Eu Só Preciso do Filho do Duque Episódio 109. Como Atrair o Lobo
—Nossa, está chovendo.
Quando Bleier terminou de jantar com Mikhail e Anna, uma chuva intensa começou a bater contra as janelas.
Era uma chuva de outono.
Anna, enquanto recolhia os pratos, olhou para Mikhail e sugeriu:
—Vai ser bem difícil para o senhor voltar para casa. Por que não passa a noite aqui?
Diante da proposta inesperada, Mikhail se assustou e olhou para Anna. Ela lançou um olhar sugestivo e acrescentou:
—Claro, se a senhora concordar.
—Não, eu estou be…
—Vamos fazer isso. Com esse clima, é muito fácil pegar um resfriado.
Bleier aceitou a proposta de Anna com prazer, antes mesmo que Mikhail pudesse responder.
Mikhail lançou um olhar contrariado para Anna, mas não recusou a gentileza de Bleier.
—… Agradeço sua generosidade, senhora.
—Não foi nada.
Bleier respondeu com um sorriso e um tom de voz que já lhe era familiar.
Desde que começou a viver como “Arwen Hales”, ela tratava Mikhail com respeito.
Embora Mikhail já tivesse dito que ela podia tratá-lo da maneira que quisesse, Bleier permanecia firme.
“Já não sou mais princesa nem duquesa, então estamos na mesma posição.”
Para começar, aquele status era algo que ela havia obtido apenas pela sorte de nascer princesa.
Como era uma posição que ela mesma abandonou, não queria mais se sentir presa a ela. Agora precisava se acostumar à sua condição de plebeia como Arwen Hales.
Porque esse era o lugar pertencente ao nome sob o qual ela escolheu viver dali em diante.
—Então, descanse bem.
Bleier subiu primeiro para o segundo andar, alegando que precisava se lavar, deixando Mikhail e Anna sozinhos na cozinha.
Mikhail observou as costas de Bleier enquanto ela subia as escadas, então se virou para Anna. Nesse momento, Anna evitou discretamente seu olhar e começou a se mover apressadamente.
—Talvez eu devesse começar a preparar o café da manhã de amanhã…
No entanto, Mikhail não era alguém que deixasse passar esse tipo de atitude.
—Anna. Não coloque a senhora em uma situação desconfortável.
Eram exatamente as palavras que ela esperava.
Anna, mantendo uma expressão natural e radiante, aproximou-se discretamente, fechou a porta da cozinha e, com um sorriso travesso, revelou suas verdadeiras intenções.
—Por acaso o senhor não sente algo pela senhora?
Uma mulher que já atravessou muitas tempestades da vida e se aproxima dos quarenta anos costuma ser perspicaz.
Mikhail reprimiu um suspiro, mas no fim não conseguiu negar nem confirmar.
—Ser atencioso é bom, mas um homem que é apenas gentil não tem charme. Às vezes, é preciso ter força para agir com decisão. O senhor não pode passar a vida inteira apenas olhando para ela e protegendo-a de longe como um cavaleiro sombrio, pode?
—Se continuar sendo tão cuidadoso, outro homem vai levá-la num piscar de olhos. Como o senhor sabe, mestre, a senhora tem charme o suficiente para isso acontecer.
—Não me diga que a senhora pensa de forma simplista, como se por ela ser uma mulher com um filho, outros homens não se interessariam.
—Claro que não penso isso.
Mikhail respondeu com um sorriso amargo.
Anna não fazia ideia de que o marido de Bleier estava muito vivo. Nem de que Bleier ainda o amava.
Como Anna dizia, não era hora de ser complacente. Não apenas por seus sentimentos por Bleier, mas também para apagar a instável marca gravada no corpo dela.
Mesmo assim, Mikhail achava extremamente difícil lidar com Bleier.
Durante sua vida como mestre do grêmio, ele havia lidado com inúmeras mulheres. Todas tinham objetivos claros em relação a ele.
Dinheiro, desejo de confirmar o próprio poder ou jogos emocionais para satisfação pessoal — ainda que fosse apenas atuação.
Mas Bleier era diferente.
Ela o via como um ser humano igual, apesar de sua origem humilde, e não tratava sua bondade como algo garantido. Pelo contrário, sentia-se desconfortável por não ter como retribuí-la.
Ela era um tipo de pessoa completamente diferente de todas que ele já conhecera, e justamente por isso ele era mais cauteloso… e mais temeroso.
Temia decepcioná-la com sua forma de agir ou que ela descobrisse o interior de alguém que viveu no fundo da sociedade.
—Leve isso e aproveite para conversar enquanto comem. Não me diga que pretende desperdiçar o tempo que conseguiu com tanta dificuldade.
Anna lhe entregou uma bandeja com maçãs cuidadosamente cortadas e o empurrou para frente.
Mikhail subiu para o segundo andar carregando a bandeja, fingindo que não tinha escolha. Felizmente, o banheiro estava em silêncio, o que significava que Bleier ainda não havia entrado para se lavar.
Quando estava diante da porta de Bleier, debatendo-se sobre o que dizer…
Um estrondo repentino veio de dentro do quarto.
Era o som de objetos caindo.
Quando Mikhail bateu à porta, o barulho cessou.
Um silêncio estranho se instalou, como se toda a confusão de antes tivesse sido uma ilusão.
Ao mesmo tempo, uma sensação de ansiedade o dominou.
—Perdoe a interrupção, mas vou entrar por um instante.
Sabia que não era educado um homem estranho entrar no quarto de uma mulher sem permissão, mas sua ansiedade instintiva foi maior.
Mikhail abriu a porta imediatamente, sem esperar resposta.
A cena que encontrou confirmou exatamente seu pior pressentimento.
Havia objetos espalhados por toda parte, em completa desordem, e no meio deles, um intruso usando uma máscara negra tapava a boca de Bleier.
Ao ver aquilo, o coração de Mikhail despencou.
O invasor hesitou por um instante diante do obstáculo inesperado, então empurrou Bleier em direção a Mikhail e fugiu pela janela aberta.
Mikhail segurou Bleier nos braços e examinou rapidamente seu estado.
—A senhora está bem?
Ele a deitou na cama, enquanto ela cambaleava como se pudesse desmaiar a qualquer momento, e alternou o olhar entre Bleier e a janela por onde a chuva entrava.
Bleier disse que estava bem, mas seu rosto estava pálido enquanto tentava recuperar a respiração e acariciava o ventre.
Mais do que estar realmente bem, parecia estar tentando acalmar a criança dentro de si.
No fundo, Mikhail queria perseguir imediatamente o intruso que tentara machucá-la.
Mas, naquele momento, Bleier vinha primeiro.
—… Primeiro vou chamar um médico.
Ao amanhecer, quando a penumbra começava a recuar, Gerard rezava sozinho em sua capela particular.
Era a primeira tarefa de sua rotina diária, mantida por muitos anos.
O silêncio reverente foi quebrado pelo som de alguém batendo à porta da capela.
Gerard não respondeu, mas a pessoa entrou silenciosamente e se aproximou por trás.
Gerard continuou rezando de olhos fechados.
O sacerdote, hesitando por um momento ao observar suas costas, falou:
—… Disseram que falharam em capturá-la.
Ao ouvir a notícia, Gerard franziu a testa e abriu os olhos.
Mesmo sem mencionar diretamente o alvo, estava claro de quem se tratava.
—Disseram que há um homem ao lado dela. Desde então, a vigilância ficou mais rígida, então se aproximar se tornou difícil.
Um homem.
Mais do que o fracasso do plano, o fato de existir um homem ao lado de Bleier o incomodava profundamente.
Porque, se o coração dela se inclinasse para esse homem, a marca desapareceria.
Então talvez ele tivesse que esperar muito mais tempo para destruir Delmark.
Ou talvez a oportunidade nunca mais surgisse.
Até agora, muitas mulheres haviam admirado Herdin.
Mas a única pessoa com quem uma marca havia sido formada era Bleier.
—Diga para encontrarem uma oportunidade de eliminar esse homem e então se aproximarem.
Gerard interrompeu o sacerdote, que explicava o próximo plano.
—Se falharem nisso, ela fugirá e se esconderá em outro lugar.
—Se não podemos capturar o coelho para lançá-lo ao lobo… então não poderíamos atrair o lobo até a toca do coelho?
Gerard não gostava de deixar esse assunto sair de sua jurisdição.
Mas, para concluir tudo antes que a marca desaparecesse, não era hora de escolher métodos.
Ruth observava Herdin, que assinava documentos com um cigarro na boca.
Mais precisamente… observava a mão com a qual ele segurava a caneta.
Ele usava luvas.
Normalmente, só usava luvas de couro ao sair.
Mas fazia algum tempo que passara a usá-las também dentro de casa.
Ruth não se lembrava exatamente desde quando.
Mas parecia ter começado após o desaparecimento de Bleier.
“Será que ele desenvolveu algum tipo de obsessão, como misofobia?”
Ainda assim, era um assunto delicado demais para perguntar diretamente.
Enquanto pensava em consultar Agnes em breve, Herdin lhe entregou os documentos assinados.
—Há mais algum assunto?
—Ah, recebi notícias do senhor de Nereha.
—A cidade portuária do território do Reino de Kulania, próxima a Ribren.
—Para quê?
—Ele sugeriu que talvez pudesse ajudar em algo relacionado ao projeto territorial de Ribren e propôs cooperação. Também mencionou que gostaria de recebê-lo caso decida visitá-lo.
Herdin se perguntou por que o assunto de Ribren surgira de repente.
Então se lembrou do projeto de desenvolvimento territorial que estava em andamento.
Um projeto iniciado impulsivamente por causa de uma ideia surgida de uma lembrança de infância, em um dia de primavera.
Apesar de a garota que um dia dissera querer cruzar o mar já não estar mais ao seu lado.
Enquanto Herdin zombava de si mesmo por esse fato, Ruth lhe entregou a carta.
—Na minha opinião, seria bom visitá-lo pessoalmente. Como Nereha se desenvolveu primeiro como cidade portuária, talvez o senhor possa ter novas ideias para aplicar ao projeto de Ribren.
Ruth fez a sugestão de forma indireta, esperando distrair Herdin de sua obsessão por encontrar Bleier.
Herdin apagou o cigarro no cinzeiro e abriu a carta.
Chamar aquilo de cooperação era uma coisa.
Na prática, para Nereha, não seria agradável o surgimento de outra cidade portuária bem ao lado.
Não podia ser bom ganhar um concorrente — ainda mais um duque estrangeiro com capital gigantesco.
Ainda assim, não havia razão para impedir.
O objetivo provavelmente era negociar.
Ajudar moderadamente… e estabelecer um pacto de não agressão sobre suas respectivas participações.
Mas Herdin não sentia necessidade de viajar até um lugar tão distante.
Especialmente agora… quando Bleier não estava.
Foi exatamente quando Herdin estava prestes a responder à proposta de Ruth…
Que batidas urgentes ecoaram na porta.
Comentários