Eu Só Preciso do Filho do Duque Episódio 147. Um amanhã sem você
Quando abriu os olhos, Herdin já não estava no quarto.
Bleier, que havia retornado ao aposento após terminar seu banho, pegou e vestiu as roupas de plebeia que costumava usar em Nereha. Afinal, ela já não era mais a duquesa.
Bleier recusou a ajuda das criadas que se ofereceram para arrumá-la e sentou-se diante da penteadeira.
Suas mãos, ao pentear-se e se arrumar sozinha, haviam adquirido destreza nos últimos meses. Provavelmente seriam ainda mais habilidosas no futuro.
Deveria prender o cabelo por completo ou deixá-lo meio preso?
Experimentou diversas formas de prendê-lo, soltou-o de novo e, quando finalmente tomou uma decisão, mais de uma hora já havia se passado.
O penteado, preso às pressas pela metade, não a agradava totalmente, mas ela não tinha tempo para recomeçar. Não podia fazer esperar mais alguém que tinha outros compromissos.
Bleier levantou-se da penteadeira, deixando para trás aquela sensação de insatisfação.
Antes de sair do quarto, tirou da gaveta o envelope onde havia guardado ontem os documentos do divórcio e o colocou ordenadamente sobre a mesa. Ao lado, dispôs os papéis da propriedade da vila costeira que ele lhe entregara no dia anterior.
Após lançar um último olhar ao redor, Bleier saiu do quarto.
Chegara o momento de se despedir dele.
O clima estava agradável.
Era um típico dia de outono, com sol morno e uma brisa fresca. Não havia o menor sinal de que pudesse chover ou nevar de repente.
Herdin, que observava o tempo pela janela, voltou o olhar para sua escrivaninha. Mesmo em um dia como aquele, havia documentos que precisava resolver sem falta.
Passava as páginas sem vontade, lendo papéis que não conseguia processar; inconscientemente, Herdin tirou um cigarro do bolso e o levou aos lábios, mas, após soltar um suspiro, guardou-o novamente.
Justo quando deixava os papéis cair sobre a mesa, ouviu uma batida na porta, seguida pela voz de Bleier.
— Herdin. Posso entrar um momento?
Herdin olhou para a porta fechada por um instante e se endireitou, afastando-se do batente da janela onde estava apoiado.
Ao abrir a porta do escritório, Bleier estava ali, vestindo as mesmas roupas que ele vira quando se reencontraram no festival de Nereha.
Ele já havia sentido isso naquela ocasião também, mas, usando aquele vestido simples, ela parecia extremamente jovem. Exceto, é claro, por sua barriga proeminente.
Herdin permitiu a entrada de Bleier no escritório e tentou conduzi-la até o sofá, mas ela permaneceu ali, de pé e imóvel. Como se estivesse prestes a partir.
Como ele previra, Bleier foi direto ao ponto.
— Deixei os documentos necessários para o divórcio sobre a mesa do quarto. Também os papéis da propriedade da vila.
Ao ouvir aquilo, Herdin franziu levemente a testa.
Como ela amava o mar, pensou que, mesmo rejeitando outras posses, aceitaria aquilo com prazer.
— Por que os papéis da vila?
— Aquela vila é demais para mim. É difícil de manter, e eu já tenho uma casa e pessoas que vão me ajudar.
— Eu cuidarei de me desfazer da casa em Ikar. Você pode contratar mais criados. O salário eu…
Bleier balançou a cabeça diante da insistência dele em tentar fazê-la manter a vila a qualquer custo.
— O mar que me deu foi lindo.
— Só aceitarei isso com gratidão.
Diante da postura dela, que não desejava levar nada do que ele lhe dera, Herdin permaneceu em silêncio, incapaz de insistir mais.
Chegara a hora de deixá-la ir.
Após observar Bleier por um momento, o olhar de Herdin deslizou naturalmente para sua barriga. Então perguntou:
— …Posso me despedir da criança?
Diante do pedido inesperado, Bleier assentiu de bom grado.
— Parece que ele também quer cumprimentar o pai.
Herdin pousou a mão sobre a barriga de Bleier. Então, sentiu os movimentos fetais com mais clareza do que na noite anterior. Ao mesmo tempo, percebeu levemente sua barriga se mover.
Diante disso, Herdin prendeu a respiração. Finalmente sentiu de verdade que havia uma criança crescendo dentro dela.
Passou por sua mente que teria sido bom sentir aquilo ao lado dela também em sua vida passada, mas agora era um pensamento inútil.
Acariciou sua barriga com cuidado e sussurrou:
— Não faça sua mãe sofrer e venha ao mundo com saúde.
Como se respondesse ao pedido do pai, a criança chutou exatamente o ponto onde ele havia colocado a mão. Herdin não conseguia desviar os olhos da barriga dela.
Bleier, que o observava em silêncio, disse:
— Ele diz para não se preocupar, e que o pai também deve ficar saudável.
Como a criança em seu ventre ainda não podia articular tais palavras, aquelas eram palavras dela.
Mesmo sabendo disso, ele não conseguia retirar a mão, e foi Bleier quem tomou a iniciativa.
— O caminho até o Império é longo e será cansativo, então vá com cuidado. E…
— Obrigada.
— Espero que seja feliz, Herdin.
Bleier lhe ofereceu o sorriso mais brilhante de todos. Era a despedida final.
Ele quis dizer algo, mas Herdin apenas moveu os lábios sem conseguir pronunciar palavra alguma. Nem um adeus, nem um não vá.
Ele não sabia.
Simplesmente, tudo parecia irreal demais. Era como se ainda estivesse sob o efeito do álcool que bebera na noite anterior.
Enquanto Herdin a observava, atônito e incapaz de dizer qualquer coisa, ouviu-se a batida de uma criada.
— Senhora, os preparativos estão prontos.
Ao ouvir aquela voz, Bleier recuou meio passo, como se estivesse esperando por aquilo. A barriga que estivera em contato com sua mão, o calor, afastou-se.
— Estou indo. Não saia.
Bleier sorriu levemente e se virou. Saiu, e a porta se fechou silenciosamente.
Pouco depois, o som de seus saltos se afastando começou a ecoar pelo corredor. A cada passo, tudo se tornava tão distante quanto um sonho.
Ele não conseguia acreditar.
Que se tornariam estranhos. Que passariam a ser nada um para o outro.
Como isso era possível?
Você claramente me amava. Tanto que, mesmo depois de ferida, me amou mais uma vez.
Você ainda está diante dos meus olhos. Sob o mesmo céu, a uma distância que eu poderia alcançar se corresse um pouco.
Ele não conseguia aceitar que, estando tão perto, se tornariam pessoas que não poderiam se ver mesmo sentindo saudade, nem se abraçar mesmo desejando isso.
Sentia como se ela apenas tivesse saído por um momento e fosse voltar ao anoitecer. Que, quando a noite chegasse, buscaria seu calor e se refugiaria em seus braços.
No entanto, os passos dela se afastando jamais retornaram.
Ruth observava Herdin com olhos inquietos.
Apesar de já ser a hora em que normalmente ele se recolhia ao quarto, Herdin continuava lidando com os documentos acumulados.
Embora Bleier tivesse partido apenas ao meio-dia daquele mesmo dia, ele parecia estar bem. Ao menos, por fora.
Mas… estaria realmente bem por dentro?
Era um homem que havia confinado Bleier e que, após sua fuga, rastreara todo o continente com feroz determinação. Ainda que de forma distorcida, aquilo era claramente amor.
E esse sentimento ainda permanecia. Bastava observar o olhar com que a tratava.
Não havia como ele estar bem.
Enquanto Ruth observava o semblante de Herdin e tentava sugerir que ele fosse descansar, Herdin falou primeiro.
— Ruth. Retire-se primeiro.
— Eu irei em breve.
Ruth hesitou por um momento, mas depois se despediu e saiu do escritório.
Herdin, que assinava um documento, parou bruscamente. A tinta borrou, manchando sua assinatura. Naquele exato instante, o som suave do relógio de parede anunciando a meia-noite chegou do salão central da mansão.
Fitando o documento manchado de tinta, Herdin soltou um suspiro, deixou a caneta-tinteiro e levantou-se. Em seguida, saiu do escritório.
Ao entrar inconscientemente no quarto, Herdin parou.
A lareira do aposento ardia intensamente. Era uma paisagem diferente daquela de quando Bleier estava ali, quando o fogo permanecia sempre apagado e restavam apenas brasas.
Herdin encarou o fogo, atônito, e, como possuído por algo, aproximou-se da lareira. Diante dela havia uma mesa.
E sobre ela, viu um envelope e alguns documentos organizados com cuidado. Eram os papéis do divórcio e da vila que Bleier mencionara.
Herdin tirou os documentos do divórcio de dentro do envelope.
No entanto, parecia que o envelope não continha apenas aquilo, pois, ao mesmo tempo, outra carta caiu. Seus olhos se estreitaram ao descobri-la.
Ao abrir a carta, na primeira linha viu seu nome escrito com uma caligrafia limpa que refletia fielmente a personalidade de sua autora.
Era uma letra que permitiria reconhecer imediatamente quem a escrevera, não importava quem fosse.
“Tenho muitas coisas para te dizer, mas primeiro quero agradecer por ter cumprido sua promessa comigo.
Obrigada. Por ter voltado em segurança e por ter aceitado o divórcio como prometeu.
Eu estava preocupada por ter comunicado o divórcio como se estivesse fugindo de você, mas fico feliz que agora tenhamos conseguido encerrar isso adequadamente.”
Herdin zombou de si mesmo.
Parecia ridículo e triste que ela lhe agradecesse por se divorciar sem conhecer suas verdadeiras intenções.
“Na verdade, eu te odiei muito.
Mas agora sei que você me amou à sua maneira.
Obrigada por me salvar e por me dar uma oportunidade.
Graças à oportunidade que você me deu, mudei muitas coisas nesta vida. Pude enfrentar as coisas sem fugir, resolvê-las e escolher.
O fato de termos nos reencontrado e de eu ter voltado a te amar também foi uma escolha minha, e não me arrependo dessa decisão. Houve muitos dias dolorosos, mas definitivamente também houve muitos dias em que fui feliz.
Vou enterrar as lembranças dolorosas e guardar apenas as boas. Por isso, espero que eu já não seja uma lembrança dolorosa para você.
Não importa onde esteja nem o que faça, sinceramente desejarei que você seja sempre feliz.”
Era um encerramento muito próprio dela.
A mão de Herdin tremeu levemente ao terminar de ler a carta. Ao mesmo tempo, de sua boca escapou uma risada amarga que parecia metade riso, metade choro.
Só agora ele sentia a realidade de que Bleier o havia deixado.
Tarde demais, lembrou-se de que não conseguiu dizer para ela ser feliz, nem se despedir.
Porque ele não conseguia aceitar um amanhã sem você. Porque não conseguia imaginá-lo. Evitou a realidade e nem sequer conseguiu se despedir de você. O arrependimento tardio o consumia.
É estranho. Um amanhã sem você.
Uma paisagem sem você.
No quarto do qual ela havia partido, ele finalmente desmoronou em silêncio.
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