Eu Só Preciso do Filho do Duque Episódio 149. Fragmentos de vidro quebrado
Miela estremeceu diante da atitude indiferente do carcereiro que abriu a porta e fez um gesto.
Já fazia quase quinze dias desde que fora trancada nas masmorras do palácio imperial, mas ela não conseguia se acostumar a ser tratada com tanta frieza. Afinal, sempre havia sido uma sacerdotisa que recebia o favor e a adoração daqueles ao seu redor.
O carcereiro conduziu Miela para fora.
Hoje era o dia do julgamento. Ainda assim, ela seguia atônita e confusa diante da própria realidade.
Tudo o que ela quisera fora salvar o homem que amava de um casamento injusto, e agora aquilo era considerado um crime.
«Os observadores certamente sentirão pena de mim.»
Nos julgamentos, sempre havia observadores presentes. Embora não possuíssem autoridade real sobre a sentença, costumavam apelar ao juiz caso considerassem o processo injusto.
Ela havia passado toda a vida servindo como sacerdotisa e, nesse processo, conquistara o afeto de inúmeras pessoas.
Miela entrou na sala do tribunal esperando que os observadores formassem uma opinião favorável sobre ela. Porém…
Ao contrário de suas expectativas, os olhares que recaíam sobre ela eram gélidos.
Entre aqueles olhares, Herdin observava com olhos indiferentes o rosto de Miela, que estava mais pálido do que nunca.
Finalmente, o julgamento começou.
—A acusada Miela Elias abusou de sua posição para acusar civis inocentes de serem magos negros e incitou cavaleiros de outras nações a provocar uma guerra entre dois países.
Ao ouvir a palavra “guerra”, os observadores começaram a murmurar. O juiz prosseguiu com a sentença.
—Dado que o crime de criar vítimas inocentes é extremamente grave, determina-se a punição correspondente. A acusada é condenada a trabalhos forçados na zona fronteiriça da região de Santes, ao sul.
Santes era uma região que fazia fronteira com o Reino de Labyrinthe, ao sul, um lugar onde proliferavam bandidos que até mesmo o reino havia abandonado, e onde conflitos grandes e pequenos eram constantes.
No entanto, para Miela, havia algo ainda mais terrível do que aquela punição: os olhares dos observadores.
—Meu Deus, uma guerra… Por mais cega que estivesse pela ambição de honra, como uma sacerdotisa pôde fazer algo assim?
—Talvez honra nem fosse seu objetivo. Dizem que ela ajudou o Papa, que era um mago negro.
Os observadores mencionavam a natureza dos sacerdotes, cujo valor e prestígio aumentavam quando uma guerra estourava, ou questionavam as intenções de Miela ao vinculá-la a Gerard.
Exatamente como acontecera quando inflaram os rumores sobre Bleier.
Estar ali, sob aquela chuva de olhares frios, fazia Miela se sentir como se tivesse se tornado a vilã mais infame da história. Era sufocante.
No início, incapaz de aceitar a situação, apenas dúvidas surgiram. Depois, veio a ira.
«Quanto eu servi vocês?»
Por que estão me olhando assim?
Para ela, que acreditara ter vivido toda a vida como uma boa menina e uma pessoa virtuosa, o momento em que caiu no papel de vilã era mais difícil de suportar do que qualquer punição.
Incapaz de suportar as críticas e conjecturas lançadas sobre si, Miela desviou aquelas flechas para fora.
Tapando os ouvidos, ela gritou furiosa.
—Não olhem para mim assim! Eu não sou uma vilã!
Mas quanto mais fazia isso, mais altos se tornavam os murmúrios. Diante disso, Miela começou a gritar histericamente.
—Quanto eu me esforcei para ajudar vocês, que não foram escolhidos por Deus?! Quantos eu salvei até agora?! Acaso todas as boas ações que realizei desaparecem só porque alguns cavaleiros estrangeiros morreram?!
Sua aparência era a de alguém possuído pela loucura, muito diferente da imagem angelical que havia mostrado até então. Seus olhos dourados, enquanto gritava, ruíam sem fim.
Era o fim apropriado para uma mulher que cometera atrocidades embriagada por um senso de justiça distorcido.
Logo em seguida, os cavaleiros do palácio se aproximaram e a subjugaram.
Herdin, que observou o fim de Miela com olhos secos, levantou-se e saiu da sala do tribunal.
A carruagem que o aguardava diante do tribunal o recolheu e partiu imediatamente. Herdin se apoiou na carruagem e observou a paisagem fluindo pela janela.
Então, viu a torre do relógio.
Era a torre do relógio na qual havia subido com Bleier na primavera passada.
A frente da torre, que costumava estar repleta de cerejeiras em flor, mercadores com suas barracas e pessoas que saíam para ver as flores, agora estava desolada.
Árvores esqueléticas que haviam perdido as folhas e um vento gélido.
Sem perceber, o outono já havia passado, e o inverno se aproximava rapidamente.
A estação em que você veio para o meu lado.
Ao se lembrar disso, as pupilas de Herdin tornaram-se profundas e distantes, como um lago de inverno.
Naquele momento, ele viu uma loja de roupas.
Mais precisamente, roupas de bebê expostas diante da vitrine.
Herdin ficou olhando fixamente até que desaparecessem de sua vista e, de repente, golpeou a parede da carruagem.
Após ordenar ao cocheiro que parasse e esperasse, desceu da carruagem e foi até a loja.
Era uma pequena loja especializada apenas em roupas para bebês.
Ao entrar, o som suave de uma caixa de música o recebeu. O dono não estava; provavelmente havia se ausentado por um momento.
Na loja, estavam expostas roupas adoráveis, algumas não maiores que a palma de sua mão.
Enquanto percorria o local, Herdin encontrou algo pequeno como um dedo em um canto. A princípio, estreitou os olhos sem saber o que era, mas então compreendeu.
Eram meias de bebê.
«Então pés tão pequenos assim também usam meias.»
Eram tão pequenas que parecia inacreditável que alguém pudesse calçá-las.
Asiel também era assim.
Tão pequeno que era surpreendente imaginar que respirava e se movia.
Apesar disso, possuía uma resistência tão impressionante que costumava deixar Bleier exausta enquanto brincava com ele.
Ao recordar Bleier e Asiel de sua vida passada, a quem observava em segredo, lembrou-se dos movimentos fetais que sentira na última noite. Aquele movimento nítido transmitido através de sua mão ainda permanecia como uma imagem residual.
Quão adorável seria aquela criança que em breve nasceria?
No entanto, era um sentimento paternal que não lhe era permitido.
Enquanto Herdin permanecia parado ali, incapaz de largar ou comprar as meias, ouviu a voz de uma mulher atrás de si.
—É para uma menina ou um menino? Se me disser de quantos meses é, acho que posso ajudá-lo a escolher a cor e o tamanho.
A funcionária explicou enquanto lhe mostrava várias meias de acordo com cor e tamanho.
Herdin, que ouviu a explicação em silêncio, finalmente soltou as meias que segurava.
Tudo havia sido inútil.
—Por que comprou isso?
Perguntou Ruth ao descobrir as meias de bebê sobre a mesa de Herdin.
Herdin, que as havia deixado ali, olhou para elas como se ignorasse sua presença e respondeu em voz baixa.
—Envie para Ikarlo.
—Acho que ela vai se sentir desconfortável…
—Diga que foi você quem comprou.
«Você nem sequer tinha uma relação próxima com a antiga senhora.»
Essas palavras chegaram à ponta da língua de Ruth, mas por tê-lo observado da posição mais próxima, conseguiu imaginar vagamente seus sentimentos e permaneceu em silêncio.
Justo quando Herdin ia acender um cigarro, ouviu-se uma batida na porta.
—Vossa Excelência, os anciãos vieram vê-lo…
Era a voz de um servo. Ao ouvir a notícia, Ruth conteve um suspiro enquanto observava a reação de Herdin.
A notícia de que Bleier e Herdin se divorciariam já havia se espalhado por toda a capital. Era óbvio o que eles vinham dizer naquele momento.
Vendo que haviam aparecido assim que Mason tirou um dia de licença médica, parecia que ele estivera resolvendo as coisas discretamente até agora.
Herdin soltou a fumaça enquanto olhava para a porta com olhos frios e respondeu:
—Diga para todos irem embora.
Era perceptível que o servo, que aguardava sua resposta do lado de fora, estava bastante desconcertado.
Ruth, lembrando-se do que acontecera entre os anciãos e Herdin quando Bleier desaparecera da mansão do duque, ofereceu-se para intermediar.
—Eu… eu vou.
Ruth saiu apressadamente do escritório, temendo que Herdin fosse se encontrar com os anciãos.
Herdin, olhando para a porta fechada, desviou o olhar para a janela.
Via-se a paisagem do jardim, desolada pelo inverno. O caminho pelo qual Bleier costumava andar até ele com frequência, depois de terminar suas consultas com Agnes.
Ao evocar involuntariamente aquela lembrança, Herdin soltou uma risada baixa e apoiou a cabeça contra o vidro.
Ele simplesmente estava farto. De tudo isso.
O tempo passou, parecendo lento e rápido ao mesmo tempo.
Ele ainda não conseguia dormir. Apesar de já terem se passado facilmente três horas após a meia-noite.
Era um sintoma que persistia desde que Bleier partira.
No fim, Herdin não teve escolha senão beber hoje também. Mas, embora o álcool fizesse efeito, o sono não vinha.
Chegado a esse ponto, desistiu de tentar dormir e se levantou. Se a luz do escritório permanecesse acesa, Mason viria procurá-lo.
Com passos lentos por causa da embriaguez, o lugar a que chegou não foi seu quarto, mas o de Bleier, ao lado.
Herdin soltou uma risada irônica ao perceber-se buscando por hábito um quarto que já não tinha dona, mas logo apagou o sorriso e entrou.
Tudo dentro do aposento permanecia exatamente como quando Bleier vivia ali. Exceto pelo fato de que ela, a dona do quarto, já não estava.
Provavelmente, a menos que ele desse sua permissão, aquele quarto jamais mudaria e permaneceria assim para sempre.
Entrou no dormitório tocando com a ponta dos dedos os móveis que haviam sido tocados por ela. Era o lugar da mansão onde seus rastros e sua fragrância ainda permaneciam mais intensos.
Cada vez que respirava, seu aroma penetrava e doía como se lhe rasgasse os pulmões.
Enquanto tropeçava ao tentar se deitar na cama, derrubou algo que estava sobre a mesa de cabeceira. Um som agudo de vidro quebrando rompeu o silêncio da noite de inverno.
Sentado na beira da cama, Herdin o recolheu.
Era o desenho de um pintor de rua que comprara para Bleier sob a torre do relógio em um dia de primavera, quando as cerejeiras estavam em plena floração.
«Acho que toda vez que eu vir este desenho, vou me lembrar do dia de hoje.»
Lembro-me da sua imagem, sorrindo feliz com um desenho do tamanho da palma da mão.
Ao mesmo tempo, lembro-me também da sua imagem da vida passada, quando mal conseguia sair da cama.
Escapou-lhe uma risada que parecia um choro.
Você, que tinha tanta vontade de ver o mundo lá fora.
Que se sentia tão feliz como se fosse dona do mundo apenas por ver flores e subir na torre do relógio por um momento.
Eu deveria ter feito mais coisas com você. Deveria ter lhe mostrado um mundo mais amplo.
Eu te tranquei neste quarto.
… Não, forcei seus sentimentos de amor por mim para que você mesma se aprisionasse.
A expressão de Herdin se distorceu dolorosamente ao perceber tarde demais aquele fato. Tornou-se insuportável o ódio por si mesmo por tê-la ferido daquela forma.
Naquele instante, o vidro quebrado da moldura que estava oculto atrás do desenho cravou-se na palma de sua mão.
Herdin ficou olhando fixamente para as gotas de sangue que caíam e então afundou o fragmento de vidro que apertava com força.
Só então o sono o invadiu.
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