“Lamento, mas ele não tem essa aparência, Princesa. Contudo, ele é meu cão de caça mais fiel.”
Um cão selvagem que vaga pelo deserto só ganha um nome e pode ser usado como cão de caça quando serve a um mestre.
“O Marquês da Fronteira também é o súdito em quem mais confio. É competente, valente e leal.”
“Então quer dizer que ele tem um grande valor de utilidade.”
“Você saberá quando o vir pessoalmente.”
Embora tenha proferido elogios, seu olhar era gélido. O Pai Real, que sempre mantinha uma postura gentil, só havia se enfurecido daquela maneira recentemente por causa do assunto do irmão Derek. Pouco tempo atrás, Derek estava recluso em seu castelo, tendo se tornado um homem de uma orelha só. Segundo seu primo Enoch, fora apenas um acidente, mas o Marquês da Fronteira certamente tinha algum envolvimento nisso. Tendo compreendido a situação rapidamente, Hailot fechou a boca e olhou silenciosamente pela janela.
* * *
A mensagem urgente dizia que ele chegaria aqui dentro de poucos dias. Embora soubesse que o Rei estava em uma turnê de inspeção, era algo inédito, já que ele nunca havia vindo até esta região de fronteira antes.
O castelo tornou-se agitado num piscar de olhos. As criadas varriam e esfregavam o chão do amplo salão até que brilhasse, limpando até a menor partícula de poeira grudada nas janelas de vidro. O quarto onde o Rei se hospedaria também foi preparado com o que havia de mais luxuoso e refinado, de acordo com o gosto de Sua Majestade. Os servos abatiam porcos, vacas e galinhas do estábulo, enquanto os cozinheiros esfolavam e preparavam javalis, veados e antílopes caçados.
As criadas da cozinha verificavam as linguiças defumadas e os queijos feitos no inverno passado.
Os cavaleiros, liderados por Greg, mantinham uma vigilância de emergência ainda mais rigorosa para prevenir qualquer imprevisto, e Robert estava ocupado demais para ter um segundo de descanso, supervisionando tudo aquilo. Como era uma situação em que precisavam de toda ajuda possível, Roxana também auxiliou Robert nos preparativos do castelo. Tratava-se, principalmente, de criar e organizar os livros contábeis. Sua caligrafia era elegante e fácil de ler, o que era um grande trunfo para Robert.
Após a conclusão dos preparativos, que mobilizaram todos no castelo, chegou finalmente o dia anunciado pelo Rei.
O som da trombeta anunciando a comitiva real ecoou. Com o Marquês Curtis no centro, os cavaleiros, vestindo capas com o brasão da família, ficaram de pé em uma postura disciplinada, aguardando o Rei.
Dez carruagens entraram, escoltadas por mais de trinta cavaleiros de cada lado. Os jovens mestres que viviam dentro das muralhas externas prostraram-se no chão, um a um, para saudar a visita do Rei.
Em meio à atmosfera solene, assim que a primeira carruagem entrou suavemente no castelo interno, todos os cavaleiros sob o comando do Marquês da Fronteira Russell endireitaram a coluna e apontaram suas longas espadas em direção ao chão. Em seguida, cruzaram as mãos sobre o pomo da espada.
Logo, a carruagem que entrara no castelo interno parou. Assim que Curtis se aproximou, o capitão dos cavaleiros do Rei abriu a porta da carruagem. Aquele que desceu, pisando nas costas de um criado prostrado, era um homem idoso, de cabelos brancos e grisalhos. Curtis, com um sorriso, colocou a mão sobre o peito esquerdo e curvou-se respeitosamente.
“Passou por muitas dificuldades em uma longa viagem. Vossa Majestade.”
“Como você não vem mesmo que eu chame, dando todo tipo de desculpa, não me restou alternativa a não ser vir.”
“Isso é…”
“É uma brincadeira. Não sabe o quanto o Marquês da Fronteira está ocupado recuperando o território e governando o povo?”
O Rei, que riu de forma afável ao ver o rosto embaraçado de Curtis, virou-se e estendeu a mão para alguém que estava na carruagem.
“Venha ver por si mesma. Hailot. Veja como é o rosto do Marquês da Fronteira.”
“Ora, Pai Real. Se disser isso na frente dele, como eu ficarei?”
A jovem mulher, que respondeu com um tom infantil de quem fingia estar ofendida, segurou a mão do pai e desceu da carruagem. Curtis, com um movimento fluido, segurou a mão esquerda da princesa e curvou-se para beijar o dorso de sua mão.
“É uma honra conhecê-la. Princesa Hailot.”
“Ora. Você conhece meu rosto?”
Era o oposto dos rumores. Hailot, ao confirmar o rosto de Curtis, brilhou os olhos. O Marquês da Fronteira não era um bárbaro ou um brutamontes. Pelo contrário, era mais belo do que os trovadores que ela ocasionalmente mandava chamar ao palácio real. Não, ele era muito mais masculino do que aquela classe de homens de aparência superficial, e sua beleza afiada, como uma espada bem amolada, cativava o olhar.
“Dizem que Vossa Alteza é tão bela que, uma vez vista, é impossível esquecer.”
“Devo devolver esse rumor ao Marquês da Fronteira.”
“Princesa. Já está de olho nele? Desde pequena, se algo é raro, você não consegue se controlar.”
O Rei, que acariciava a barba, interrompeu. Curtis, que soltou a mão da princesa após o aviso silencioso, passou a apresentar sua própria família.
“Vossa Majestade. Esta é minha irmã mais nova, Frey Russell.”
Ao chamado do irmão, Frey deu um passo à frente, segurou a barra do vestido e dobrou os joelhos.
“É uma verdadeira honra ser recebida pessoalmente. Seja bem-vinda. Vossa Majestade.”
“Ah. Então você é a Lady Russell.”
Os olhos astutos do Rei examinaram a jovem donzela. Cabelos negros e olhos baixos. Era uma garota cujos traços eram idênticos aos do irmão. Suas mãos, que seguravam a barra da saia, tremiam como se estivesse tensa ou aterrorizada. Após observar sob o olhar silencioso de Curtis, o Rei sorriu.
“Disse que tem quinze anos. Quatro anos mais nova que a princesa. E, ainda assim, tão composta.”
“Não diga isso. Ela ainda é uma criança.”
Curtis, que respondeu à rigidez de Frey, ordenou que Robert a levasse para o quarto.
“Então, por favor, entrem.”
“Espere.”
O Rei, que havia mandado a princesa entrar primeiro, parou de repente. Então, examinou cada canto do castelo.
“Estranho. Marquês da Fronteira.”
Era um olhar afiado, como se procurasse alguém.
“Não há mais alguém para me apresentar?”
“Alguém para apresentar?”
“Não me diga que não sabe.”
“Ah.”
Curtis ergueu levemente o canto da boca. Ficou claro o motivo pelo qual o Rei, após terminar sua turnê pelo país, não retornou diretamente ao palácio real, mesmo exausto, e fez questão de vir até aqui. Ele deve ter ficado sabendo do caso de Derek de alguma forma. Mesmo que tivesse imposto silêncio absoluto, incluindo aos envolvidos, era natural que a informação vazasse, já que havia muitos olhos observando. O Rei estava procurando a mulher que causou o corte da orelha de Derek.
“Onde ela está?”
Com a pergunta silenciosa, uma tensão inexplicável preencheu o ambiente. Curtis sorriu com naturalidade e virou a cabeça. Greg estava pronto para agir ao menor sinal. Enquanto o Rei examinava o local minuciosamente, como um falcão em busca de sua presa, Curtis chamou a mulher que estava parada ao longe, atrás dele.
“Venha aqui.”
Ao mesmo tempo, Roxana, que estava escondida à distância, revelou-se.
“Mais perto.”
Roxana aproximou-se dele e curvou-se profundamente. Tentar enganar de forma desajeitada só traria problemas. Roxana Dalton era uma mulher que nunca havia saído de seu próprio território, exceto quando era muito pequena. Curtis, decidido a agir com ousadia, atacou primeiro.
“É esta a pessoa que procurava? Não sabia que os rumores já haviam chegado aos ouvidos de Vossa Majestade.”
A decepção passou pelo rosto do Rei ao verificar o cabelo de Roxana.
“… Cabelos ruivos, é?”
“Vossa Majestade. É a filha do guarda florestal. Nós a contratamos recentemente.”
“Ha.”
O Rei, que piscou os olhos calmamente, franziu a testa. Cabelos ruivos. Sentiu uma estranheza vaga, mas foi apenas por um momento. Não precisava nem verificar o rosto. O que ele procurava era uma mulher de cabelos loiros. O Rei, perdendo o interesse na mulher, torceu os lábios.
“Que inesperado. O Marquês da Fronteira contratando uma mulher. Achei que não se interessasse por mulheres de forma alguma.”
“Sinto-me envergonhado por falar de forma tão direta.”
“É interessante, mas, infelizmente, não é a mulher que eu procurava.”
“Não é, então. Não sabia que Vossa Majestade tinha algum vínculo com mulheres deste lugar. Se me disser quem está procurando, farei as devidas investigações.”
Curtis respondeu com um sorriso astuto. Diante da reação calma, o queixo do Rei endureceu.
Um homem escorregadio. Embora tivesse fama por seus grandes feitos militares e pela rigorosa vigilância da fronteira, o homem à sua frente estava mais próximo de um mercenário cruel e calculista do que de um cavaleiro honesto e leal. Ele o mantinha por perto e o favorecia para conter os nobres que ascendiam, mas nunca confiou nele de verdade.
“Diga-me as características. O cabelo, por exemplo.”
Diante da fala tranquila que se seguiu, o Rei fechou o punho com tanta força que os ossos sobre o dorso da mão ficaram brancos.
Ele não podia dizer ao Marquês da Fronteira para entregar a mulher chamada Melanie. Se o fato de que Derek teve a orelha cortada ao tentar estuprar uma mulher se espalhasse, a honra de Derek seria irremediavelmente arruinada. Além disso, como o caso havia sido abafado pela mediação de Enoch, se fosse trazido à tona, seu próprio prestígio também cairia.
“Não. Não é necessário. Não há necessidade de chegar a tanto.”
O Rei, que usou sua mente astuta para chegar a uma conclusão, soltou uma gargalhada. Em meio ao ar que se suavizou, ele deu tapinhas no ombro de Curtis.
“Marquês da Fronteira. Você é um dos súditos em quem mais confio.”
“…”
O Rei aproximou o rosto e sussurrou baixinho.
“Portanto, desta vez, deixarei passar. Aquele sujeito também teve culpa. Mas lembre-se: no momento em que morde o dono, o cão de caça deixa de ser um cão de caça. Torna-se apenas um cão selvagem. E eu não acolho cães selvagens.”
“Lembrei-me disso.”
Curtis respondeu com um sorriso sereno.
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