Ao chegar ao castelo, exausto, Curtis encontrou o local em polvorosa. Estranhando a atmosfera agitada, ele desmontou do cavalo e foi prontamente recebido por Robert. Curtis franziu a testa diante da confusão; criadas e servos corriam apressados para todos os lados.
“O que está acontecendo aqui?”
“O senhor entenderá melhor se vir com seus próprios olhos.”
Robert, que parecia esperar pela pergunta, sorriu levemente e o guiou até a ampla cozinha. A bancada central estava cercada por pessoas. Quando Curtis se aproximou, os criados, ao reconhecê-lo, abriram caminho em silêncio.
“Alice, você cortou os cogumelos shiitake? E removeu a base dos cogumelos shimeji?”
“Sim, já fiz. O que devo fazer agora?”
“Desfie-os finamente. Corte a cebolinha da mesma forma, mas na diagonal.”
Havia três pessoas na bancada. Alice, a ajudante de cozinha, e Kesi, a criada de recepção. Quem comandava o preparo entre as duas criadas experientes não era outra senão Roxana.
“Limpei a sobrecoxa de frango e temperei com sal e pimenta. Qual o próximo passo?”
“Derreta a manteiga em uma panela funda e doure a carne. Como eu já estou preparando o caldo de frango, por favor, comece o caldo de carne bovina em seguida, Kesi.”
Sob as mãos habilidosas das três, os ingredientes eram preparados e transformados com precisão. À medida que os pratos cozinhavam, um aroma apetitoso impregnou a cozinha.
Mesmo com Curtis observando, as três mulheres não lhe lançaram um único olhar, totalmente imersas no trabalho. Curtis inclinou a cabeça, observando a comida ganhar forma.
“O que estão fazendo?”
“Estamos preparando uma refeição para a senhorita Frey. Como ela tem recusado as refeições, decidi tentar cozinhar algo pessoalmente.”
“Para a Frey?”
Ela era uma criança que não tocava em nada, não importava o quão requintada fosse a comida ou o quão doce fosse a sobremesa que lhe oferecessem. Curtis soltou uma risada de escárnio, cruzou os braços e esperou para ver o resultado. Embora estivesse dividido entre a dúvida e a expectativa sobre que tipo de prato extraordinário seria, o que ficou pronto era uma refeição simples.
“O que é isso? A senhorita vai comer algo assim?”
“Ela não toca em pratos luxuosos, e vão servir isso?”
Os criados que observavam cochichavam com desconfiança. Ignorando-os, Roxana apresentou com orgulho os dois pratos finalizados.
“É um ensopado de cogumelos e um ensopado de frango com lentilhas.”
“Acha mesmo que a Frey vai comer isso?”
Curtis, que permanecia em silêncio em meio aos murmúrios, falou lentamente. A cozinha silenciou instantaneamente.
“Sim.”
“E por que eu deveria deixar minha irmã comer algo feito por você?”
Diante da pergunta fria, a lembrança do que ele dissera ao rejeitar a pomada veio à mente de Roxana.
“Não preciso disso. Como vou saber se não misturou veneno?”
Era uma suspeita válida e uma pergunta lógica. Ainda assim, uma pontada de dor surgiu no fundo de seu peito. Escondendo suas emoções, Roxana respondeu calmamente.
“O senhor acompanhou todo o processo de preparo, então já sabe a resposta. Se a senhorita não comer nenhum dos dois pratos, eu ficarei em jejum até amanhã.”
“Eu também.”
“Eu também ficarei sem comer.”
Kesi e Alice não ficaram atrás e se juntaram à promessa. Roxana sorriu, olhando para elas com gratidão.
* * *
De qualquer forma, não havia nada a perder. Com a permissão tácita de Curtis, Roxana serviu ambos os pratos para Frey. Antes mesmo de abrir a tampa, Frey franziu a testa e recusou.
“Eu disse que não vou comer.”
“A senhorita só fez uma refeição desde ontem. Precisa comer pelo menos um pouco.”
“Quantas vezes tenho que dizer que não quero?”
“Então, por favor, apenas sinta o cheiro. Nós três nos esforçamos muito para preparar isso.”
Com o pedido insistente de Roxana, Robert prendeu a respiração. Pela personalidade da senhorita, ela detestava ser contrariada. Era certo que ela viraria a bandeja, acusando-as de insolência. No entanto, nada aconteceu. Ela apenas virou o rosto bruscamente.
Curtis também ficou surpreso com a reação inesperada. Roxana, sorrindo ao ver a calma de Frey, abriu lentamente as tampas. O aroma do caldo de frango, dos cogumelos e da cebolinha subiu suavemente. Frey, que parecia não querer nem olhar, sentiu o cheiro chegar à ponta do nariz e, de repente, virou-se para farejar.
“Isso é…”
“Um é ensopado de cogumelos, o outro é ensopado de frango com lentilhas.”
Roxana, que apresentava o prato com serenidade, colocou a colher na mão de Frey.
“Achei que pratos gordurosos e muito condimentados não estivessem caindo bem. Preparei um ensopado de textura macia e fácil digestão. Experimente uma colherada. Se não gostar, pode dispensar imediatamente.”
Em vez de responder, Frey levou o ensopado à boca com as mãos trêmulas. Ao engolir com cuidado, uma enxurrada de memórias a invadiu. O cheiro era familiar; ela já havia comido aquilo antes. Era o ensopado que as freiras costumavam fazer quando ela vivia no convento.
“Pare de chorar agora e coma um pouco. Frey.”
Era uma comida afetuosa, com cheiro de luz do sol. Um ensopado de cogumelos de textura suave e um ensopado de frango feito com aves que a Madre Superiora, que não permitia o abate de animais, ia buscar em mercados distantes.
Uma lágrima escorreu por sua bochecha. Mesmo após o retorno de seu irmão, que partira em uma longa jornada, e de ter se tornado a senhorita da família do Marquês, aquele era um sabor que ela jamais esquecera.
O castelo era farto, mas diferente do convento. A vida ali mudara tudo. Refeições luxuosas com ingredientes caros, vestidos elegantes e o sono em camas macias. Embora sentisse falta de tudo aquilo, ali não estavam as três freiras que a acolhiam.
“Frey?”
Diante das lágrimas repentinas de Frey, Curtis, que observava a um passo de distância, aproximou-se.
“Está sentindo alguma dor?”
“Não, irmão…”
Frey enxugou as lágrimas com as costas da mão e balançou a cabeça.
“É que está muito gostoso. Realmente delicioso.”
Frey raspou o prato com a colher até não sobrar nada. Até que ambos os ensopados estivessem vazios.
Começando pela comida de Roxana, Frey passou a ingerir aos poucos os pratos que ela preparava. Após um mês, suas bochechas, antes encovadas, ganharam um pouco de vida, e suas mãos e pés, onde os ossos eram visíveis, recuperaram uma aparência saudável. Robert estava mais satisfeito do que ninguém com essa mudança.
“Parece que o paladar dela se adaptou bem, já que era a comida que ela comia no convento. Que alívio.”
“…É verdade.”
Curtis, que largou os documentos fiscais que revisara durante a noite, espreguiçou-se longamente.
“A comida que Roxana fez deve ter sido idêntica à que Frey comia no [glossario termo=”Convento Angela”]Convento Angela[/glossario].”
Robert arregalou os olhos diante da revelação inesperada. Curtis nunca mencionara nada sobre o passado. Como ele só ouvira boatos através de Derek, aquilo despertou seu interesse.
“A senhorita passou muito tempo no convento?”
“Não. Poucos dias depois de deixá-la lá, eu parti.”
“Entendo.”
“Eu a abandonei, uma irmã cega, então é natural que ela me guarde rancor.”
Curtis murmurou, massageando a nuca tensa. Atrás dele, a luz quente do início da primavera entrava pela janela. Ao ouvir risadas, ele se virou e viu as criadas entrando com baldes de água.
Entre as jovens mulheres de touca, seus olhos cinzentos focaram precisamente em uma delas. Ao contrário das outras, que deixavam algumas mechas de cabelo à mostra, Roxana mantinha os fios presos sob a touca com uma austeridade quase monástica. Suas sobrancelhas, sobre uma testa clara e serena, eram longas e bem desenhadas. Ela exibia um leve sorriso nos lábios, talvez por ter ouvido alguma piada.
Fazer Frey superar sua seletividade alimentar era algo que nenhum cozinheiro habilidoso ou criada experiente conseguira realizar. Como ela alcançara um resultado tão notável, ele esperava que ela pedisse algo. Não que ousasse pedir perdão, mas talvez que a enviassem de volta ao convento ou que a transferissem para um trabalho mais leve. No entanto, ela continuava a servir Frey em silêncio. Sem qualquer reclamação ou desejo.
Enquanto seus olhos a seguiam obsessivamente, Robert, horrorizado, negou as palavras do patrão.
“Não diga isso, senhor. O senhor tem corrido de um lado para o outro dia e noite para recuperar e estabilizar o território. A senhorita Frey entenderá isso algum dia.”
“Será?”
Ela mal começara a comer, e era só isso. Frey ainda era como um gato selvagem. Suspeitava dos outros, afastava as pessoas e demonstrava agressividade quando tentavam lhe dar remédios. Isso não era exceção nem para Roxana, nem para seu irmão, Curtis.
“Deixando isso de lado, o que há para relatar?”
“Ah, sim. É isto.”
Robert, que parecia ter esquecido, piscou os olhos por um momento e estendeu o que trazia. Era um convite em um envelope luxuoso, selado com um brasão familiar. Assim que reconheceu o selo, Curtis franziu a testa.
“É da Baronesa Philomena.”
Era um convite para um banquete que ocorreria em dez dias.
A anfitriã, a Baronesa Philomena, era uma das figuras mais notáveis da alta sociedade do sul. Graças à vasta fortuna deixada pelo falecido marido e à ampla rede de contatos que construíra, a nobre, que tinha tempo e dinheiro de sobra, tinha como hobby promover casamentos. Dez casais já haviam se unido sob sua mediação. Curtis torceu os lábios diante do convite, que trazia uma intenção clara.
“Essa casamenteira não sossega enquanto não me convidar.”
“Unir os laços entre um homem e uma mulher é um ato sagrado.”
“Isso é conversa de romântico que vive no mundo da lua.”
Curtis revirou os olhos, amassou o convite e o jogou nas cinzas da lareira. Robert, que observava a cena com pesar, sentiu uma ideia brilhar em sua mente.
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