Eu Só Preciso do Filho do Duque – Episódio 108: Dias Pacíficos
—Professora, você não pode dar aula de idioma imperial amanhã também?
Perguntou uma garotinha tagarela enquanto deixava Bleier pentear seu cabelo. Era uma das pequenas que sempre ficava ao redor dela, mesmo depois do fim das aulas.
Embora Bleier percebesse o profundo apego da menina naquela pergunta, corrigiu-a com gentileza.
—Amanhã é o dia de aprender o idioma do Continente Sul. Vocês precisam ter aula com o professor Petro.
—Mas eu quero aprender mais idioma imperial. O idioma do Continente Sul é difícil e chato.
—É verdade. Além disso, eu gosto mais da professora.
Outra menina, que aguardava sua vez para arrumar o cabelo, entrou na conversa.
Bleier soltou uma risada ao ouvir a honestidade das pequenas.
—Obrigada por gostarem de mim. Eu também gosto muito de vocês.
Naquele momento, terminou de prender o cabelo da primeira menina.
—Pronto, Alisa. Quer se ver no espelho?
Bleier lhe entregou um espelho de mão. Ao ver as duas tranças perfeitamente alinhadas, a menina assentiu satisfeita.
—Está lindo! A professora é a melhor!
—Agora eu!
Desta vez, a próxima menina se sentou de costas para Bleier, que começou a pentear cuidadosamente seus cabelos.
O motivo de Bleier ter começado a arrumar o cabelo das meninas havia sido um pedido delas mesmas.
Para alguém que passou a vida inteira sendo cuidada por outras pessoas, tocar o cabelo de alguém era uma experiência desconhecida e estranha, mas, depois de tentar, descobriu que era surpreendentemente prazeroso.
“Agora acho que entendo por que Rina e Melli ficavam tão orgulhosas quando arrumavam o meu cabelo.”
Acima de tudo, ela achava adorável que aquelas meninas confiassem nela o suficiente para lhe entregar algo tão precioso.
Assim, sua habilidade com penteados melhorou drasticamente, e agora aquilo havia se tornado parte de sua rotina diária após as aulas.
Por fim, as duas pequenas clientes estavam prontas.
—Já que a professora deixou nosso cabelo tão bonito, no próximo dia de aula de idioma imperial nós vamos ler sua sorte!
Parecia que elas tinham amado o resultado e queriam retribuir de alguma forma.
Diante daquela recompensa inesperada, Bleier arregalou os olhos.
—Vocês sabem ler sorte?
—Sim! Tenho estudado bastante ultimamente. A senhora vai ser minha primeira cliente.
—Tudo bem. Então estarei ansiosa, senhorita vidente.
Prometendo se encontrar novamente na próxima aula, as meninas saíram da escola acenando com entusiasmo.
Depois de se despedir delas, a rotina de Bleier naquele dia finalmente chegou ao fim.
Ela recolheu seus poucos pertences, verificou cuidadosamente sua peruca castanha e deixou a escola.
Já fazia cerca de um mês desde que Bleier havia se estabelecido em Nereha.
Seu plano original era se fixar em Agenta, a capital do Reino de Kulania, mas como a perseguição de Herdin se tornara muito mais persistente do que imaginava, não podia se arriscar em uma capital tão movimentada.
Enquanto mudava constantemente de lugar para escapar da busca, Nereha acabou surgindo como a melhor escolha.
Uma cidade portuária que a aproximava um passo mais de seu sonho de infância de conhecer outros continentes.
Felizmente, ao chegar ali, conseguiu despistar completamente o rastro da Ordem de Cavaleiros Delmark e pôde se estabelecer sem maiores problemas.
Não como a princesa e duquesa Bleier Delmark.
Mas como a plebeia Arwen Hales.
No começo, por medo de ser reconhecida, Bleier passava a maior parte do tempo trancada em casa. Porém, ao perceber sua apatia, Mikhail lhe sugeriu uma forma de ocupar o tempo.
—Nereha recebe muitos estrangeiros, então há bastante gente interessada em aprender idiomas. Já que você domina a língua de Kulania, por que não ensina o idioma imperial?
Como membros da família imperial frequentemente lidavam diretamente com convidados estrangeiros, aprender idiomas fazia parte de sua educação básica desde a infância.
Era o trabalho perfeito para Bleier.
Na verdade, ela não precisava trabalhar, já que possuía recursos suficientes reservados. Além disso, pretendia fundar uma guilda comercial assim que o bebê nascesse.
Portanto, ensinar crianças começou apenas como uma atividade recreativa para espairecer.
Mas o trabalho de professora, iniciado sem grandes expectativas, acabou se encaixando perfeitamente em sua natureza.
Mais do que aptidão, para alguém que viveu a vida inteira distante de qualquer trabalho prático, trabalhar diretamente e ganhar seu próprio dinheiro proporcionava uma sensação inédita de realização.
Uma vida em que existiam pessoas que precisavam de suas habilidades, onde essas pessoas pagavam justamente por elas, e com esse dinheiro ela podia comprar diretamente o necessário para alimentar a si mesma e ao bebê.
Naquela vida, Bleier encontrou uma satisfação e um orgulho que jamais havia experimentado antes.
“Hoje no jantar, vou comer paella de frutos do mar.”
Bleier passou pelo mercado para comprar os ingredientes.
Enquanto observava cestos cheios de frutos do mar diante de uma barraca, uma comerciante que a reconheceu a cumprimentou.
—Ora, se não é a professora! O que vai levar hoje?
—Olá, madame. Estou procurando frutos do mar para fazer uma paella.
—Excelente escolha! Então leve estes camarões e estas amêijoas. Estão fresquíssimos e deliciosos.
A comerciante recomendou vários produtos e, como sempre, colocou mais do que o habitual. Era uma gentileza conquistada graças ao bebê em seu ventre.
Os moradores da vila acreditavam que Bleier era uma viúva cujo marido havia morrido em um trágico acidente, e que agora criava o filho póstumo sozinha, por isso sentiam pena dela.
Bleier se sentia um pouco culpada por transformar um Herdin perfeitamente vivo em falecido, mas, considerando que isso tornava tudo mais seguro, permitiu que o mal-entendido continuasse.
—Muito obrigada.
Bleier respondeu à gentileza com um sorriso antes de seguir caminho.
A bolsa de palha cheia de frutos do mar era pesada, mas seus passos eram leves.
Com o coração satisfeito, ela entrou na vila carregando as compras do dia. Após caminhar um pouco mais, avistou a casa de dois andares com telhado azul que agora parecia seu verdadeiro lar.
Ao entrar, Anna a recebeu imediatamente.
—Minha nossa, você comprou tudo isso sozinha? Devia ter pedido para mim.
Anna era a pessoa recomendada por Mikhail, responsável pelos afazeres domésticos e pela cozinha.
Bleier vivia naquela pequena casa com ela.
Ou melhor… eram quatro moradores: Bleier, Anna, Bbi Bbi e o bebê em seu ventre.
—Está tudo bem. Eu já passaria pelo mercado no caminho de casa de qualquer forma.
—Mesmo assim, deve ter sido pesado.
Anna rapidamente pegou a bolsa de frutos do mar e conduziu Bleier até a sala.
—Ah, lembra que o senhor Mikhail vem jantar conosco esta noite, não é?
Mikhail morava na mesma vila e ocasionalmente aparecia para jantar e conversar sobre os planos futuros.
—O que devo preparar para o jantar?
—Estou com vontade da sua paella de frutos do mar. Foi por isso que comprei os ingredientes.
—Ah, perfeito! Coincidentemente, eu também estava com vontade.
Anna foi para a cozinha preparar o jantar, enquanto Bleier seguiu para a sala.
Pela ampla janela, era possível ver o vasto mar azul.
Bleier sentou-se em uma cadeira de balanço diante da janela e observou em silêncio o oceano cintilando sob a luz do sol.
Foi naquele instante que, sem querer, lembrou-se de olhos profundos e frios com a mesma tonalidade daquele azul.
Então, sentiu um pequeno movimento em seu ventre, como se um peixinho nadando se agitasse.
Eram os movimentos do bebê.
A criança, que começara a se mexer havia pouco tempo, fazia questão de demonstrar sua presença sempre que podia.
Embora não fosse a primeira vez, toda vez que sentia o bebê se mover, uma emoção intensa florescia em seu peito.
Era como se aquele pequeno movimento fosse uma saudação.
Bleier respondeu colocando suavemente a mão sobre o ventre, sorrindo com ternura.
Em dois meses, sua barriga havia crescido. Com vestidos largos ainda era difícil perceber, mas com roupas mais finas, sua gravidez já se tornava evidente.
Assim eram seus dias pacíficos.
Ela havia deixado para trás tudo aquilo que a sufocava.
Seu status de princesa e duquesa.
Sua família.
E até aquele sentimento chamado amor, que só lhe trouxe dor.
O bebê em seu ventre crescia saudável, e agora não existia mais nada capaz de feri-la.
Às vezes, preocupava-se com a possibilidade de, no futuro, a criança sentir a ausência de um pai.
Mas essa preocupação nunca durava muito.
O Asiel de sua vida anterior havia crescido bem mesmo sem conhecer o pai.
Portanto, nesta vida não deveria ser tão diferente.
Ela apenas precisava amá-lo em dobro, compensando a parte de Herdin.
Sob sua mão, que acariciava suavemente o ventre, sentiu novamente os pequenos movimentos do bebê.
Agora, ela sabia.
Realmente não estava mais sozinha.
Enquanto acariciava a barriga sob a luz suave do entardecer, Bleier acabou vencida pelo cansaço e caiu em um sono profundo.
Toc, toc.
Quando sua respiração tranquila preenchia aquela paisagem serena, batidas cautelosas na porta romperam o silêncio.
Sem receber resposta, a pessoa esperou um momento antes de entrar na sala.
Era Mikhail.
Ao perceber que Bleier dormia profundamente, ele fechou a boca em vez de chamá-la.
No lugar disso, pegou uma manta próxima.
Embora a luz do sol ainda fosse agradável, o ar já carregava o frio característico do outono. Para uma mulher grávida, até mesmo um resfriado poderia ser perigoso.
Quando terminou de cobri-la cuidadosamente e se preparava para se afastar, a respiração leve de Bleier roçou o dorso de sua mão como uma carícia.
Sua mão parou.
Ao observar o rosto da mulher, que dormia com um leve sorriso como se tivesse um sonho feliz, o próprio coração de Mikhail relaxou.
De repente, lembrou-se da pergunta que Bleier lhe fizera pouco depois da fuga.
“Por que está me ajudando tanto?”
“No começo, você já me ofereceu uma bondade muito maior do que aquilo que paguei. Mas eu não tenho mais nada para retribuir.”
No início, foi senso de dever.
Como cliente.
E como mestre da guilda.
Depois, tornou-se desejo de vingança e senso de justiça.
Ele queria impedir o plano de Gerard, o homem que afundara sua vida na lama e negara sua própria existência.
Queria salvar a mulher inocente presa naquele esquema.
E agora…
Mikhail aproximou discretamente o dorso da mão da bochecha adormecida de Bleier.
Ao sentir a suavidade daquela pele, manteve os lábios selados.
“Se você me fizesse essa mesma pergunta agora… eu conseguiria responder com meus verdadeiros sentimentos?”
Mesmo sendo covarde, Mikhail usou uma fraca energia sagrada para tentar vislumbrar a resposta dela.
Então, próximo à clavícula de Bleier, surgiu um círculo mágico negro.
Ao ver aquilo, Mikhail zombou de si mesmo com uma expressão melancólica.
Ela ainda amava aquele homem.
Ainda amava Herdin.
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