Eu Só Preciso do Filho do Duque – Episódio 104: Cruzamos Olhares
Após o jantar, quando voltou para o quarto, Bleier ouviu pela janela aberta o eco distante dos fogos de artifício.
Era o som do festival de verão que acontecia na praça central.
Todos os anos, os habitantes da capital realizavam aquele festival noturno — uma celebração criada para aproveitar a brisa fresca da noite, em vez do calor sufocante do dia.
Bleier queria vê-lo com os próprios olhos, mas sua situação atual a impedia.
Como precisava permanecer escondida, não podia sequer se aproximar.
Em vez disso, a velha senhora que a acolhia, compadecida de sua condição, trouxe alguns petiscos típicos da festividade, insistindo que uma futura mãe precisava se alimentar bem.
— Pelo menos à noite o clima fica mais fresco.
Sentada ao lado da janela, sentindo a brisa noturna tocar seu rosto, Bleier abriu um mapa que havia trazido da mansão.
Era um dos poucos pertences que decidira levar.
Viajar por todo o continente.
Aquele havia sido seu sonho de infância, antes de compreender o peso das regras impostas à nobreza.
Quando amadureceu, aceitou que uma dama aristocrata jamais poderia vagar livremente pelo mundo.
Mas agora…
Agora que havia abandonado sua identidade, esse sonho parecia mais próximo do que nunca.
“Se eu seguir para a costa leste… talvez possa visitar outros continentes.”
Nos livros, lera sobre o continente sul, onde viviam pessoas de pele bronzeada e saudável.
E sobre o continente oriental, onde existiam pessoas de cabelos negros como a noite e olhos escuros como obsidiana.
Suas culturas, línguas e costumes sempre despertaram sua curiosidade.
Talvez, um dia, Asiel crescesse um pouco…
E então ela poderia mostrar o mundo ao filho.
— …Dormir tanto durante o dia me deixou sonolenta outra vez.
Com o mapa ainda nas mãos, Bleier acabou vencida pelo cansaço e adormeceu.
Não sabia quanto tempo havia passado quando sentiu alguém sacudi-la.
Ao abrir os olhos, viu Mikhail.
Ainda estava escuro.
— O que aconteceu?
— Precisamos sair daqui agora mesmo.
Bleier se sentou abruptamente.
— Sair? Por quê?
— Os cavaleiros da casa Delmark estão revistando todas as residências civis da capital.
Seus olhos se arregalaram.
Aquilo era absurdo.
Os cidadãos da capital estavam sob proteção direta do imperador. Revistas indiscriminadas em casas comuns só aconteciam em casos extremos, como traição.
Mas Herdin…
Herdin estava fazendo isso por ela.
Ou para capturá-la.
— Em breve eles chegarão aqui. Precisamos nos mover antes disso.
Sem hesitar mais, Bleier vestiu rapidamente sua capa.
A bagagem já estava pronta, organizada por Mikhail.
Ao descerem, a velha senhora os aguardava na entrada dos fundos.
— Cuidem-se. Não pulem refeições por estarem com pressa. Carregar um bebê é um trabalho duro demais para uma mãe.
Depois, olhando para Mikhail, acrescentou:
— E o pai também precisa cuidar da saúde. A partir do momento em que você tem esposa e filho, seu corpo não pertence mais só a você.
Um silêncio estranho pairou entre os dois.
Corrigir aquele mal-entendido seria arriscado demais.
Então Mikhail apenas sorriu.
— Farei isso. Obrigado por tudo, madame.
Despediram-se e partiram imediatamente pela porta traseira.
Do lado de fora, a vila silenciosa era atravessada pelo som constante de cavalos galopando.
Os cavaleiros de Delmark.
Bleier ajustou ainda mais o capuz, escondendo cada fio de cabelo.
— Shh… Bbi Bbi, fique quietinho.
A pequena criatura se agitou por um momento dentro da bolsa, mas logo se acalmou.
Enquanto seguia Mikhail, Bleier perguntou:
— Todas as rotas estão bloqueadas… existe mesmo uma saída?
Mikhail respondeu sem hesitar:
— Há um lugar onde provavelmente haverá uma brecha.
— Onde?
— No cais do rio Maha.
Durante o festival de verão, uma tradição popular era soltar lanternas flutuantes nas águas do rio Maha enquanto se faziam desejos.
Com tanta gente reunida, barqueiros oferecendo passeios e multidões por toda parte…
Talvez os cavaleiros tivessem bloqueado as estradas, mas dificilmente controlariam o rio com a mesma eficiência.
Era uma aposta.
Mas era a única chance.
— Aqui está o café que pediu.
No café próximo à praça, o atendente colocou a xícara diante de Herdin com mãos trêmulas.
A pressão assassina que ele emanava era tão intensa que o funcionário quase derramou tudo.
Herdin mal percebeu.
Seus olhos estavam fixos na praça.
Ruth chegou pouco depois e se sentou à sua frente.
— A busca está demorando por causa do festival e das muitas casas vazias… mas, considerando o bloqueio das saídas, acredito que seja apenas questão de tempo até encontrarmos a senhora.
Herdin não respondeu de imediato.
Continuou observando a multidão.
Como uma fera esperando sua presa.
Ruth engoliu em seco.
— Talvez devesse descansar um pouco…
Fazia quase três dias que Herdin mal dormia.
Sobrevivia à base de café e cigarros.
Mesmo assim, ele se levantou.
— Descanse você.
Vestindo novamente sua capa, mergulhou na multidão da praça.
Bleier caminhava rapidamente entre as pessoas, tentando não perder Mikhail de vista.
A multidão era enorme.
Mover-se por áreas isoladas chamaria mais atenção, então haviam escolhido se esconder entre o povo.
Mas para Bleier, pequena e fisicamente frágil, atravessar aquela massa humana era exaustivo.
Ao vê-la ser empurrada repetidamente, Mikhail se aproximou.
— Senhora, com licença.
Seu braço envolveu os ombros dela, protegendo-a enquanto abria caminho.
Bleier se assustou com a proximidade.
— Perdoe minha falta de respeito. Será só por um momento.
Com ele guiando, avançaram mais facilmente.
Finalmente, saíram da área mais congestionada.
No mesmo instante, fogos de artifício explodiram no céu.
Bleier ergueu os olhos involuntariamente.
Luzes de cinco cores se refletiram em suas pupilas violetas.
“Se isso também é fogo… como pode ser tão bonito?”
E então…
Pensou nele.
No homem que colocou marshmallows assados em sua boca.
No homem que a salvou do incêndio.
No homem que lhe ensinou que o fogo também podia ser belo.
Seu marido.
As emoções a fizeram baixar o olhar.
E foi então…
Que seus olhos encontraram outros.
Os dele.
Herdin.
Parado no meio da multidão.
Observando-a com olhos frios o bastante para congelar sua alma.
Sabia_tutsung
FALEIIII