia deter, ela invadiu o quarto do senhor e abriu a porta sem hesitação. Curtis, que estava trocando de roupa, virou-se surpreso. Os músculos definidos do abdômen e o osso do quadril, revelados sob a camisa branca, foram rapidamente cobertos. Escondendo o constrangimento, ele passou a mão pelo cabelo de forma irritada.
“Quer morrer?”
“Talvez.”
Roxana, que trancou a porta violentamente atrás de si, assentiu enquanto o encarava.
“O quê?”
Curtis franziu a testa. Ele não conseguia acreditar no que via e ouvia. O uso de linguagem informal e o olhar desafiador. Parecia que alguém havia possuído o corpo de Roxana.
“Você comeu alguma erva que te deixou louca no convento? Enlouqueceu de vez?”
“Eu gostaria que fosse isso, mas não é.”
Roxana sorriu friamente e entrou no quarto. Ela olhou ao redor, avistou a tapeçaria decorada no pé da cama, ficou na ponta dos pés, agarrou-a e a jogou na lareira que ardia em chamas.
“O que você está fazendo!”
Indignado com a situação repentina, Curtis agarrou o braço dela. A força era tão grande que ela temeu que seus ossos quebrassem, mas a expressão de Roxana não mudou.
“Você sabe. Se quer morrer, não precisa chegar a esse ponto. Se me pedir para te matar, eu mato agora mesmo.”
Apesar dos lábios trêmulos, seus olhos não sorriam. Roxana o encarou enquanto ele segurava seu braço.
“É verdade. Você sempre cumpriu o que prometeu. Disse que eu acabaria implorando para morrer, e eu tinha esquecido disso.”
As palavras dela eram cada vez mais incompreensíveis. Enquanto Curtis semicerrava os olhos, tentando entender, Roxana reuniu todas as suas forças, soltou-se do aperto dele e cuspiu entre os dentes:
“Certo. Você não me matou porque era para isso que me queria.”
Para ser exato, a morte da Madre Superiora foi um acidente. Curtis não a matou. Havia um fato claro, mas sua mente, cheia de raiva, recusava-se a fazer um julgamento racional.
“A Madre Superiora era como outra mãe para mim. Ela era minha mentora, minha mãe e meu… refúgio.”
A última palavra foi quase inaudível. O rosto de Curtis escureceu drasticamente ao perceber a causa nas palavras seguintes dela.
“Como pôde fazer isso? Você veste a pele de um humano, mas não deveria manter o mínimo… o mínimo de consciência e decência? Ela também foi sua benfeitora.”
Sua voz tremia sem rumo. A pressão dolorosa em sua garganta tornava difícil até falar.
“Você deveria ter me deixado estar presente no leito de morte da Madre Superiora. Você deveria ter feito isso. Se você fosse humano. Se você fosse um humano com um pingo de moralidade. Não é…?”
Um silêncio eterno passou entre os dois. Curtis, que a observava sem expressão, perguntou calmamente:
“Por que eu faria isso?”
“……O quê?”
“Você está certa. A Madre Superiora do Convento Angela é minha benfeitora. Por isso, apoiei o convento com suprimentos por anos. Como você deve saber. E não foi só isso. De onde você acha que vinha toda aquela lenha no inverno?”
Ha, uma risada vazia escapou dos lábios de Roxana. Rindo por um longo tempo, como se seus pulmões estivessem cheios de ar frio, Roxana cambaleou para trás. Um monstro gigante estava diante de seus olhos.
“Então… a dívida de gratidão foi paga?”
Roxana balançou a cabeça como se não pudesse acreditar e murmurou. À medida que ela recuava, Curtis dava um passo à frente e sorria com desdém. Incapaz de se conter, Roxana levantou a mão.
“Seu canalha!”
No momento seguinte, Curtis segurou a bochecha esquerda devido à dor ardente. Ao virar o rosto de volta, uma escuridão profunda e viscosa se instalou em seus olhos.
“Você está certa, Roxana. Eu sou um desgraçado sem cavalheirismo, sem consciência e sem moral.”
“…….”
“Mas, se me permite apontar uma coisa.”
Ele se aproximou e sussurrou:
“Leito de morte? Não entendo por que você está agindo assim por causa de algo tão insignificante.”
A mão de Roxana subiu novamente. No momento em que ela estava prestes a desferir o golpe, ele segurou seu pulso.
“Solte.”
“Não é assim?”
“Eu disse para soltar!”
“A vida humana é assim mesmo. Parece que vai durar para sempre, mas se rasga facilmente como papel. Há dez anos, minha mãe e meu pai também morreram de forma terrível de repente. Seu pai os esquartejou de tal forma que nem os corpos pudemos encontrar e os jogou no deserto. Leito de morte? Eu nem sequer tenho um túmulo para visitar; enterrei caixões vazios no mausoléu.”
O olhar que se aproximou brilhava com loucura. Roxana sentiu o fôlego faltar diante da emoção viscosa e quente que emanava dele. Quando ela fechou os olhos com força, o aperto em seu pulso se soltou. Roxana, que caiu sentada no chão, perguntou com o rosto desolado:
“Por que você me deu uma semana de férias?”
“Porque era uma promessa.”
“Você poderia ter me impedido de ir ao convento. Mas você simplesmente me deixou ir. Você poderia ter me enganado por mais tempo. Quanto mais tarde eu soubesse, mais eu teria me contorcido de dor.”
“…….”
“Não me diga que você sentiu um pingo de consciência pesada?”
Foi uma pergunta que atingiu o ponto central. Curtis, cerrando o maxilar, escondeu a expressão rapidamente. Então, ele se ajoelhou para encará-la. Era a mesma posição de ambos no dia em que se reencontraram.
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