Eu Só Preciso do Filho do Duque – Episódio 92. Sentimento de traição
Herdin, afastando-se de Ivan, percorreu rapidamente o salão de banquetes com o olhar. Em nenhum lugar do recinto estava Bleier.
‘Disse que queria tomar um pouco de ar… deve ter ido para o jardim.’
No momento em que Herdin estava prestes a sair para o corredor, Ruth se aproximou dele com uma expressão séria.
— Vossa Graça. Perdoe minha ousadia, mas há algo sobre o qual gostaria de perguntar suas intenções.
— Sobre o quê?
— O incidente de dez anos atrás… por que ainda não o tornou público?
Diante da pergunta de Ruth, Herdin hesitou.
— Já reuniu todas as provas e testemunhos, não é?
— Claro que sei que é uma realidade difícil para a senhora. No entanto, mesmo que ela negue e evite, é algo que inevitavelmente terá que enfrentar.
— Agora que as coisas chegaram a este ponto, no longo prazo será melhor encerrar isso rapidamente e afastar a senhora da família imperial.
Ruth, que havia permanecido observando de um canto do salão, analisou o semblante de Bleier durante todo o evento. Mesmo de longe, a expressão dela ao lidar com Katarina e Ivan não parecia nada boa.
Embora não fosse próxima o suficiente para conhecer seus pensamentos mais profundos, conseguia imaginar como se sentiria alguém cuja própria mãe foi capaz de usar a própria vida para tentar sequestrá-la.
Por isso, não conseguia entender por que Herdin estava adiando a resolução dessa situação.
— Além disso, mesmo que os anciãos não vejam a senhora com bons olhos, quando a verdade vier à tona, haverá muitos vassalos que ficarão do lado dela. Assim, a opinião pública que a critica também vai se acalmar.
— Sabendo de tudo isso, existe algum motivo específico para continuar adiando?
— Eu negociei com o imperador.
Ao ouvir a resposta de Herdin, o olhar de Ruth vacilou. Em uma situação onde já não bastava estar em conflito com Ivan… uma negociação?
Herdin abriria mão da verdade pela qual lutou durante dez anos.
Mesmo assim, ela não conseguia imaginar que tipo de negociação poderia existir em um assunto onde não havia espaço para concessões.
— É uma negociação para obter um benefício maior. Portanto, por enquanto, mantenha silêncio diante de Bleier.
Será que esse benefício realmente valia o sofrimento mental de Bleier?
Por um instante, essa dúvida passou pela mente de Ruth, mas ela decidiu não perguntar mais.
Por mais que lamentasse a situação de Bleier, no fim, seu senhor era Herdin.
— Assim que eu encontrar Bleier, voltaremos para a mansão, então prepare a carruagem.
Após encerrar a conversa com Ruth, Herdin saiu para o jardim. Talvez por ser uma noite fresca de início de verão, havia muitos casais aproveitando o ar livre.
‘Ela parecia pálida há pouco.’
Ao lembrar da imagem de Bleier saindo do salão, os passos de Herdin se apressaram.
Pouco depois de entrar no jardim, ele a encontrou mais perto do que esperava.
Bleier estava sentada sozinha perto da fonte central, observando o jato de água. Herdin se aproximou com passos firmes.
— Você está se sentindo mal?
Não veio a resposta imediata de sempre.
Ela apenas permanecia imóvel, olhando a fonte com aqueles olhos nos quais, como sempre, não se podia ler emoção alguma.
Intrigado, Herdin deu mais um passo em sua direção — e nesse momento Bleier se levantou.
— Vamos voltar para casa.
Herdin franziu o cenho enquanto observava as costas de Bleier passando por ele.
A brisa fria da noite soprou entre os dois.
Durante todo o caminho de volta na carruagem, Bleier não disse uma única palavra. Manteve o olhar fixo na janela, sem sequer olhar para ele.
Mesmo não sendo alguém muito falante, ainda assim… aquela mulher agora era diferente da que Herdin conhecia.
Algo, sem que ele percebesse, havia se quebrado profundamente.
Ao notar isso, a ansiedade que permanecia adormecida dentro dele começou a emergir lentamente.
Como naquela época… quando a observava sentindo que ela poderia desaparecer a qualquer momento.
Herdin olhou para as costas de Bleier, que não voltou o olhar para ele nem uma vez desde que desceram da carruagem até chegarem ao quarto — e, assim que entraram, segurou seu braço com força.
Só então conseguiu finalmente ver seu rosto.
Em suas pupilas, antes escondidas pela escuridão da noite, refletia claramente um sentimento de ressentimento.
Bleier tentou se soltar, mas Herdin a segurou com mais força.
Ele soltou um suspiro e, contendo suas emoções, disse:
— Se tem algo a dizer, diga. Não aja como uma criança.
Após encará-lo por um longo tempo com olhos cheios de reprovação, Bleier abriu a boca.
— Por que me enganou?
— O senhor disse que já tinha encontrado todas as provas.
As pupilas de Herdin vacilaram ao ouvir aquelas palavras.
No fim… ela descobriu. Será que ouviu no salão?
Era por isso que estava tão furiosa.
— O senhor prometeu que se divorciaria de mim quando revelasse a verdade sobre o incidente de dez anos atrás.
Se ela não soubesse até o fim, aquele ressentimento seria menor… mas agora não havia como evitar.
— Ah… é verdade, eu disse isso.
— Então cumpra agora esse contrato. De acordo com o documento, nosso contrato já terminou. O único que está atrasando isso é o senhor.
Não havia mais escolha. Ela precisava impor seu plano.
— Bem… temo que isso seja um pouco difícil.
— Como você deve ter ouvido às escondidas, eu negociei com seu irmão.
— E, para essa negociação… eu preciso de você.
Ele não podia dizer que a razão para mantê-la ali… era ela mesma.
Para alguém que guardava outro homem no coração, seus sentimentos não teriam valor algum.
Seria inútil propor algo que ela certamente rejeitaria.
— …Então pretende me usar nessa negociação? Quebrando a promessa que fez comigo?
— Se formos analisar dessa forma… infelizmente, sim.
Ele admitiu quebrar o contrato com uma naturalidade absurda, sem qualquer traço de arrependimento no rosto.
Ao ver aquela expressão, uma risada amarga escapou entre os lábios de Bleier.
Ela se esforçou para cumprir o contrato com ele. Se esforçou para superar seu medo e encarar a verdade que queria evitar.
Ela não se arrependia disso.
Porque não foi apenas por ele… foi também por Esmeralda.
Mas, independentemente disso, a traição à sua confiança doía.
Seu estômago revirou, como havia acontecido no palácio ao enfrentar Katarina e Ivan.
Ela se sentiu sufocar ao perceber que ele não era diferente deles.
Esse homem… também só pensava em usá-la.
Ela odiava isso.
E mais terrível do que ele…
Era ela mesma.
Ela, que confiou nele. Que hesitou diante da proposta de Mikhail, como uma tola, querendo cumprir a promessa.
Ela, que voltou a amá-lo mesmo depois de tudo.
— Acho que este casamento também não é uma opção ruim para você.
— Afinal… nós combinamos bastante bem.
— …O senhor realmente acredita nisso? Sinceramente?
Nos olhos dele passou um traço de dúvida genuína.
Ele realmente parecia acreditar que não havia problema algum entre eles.
Diante disso, ela soltou uma risada.
— Não. Desde o começo nós não combinávamos. Quem se adaptou… fui eu.
Na vida passada, porque te amava.
Nesta vida, para encontrar Asiel.
Sempre foram suas ambições em primeiro lugar.
Sempre fui eu quem lutou desesperadamente para consertar uma relação que se quebrava repetidas vezes.
Será que você sabe como é tentar juntar sozinha milhares de pedaços de vidro?
— Fui eu quem sustentou nossa relação. Para manter um bom vínculo com você. Você nunca percebeu… porque para você isso era natural demais.
— Agora eu entendo claramente. Nós nunca, jamais, poderemos ficar juntos.
— Então podemos ir nos ajustando daqui pra frente.
Houve um tempo em que ela também acreditou nisso.
Que, por amá-lo, um dia ele reconheceria sua sinceridade.
Mas agora sabia…
Que aquilo era arrogância.
— Não. Eu não vou mais fazer isso. Não tenho motivos. Porque você já não é mais meu aliado.
— Me deixe ir.
Palavras desesperadas, quase um pedido.
Mas, para Herdin, soaram como lâminas cravadas.
O canto de seus lábios se torceu, e a raiva crescente se refletiu em um tom gelado.
— Todo mundo vive assim. Casamentos sem amor, baseados apenas em interesses.
— Para começo de conversa, aquele seu plano era absurdo. Uma princesa causar um escândalo e fugir no meio da noite… ridículo.
— No máximo, você seria capturada e presa no palácio imperial. Ou, com sorte, acabaria como segunda esposa de algum velho.
— Até quando pretende viver presa nesses ideais?
Diante das palavras duras, os olhos de Bleier se distorceram.
Seu corpo frágil tremia intensamente, incapaz de conter as emoções.
Ao vê-la assim, Herdin se sentiu mal.
Não havia satisfação… nem alívio.
Ele afrouxou a gravata, sufocado, e disse:
— …Já chega. Você não está bem.
Aproximou-se dela e a puxou para seus braços.
— Me solte!
Bleier o empurrou. Sem força… mas com insistência.
Herdin acabou soltando.
Livre, ela deixou lágrimas caírem enquanto o encarava com olhos cheios de ódio.
— Eu me arrependo profundamente de ter confiado em você novamente.
Após dizer isso, como um golpe final, Bleier se virou e saiu do quarto.
Herdin passou a mão pelos cabelos, tentando se recompor.
Sabia que ela não podia sair da mansão.
Bastava esperar… até encontrá-la novamente.
Mas no momento em que levantou a cabeça—
Viu Bleier desabar logo ao sair do quarto.
E, ao mesmo tempo, sentiu como se seu coração caísse.
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