Como cavaleiro, cuidar da espada era um ritual diário. Todos os dias, antes do amanhecer, Curtis polia sua lâmina no campo de treinamento. Embora fosse comum delegar essa tarefa a um escudeiro, ele jamais havia confiado sua espada a outra pessoa. Quando terminou de limpar o aço, Curtis, que estava sentado em um toco de árvore, abriu a boca abruptamente após concluir o ritual em silêncio.
“Diga o que tem para dizer.”
O destinatário era Greg, que o observava de longe.
“Desde quando você sabia?”
“Desde o início.”
Greg soltou uma risada desolada. Ele passava anos rolando pelos campos de batalha. Pensou que era bom em esconder sua presença, mas foi descoberto de forma ridícula. Aproximando-se a passos largos, ele disparou:
“Ouvi dizer que você deu uma semana de folga.”
“É uma promessa.”
“Uma promessa?”
“É estranho?”
Curtis, que embainhou a espada, levantou-se sacudindo a poeira. Ele passou direto, mas a pergunta de Greg prendeu seus pés.
“Para a filha do inimigo?”
“…….”
“Que gentil. Onde foi parar aquele homem que dizia que a faria viver uma vida pior que a morte? Eu não sabia que você era tão bondoso.”
Curtis virou-se com o rosto gélido. Uma pressão opressora, capaz de esmagar os ombros, cobriu Greg. Encarando aquele olhar frio, Greg continuou:
“Você não vai voltar atrás no que já disse, vai? Curtis.”
Diante daquelas palavras proferidas entre dentes, Curtis encarou seu velho amigo em vez de responder.
“Que bobagem é essa?”
“Ouvi notícias do Convento Angela. Deve ser por isso que você mencionou a folga.”
Os tendões no maxilar de Curtis saltaram. Ele deveria ter gritado para que parasse com aquelas besteiras, mas as palavras não saíram. Passando a mão pelos cabelos bagunçados, Curtis respondeu em voz baixa:
“É coincidência.”
“Isso é algo que não se sabe. Eu não sei o que aconteceu na casa de campo.”
Embora o tom fosse baixo, a fúria espreitava em seus olhos.
“Algo mudou lá. Não é?”
Era uma afirmação carregada de convicção. Curtis fechou os olhos por um momento e os abriu.
Algo mudou.
A sensação de agonia que sentiu enquanto carregava Roxana, inconsciente, até a casa de campo ainda era vívida. Ele não conseguia se livrar da sensação de que algo estava dando errado. Era um presságio que ele sentia ocasionalmente desde que se reencontrou com Roxana, dois anos atrás.
“Curtis.”
Greg, que se aproximou mais um passo, colocou as mãos sobre os ombros dele.
“Eu servi você por muito tempo. Mais do que qualquer um neste castelo. Como seu senhor e como seu amigo, dediquei minha vida a você. Fui eu quem te procurou feito um louco quando pensavam que estava morto, e fui eu quem te serviu ao seu lado quando você se tornou um mercenário solitário. Não há ninguém neste castelo mais leal a você do que eu. Nosso objetivo era o mesmo. Então…”
Vingança. Aquele era o único propósito de sua vida. A pressão das mãos em seus ombros aumentou. Embora fosse uma situação para endurecer o semblante, Curtis não moveu um músculo sequer.
“Deixe-me ficar tranquilo. Deixe-me acreditar nas suas palavras. Afinal, não se trata de ninguém menos que a família Dalton.”
“……O que você quer?”
“Vou vigiá-la durante essa semana de folga.”
Diante da resposta que parecia ter sido aguardada, os olhos cinzentos de Curtis vacilaram por um instante. Percebendo a mínima agitação, que nem mesmo a dor nos ombros causou, Greg perguntou friamente:
“Por quê? Está preocupado que eu a mate?”
“Não. Não me importa. Faça o que quiser.”
Curtis respondeu rapidamente e afastou as mãos dele com rispidez.
“Não se engane. Eu apenas cumpro as promessas que faço. Pela honra. Isso não tem nada a ver com vingança.”
* * *
Assim que recebeu a notícia da semana de folga através de Robert, Roxana arrumou suas coisas imediatamente. A mala era tão leve que podia ser carregada com uma mão.
“Você pretende passar a semana inteira no convento?”
“Sim.”
“Que desperdício! Se for usar a folga assim, prefiro que me dê.”
“Pois é. Se fosse eu, passaria o tempo alegremente com um cavaleiro bem charmoso.”
“Ora, ora, você acha mesmo que um cavaleiro daria atenção a você?”
“Por que diz isso? Eu sou bem popular, sabia? Mais do que você.”
Enquanto ouvia Alice e Kesi discutirem, Roxana arrumou a cama pela última vez. Kesi, que ajeitou o travesseiro, perguntou discretamente:
“Já se despediu da senhorita? Acho que ela não vai nem comer se você não estiver por perto.”
“Ela já me desejou uma boa viagem. É graças à sua irmã, Olivia. Parece que, por terem a mesma idade, elas se deram muito bem. Graças a isso, posso ir com o coração tranquilo.”
“Não há de quê. Agora que Lizzie cuida do celeiro, Olivia teve muita sorte.”
“É verdade. Mas, Roxana.”
Alice, que havia se intrometido, calou-se no meio da frase. O tom era o de sempre, mas seu olhar parecia esconder algo. Ela pretendia sair logo. Suspirando por dentro, Roxana sentou-se na cama.
“Tem algo que queira perguntar?”
Kesi e Alice trocaram olhares. Foi Alice quem tomou a iniciativa.
“Roxana, você tem algo com o Lorde?”
“……O quê?”
Seu coração disparou. Parecia que elas tinham notado algo suspeito. Escondendo sua agitação, Roxana inclinou a cabeça.
“O que quer dizer com isso?”
“Não finja que não sabe.”
Alice, que se sentou ao lado de Roxana, olhou-a fixamente.
“Tem algo acontecendo, não tem? O clima está estranho. Eu vi tudo quando você desceu da carruagem daquela vez.”
Diante daquelas palavras, Roxana baixou os olhos. Provavelmente, elas tinham visto o momento em que ela retornou ao castelo. Ela não estava se sentindo bem desde que quase morreu congelada. Quando ela quase tropeçou ao descer da carruagem, Curtis a segurou.
“Aquilo foi apenas porque eu estava tonta e ele me segurou.”
“É mesmo? Mas foi a primeira vez que vi o Lorde tratar uma mulher daquela forma. E ainda dar uma semana de folga.”
Alice, com os olhos semicerrados, encarava Roxana como se quisesse ler sua mente.
“O fato de ele ter te levado ao banquete, à casa de campo… honestamente, há muitos boatos. Tem algo aí. Não tem?”
Eram circunstâncias suspeitas o suficiente. Enquanto Roxana tentava escolher as palavras diante das perguntas insistentes, Kesi, vendo o rosto embaraçado da amiga, respondeu por ela:
“Alice, se Roxana tivesse algo com o Lorde, ela já teria conquistado o posto de amante, não acha?”
Amante. Ao ouvir a palavra novamente, Roxana deu um sorriso amargo. Se fosse em sua posição original, seria uma situação impensável. Mas, com a queda de sua família e a perda de seu status, era uma palavra que se adequava a ela, uma simples criada. É claro que nunca aconteceria nada entre ela e Curtis. O simples fato de pensar que os outros a viam dessa forma a deixava angustiada.
“Ah, não foi nesse sentido que eu disse. Roxana, na verdade, nós até gostaríamos que fosse assim. Mais cedo ou mais tarde, o Lorde trará uma mulher. Se for assim, é muito melhor que seja a Roxana do que alguma mulher de temperamento ruim. Você entende de ervas e tem um bom coração.”
Alice acenou com as mãos, negando fervorosamente.
“Eu só estou curiosa. Todo mundo está curioso.”
“Você já ouviu o motivo, Alice. O Lorde deu a folga como recompensa por Roxana cuidar bem da senhorita. Ele a levou ao banquete porque a senhorita dependia dela, e desta vez deve ser o mesmo.”
“É mesmo?”
“Com certeza. Tomamos muito do seu tempo. Vá logo. Você ainda precisa se despedir da senhorita.”
“Sim.”
Roxana, agradecendo a Kesi com o olhar, pegou sua mala.
“Roxana!”
Frey, que desceu da sela com a ajuda de Curtis, demonstrou alegria. Roxana, que deixou a mala de lado por um momento, segurou a mão de Frey.
“Senhorita, estou indo agora.”
“Você vai voltar logo, não vai?”
“Com certeza.”
“Não pode se atrasar, entendeu?”
“Entendido.”
Roxana respondeu calmamente às perguntas insistentes e desviou o olhar para o homem que estava parado atrás, imponente como uma montanha.
“Obrigada pela folga. Tenho uma boa viagem.”
Roxana juntou as mãos respeitosamente e curvou a cabeça. Curtis, que franziu levemente a testa diante daquela cena, respondeu de forma curta:
“Uma promessa é uma promessa.”
“Então, vou indo.”
Pegando a mala novamente, Roxana montou no cavalo preparado. Foi então.
O cocheiro trouxe mais um cavalo e um homem montou nele. Antes que Roxana, surpresa, pudesse reagir, Curtis se aproximou e falou primeiro:
“Eu não poderia te deixar ir sozinha.”
“…….”
“Greg vai te seguir e vigiar. Não pense em fazer nenhuma bobagem.”
Ele devia estar falando de fugir. Ele não confiava nela nem um pouco. Não importava o que acontecesse, era sempre assim. Lembrando-se da conversa de Kesi e Alice, Roxana deu um sorriso amargo.
* * *
Diferente de quando partiu montada em uma mula velha, Roxana, em um cavalo robusto, chegou ao convento antes do previsto. Duas freiras, que haviam recebido o telegrama e a esperavam, deram as boas-vindas a Roxana.
“Bem-vinda, Irmã Roxana! Como tem passado? Parece um pouco abatida.”
“É mesmo? Eu achei o contrário. Como a Irmã Anna tem passado?”
“Muito bem!”
A Irmã Anna, com um sorriso radiante, deu um abraço leve em Roxana. Após o abraço, ao notar o olhar de Roxana procurando por alguém, a Irmã Elin interveio:
“A Madre Superiora saiu por um momento. Ela voltará em breve.”
“Entendo.”
“Mas… quem é aquele?”
A Irmã Elin olhou de soslaio para além dos ombros de Roxana. Greg, que havia descido do cavalo, apresentou-se:
“Sou Greg Devron, capitão dos cavaleiros do Marquês da Fronteira Russell. Vim acompanhá-la para escolta.”
“Ah, entendo. Seja bem-vindo, cavaleiro.”
“Obrigado pela recepção.”
A Irmã Elin cumprimentou-o com um rosto mais suave. Nesse meio tempo, Roxana, que observava os arredores, inclinou a cabeça diante de uma estranha sensação de desconforto.
“Mas parece que algo mudou aqui. Alguma coisa…”
“Não mudou nada. Do que está falando?”
A Irmã Anna, com um sorriso, mudou de assunto.
“Deixando isso de lado, você não está com fome?”
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