Eu Só Preciso do Filho do Duque Episódio 146. A última noite
24.01.2024.
Bleier esboçou um leve sorriso ao vê-lo se aproximar.
Em seus olhos não havia ressentimento, nem raiva, nem tristeza. Era o sorriso de quem já não espera mais nada do homem que em breve se tornaria um estranho.
Herdin, incapaz de suportar aquele gesto por mais tempo, baixou o olhar. O ventre dela, visivelmente volumoso, chamou sua atenção.
Asiel nasceria no início do próximo ano. Ainda faltavam pouco mais de três meses, mas para sua constituição frágil, o ventre já era um peso considerável.
Herdin se ajoelhou diante dela sobre um joelho, ficando na altura de seus olhos para falar.
— O que acha de voltarmos à capital para preparar o parto? Há parteiras mais experientes e seria mais fácil encontrar um médico.
— Estou bem. As crianças nascem em qualquer lugar e eu já conheço bem os sintomas da gravidez.
Para Bleier, Asiel era seu primeiro filho, mas não sua primeira gravidez. O medo do processo e do parto já havia desaparecido. Portanto, não havia nada que o marido pudesse fazer por ela. Absolutamente nada.
Enquanto Herdin hesitava em dizer algo mais, Bleier tomou a iniciativa.
— Estive pensando enquanto fiquei aqui. Se ainda poderíamos voltar a nos amar.
Herdin a observou enquanto ela continuava.
Ao vê-la sorrir para ele, sentiu que podia adivinhar as próximas palavras. Não queria ouvi-las, mas não tinha como impedir.
— Mas acho que isso não é o certo.
— Viver todos os dias duvidando e me preocupando se você vai me machucar de novo… isso pode ser chamado de amor? Isso pode ser felicidade?
— Acho que seria uma crueldade tanto para você quanto para mim.
Herdin, que havia escutado em silêncio, segurou a mão dela apressadamente. Sua voz grave e rouca ao chamá-la, e a mão que a segurava, tremiam levemente.
Sentindo isso, Bleier apertou sua mão com suavidade. Mas as palavras que vieram depois não foram nada gentis.
— Vamos ser felizes agora. Cada um no seu lugar.
Ao contrário do sorriso dela.
Herdin encarou vagamente a mão que ela segurava.
Mesmo estando claramente segurando-a, sentia um vazio, como se estivesse apenas agarrando uma ilusão.
Ele marcou a partida para quatro dias depois. Era uma data que seguia estritamente o desejo de Bleier.
Bleier queria deixar aquela mansão o mais rápido possível. Não queria deixar mais vestígios de si mesma em um lugar do qual, de qualquer forma, precisaria partir.
Inclusive pelo bem dele, que ainda a amava.
Como suas poucas coisas já estavam praticamente prontas desde o início, não havia razão para adiar a partida.
Na tarde anterior à viagem, Bleier assinou o pedido de divórcio. Fez isso com sua caneta-tinteiro favorita e uma caligrafia impecável.
No momento em que dobrava o documento com cuidado e o colocava no envelope, ouviu-se uma batida na porta.
— Posso entrar?
Era Herdin.
Bleier guardou o envelope na gaveta. Era um documento que ele receberia no dia seguinte e que provavelmente já conhecia, mas ela não queria que ele visse naquele momento.
Depois disso, Bleier se aproximou da porta e a abriu.
— O que foi?
— Se não se importar, pensei que poderíamos sair um pouco.
Bleier o encarou por um instante e assentiu com leveza.
Sentiu que poderia conceder isso a ele — e a si mesma — apenas por aquele dia. Pela última vez.
O mar da tarde brilhava com reflexos prateados.
Diferente do mar de Nereha, que parecia turbulento como os mitos que chegam à cidade, o mar de Ribren era calmo e suave. Era fascinante como dois mares próximos podiam transmitir sensações tão diferentes.
Bleier observava a paisagem distraidamente até sentir o peso de um casaco sobre seus ombros e erguer o olhar para Herdin.
— O vento está mais forte do que eu esperava.
Herdin abotoou o casaco nela, considerando sua gravidez avançada.
Bleier observou em silêncio enquanto ele se ajoelhava para fechar os botões. Então, ao notar que o olhar dele subia acompanhando a linha dos botões, desviou os olhos para o mar antes que se encontrassem.
— Ainda assim, é agradável sair assim.
Herdin se levantou depois de abotoar o último botão. Os dois caminharam ao longo da costa.
Depois de um longo tempo, Herdin falou, logo após um grupo de crianças da vila passar por eles.
— Lembrei que você queria ver o mar, então quis te trazer.
— Parece que eu já consegui vir ao mar sozinha.
Isso havia acontecido mais de dez anos atrás.
Bleier piscou, surpresa por ele lembrar de algo que ela achava ter esquecido completamente.
— Você lembrava?
— Porque eu prometi.
“Mesmo que eu não tenha conseguido cumprir.”
A voz de Herdin, que acrescentou isso em tom baixo, carregava autodepreciação.
— Ouvi dizer que você vai ficar em Icar até o bebê nascer.
Icar era uma das cidades próximas a Ribren. Bleier assentiu.
— Seria imprudente viajar longe nesse estado. Depois que o bebê nascer, pretendo ir para outro lugar.
Os passos de Herdin pararam ao ajustar o ritmo ao dela. Bleier percebeu e se virou. Encontrou os olhos azuis dele, como o mar.
Herdin observou em silêncio Bleier, de costas para o mar.
O cabelo platinado brilhando sob o sol da tarde, as pupilas violetas refletindo o vermelho do pôr do sol, tudo nela…
Era belo.
O vento frio machucava seus olhos, mas ele manteve o olhar aberto, como se até piscar fosse um desperdício.
Depois de observá-la como se quisesse gravar sua imagem na memória, falou com firmeza.
— Eu voltarei à capital na próxima semana e não pretendo voltar aqui até que o porto esteja concluído. Portanto…
Herdin afastou com cuidado uma mecha de cabelo dela levada pelo vento e a colocou atrás da orelha.
— Eu te dou este mar.
— O mar combina com você.
Disse isso com um leve sorriso.
Seus olhos, que sempre pareciam um lago congelado no inverno, pareceram derreter por um instante, mas Bleier ignorou isso.
Ela não queria quebrar aquele lago frágil e congelado. Nem por ele, nem por ela.
O lago dele se quebrou naquela noite.
Depois de verem as malas de Bleier sendo carregadas na carruagem, Herdin bebeu álcool sem voltar ao quarto.
Sabia que era a última noite que passaria com ela.
Mesmo assim, não conseguia encará-la sóbrio, sabendo que ela provavelmente o olharia com uma expressão limpa, como se estivesse livre.
Preferia que ela estivesse com raiva. Que o odiasse.
Aquele rosto sem ressentimento e sem ódio era a prova de que eles realmente se tornariam estranhos — e isso o sufocava.
Herdin voltou ao quarto já tarde da noite, quando Bleier já dormia. Como esperava, ela estava de costas para ele.
“Mañana a esta hora ya no podré verla así.”
Herdin soltou um suspiro misturado com o efeito do álcool e se sentou na beira da cama. Ao estender a mão, os cabelos platinados de Bleier se enroscaram em seus dedos.
A última vez. Era a última.
Quanto mais repetia isso em sua mente, mais raiva sentia, depois incredulidade, e de repente o desejo de acordá-la e implorar.
Suas emoções mudavam drasticamente, como se virasse a palma da mão, fazendo-o se sentir um louco até para si mesmo.
Não era a primeira nem a segunda vez que ela dormia de costas por causa do ventre, mas agora aquela pequena costas voltada para ele parecia dolorosa.
Herdin subiu na cama e a abraçou por trás, como fazia todas as noites.
Mais tarde percebeu que ela poderia sentir o cheiro forte de álcool, mas pensou que não importava, já que estava dormindo.
Sua mão cobriu naturalmente o ventre dela. Estava mais alto do que parecia.
Então sentiu um movimento claro.
Quando pensou que era imaginação causada pelo álcool, o ventre se moveu novamente.
O bebê.
Como se ignorasse o pai cruel que o tratara apenas como um meio de prender Bleier, o bebê, que nunca reagira antes, finalmente bateu em sua mão.
Na última noite antes da separação.
Herdin soltou uma risada amarga.
Houve um tempo em que achou que esse bebê seria a corrente dela. Sem imaginar que era ela quem desejava a criança desde o início.
Foi tolo.
Ele enterrou o rosto no ombro frágil dela.
Sentiu-se sufocado pelo perfume doce dela.
Sua voz grave ecoou no quarto silencioso.
Segurou a mão de Bleier com desespero.
Sabia que ela não responderia, mas continuou chamando.
Porque não tinha direito nem capacidade de impedi-la.
Queria deixá-la ir mostrando seu melhor até o fim.
— Você não poderia… não ir?
— Eu… fiz tudo errado.
— Vou fazer melhor, então, por favor…
— Não vá. Eu te imploro.
Enquanto falava sem parar, percebeu em algum momento que ela estava acordada. Ainda assim, não a soltou.
Poderia parecer embriaguez. Ou loucura.
Mas se fosse assim, talvez conseguisse segurar ao menos um pedaço dela.
Mesmo assim, Bleier não se virou.
Aquela madrugada foi um instante breve para ele e interminável para ela.
E, sendo tão diferentes, viveram o mesmo tempo de formas completamente distintas.
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