“…….”
O rosto estava oculto pela sombra projetada sobre o pescoço, mas não havia dúvida de quem era. A estatura alta, a postura desleixada e a pressão opressora que parecia subjugá-la mesmo à distância. Era Curtis, que descera de seu distante território até ali ontem, logo após o último dos órfãos receber o diagnóstico de cura. Como um aviso para que ela cumprisse sua promessa.
Roxana mordeu o lábio inferior e, assim que virou o rosto bruscamente, a Irmã Elin a abraçou.
“Irmã Roxana! Você sabe o quanto ficamos preocupadas?”
“Irmã…….”
“Como você pôde partir daquele jeito imprudente? O que seria de nós que ficamos? Digo isso agora, mas nós não pregamos o olho a noite toda, cuidando das crianças e rezando por você.”
“Sinto muito por ter causado preocupação.”
Embora soasse como uma repreensão, era um lamento carregado de afeto e zelo. Roxana sentiu um calor profundo no peito e sorriu levemente. A Irmã Anna, que observava as duas, interveio discretamente.
“Irmã Elin. Não há necessidade de dizer coisas que não precisam ser ditas. A Irmã Roxana também deve ter sofrido muito, não é?”
“Irmã Anna.”
“Obrigada por voltar em segurança. Embora eu esteja atrasada para dizer isso.”
“Graças a vocês, pude ir e voltar bem.”
Somente após terminar o abraço com a Irmã Anna, chegou a vez da Madre Superiora, Maria. A Irmã Maria acariciou suavemente a bochecha de Roxana e deu uma ordem de partida gentil.
“A Irmã Anna e a Irmã Elin devem ter tarefas a cumprir agora.”
Com aquela única frase, as duas freiras se retiraram, e a atmosfera, antes repleta de alívio e alegria, tornou-se solene. Sob o olhar carinhoso que parecia perscrutar sua alma, Roxana teve a súbita sensação de que a Madre Superiora sabia de tudo.
“Sabe por que eu me opus aos seus votos perpétuos, mesmo enquanto lhe ensinava doutrinas básicas e teologia bíblica, Irmã Roxana?”
“……Não sei.”
Era uma dúvida que ela carregava há dois anos. A Madre Superiora, que antes descartava o assunto dizendo que ainda era cedo, finalmente estava prestes a revelar o motivo. Roxana engoliu em seco.
“Você é uma pessoa que desperta cobiça, Roxana. É inteligente, possui coragem e orgulho, e enquanto não sacrifica nada por si mesma, dedica seu corpo e alma aos outros.”
“Madre Superiora…….”
“Meu coração gostaria de mantê-la aqui, mas você tem o direito e o dever de ver e sentir um mundo maior, de vivenciar muitas coisas. Coisas que, neste mundo fechado, você jamais poderia experimentar ou conhecer.”
Cada palavra estava impregnada de sinceridade e ternura. Sentindo o calor subir aos olhos, Roxana ouviu atentamente a Madre Superiora. A mulher, com os olhos enrugados em um sorriso, juntou as mãos de Roxana e acariciou o dorso delas.
“Ouvi toda a história ao amanhecer. Faça as malas agora mesmo e parta para o castelo do Marquês Russell. Não precisa se despedir.”
“Mas.”
“Não há necessidade de despedidas entre família.”
A Madre Superiora interrompeu Roxana e olhou na direção onde Curtis estivera parado momentos antes.
“Salve Frey. Farei qualquer coisa em troca.”
“Você se tornará uma mercenária. De qualquer forma, não iria para o céu.”
“Trarei a filha do pecador, o Marquês Dalton. Se ela causar qualquer dano às irmãs ou fizer algo imprudente, avise-me imediatamente. No entanto, o fato de eu ter vivido aqui é um segredo.”
Era o garoto que, após perder tudo, veio pedir ajuda com o corpo em frangalhos, carregando a irmã cega. Ele havia rastejado do fundo do inferno e conquistado mais do que isso, mas teve que perder algo mais precioso do que o que ganhara.
“O Marquês chegou.”
Ao ouvir o nome, os olhos de Roxana vacilaram. Diante daquela reação, a Irmã Maria sorriu amargamente. A filha do pecador.
Desde que deixou Roxana no convento, após salvá-la sob o pretexto de sua morte, Curtis frequentemente confirmava se ela estava viva através de cartas. Provavelmente, ele não tinha boas intenções ao levá-la para o castelo do Marquês. Mesmo sabendo que o futuro de Roxana seria árduo, havia apenas um motivo para ele empurrá-la: o fato de que as duas pessoas em lados opostos eram, ironicamente, como reflexos em um espelho.
“Lembre-se de uma coisa, Roxana. Você pode fugir para cá a qualquer momento. Este lugar é sua casa. Eu sou sua mãe, e a Irmã Elin e a Irmã Anna são suas irmãs.”
“Madre Superiora!”
Roxana, deixando as lágrimas caírem, abraçou a Madre Superiora como uma criança.
“O peso do pecado é pesado demais. Tento superar e me sustentar, mas é difícil. Sinto como se tivesse acabado de sair de um pântano, apenas para encontrar uma planície sem fim à minha espera.”
Embora tentasse conter, sua voz soluçava como as lágrimas que irrompiam. Ao ser envolvida por aquele abraço tão reconfortante quanto o de uma mãe, o passado veio à tona. Os dias em que, sem conseguir oferecer resistência real à tirania do pai, ela era esmagada pela culpa dia após dia.
Foi odiada por ser filha do Marquês Dalton e desprezada pelo noivo. Quase foi estrangulada pelo mordomo que a servira por longos anos. Levantou-se cada vez que caiu, mas estava coberta de feridas. A queda mais dolorosa foi quando descobriu o motivo da cegueira de Frey. O peso do pecado, do qual ela não podia fugir nem se libertar, a esmagava.
“Pobre Roxana.”
A Madre Superiora abraçou os ombros trêmulos de Roxana. O toque carinhoso acariciou seus cabelos ruivos.
“Quando pensar que está à beira de um precipício, lembre-se de que, lá embaixo, há alguém olhando para você.”
Com aquelas palavras enigmáticas, Roxana ergueu a cabeça. Contudo, não houve mais nada a ser dito.
* * *
O interior da carruagem estava tão silencioso que chegava a ser sufocante. No espaço onde estavam a sós, Curtis não disse uma palavra, e as pálpebras de Roxana, pesadas de exaustão, continuavam a se fechar.
“Roxana.”
No silêncio, Roxana ouviu uma voz cheia de saudade. Era sua mãe, uma lembrança de sua infância. Eram palavras que ela repetia várias vezes enquanto trançava seus cabelos ruivos.
“Em qualquer situação e para qualquer pessoa, se necessário, você deve oferecer misericórdia e tolerância. O mundo funciona assim, e é assim que ele deve continuar funcionando.”
“E se eu não conseguir? E se eu sentir tanto ódio que não queira entender?”
Chorando copiosamente, Roxana olhava para a mãe através do espelho. Foi no dia em que seu pai tirou o coelho que ela criava. O dia em que, após enterrar o corpo frio do animal, ela se abraçou à mãe com o rosto desfigurado pelo choro.
“Minha adorável Roxana.”
Como se compreendesse, a mãe abraçou a pequena filha com força e beijou o topo de sua cabeça.
“Tente dar um passo atrás e olhar para essa pessoa de uma forma diferente.”
“Diferente?”
“Não existe ninguém sem uma história. Ninguém nasce mau. Se você tentar entender essa pessoa a partir da perspectiva dela, você compreenderá.”
Na época, ela não entendeu aquelas palavras. E, mesmo agora, não as compreendia completamente.
No momento em que as palavras da freira se sobrepuseram às da mãe, a carruagem, que seguia suavemente, parou com um solavanco.
Ao mesmo tempo, Roxana abriu os olhos. Curtis, que observava o lado de fora com as pernas longas cruzadas, lançou um olhar para ela e abriu a porta da carruagem. Naquele instante, Greg, que fazia a escolta a cavalo, aproximou-se.
“A roda da carruagem caiu em um buraco. Acho que precisará sair por um momento.”
Curtis soltou um suspiro curto e saiu da carruagem. Enquanto ele desceu facilmente, para uma mulher com saias longas, a borda da carruagem era alta demais para descer sem ajuda. Especialmente com as mãos atadas.
Enquanto Roxana hesitava, confusa, Curtis, que observava a cena, estendeu a mão. Diante da ajuda inesperada, Roxana ficou paralisada. Quando ela hesitou, Curtis ergueu uma sobrancelha.
Sob a pressão silenciosa, Roxana mordeu o lábio e, finalmente, colocou a mão sobre a dele.
Como sentira antes, era uma mão grande, áspera e calejada. Não era a mão de um nobre rico que governava um vasto território, mas a mão de um cavaleiro que lutara na linha de frente por muito tempo.
Quando aquela mão envolveu a de Roxana, a pele onde se tocaram queimou. No entanto, foi um tempo tão curto que ela pensou ter sido uma ilusão. Antes que Roxana pudesse sentir qualquer estranheza, Curtis retirou a mão e apontou para o canto.
“Parece que teremos que empurrar a carruagem por trás, então afaste-se para não atrapalhar.”
Roxana assentiu e recuou na direção indicada. Curtis, após soltar brevemente as rédeas dos cavalos, empurrou a carruagem junto com Greg e o cocheiro. Roxana lembrou-se de seu pai, que, em uma situação semelhante, ficava de braços cruzados, sem se importar se os servos estavam atolados na lama. Provavelmente, a maioria dos nobres agiria assim. Em comparação, Curtis era um caso peculiar.
Enquanto Roxana observava a cena com curiosidade, ouviu-se um farfalhar nos arbustos e um cervo atravessou a estrada correndo. Os cavalos, assustados, agitaram-se e ergueram os cascos.
Com o relincho, Roxana recuou instintivamente, tropeçou e caiu para trás. Curtis, que acabara de tirar a roda do buraco, virou-se bruscamente.
“Roxana!”
Foi a primeira vez que seu nome foi chamado corretamente. Sem tempo para processar isso, Curtis aproximou-se e examinou seu estado. Após uma avaliação rápida com olhos de falcão, ele soltou um suspiro de alívio.
“Felizmente, seu tornozelo está intacto.”
Foi inesperado. Roxana olhou para ele com os olhos arregalados.
“Obrigada…….”
Antes que ela pudesse terminar o agradecimento, Curtis segurou-a pelas axilas e a colocou de pé. Assim que Roxana ficou de pé, desajeitada, ele tirou uma adaga de dentro das vestes e a brandiu.
Diante da lâmina que se aproximava, Roxana fechou os olhos reflexivamente. Curtis, que hesitou por um momento ao ver a reação dela, cortou a corda que prendia seus pulsos. Ele se inclinou e sussurrou no ouvido de Roxana, que o olhava com uma expressão confusa.
“Já que você tem uma coleira, isso não será necessário.”
Roxana, sobressaltada, cobriu o pescoço apressadamente. Sob o olhar dele, Curtis nem sequer bufou e subiu na carruagem.
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