“Roxana.”
“Curtis…….”
“Quem você acha que abriu o portão da muralha externa?”
Não houve reencontro. Diante da pergunta inesperada, Roxana ergueu o rosto banhado em lágrimas.
“Mary. Sua criada.”
A traidora do castelo. O choque atingiu Roxana novamente, fazendo-a cambalear. Suas mãos atadas tocaram o chão de terra.
“Como se sente?”
“…….”
“Se quiser, posso matá-la na sua frente também. O que prefere?”
Era uma pergunta feita para testar. Roxana balançou a cabeça em vez de responder. Ao ver isso, Curtis estalou a língua.
“Que sem graça.”
Após observar por um longo tempo Roxana, cuja mente estava em branco devido ao choque, ele pareceu ponderar profundamente antes de dobrar os joelhos para ficar na altura dos olhos dela.
“Roxana.”
Era a mesma voz gentil de antes. Como se estivesse enfeitiçada, Roxana ergueu a cabeça e encontrou um sorriso suave.
“Vou poupar sua vida. E atenderei ao seu pedido.”
“O quê……?”
A luz da esperança, que havia se apagado, reacendeu-se fracamente. Ao ver isso, Curtis estreitou os olhos, como um gato brincando com um rato.
“Não se alegre cedo demais. Talvez você acabe implorando para morrer. Em troca, você será enviada para um convento miserável, sem nome e onde ninguém procura por ninguém.”
Convento. Roxana abriu a boca, surpresa com a palavra inesperada.
“A partir de hoje, Roxana Dalton está morta.”
“…….”
“Você não será mais a nobre filha do Marquês, mas renascerá como uma freira sem nome em um convento velho, decadente e isolado.”
Convento. Uma freira sem nome.
“Viva o resto da sua vida lá como ‘Roxana’, alguém que não é ninguém, como se estivesse morta.”
Alguém que não é ninguém, Roxana.
Roxana repetiu as palavras em sua mente. Algo subiu do fundo de seu peito. As correntes que prendiam seu pescoço e mãos estavam sendo cortadas, uma a uma.
Não precisava mais viver como ‘Roxana Dalton’. Não era mais a filha gananciosa e cruel do lorde. Aquela mulher morreu naquele momento.
O homem à sua frente dizia exatamente isso.
“Eu prometo. Se você não fugir nem morrer, tratarei os habitantes deste território e as pessoas do castelo do Marquês com humanidade, como você pediu.”
Um brilho peculiar surgiu em suas pupilas roxas. Curtis, que observava o processo com interesse, fez um sinal silencioso para o subordinado de antes.
“……!”
*Sarak.*
O cavaleiro que se aproximou ergueu uma adaga, cortou uma mecha do longo cabelo dela e a levou. Era a prova que ele apresentaria ao rei. Curtis observou a cena sem nem piscar.
Ela era a filha de seu inimigo. Ele não estava hesitando. Tampouco estava lembrando da imagem da garota de antigamente. Como atingira seu objetivo, o tédio logo viria. Portanto, ele estava apenas brincando, como um gato com um rato.
Aquela submissão provavelmente duraria pouco. Logo ela estaria se debatendo, tentando escapar do convento. Se isso acontecesse, ele a zombaria e riria dela até se cansar, e então a mataria. Tendo chegado a essa conclusão, Curtis curvou os lábios.
“Passe o resto da sua vida rezando pelas pessoas que foram pisoteadas e pereceram por causa do seu pai. Carregando o peso do pecado, vestindo um hábito de freira esfarrapado para sempre.”
Ao perceber que ela havia entendido, Curtis se afastou. Roxana moveu os lábios em direção a ele, que se distanciava.
“Se eu fizer isso, poderei ser perdoada?”
A voz era fina, como se fosse se romper. Curtis parou por um momento e virou o rosto. Uma leve rachadura surgiu em seu perfil, mas foi um momento tão breve que ninguém notou.
“Você terá que encontrar o caminho.”
A resposta foi suficiente. Roxana aceitou seu destino em silêncio. Foi o momento em que ‘Roxana Dalton’ morreu e ‘Roxana’ nasceu.
* * *
“Irmã Roxana.”
Alguém chamou seu nome calorosamente. Ela queria dormir um pouco mais, mas a voz insistia. Roxana finalmente abriu os olhos sobre a cama velha, cheia de palha.
“Sinto muito, Irmã Elin. Acabei dormindo demais.”
“Você se esforçou muito ontem, não foi? Colhendo ervas na montanha.”
“Não é isso. Não fui a única a colher ervas. Peço desculpas por me verem assim.”
“Desculpas? Somos uma família.”
A Irmã Elin, que acariciou o ombro de Roxana, colocou seus cabelos ruivos desalinhados atrás da orelha. Roxana baixou o olhar diante daquela gentileza.
Já se passavam dois anos desde que se tornara uma noviça. O Convento Angela, localizado na extremidade do território do [glossario termo=”Título de nobreza concedido a quem governa as terras de fronteira.”]Marquês da Fronteira Russell[/glossario], era um lugar modesto onde viviam três freiras. A Madre Superiora Maria, a Irmã Elin que a auxiliava, e a Irmã Anna.
Como ficava logo abaixo do sopé da montanha e longe das fazendas abaixo, que não somavam dez casas, a maior parte da alimentação era autossustentável. Comiam os vegetais cultivados no quintal e resolviam a questão da lenha recolhendo galhos na floresta ao redor.
“Ah, verdade. Obrigada pelas folhas de chá de ontem. Nem sei como dormi tão bem. Como você fez?”
“Fico feliz que tenha funcionado. Fiz secando e triturando valeriana e lavanda.”
“Sério? Valeriana? Não senti cheiro nenhum.”
“O cheiro deve ter sido neutralizado pela lavanda.”
“Ah, entendo. Você é mesmo inteligente.”
“Mas aconteceu alguma coisa? Segunda-feira de manhã é dia de folga, não é?”
“Ah, é verdade.”
A Irmã Anna levantou-se da cadeira de repente, como se tivesse se lembrado de algo.
“A Madre Superiora disse para preparar as consultas rapidamente. Temos atendimentos hoje.”
“De repente?”
“Dizem que o estado das crianças da vila abaixo não está nada bom.”
Um pressentimento sombrio surgiu. Roxana tirou o cobertor, levantou-se e pegou rapidamente seu hábito.
“Entendido. Já estou indo.”
O estado das crianças era grave. Todas apresentavam flores vermelhas pelo corpo e febre alta.
“É a Febre das Flores. Parece que comeram cogumelos errados enquanto brincavam na floresta. Recebeu esse nome porque causa erupções cutâneas vermelhas como flores. É a primeira vez que isso acontece aqui. Não são cogumelos comuns. Já encontramos e removemos todos, mas……”
A Madre Superiora, que avaliou a situação com calma, continuou a explicar sobre a doença.
“Não é uma doença que costuma passar para adultos, mas aqueles com a imunidade baixa podem ser infectados. Pode levar à morte em casos graves, então precisamos transferi-los para a enfermaria rapidamente. E evitar contato com o exterior.”
Seguindo as instruções da Madre Superiora, as três freiras transferiram as crianças em risco de contágio para o convento e começaram a cuidar delas em tempo integral.
Embora tenham arregaçado as mangas e cuidado delas dia e noite, revezando-se, o estado das crianças só piorava a cada dia.
Para piorar a situação, os moradores da vila expressaram insatisfação com a medida de não permitir que vissem seus próprios filhos.
“Saiam daqui, suas bruxas!”
“O que vocês estão tentando fazer com nossos filhos!”
“Não são vocês bruxas?”
No quarto dia, os pais, armados com foices e arados, invadiram o convento. A Irmã Anna, assustada com os olhares ferozes, tremia as mãos.
“O que faremos? Roxana. O que vamos fazer?”
Diferente da Madre Superiora, que tinha mais de quarenta anos e era calma e madura, e da Irmã Elin, a Irmã Anna era uma freira jovem, apenas dez anos mais velha que Roxana.
Enquanto acalmava a Irmã Anna, Roxana pensava na situação com calma diante dos moradores furiosos.
“Devo acordar a Madre Superiora?”
“Não. Ela finalmente conseguiu descansar um pouco, não podemos acordá-la.”
Roxana recusou a sugestão da Irmã Anna e se colocou à frente dos moradores.
“O que significa isso?”
“Devolvam nossos filhos!”
“O que pretendem fazer se os levarem?”
“Levar ao médico da vila vizinha, obviamente!”
“Já trouxemos o médico da vila vizinha e da outra. Mas ninguém quis ajudar. Pelo contrário, disseram para queimar todos os objetos que tocaram nas crianças e isolar este convento.”
“Mentira!”
“É, é verdade.”
Assim que o homem excitado deu um passo à frente, a Irmã Anna ajudou Roxana.
Mesmo trazendo médicos das vilas vizinhas, eles não queriam se envolver em algo trabalhoso e que não dava dinheiro. Além disso, o convento atingiu seu limite. Roxana nem se lembrava de quando tinha comido ou dormido direito pela última vez.
“Não pode ser! Não minta!”
“Então entrem e vejam as crianças vocês mesmos. Mas não me responsabilizo pelo que acontecer depois. Pode ser que vocês sejam infectados.”
“Se esse é o caso, por que vocês estão bem?”
“Isso é porque…”
Por coincidência, todas as quatro freiras do convento já tinham tido a Febre das Flores. Essa doença não atacava a mesma pessoa duas vezes. Roxana ia falar sobre a imunidade, mas fechou a boca.
A ignorância não era um pecado, mas a suspeita tornava as pessoas más. Eram pessoas que, embora tivessem recebido ajuda quando sofriam de pequenas doenças, mudaram de atitude num piscar de olhos. Pelo contrário, eles a acusariam de ter espalhado a doença.
“Agora me lembro! Perguntei ao meu pai sobre a Madre Superiora por precaução! Dizem que ela matou um paciente quando era farmacêutica, não é?”
“O que disse?”
A Irmã Anna, irritada, soltou um grito sem perceber. Responder com agressividade quando o outro lado estava excitado era uma atitude tola. Roxana, com os punhos cerrados, segurou a Irmã Anna, que estava prestes a avançar.
“Sua charlatã assassina, quer matar mais gente! Devolva nossos filhos agora!”
“Peça desculpas.”
Uma foice afiada tocou seu pescoço. Roxana, sem piscar, disse entre dentes.
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