“Peço perdão por tê-lo convidado e, ainda assim, permitir que se envolvesse em um incidente tão deplorável. Se houver alguma compensação que deseje…”
“Só quero uma coisa.”
Diante da resposta firme como uma fortaleza, Enoch engoliu um suspiro. Tudo por causa de Derek Otis, aquele primo bastardo e desmiolado. Se dependesse apenas de sua vontade, ele o teria jogado na boca daquele homem, não importando as consequências. Mas não podia. Embora tivesse sido expulso da capital e recebido apenas o título de Visconde devido à origem humilde de sua mãe biológica, Derek Otis ainda era sangue do rei.
“Você já o fez pagar o preço. O Visconde Otis também concordou em manter a boca fechada sobre isso.”
“Naturalmente. Afinal, você o manteve vivo. Por pura misericórdia.”
Embora tenha dito com cautela, Curtis Russell parecia achar a pergunta óbvia demais. Após refletir, Enoch propôs:
“Cedo dez por cento das terras do Visconde Otis. Com a condição de que guarde silêncio sobre tudo o que aconteceu hoje.”
A reputação do Visconde Otis na sociedade aristocrática já estava no fundo do poço. Sempre que aparecia na capital, importunava as criadas e já havia forçado damas nobres de títulos inferiores. Sem mencionar o jogo e as agressões.
Fazer tal concessão era uma tentativa de apaziguar o Marquês da Fronteira, a quem o rei confiava e favorecia, e evitar que a reputação já arruinada do Visconde Otis caísse ainda mais. Embora fosse uma oferta de boa vontade, o rosto do outro permanecia rígido.
“Não preciso disso.”
“Dez por cento. Não posso oferecer mais que isso.”
Enoch nem conseguia imaginar o escândalo que Derek faria ao descobrir o acordo. Pressionando as têmporas, Enoch tentou convencê-lo.
“Compreendo o sentimento do Marquês. Se fosse eu, teria decepado aquele que tentou violar minha prima.”
“E então?”
“Ainda assim, deve pensar na família e nela. O Visconde Otis é um filho ilegítimo com quem o rei se preocupa. A cabeça dele vale o risco de transformar o monarca em seu inimigo?”
Era uma pergunta realista e racional. Após um breve silêncio, Curtis levantou-se.
“Muito bem. Dez por cento.”
“Então, que assim seja.”
“E acrescentarei mais uma coisa.”
Interrompendo Enoch, Curtis apoiou as duas mãos sobre a mesa e inclinou o tronco. Encarando os olhos azuis profundos, ele acrescentou com um tom cortante:
“Nunca mais deixe que ele, ou sua face, apareçam diante de mim, de meus parentes ou dela. Se quebrar isso, receio que minhas mãos possam agir por conta própria, independentemente de mim.”
“……Entendido. Faremos assim.”
Convencido, Enoch levantou-se e estendeu a mão. Curtis, com uma expressão de desdém, apertou-a e virou as costas.
“Irei embora agora. Assim que terminar de empacotar.”
“E sua parente?”
A mão que segurava a maçaneta parou. Observando aquelas costas, Enoch moveu os lábios.
“Ela está bem?”
Curtis virou a cabeça lentamente.
“Por que a curiosidade? Você já deve ter ouvido.”
Era verdade. Disseram-lhe que, embora a temperatura corporal dela tivesse caído drasticamente, quase levando-a à morte por hipotermia, ela estava salva graças aos cuidados constantes de massagear suas mãos e pés e aquecer seu corpo dia e noite. Mas por que ele insistiu em ouvir a confirmação da boca daquele homem? Talvez fosse porque a imagem dela, sendo carregada com o corpo inerte, não saía de sua mente.
“…….”
Enquanto Enoch permanecia sem palavras, Curtis assentiu brevemente, abriu a porta e saiu.
* * *
Desde que Roxana quase morreu, a relação com Frey se inverteu. Frey, que antes era como um passarinho sendo cuidado, agora agia como uma mãe protetora.
“Roxana. Você está realmente bem? Se estiver muito cansada, podemos ficar mais um pouco.”
“Estou bem.”
Envolta em um cobertor, Roxana sorriu.
“Certo. Se sentir qualquer desconforto, não deixe de me avisar. Podemos parar a carruagem a qualquer momento. A Princesa Consorte, por precaução, até enviou um médico para nos acompanhar durante a viagem.”
“Farei isso. Obrigada pela preocupação. Cof, cof.”
Mesmo sendo uma tosse leve, o rosto de Frey se entristeceu. Roxana, que acabou se mudando para o assento ao lado de Frey, encostou a cabeça dela em seu ombro.
“Sinto muito por ter te assustado.”
“Por que você pede desculpas, Roxana… O culpado é outro.”
Lizzie seguia atrás da carruagem com as mãos amarradas. O castigo viria após o retorno ao castelo. Algo que nem a morte seria suficiente para pagar. Frey, fervendo de raiva por dentro, escondeu sua expressão e se apoiou em Roxana.
“Roxana, você nunca pode morrer. Entendeu?”
“Entendi.”
“Nunca, em hipótese alguma. Você tem que viver por muito tempo. Prometa. Sim?”
“Eu prometo.”
Somente após receber a promessa repetidas vezes, Frey fechou os olhos. Dentro da carruagem que balançava, Roxana acariciou o cabelo de Frey.
“Não morra, Roxana.”
“Se morrer assim, nunca vou te perdoar.”
“Apenas tente morrer. Não vou deixar barato.”
Ela se lembrou das mãos que a abraçaram com força quando sua consciência estava se esvaindo. E dos lábios que murmuravam repetidamente, como se estivessem mastigando as palavras.
“Não morra assim. Se era para morrer desse jeito, deveria ter morrido pelas minhas mãos naquele dia, Roxana.”
Ao contrário do tom áspero, o toque que envolvia seu corpo era quente. Houve um momento em que ela pensou que talvez já estivesse morta.
Roxana, imersa em pensamentos por um longo tempo, abriu os olhos apenas quando a carruagem parou. Ao sentir a presença de alguém, a janela da carruagem se abriu. Curtis, que cavalgava ao lado da carruagem, falou:
“Faremos uma breve pausa. Darei água e lanches, então coma.”
Ele mantinha o rosto impassível de sempre. Roxana abriu a boca impulsivamente.
“E Lizzie?”
“…….”
“O que pretende fazer com ela?”
Diante da pergunta clara, Curtis ficou momentaneamente hipnotizado. Os olhos roxos dela estavam límpidos novamente. Diferente do dia anterior, quando não tinham foco. Ela estava viva. Ela estava respirando.
“……Ela traiu seu mestre, então deve receber o castigo merecido.”
“Especificamente?”
“Pretendo cortar suas mãos ou pés. Ela mesma escolherá. E depois, expulsá-la do castelo.”
Era cruel, mas um exemplo necessário. Se não mantivesse a disciplina, tudo se desmoronaria. Roxana, que estava com os olhos baixos e pensativa, levantou a cabeça lentamente.
“Se não se importar, pode deixar isso comigo?”
“O quê?”
“Quero puni-la à minha maneira.”
“Você, uma freira?”
As palavras escaparam antes que ele pudesse pensar. Roxana, que sorriu silenciosamente diante da pergunta sarcástica, respondeu com calma:
“A senhorita Frey disse uma vez. Que você é mais afiada do que aparenta.”
* * *
Assim que chegaram ao castelo, o lugar para onde Roxana levou Lizzie foi o estábulo. O cheiro de excrementos era insuportável. Lizzie, com o rosto pálido, encarou Roxana.
“Você está me dizendo para… fazer isso?”
“É o trabalho de cuidar dos animais e limpar os dejetos. É algo essencial. Como o responsável pelo estábulo pediu demissão, você assumirá o cargo.”
“Eu não quero! De jeito nenhum!”
Era um estábulo de grande porte, onde chiqueiros, galinheiros e currais de cabras ficavam juntos. Lizzie, aos prantos, desabou no chão.
“Eu não entrei aqui para fazer esse tipo de coisa. Eu, embora minha família tenha caído, era filha de um comerciante rico!”
“Desculpas assim não funcionam aqui. Não importa o seu passado, você é uma criada deste lugar.”
Roxana, que falou calmamente, perguntou em silêncio:
“Não estou expulsando você, estou? Não deveria ficar grata por poder continuar trabalhando aqui?”
“Eu errei. Eu errei, Roxana!”
O cheiro era terrível. Ela não podia trabalhar em um estábulo tão imundo, fedorento e desprezado pelos outros. Lizzie, agarrada à bainha da saia de Roxana, implorou:
“Eu realmente errei. Você é bondosa, não é? Não pode me perdoar? Afinal, você nem chegou a sofrer nada terrível daquele homem.”
Roxana, que estava em silêncio, soltou a mão que a segurava.
“Se as coisas tivessem dado errado, eu teria sofrido. E poderia até ter morrido.”
“Por isso estou dizendo que errei!”
“Se realmente se arrepende, cuide bem dos animais aqui. Aprenda, um passo de cada vez, a corrigir seu caráter distorcido e a valorizar a vida.”
Diante das palavras frias de Roxana, Lizzie soluçava enquanto tentava se justificar.
“Roxana! Eu só fiz o que o Visconde mandou! Eu estava com medo! Tenha piedade de mim, sim?”
“É por isso que pensei em uma solução à minha maneira.”
Roxana, passando por Lizzie que estava caída, abriu a entrada do estábulo. Antes de sair, ela se virou para Lizzie, que estava sentada em choque.
“Se não quiser, há outro método.”
“Método?”
Lizzie, esperançosa como se visse uma corda de salvação, perguntou de volta:
“Que método?”
“O senhor do castelo disse que cortaria suas mãos ou pés antes de expulsá-la.”
À medida que as palavras de Roxana continuavam, o rosto de Lizzie tornava-se cadavérico. Roxana terminou de falar enquanto caminhava para fora do estábulo.
“Escolha entre cuidar do gado aqui por dez anos ou o que acabei de mencionar.”
Se ela trabalhasse diligentemente no estábulo, os dez anos poderiam ser reduzidos para cinco. No entanto, quando ela se deu conta, a porta já estava fechada. Roxana, que hesitou por um momento, apressou o passo ao ouvir Alice chamando-a de longe.
O som dos animais e o choro de Lizzie ecoavam dentro do estábulo.
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