Rafaela voltou sua atenção para a outra pessoa que entrava em seu círculo de preocupação. Daisy parecia tensa e irritada, mas era evidente que isso se devia aos irmãos mais novos sob sua responsabilidade.
Na mansão Rohanson, o número de pessoas que Evangeline e Daisy haviam resgatado era considerável.
Realmente, não se deve julgar as pessoas apenas por uma faceta. Ela não imaginava que Daisy fosse alguém tão dedicada à família. Enquanto isso, Henna Greenwood, que ela pensava ser apenas uma boba pelos irmãos, acabou se aliando totalmente ao Bispo Marik.
— Ah, é mesmo. Senhorita Daisy. Ouvi dizer que aquele cocheiro trabalhava originalmente para Lady Rohanson, você o conhece?
Rafaela perguntou, lembrando-se subitamente do cocheiro suspeito.
Daisy olhou na direção do cocheiro e franziu o cenho, parecendo não ter a menor ideia de quem se tratava. Ela murmurou enquanto tentava adivinhar a identidade dele, até que seus olhos se arregalaram.
— Se ele trabalhou como cocheiro para a Jovem Lady… por acaso aquele homem é o Melek?
— Melek!
— Mary, shh. Não pode falar.
As crianças reagiram ao nome Melek. Embora tentassem manter segredo sobre o que havia acontecido, Daisy e as crianças pareciam, surpreendentemente, conhecer Melek.
[pensamento]Então não era mentira que ele trabalhou nos Rohanson.[/pensamento] Rafaela soltou um suspiro de alívio.
Sentindo que havia feito o seu melhor, Rafaela abandonou qualquer hesitação e terminou os preparativos para ver a carruagem partir.
— Vão com cuidado.
Após a despedida final de Daisy, a carruagem levando o povo de Rohanson e a Ordem dos Cavaleiros de Phararos partiu, deixando Rafaela para trás.
Ela não se deu ao trabalho de se despedir de seus colegas. Afinal, eram rostos que ela veria até se cansar em breve. Rafaela começou a caminhar para pegar uma carruagem próxima.
Era hora de voltar para casa depois de muito tempo. Era hora de assumir novamente a identidade de [glossario termo=”Título de respeito para o filho de um Duque.”]Jovem Mestre de um Ducado[/glossario] que ela mesma havia descartado em prol de seu Comandante.
Para os devotos, Rafaela seria uma grande herege. Ela ajudou secretamente o amaldiçoado Gabriel a se tornar um Paladino e permaneceu ao seu lado até que ele subisse ao posto de Comandante da Ordem, e agora estava até tentando ajudar Evangeline Rohanson.
No entanto, no mundo, sempre existem pessoas que seguem sentimentos pessoais em vez de convicções grandiosas. Rafaela ajudaria Evangeline por causa de seu Comandante e, talvez, pelas pessoas de Rohanson com quem conviveu por um curto período.
Apenas porque, pessoalmente, ela se afeiçoou a eles.
O caminho de volta era longo. Rafaela se arrependeu um pouco.
— Ah. Eu deveria ter pedido para me deixarem no Ducado.
***
A carruagem de carga já havia saído da capital e seguia há um bom tempo em direção ao destino. Como a pequena Mary reclamava de fome, decidiram parar brevemente para comer. Havia provisões secas suficientes. Graças a Pudim, que entregou uma quantidade considerável antes da partida.
As pessoas conversavam animadamente enquanto comiam. Daisy observava Weather, que estava empolgada no meio da conversa. Mesmo cercada apenas por gente dos Rohanson, Weather se misturou facilmente.
O assunto do momento era o que aconteceu quando estavam prestes a sair da capital.
— Eu juro, por um triz não fomos pegos.
Weather, relembrando a situação, bebeu uma garrafa de água de uma vez e soltou um suspiro de alívio.
Talvez por causa do Rito de Sacrifício que se aproximava, a inspeção estava rigorosíssima. Eles verificavam não apenas as carruagens que entravam na capital, mas até as cargas que saíam.
A notícia da fuga do povo de Rohanson ainda não devia ter se espalhado, então não se sabia se eles já esperavam por isso ou se era apenas uma prevenção minuciosa; de qualquer forma, aquela resposta obsessiva era de dar calafrios.
— Se não fosse pelo senhor Melek, teríamos sido pegos, não é?
O assunto logo mudou para Melek, que havia descido da carruagem pouco antes.
— É verdade. No começo, achei que ele fosse alguém suspeito…
Todos inicialmente desconfiaram de Melek. Daisy também, se não fosse pelo assunto de seus irmãos, teria ficado em guarda sem conhecer a verdadeira face dele.
Ela ficou curiosa quando ele disse que os acompanharia apenas até o portão da cidade, mas, graças a Melek, conseguiram passar pela inspeção com facilidade.
Isso porque, quando Melek se aproximou dos guardas e disse algo, eles nem sequer olharam direito para a carruagem, apenas fingiram verificar e os liberaram. Os guardas agiram como se não vissem as pessoas amontoadas no compartimento de carga.
— Mas o que ele fez para nos deixarem passar?
— Deve ter sido isso, né?
Alguém fez um gesto com a mão imitando uma moeda. Aos olhos dos outros, parecia que Melek havia subornado os guardas com moedas de ouro.
Daisy não comentou sobre a suposição. Subornar os guardas? Aquele que estava de guarda na verdade ostentava o brasão do sol. Como devia ter sido enviado pelo templo, certamente era alguém de fé inabalável. Daisy acreditava que não foi o ouro, mas a habilidade de Melek que funcionou.
O que aconteceria com aquele guarda após a fuga do povo de Rohanson ser descoberta? Daisy imaginou o futuro dele por um momento, mas logo afastou o pensamento.
Não era hora de se preocupar com estranhos que nunca vira na vida. Se tivessem sido pegos e não conseguissem fugir a tempo, todos ali estariam mortos. Aquilo foi o melhor a ser feito.
Daisy pegou algumas provisões e foi até o assento do cocheiro.
— Cavaleiro, trouxe algo para o senhor comer.
— Ah, senhorita Daisy.
Michelle a cumprimentou com um rosto gentil. O tratamento respeitoso vindo de um cavaleiro ainda não soava natural aos seus ouvidos.
Melek desceu da carruagem após passarem pelo portão, como havia prometido. Algumas pessoas se preocuparam sobre como ele voltaria estando no meio de uma floresta deserta, mas Melek respondeu calmamente que, com o Rito de Sacrifício, haveria muita gente indo para a capital e ele poderia conseguir uma carona.
E ele também disse que precisava ir logo porque havia deixado uma pessoa importante para trás. Daisy presumiu que ele voltaria por algum método fora do comum. Michelle assumiu o lugar de Melek.
Michelle era uma pessoa peculiar em vários aspectos. Dava para notar só pelo fato de ele insistir em usar honoríficos com Daisy. Ele era especialmente gentil com ela em comparação aos outros. Quando perguntado o porquê, a resposta foi: “Porque você é a criada da Jovem Lady”.
Até as palavras que ele dizia eram estranhas. Michelle, apesar de ser um Paladino, parecia um apóstolo que adorava Evangeline. Sua irmã Misha também era mestre em elogios, mas Michelle ia além.
Ao ouvir as exaltações de Michelle, Daisy ficou um pouco farta. Ela agora também nutria afeição por Evangeline e convivia com Kanna e Pudim, que eram especialistas em bajulação, mas, por algum motivo, os elogios de Michelle eram ainda mais desconfortáveis.
Os boatos de que Evangeline andava enfeitiçando cavaleiros certamente deviam muito não apenas a Gabriel, mas também a esse homem. Além disso, na memória de Daisy, Evangeline e Michelle nem sequer tinham tido muito contato.
Como se lesse a dúvida de Daisy, um cavaleiro robusto sussurrou a situação de Michelle. Era um assunto mais sério do que Daisy imaginava. Aparentemente, Evangeline o ajudou quando ele estava prestes a se tornar um espetáculo público, com o corpo em chamas.
Daisy acabou entendendo um pouco o sentimento de Michelle. Às vezes, a vida de uma pessoa fica penhorada por um único e breve instante. Assim como aconteceu com ela.
— Quanto tempo falta para chegarmos?
— Não falta muito.
Michelle deu uma previsão esperançosa, dizendo que, se apressassem os cavalos, chegariam ainda hoje.
— Sério?
O rosto de Weather surgiu de repente, como se tivesse ouvido a conversa lá de dentro. Daisy observou a expressão dela. Se estivesse voltando para sua terra natal depois de tanto tempo, deveria estar alegre, mas Weather transmitia apenas uma sensação de ansiedade.
Ela disse que sua terra natal era um lugar fechado. Daisy ficou curiosa sobre o local onde se esconderiam por um tempo. Quando estava presa na mansão Rohanson, pensava que qualquer lugar servia, desde que estivessem longe do perigo. Mas agora que passaram pela inspeção e fugiram, a preocupação com o refúgio onde teriam que permanecer começou a crescer.
Weather não tinha dito que sua vila era hostil com estranhos? Ela não sabia se conseguiriam se dar bem em um lugar assim.
— Como é a vila da senhorita Weather?
— É um lugar onde se reúnem pessoas como vocês.
— Pessoas como nós?
— Sim. Fugitivos.
Weather deu um sorriso leve. Era irônico que uma vila tão hostil a estranhos fosse, na verdade, composta por fugitivos.
Weather mencionou alguns nomes de que se lembrava, e as descrições que vinham após os nomes eram todas de pessoas com má reputação. Ela pretendia avisá-los com antecedência, já que viveriam juntos por um tempo.
Uma mulher que fugiu após cometer estelionato. Um casal que fugiu no meio da noite porque ela seria forçada a se casar com outro. Um idoso que acabou ali enquanto procurava pelo filho morto. Um criado que fugiu após assassinar seu mestre nobre.
Eram todos tipos difíceis de lidar. Ao ouvir que havia até um assassino, a comida nem descia direito. No fim, Daisy guardou as provisões sem ter comido nem metade de sua porção antes da carruagem partir novamente.
Ela se sentia desconfortável, como se estivesse com indigestão, mas Weather, sem notar o desânimo da outra, continuou a falar sobre a vila.
— Ah, sim. A tia Pachira foi a principal responsável por eu me tornar uma criada. Ela disse que também trabalhava como criada antes de vir para a vila. Ro, Ro… era algum lugar assim.
Ro? A primeira coisa que lhe veio à mente foi o Condado Rohanson. No entanto, antes que pudesse completar o nome, Weather abriu a boca, surpresa.
— É ali!
— O quê?
— Chegamos! Aquela é a entrada da nossa vila!
Weather começou a se agitar.
Daisy franziu levemente os olhos. Na entrada da vila, ela viu a silhueta de uma pessoa. À medida que a carruagem se aproximava, a imagem ficava mais nítida.
Era uma idosa com uma criança nas costas. No entanto, a criança em suas costas era um pouco estranha. O corpo estava virado de cabeça para baixo, com os pés saindo perto da cabeça. De longe, parecia que ela carregava pés decepados. Aquela cena era tão sombria que Daisy perdeu a fala.
Mas, ao contrário de Daisy, Weather pulou da carruagem e correu para abraçar a idosa por trás.
— Vovó, cheguei.
Ela a abraçou com tanta força que parecia que ia esmagá-la, mas não se ouviu o choro da criança.
— É uma boneca.
Michelle explicou calmamente. Quando a carruagem parou, as pessoas começaram a descer uma a uma. Disseram que a vila ficava no coração da floresta. Como ainda precisavam caminhar um pouco mais, Weather se ofereceu para guiar o caminho.
Na frente estavam Michelle, Weather e a velha que Weather amparava. A velha com a boneca nas costas cantarolava uma canção de ninar. Sua voz ecoava, aumentando a aura sinistra do lugar.
Apesar de não parecer estar em seu juízo perfeito, a velha caminhava muito rápido. Até para Daisy era difícil acompanhá-la.
Folhas e galhos se entrelaçavam desordenadamente no chão, tornando cada passo um sacrifício. Às vezes, sentia algo macio e estranho sob os pés.
Weather não seguia por um caminho definido. Ela se enfiava entre as árvores sem qualquer padrão, a ponto de Daisy duvidar se ela estava mesmo guiando pelo caminho certo.
Daisy entrava cada vez mais fundo na floresta. As árvores tornavam-se mais densas e fechadas.
Coberto pelas árvores frondosas, nem a cor do céu podia ser distinguida. Sentindo um calafrio repentino, ela ajeitou a manta sobre os ombros.
— Irmã, estou com medo.
Mary e Yulma se esconderam atrás de Daisy. As mãos que a seguravam tremiam. Se para Daisy já era sombrio, para as crianças o medo devia ser redobrado. Somente após caminharem muito mais tempo é que Weather parou.
— Finalmente chegamos?
Atrás dela, ouviu-se um burburinho cheio de expectativa, mas Daisy não conseguia compartilhar do sentimento. A vila que serviria de refúgio parecia maior do que ela imaginava.
Uma vila escondida entre árvores tão densas que o céu mal podia ser visto; parecia mais uma [glossario termo=”Descrição da vila escondida na floresta densa.”]caverna de árvores[/glossario] do que um povoado.
— Realmente, é um lugar apropriado para hereges se esconderem.
Com o sol bloqueado pelas árvores, parecia o lugar perfeito para um herege fugir da vista de Deus.
Daisy ficou curiosa. Aquela declaração seria a de um Paladino fiel, ou um comentário autodepreciativo de alguém que passara a seguir Evangeline?
Michelle entrou na vila sem hesitar. Daisy segurou as mãos dos irmãos, respirou fundo e o seguiu.
No dia em que o Bispo Marik fosse derrotado, naquele dia, poderiam deixar a vila novamente. Até lá, a vila protegeria o povo de Rohanson.
O Bispo Marik e os Paladinos não encontrariam este lugar facilmente. Talvez a hostilidade contra estranhos que Weather mencionara não se referisse aos moradores, mas à própria geografia da floresta.
Daisy sorriu amargamente. Realmente, era um lugar apropriado para hereges se esconderem.
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