Eu Só Preciso do Filho do Duque Episódio 150. Uma relação de nada
As pessoas não morrem facilmente.
Especialmente aquelas que nasceram com uma constituição robusta.
Herdin contemplava o próprio pulso com olhos indiferentes, como se observasse o ferimento de um desconhecido. Era o lugar onde havia se machucado alguns dias atrás, durante uma noite em que bebeu até ficar embriagado. O corte profundo que fizera havia desaparecido sem deixar vestígios.
Naquela noite, Mason, que vinha observando o estado de Herdin desde seu retorno à capital, foi verificar como ele estava dormindo e o encontrou.
Disseram que, graças ao fato de ter sido descoberto rapidamente, sua vida não correu perigo. Além disso, como chamaram um sacerdote para tratar o ferimento, não ficou sequer uma cicatriz. Diante disso, Herdin zombou de si mesmo.
“Suas feridas provavelmente nem sequer cicatrizam.”
Toda vez que via seu pulso impecável, sentia surgir subitamente o impulso de abri-lo outra vez. Com a mesma frequência com que se lembrava naturalmente de Bleier.
—Disse que hoje visitaria sir Felik, não é?
Ruth, que havia terminado de organizar os documentos do dia, perguntou a Herdin. Ele respondeu limitando-se a se levantar do assento.
Ruth observou com inquietação as costas de Herdin enquanto ele vestia o casaco.
Embora fosse incomum que ele se ferisse para suprimir o maná, isso acontecia ocasionalmente.
No entanto, Ruth e Mason perceberam que aqueles ferimentos não tinham como único propósito reprimir suas emoções.
Temendo que Herdin voltasse a alimentar pensamentos imprudentes, os dois contataram Yohan, a quem consideravam um amigo.
Pediram que, já que Sua Excelência parecia estar atravessando um momento crítico, se encontrasse com ele para ouvi-lo.
Omitiram o incidente de alguns dias atrás. Por mais que fossem amigos, no fim das contas eram estranhos e nobres. A fraqueza de Herdin se tornaria a fraqueza de Delmark.
“Embora, com aquela personalidade, duvido que ele abra o coração mesmo se o chamar de amigo.”
Ainda assim, pensaram que Yohan, que possuía ampla experiência no amor e havia sofrido a dor de inúmeros términos, poderia ser de alguma ajuda.
Ruth refletiu sobre isso enquanto se despedia de Herdin.
—Tenha uma boa viagem.
Evidentemente, Ruth havia marcado o encontro com Yohan com essa intenção, mas este nem sequer conseguia mencionar as próprias experiências.
“… Tenho a sensação de que vou acabar morto se não tomar cuidado.”
Deixando de lado o assunto Bleier, isso acontecia porque, sempre que tentava introduzir suas experiências amorosas, Herdin emanava um frio glacial.
Ele não dizia nada em particular, mas seu olhar silencioso bastava para dominar toda a atmosfera ao redor.
No fim, Yohan, incapaz mais uma vez de puxar qualquer assunto, esboçou um sorriso constrangido.
—Hm, então jogamos mais uma partida?
Justo quando ambos voltaram a segurar os tacos de bilhar, ouviram-se vozes masculinas do lado de fora do arco. Eram vozes familiares.
—Então agora é minha vez?
—Que vez?
—Estou falando da nossa Princesa Imperial. Estou pensando em ir seduzi-la.
—Ha. Você ao menos sabe onde ela mora?
—É isso que vou descobrir a partir de agora.
—Louco. Por mais bonita que ela seja, você se casaria com uma mulher que já tem um filho? E ainda mais com uma criança de quem nem se sabe quem é o pai.
Era um grupo de filhos de nobres que, antes de Herdin e Bleier se casarem, costumavam proferir obscenidades sobre ela.
—Ah, bem, para isso eu sou bom demais.
—Então o que pretende fazer?
—Simplesmente, quando estivermos entediados ou solitários, poderíamos manter o tipo de relação que acalma a solidão um do outro. Não acham?
Alguém que ouvia aquilo em silêncio interveio na conversa com voz cautelosa.
—Ei, falem mais baixo. Estão ouvindo na sala ao lado.
Yohan observava a reação de Herdin enquanto esperava que os outros se calassem, mas infelizmente, aquele louco obcecado por Bleier não parecia ter intenção de se calar.
—Sala ao lado? Ah, Herdin Delmarque? E daí se ele ouvir? Afinal, ele já não é mais o marido dela. Com que autoridade diria alguma coisa?
Assim que o nobre terminou de falar, Herdin soltou o taco de bilhar.
Antes que Yohan, que previu o que aconteceria em seguida, pudesse empalidecer e tentar impedi-lo, Herdin saiu da sala.
O nobre, que continuava divagando sobre planos concretos para encontrar Bleier e como abordá-la, se assustou ao ver Herdin parado diante dele. Mas isso durou apenas um instante.
Como se quisesse esconder o fato de ter se intimidado com a presença de Herdin, reagiu com arrogância.
—O quê? O que foi? Vai quebrar outra cadeira desta vez também?
—Não. Foi você quem esteve mexendo a língua, então por que eu quebraria a cadeira?
Mal terminou de falar, Herdin chutou a cadeira onde o jovem estava sentado. Junto com o assento que voou sem resistência, o nobre caiu no chão de forma ridícula.
—Ah, merda… Ficou louco, Duque?
Da boca do jovem enfurecido brotou a mesma atitude com que costumava tratar Herdin durante a infância.
Os outros nobres pararam horrorizados o jovem que tentava se levantar para enfrentar Herdin. E Yohan também segurou o braço de Herdin.
—Herdin, primeiro se acalme…
No entanto, antes que Yohan pudesse acalmá-lo, o jovem o provocou.
—Parece que ainda ama sua ex-esposa?
Diante disso, uma rachadura surgiu por um instante nas frias pupilas de Herdin. Ao ver aquilo, o jovem bateu palmas com uma expressão exagerada, como se finalmente tivesse entendido.
—Ah, ela te rejeitou!
Com apenas essa frase, a atmosfera congelou.
Apenas uma pessoa, o autor daquelas palavras, ria baixinho como se achasse divertido.
—Vejam só, parece que até o grande Duque pode ser rejeitado.
—E por que vem descontar isso num lugar que não tem nada a ver? Com que autoridade?
—Agora você e sua esposa são estranhos.
—Vocês dois agora têm uma relação de nada.
As pupilas de Herdin, que até então estavam calmas, se agitaram violentamente diante dessas palavras. O jovem não perdeu a oportunidade e aprofundou.
—Não é da sua conta o que eu digo sobre sua “ex” esposa, nem se eu durmo com el—
Mas antes que o jovem terminasse de falar, Herdin se soltou de Yohan e seu punho se chocou contra o rosto do outro.
A briga que explodiu no clube só se acalmou quando Ruth e Calrigo chegaram ao saber da notícia. A essa altura, o nobre adversário já havia se tornado uma massa ensanguentada após ser espancado unilateralmente por Herdin.
Yohan franziu a testa ao perceber tardiamente a abrasão no dorso da mão, resultado de ter caído enquanto tentava impedir Herdin.
Ruth se desculpou em nome dele.
—Está tudo bem. Conhecendo o temperamento daquele sujeito, é uma sorte que tenha terminado apenas assim.
Yohan, lembrando-se de como Herdin costumava lutar até ficar coberto de sangue com os nobres que insultavam seus pais antes de partir para a guerra na infância, finalmente suspirou aliviado.
—Já podem ir.
—Sim. Tenha um bom retorno.
Pouco depois, a carruagem partiu.
Ruth observou discretamente Herdin.
Ele olhava a paisagem pela janela como se nunca tivesse perdido o controle. Exceto pelo cabelo e pelas roupas desalinhadas, mantinha um rosto sereno que não parecia o de alguém que acabara de lutar.
Após hesitar por um momento, Ruth falou com cautela.
—Vai se sentir melhor. Embora no começo seja difícil.
Sabendo que eram palavras inadequadas, Ruth se calou depois de dizê-las.
Herdin refletiu sobre essas palavras um instante depois.
Eu vou me sentir melhor?
Quando exatamente?
Enquanto fazia inúmeras vezes essa pergunta que ninguém sabia responder, a silhueta da torre do relógio passou diante da janela.
Ao notar aquilo, Herdin deixou escapar uma risada amarga.
Não importa para onde eu vá na capital, a torre do relógio é visível. Como se, não importasse o que eu faça, eu não pudesse escapar de você.
Depois de rir baixinho por um bom tempo, Herdin apagou todo vestígio de riso e ordenou:
—Parem a carruagem.
Suas pupilas, ao dar a ordem, possuíam um brilho nítido, diferente do de instantes atrás.
—Ex-Excelência? Aonde vai?
Deixando para trás Ruth, que o observava perplexa, Herdin desceu da carruagem e se dirigiu a uma hospedaria próxima.
Entregou o relógio que usava no pulso como pagamento, alugou um cavalo e montou. Em seguida, puxou as rédeas.
Agora eles tinham uma relação de nada.
Ele não podia refutar essas palavras. Porque eram verdade.
No entanto, no momento em que as ouviu, percebeu.
Que nós não podíamos ser uma relação de nada.
Eu não posso ser nada para você.
Não posso aceitar esse fato.
Provavelmente, nunca.
Ao subir ao segundo andar, Bleier sentou-se na cama para recuperar o fôlego.
Talvez porque faltassem menos de dois meses para a data do parto, sua barriga havia crescido consideravelmente durante o último mês. Agora, até subir escadas a deixava sem ar.
“Preciso mudar meu quarto para o primeiro andar.”
Ela havia escolhido o segundo andar por questões de segurança e pela vista, mas parecia que em breve teria de se mudar.
Depois de recuperar o fôlego, Bleier abriu a caixa que havia deixado ao lado da janela.
Dentro da caixa havia lindos sapatinhos de bebê azul-celeste. Rina e Melli os haviam comprado quando foram ao mercado à tarde.
“Ainda falta tempo para o bebê nascer.”
“Nós estamos dando adiantado!”
Parecia estranho como aquelas duas haviam sabido que o bebê em seu ventre era um menino para escolherem meias azuis, mas decidiu ignorar, pensando que poderia ser coincidência.
Também achou que o tecido das meias parecia ser de um material bastante caro, mas não deu importância.
O importante era que os presentes delas eram extremamente adoráveis.
—Todos estão esperando por você assim, pequeno.
Enquanto sussurrava para o bebê e acariciava as meias, algo caiu de dentro delas. Era uma nota de garantia de qualidade.
Na nota estava escrito o nome de uma boutique familiar.
Era o nome de uma boutique da capital à qual havia ido várias vezes em sua vida passada para comprar roupas para Asiel. Ao ver aquilo, uma dúvida cruzou a mente de Bleier.
“Rina e Melli disseram que compraram isso no mercado.”
Intrigada, voltou a colocar a caixa ao lado da janela. Nesse instante, algo tênue passou além do vidro.
Como o dia estivera nublado desde a manhã, uma leve chuva de neve começava a cair.
Era a primeira neve do ano.
Enquanto observava distraidamente aquela paisagem, viu uma silhueta familiar em meio ao cenário exterior.
Herdin havia chegado junto com a neve.
Comentários