[glossario termo=”Nigella”]Nigella[/glossario] observou o ambiente e, para se juntar à conversa das criadas, acrescentou:
[grito]“Lady Rohanson deve se parecer muito com Lady Amaranto.”[/grito]
“Se você tivesse visto Lady Amaranto, teria se surpreendido com a semelhança. Não só a Duquesa, mas até eu pensei que a Jovem Lady tinha voltado à vida.”
Como o Duque Hosaquin queimou todos os retratos de Amaranto na mansão quando decidiu romper com a filha, Nigella não conhecia o rosto de Amaranto.
Nigella achou estranho que todos estivessem fazendo tanto alarde, já que não era incomum uma filha se parecer com a mãe. Ela assentiu distraidamente e desviou o olhar.
A Duquesa e [glossario termo=”Evangeline”]Evangeline[/glossario] estavam tão absortas em seu próprio mundo que pareciam não ouvir os sussurros das criadas. Como se não temesse a Duquesa, que estava com a mente perturbada, Lady Rohanson, com seus cabelos brancos como os de uma idosa, fazia companhia à Duquesa com grande serenidade.
[grito]“Amaranto. Que tal irmos às compras amanhã, mamãe e eu?”[/grito]
[grito]“Se a senhora estiver bem amanhã.”[/grito]
[grito]“Então devo dormir bem hoje!”[/grito]
O som da conversa suave e o riso infantil da Duquesa ecoavam pela estufa. Era a paz que o [glossario termo=”Ducado Hosaquin”]Ducado Hosaquin[/glossario] não via há muito tempo, desde que a Duquesa sofrera um derrame e a mansão se enchera de gritos e choros.
Seria por causa do cansaço de ter corrido para cobrir o aquário momentos antes? Parada ali, sob o sol, observando o pacífico chá da tarde, sentiu a tensão se dissipar e o coração se aquecer. Uma lassidão tomou conta de seu corpo, a ponto de esquecer por um momento que havia sido repreendida pelo mordomo.
Logo, Nigella acabou cochilando.
No instante em que sua mente se esvaía, um farfalhar em seus ouvidos fez seu coração despencar, como se estivesse caindo, e ela despertou abruptamente.
Se descobrissem que ela havia cochilado, o mordomo a repreenderia novamente. Nigella endireitou o corpo, como se nunca tivesse dormido. Esperava que ninguém a tivesse notado, mas havia alguém a observando.
Nigella sentiu um olhar fixo sobre si. A Duquesa e Evangeline estavam absortas na conversa, então devia ser uma de suas colegas, que estava parada ao lado dela.
[pensamento]‘Mas o olhar de uma colega era tão intenso e sombrio?’[/pensamento]
Seus dedos dos pés se curvaram, e um calafrio inexplicável a percorreu. Uma sensação arrepiante de presságio roía seus nervos. Alguém a observava por trás, da cabeça aos pés.
Nigella não aguentou e lançou um olhar de soslaio para o lado, mas não havia ninguém na estufa a observando.
Então, o que foi aquele olhar que sentiu? A criada ao lado dela, vendo Nigella se mover agitadamente, virou-se e perguntou com os lábios: “Por quê?”. Embora estivesse bem ao lado, ela não parecia ter notado que Nigella havia cochilado.
Nigella balançou a cabeça, achando estranho. Apenas supôs que seus olhares haviam se cruzado.
[pensamento]‘Não devo mais cochilar.’[/pensamento]
Nigella, atribuindo tudo ao sono, fez uma firme promessa e olhou para frente. O chá da tarde, ainda ridículo, continuava. Seria por ter acordado? A cena que até então parecia pacífica, agora se apresentava de forma estranhamente diferente.
Uma era uma velha louca, com a mente perturbada, que se via como uma menina, sem nenhum vestígio da antiga elegância; a outra era uma existência quase ideal, duvidosa de ser humana.
As figuras de autoridade, conversando tranquilamente ao lado dos cadáveres de ratos, pareciam monstros, causando repulsa. Logo, um ruído estranho começou a se misturar às suas vozes. Era o farfalhar que havia acordado Nigella momentos antes.
Ela olhou para o lado novamente para encontrar a origem do som, mas todos estavam em postura ereta.
[pensamento]‘Então… de onde vem esse som?’[/pensamento]
O som vinha de muito perto. Ao ouvir o farfalhar novamente, Nigella virou a cabeça na direção do som.
O aquário coberto com um pano estava visível. No momento em que se lembrou do que havia sob o pano, Nigella sentiu um terror indescritível.
O pano não se moveria por causa do vento dentro da estufa. Então, devia ser o som de algo se movendo dentro do pano. Nigella ouviu um som de arranhões de garras no vidro.
A água chapinhava, algo batia no vidro, e o pano farfalhava por algum motivo. O terror se multiplicava por não poder ver diretamente.
Será que os ratos no aquário não estavam mortos e estavam se movendo? Ou, algo ainda mais terrível…
*CRASH!*
Quando a imaginação de Nigella se tornou mais vívida, um som agudo e repentino ecoou. Naquele instante, todos os ruídos que Nigella ouvia desapareceram.
Ela se assustou, pensando que a Duquesa havia tido outro ataque e jogado um prato, mas a culpada, inesperadamente, era Lady Rohanson. O som, que parecia tão agudo e alto, era apenas o tilintar da colher de chá de Lady Rohanson batendo na xícara enquanto ela mexia o chá.
Lady Rohanson, que havia largado a colher de chá, batucava a borda da xícara com a ponta da unha, como se estivesse entediada.
[pensamento]‘Era esse o som.’[/pensamento]
Nigella soltou um suspiro de alívio. O som que acabara de ouvir era de Lady Rohanson. O som parecia excepcionalmente alto apenas porque Nigella estava cansada. Afinal, ratos mortos não se moveriam. Ela mesma os vira mortos.
Nigella se acalmou e continuou a observar Evangeline.
Os outros sons eram os mesmos. O som da água era do chá sendo servido e mexido. O farfalhar do pano se movendo era apenas o som da barra do vestido se agitando.
[pensamento]‘Ela está me confundindo à toa.’[/pensamento]
Nigella remoeu sua insatisfação com Lady Rohanson por tê-la assustado, mas seu coração disparou ao encontrar os olhos vermelhos da Lady. Lady Rohanson, como se soubesse o que Nigella estava pensando, sorriu com desdém e, ostensivamente, pousou a xícara.
E mesmo sem Lady Rohanson bater na xícara, o som de batidas no vidro recomeçou.
*Arrastar, arrastar, toc, toc, toc, farfalhar, farfalhar.*
*Arrastar, arrastar, arrastar, toc, toc, toc, toc, farfalhar, farfalhar, farfalhar.*
O som ficou ainda mais alto do que antes. Nigella, confusa, olhou para Lady Rohanson e depois para os arredores. O som vinha de dentro da tenda.
Parecia que, se ela levantasse o pano, todos os ratos estariam olhando para ela. Seria aquele o olhar que Nigella sentira? A imagem a fez arrepiar, e sua respiração ficou ofegante. Seu coração batia forte. Sentiu-se sem ar e tonta.
Nigella tapou os ouvidos para não ouvir mais o som, mas o barulho continuava alto. Suas palmas cobriam os ouvidos, mas, por algum motivo, nada mudava. Não seria tão claro se não estivesse em sua mente…
[grito]“Nigella?”[/grito]
As criadas ficaram confusas ao ver Nigella tapar os ouvidos e apresentar sintomas estranhos.
[grito]“Você está doente?”[/grito]
[grito]“Rápido, rápido, levem Nigella para fora.”[/grito]
A Duquesa havia se recuperado, mas agora Nigella era o problema. A Duquesa finalmente estava calma, e eles temiam que ela tivesse outro ataque ao ver Nigella.
Para eles, a prioridade era a Duquesa, então era essencial afastar Nigella de sua vista.
Quando tentaram ajudá-la a sair, Nigella começou a murmurar.
[grito]“Os ratos, os ratos… acho que reviveram.”[/grito]
[grito]“Nigella, o que você está dizendo? Acorde…!”[/grito]
As criadas tentaram calar Nigella, temendo que a Duquesa reagisse ao ouvir a palavra “ratos”. Nigella se esquivou das mãos e gritou alto.
[grito]“Não ouvem esse barulho? Estão arranhando lá dentro!”[/grito]
E Nigella sentiu um pequeno tufo de pelo roçar em seus pés.
[grito]“Hã…!”[/grito]
Nigella ofegou e se debateu.
[pensamento]‘É um rato! Um rato vivo saiu do aquário!’[/pensamento]
O som agudo devia ter sido o vidro quebrando. Os ratos, quebrando o aquário, estavam correndo e roçando em seus pés.
[grito]“Estão todos mortos. Você mesma viu…!”[/grito]
A criada sacudiu Nigella e a repreendeu em voz baixa. Nigella sentiu-se extremamente injustiçada. Por que não acreditavam nela? Não ouviram o som? Então, ela lhes mostraria.
Nigella empurrou as criadas que a seguravam e correu em direção ao aquário.
[grito]“Nigella! O que… rápido, parem-na!”[/grito]
[grito]“Levem a Duquesa para fora!”[/grito]
Aqueles que só então perceberam a gravidade da situação, pensando que bastava acalmar Nigella, apressaram-se em levar a Duquesa para fora da estufa. As criadas pressentiram que essa confusão chegaria aos ouvidos do mordomo ou do Conde e que seriam severamente punidas.
Inicialmente, o número de criadas servindo na estufa era de apenas cinco, por questões de segurança, e três delas estavam levando a Duquesa e Lady Rohanson para fora, restando apenas duas para conter Nigella.
[grito]“Ela está muito forte…!”[/grito]
Não se sabia de onde Nigella tirava tanta força, mas duas pessoas não conseguiam contê-la.
Nigella agarrou a ponta do pano. Sem hesitar, puxou-o com força. O pano esvoaçante caiu, revelando o conteúdo que estava escondido.
As pessoas que viram o aquário sob o pano ficaram chocadas. Havia algo inesperado lá dentro.
[grito]“…O que, o que é aquilo?”[/grito]
Alguém tapou a boca diante da visão bizarra.
Dentro do aquário havia uma estátua de forma humana muito bem esculpida. Como se fosse feita para o tamanho do aquário, várias partes foram esculpidas e cada pedaço da estátua estava em um aquário. Se as tirassem da água e as juntassem, uma estátua completa seria formada.
Enquanto as pessoas pensavam que pareciam obras de arte separadas e expostas, Nigella reagiu de forma diferente.
Para Nigella, o que estava dentro do aquário não parecia pedaços de uma estátua quebrada, mas sim uma pessoa. Naquele momento, dedos longos e finos nadaram na água e bateram no aquário.
[grito]“…Sim! Era esse o som que eu ouvi!”[/grito]
Nigella, percebendo a origem do som das batidas no vidro, apontou para o aquário com um êxtase.
[grito]“Era essa pessoa que estava batendo no vidro!”[/grito]
O tom de estranha certeza e alegria, que não combinava com a situação, arrepiou quem ouvia. A criada que segurava Nigella soltou-a e recuou. Aos seus olhos, o que estava dentro do aquário, embora se parecesse com uma pessoa, era apenas uma escultura, uma imitação.
[grito]“Nigella, você enlouqueceu? De repente, você levanta o pano e diz que isso é uma pessoa…? É só uma estátua. Você realmente enlouqueceu?”[/grito]
A criada franziu a testa e gritou.
[grito]“Estátua? Você é quem está falando bobagem! Olhe! Está se movendo!”[/grito]
Nigella gritou, apontando para o aquário, para a colega que a tratava como louca. Mas a estátua não se moveria.
Eles pensaram que Nigella havia sido contagiada pela loucura da Duquesa e estava tendo alucinações. Com os olhares que a tratavam como louca, Nigella, indignada, bagunçou os cabelos como se os estivesse arrancando.
Enquanto as outras criadas permaneciam imóveis, a Duquesa cambaleou em direção ao aquário. Todos estavam paralisados pela visão bizarra e não tinham forças para cuidar da Duquesa.
A Duquesa se aproximou do aquário, colou a palma da mão no vidro como se quisesse entrar e olhou para dentro.
[grito]“Ah… Amaranto, Amaranto…”[/grito]
A Duquesa murmurou com os olhos marejados. Ela parecia ter perdido a fala, repetindo o nome da filha como alguém que só aprendeu uma palavra: “Amaranto”.
[pensamento]‘Amaranto…?’[/pensamento]
Nigella examinou os traços do rosto envolto em longos fios de cabelo. Entendeu por que a criada mais velha havia se maravilhado com a semelhança entre Amaranto e Lady Rohanson.
Era uma observação um tanto arrepiante considerar a Lady sentada à mesa e o que estava dentro do aquário como semelhantes, mas a aparência e a sensação de estranheza eram tão parecidas que não havia como evitar.
[grito]“Amaranto… por favor… abra os olhos.”[/grito]
A Duquesa implorou com desespero.
As criadas, ao verem a Duquesa tratando os pedaços dentro do aquário como sua filha, não conseguiram esconder o olhar de repulsa. Pareciam incapazes de pensar em como pará-la.
Nigella, no momento em que a Duquesa clamou o nome da filha, recuperou a sanidade como se tivesse sido jogada em água fria. Os olhares que a Duquesa recebia eram os mesmos que Nigella havia recebido momentos antes.
Será que Nigella também havia enlouquecido, como a Duquesa?
O que estava dentro do aquário não era uma pessoa?
Como não havia nada abaixo do pescoço, não parecia uma pessoa, mas para Nigella, ainda parecia vivo. Na verdade, se fosse para comparar, Lady Rohanson parecia mais uma figura empalhada.
Mas, logicamente, uma pessoa que morreu há sete anos não poderia estar tão bem preservada, e um corpo já enterrado não estaria na [glossario termo=”Mansão Rohanson”]Mansão Rohanson[/glossario].
Ao contrário de sua mente que funcionava logicamente, seus cinco sentidos ainda gritavam que o que estava no aquário era uma pessoa. Espere um pouco. O que deveria estar no aquário não era uma estátua nem uma pessoa.
[grito]“Onde estão os ratos…?”[/grito]
A pergunta, que deveria ter surgido naturalmente, veio tardiamente, dominada pela visão bizarra.
As criadas presentes ali eram as mesmas que haviam movido o aquário e coberto-o com o pano para o chá da tarde da Duquesa. Em outras palavras, elas viram os cadáveres dos ratos dentro do aquário antes de cobri-lo. Ninguém sabia por que o conteúdo havia mudado, já que ninguém havia se ausentado.
[grito]“Nigella. Não foi você quem fez isso?”[/grito]
As colegas até suspeitaram que Nigella fosse a principal culpada por ter removido os cadáveres dos ratos e feito uma brincadeira bizarra. Como ela havia levantado o pano e reagido de forma diferente, era natural suspeitar dela. A própria Nigella se achava suspeita.
Ela nem sabia por que havia pensado que os ratos haviam escapado e tentado verificar sob o pano. Parecia que ela estava possuída por um demônio. Aquele momento deveria ser um sonho, mas a terrível sensação de realidade a lembrava que não era.
[pensamento]‘Se não é um sonho, será que eu também enlouqueci?’[/pensamento]
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