Eu Só Preciso do Filho do Duque Episódio 151. O valor de ser covarde
Era alta noite quando Herdin chegou ao vilarejo onde Bleier residia.
Não sabia quantas noites havia cavalgado sem descanso. No entanto, embora sua noção do tempo tivesse desaparecido, a urgência de encontrar Bleier se tornava mais nítida à medida que as horas passavam.
Não se tratava de um impulso momentâneo nem de um arroubo. Ele não podia terminar tudo com ela daquela maneira.
Havia cavalgado freneticamente, movido apenas por esse pensamento.
Foi somente ao desmontar na entrada do vilarejo que percebeu que aquilo que flutuava delicadamente diante de seus olhos era neve.
Herdin pisou na neve virgem, que ainda não havia sido tocada por ninguém, e parou diante da casa de Bleier. Apenas ao contemplar a residência mergulhada na escuridão percebeu que era tarde demais para visitá-la.
Embora tenha considerado voltar e retornar no dia seguinte, já que Bleier certamente estaria dormindo, não ousou dar meia-volta.
Bleier estava naquela casa.
Ao pensar que ela se encontrava no mesmo espaço que ele, sentiu que finalmente conseguia respirar. Como se até aquele momento tivesse sido alguém incapaz de fazê-lo.
Quanto tempo teria permanecido ali, imóvel? Na janela do segundo andar surgiu uma silhueta familiar. Era Bleier.
Herdin a olhou atônito; ela aparecia diante de seus olhos como um milagre. Bleier, ao cruzar olhares com ele, também pareceu surpresa e piscou com os olhos bem abertos.
Ambos se contemplaram em meio à neve que caía silenciosamente. Assim, por um longo tempo.
A primeira a desviar o olhar foi Bleier.
Ao vê-la entrar no quarto, um suspiro doloroso escapou entre os dentes de Herdin.
Ele não esperava que ela o aceitasse facilmente. Simplesmente sentia que bastaria ver seu rosto uma vez e confirmar que ela estava bem.
Mas a cobiça humana não tem limites e, ao ver aquele rosto, sentiu um desejo irreprimível de se aproximar. Queria abraçá-la, beijá-la e ouvir sua voz sussurrando. Seu coração ardia.
“… Como eu pensava, talvez ela não queira me ver.”
Para dizer a verdade, um ex-marido que aparece de repente a essa hora e sem aviso parecia alguém bastante perturbado. Especialmente tendo percorrido uma distância que exigiria vários dias mesmo cavalgando sem dormir. Se estivesse no lugar dela, provavelmente também não o receberia.
Enquanto lamentava a própria atitude e passava a mão pelo rosto em frustração, aconteceu.
Click.
Quebrando o silêncio da noite nevada, ecoou o som de uma porta se abrindo; a entrada principal, que parecia que jamais cederia, se abriu.
Bleier se aproximou dele, pisando cuidadosamente na neve acumulada. Herdin, que observava a cena atônito, apressou-se em detê-la por medo de que ela pudesse tropeçar.
—Eu vou até aí.
Em poucos passos, colocou-se diante dela. Herdin começou examinando o estado de sua esposa, a quem não via há um mês.
Bleier estava com a barriga um pouco mais saliente, mas felizmente parecia saudável. Ao pensar que ela havia protegido e criado o bebê em seu ventre com aquele corpo tão frágil, sentiu orgulho dela e, ao mesmo tempo, uma pontada no coração. Que ironia.
Bleier, que o observava fixamente enquanto ele estava absorto verificando seu estado, perguntou primeiro.
—Até quando pretendia ficar assim?
—Eu ia… embora em breve. Pensava em voltar amanhã.
No entanto, ao contrário de sua resposta, a neve já havia se acumulado espessamente sobre seus ombros.
Bleier soltou um pequeno suspiro e perguntou.
—Por que veio aqui? A essa hora.
—Porque queria te ver.
—Por isso veio. A essa hora.
A resposta fluiu sem o menor traço de hesitação.
Herdin, temendo perder aquele tempo que ela lhe concedia, aquela última oportunidade, segurou sua mão apressadamente e falou.
—… Eu sei que você sofreu muito por minha causa. Sei que não existe razão que possa justificar a dor que te causei. Eu sei… mas, mesmo assim, não consigo ficar sem você.
—Porque ainda te amo demais.
Palavras que guardara no peito durante toda a viagem até ali, ou melhor, desde que recuperou as memórias do passado.
Palavras que não conseguiu pronunciar no fim por não ter coragem de deixar de ser covarde.
—Me dê mais uma chance, Bleier.
Diante da figura de Herdin, que segurava sua mão com um desespero tão intenso como se fosse morrer caso ela o rejeitasse, os olhos de Bleier se contraíram de tristeza.
Ele a amava.
Mesmo sem ouvir aquelas palavras, a resposta estava em seus olhos. Em suas pupilas, que se pareciam com uma noite de inverno, refletia-se apenas a imagem dela.
Naqueles olhos, Bleier viu sua vida passada.
No dia em que a primeira neve caiu em sua existência anterior, ela teve de encará-lo e ao seu olhar desprovido de emoções. Mas agora, ele a olhava com olhos completamente diferentes.
—… É verdade. Eu ainda me lembro de você da vida passada.
Herdin ficou paralisado diante das palavras de Bleier.
—Eu sei que aquela aparência não era sincera, mas a tristeza que senti naquela época não desaparece.
Agora, as lembranças da vida passada são borradas.
No entanto, embora as memórias estejam se apagando, as emoções daquele tempo permanecem nítidas, a ponto de o simples fato de recordar aquele período doer o suficiente para fazê-la chorar.
O período mais triste e solitário de sua vida.
Agora ela sabe que os sentimentos dele naquela época não eram sinceros, sabe que foram ações para protegê-la… mas toda vez que as memórias do passado surgiam repentinamente, as feridas que recebeu dele voltavam a latejar.
—Por isso eu deixei seu lado.
—Por medo de acabar te ressentindo de vez em quando, por medo de odiar a mim mesma por estar presa às feridas do passado e não conseguir seguir em frente…
Porque o coração nem sempre obedece à vontade.
E isso seria cruel tanto para você quanto para mim.
Herdin ficou desolado diante das palavras de Bleier, impregnadas de uma tristeza serena.
As feridas dela eram tão profundas que, por mais que se esforçasse, ele jamais poderia compreendê-las completamente. Diante desse fato, sentiu dor no pulso que havia maltratado dias atrás, apesar de não restar sequer uma cicatriz.
Mas estava disposto a que aquela dor fantasma durasse para sempre. Preferia isso a perdê-la daquela forma.
—Você não precisa acreditar em mim agora mesmo. Também não vou te pedir que me perdoe. Só… você não poderia deixar que eu fique ao seu lado?
—Mesmo que às vezes me odeie ou sinta rancor ao se lembrar, você não poderia me deixar ficar ao seu lado assim?
Um vento invernal gélido soprou entre os dois.
Bleier olhou fixamente para aquele homem que se agarrava a ela quase suplicando.
Seu rosto atraente continuava o mesmo, mas no tempo em que não se viram, ele havia emagrecido e os traços de seu rosto se tornado mais afiados. Seu cabelo, sempre impecável, estava desarrumado e encharcado pela neve.
Ao observar aquilo, Bleier soltou um pequeno suspiro. O vapor congelado se dispersou no vento frio.
Herdin entrou no espaço dela seguindo seus passos. A casa, onde todos dormiam, estava em silêncio.
Justo quando aquele espaço desconhecido começava a lhe parecer encantador apenas pelo fato de ela o preencher, Bleier, que havia ido até a cozinha, perguntou.
—Quer beber alguma coisa?
—Um copo d’água já basta.
—Não quero oferecer apenas água a um convidado.
Convidado.
Essa palavra, provavelmente dita sem intenção, chegou a Herdin com um sabor amargo.
—… Então, o que você costuma beber.
O que Bleier costumava beber com frequência era cacau.
—Você odeia coisas doces.
—Hoje me deu vontade de beber.
Depois de olhá-lo por um momento, Bleier finalmente começou a preparar o cacau conforme seu pedido.
No instante em que ela abriu a porta do armário, Herdin, que havia se aproximado por trás sem que ela percebesse, pegou a pequena caixa de cacau em seu lugar.
—Desculpe. Por fazer você atender um convidado tão tarde da noite quando seu corpo deve estar cansado.
Enquanto dizia isso, olhou ao redor da cozinha. Parecia pretender preparar a bebida ele mesmo. Bleier o impediu.
—O convidado só deve esperar.
Diante dessas palavras, Herdin parou de olhar em volta e ficou imóvel ao lado dela. No entanto, não conseguia desviar o olhar de seu rosto.
Ela estava diante de seus olhos.
A uma distância em que podia vê-la, ouvi-la e tocá-la. Falando com ele, cruzando olhares de vez em quando. Exatamente como agora.
Erguendo o olhar para Herdin, Bleier traçou um limite diante daquele homem que havia se aproximado demais.
—Ainda não decidi aceitá-lo. Está tarde, então vamos conversar de novo amanhã.
Diante disso, Herdin sorriu amargamente.
Ele sabia.
Sabia que sua esposa não era cruel a ponto de rejeitar alguém que a havia procurado em uma noite de inverno tão fria.
Sabia que o fato de ela tê-lo deixado entrar em casa agora também se devia àquela natureza dela. Ela teria feito o mesmo se quem tivesse vindo não fosse ele, mas Ruth ou qualquer outra pessoa.
Portanto, a cortesia dela não equivalia ao perdão.
Ainda assim, Herdin estava grato naquele momento por ela ter cedido um espaço ao seu lado.
—Tudo bem, vamos conversar de novo amanhã.
Bleier o encarou fixamente, vendo como ele se mostrava submisso como se fosse atender qualquer desejo seu, e acrescentou enquanto lhe entregava o cacau com leite quente.
—Ainda assim, não espere debaixo da neve.
No dia seguinte, Herdin abriu os olhos ao ouvir a voz de Bleier chamando-o.
Ao mesmo tempo em que encontrou o olhar preocupado de sua esposa, soube instintivamente que seu estado não era bom.
Seu corpo inteiro queimava e parecia pesado. Ele estava com febre.
Era um resultado natural, considerando que havia cavalgado durante vários dias sem dormir adequadamente e se expondo ao vento invernal.
Não ficava doente desde criança, e tinha de acontecer justamente agora.
A mão frágil de sua esposa tocou sua testa. Sua mão, que normalmente era fresca, parecia hoje ainda mais fria.
—Você está com muita febre agora.
Naquele instante, em sua mente entorpecida pela febre, chegou tardiamente o pensamento de que precisava se afastar dela.
Uma mulher grávida não pode tomar remédios nem mesmo se pegar um resfriado.
Idiota, mais uma vez deixou que suas emoções o dominassem e veio precipitadamente, colocando-a em risco.
—Vou chamar o médico.
Enquanto Bleier, que o examinava com olhos preocupados, se virava para sair do quarto, Herdin segurou sua mão.
Herdin moveu os lábios secos e rachados para conseguir falar.
—… Vou sair logo, então não o chame.
Levantou-se com o corpo pesado e vestiu o casaco.
Pretendia sair com aquele corpo que parecia uma bola de fogo?
Bleier, que havia ficado atônita por não conseguir acreditar em sua atitude, segurou seu braço.
—Que quer dizer com sair? Para onde? Nesse estado?
—Vou descansar um pouco e voltar. Logo vou me sentir melhor, então vamos conversar de novo depois. Eu poderia te passar o resfriado—
Justo quando Herdin tentava soltar suavemente a mão com que ela o segurava, Bleier segurou sua mão novamente e lançou um aviso.
—Se sair agora mesmo, saiba que nunca mais poderá entrar nesta casa.
Bleier conseguiu fazê-lo sentar-se novamente na cama e saiu do quarto.
No entanto, quando ela voltou ao quarto de hóspedes, ele já havia desaparecido.
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