Mesmo tremendo os ombros, manchado de medo e vergonha, as palavras que saíam de sua boca eram de gratidão pela misericórdia.
Ainda que a mão de Saraka tivesse se afastado do ombro do Conde Regulus, ele continuava com a cabeça baixa. Provavelmente manteria a postura até que Saraka lhe permitisse levantá-la.
Saraka estava muito satisfeita com a forma de obediência demonstrada pelo Conde Regulus. Valera a pena ter plantado um feiticeiro para armar a armadilha.
Saraka havia colocado uma coleira no Conde Regulus, então, uma vez que seu maior objetivo estava cumprido, não havia mais razão para permanecer na residência do Conde.
[grito]Bispo, a carruagem está pronta.[/grito]
Nesse momento, um [glossario termo=”Paladino” definicao=”Cavaleiro sagrado, geralmente associado a ordens religiosas.”]Paladino[/glossario] anunciou que estava pronto para escoltar [glossario termo=”Lohengrin” definicao=”Jovem nobre que foi acusado de ser o líder da adivinhação com magia negra e foi executado.”]Lohengrin[/glossario]. O Conde Regulus sentiu um grande alívio ao ver que Saraka parecia estar de partida. Parecia que um furacão havia passado.
O Conde Regulus ergueu a cabeça, suportando a humilhação. Saraka ainda o observava. Provavelmente, seu rosto, escondido sob o véu, estava cheio de desprezo.
[grito]Nunca se esqueça de que o sol está sempre acima de sua cabeça.[/grito]
Saraka proferiu um aviso antes de partir e deixou a residência do Conde Regulus. Apesar do curto caminho até a carruagem, seus guardas não baixaram a guarda.
Desde que um herege louco atacou Saraka, eles estavam sempre atentos aos arredores. Mesmo ao chegar ao templo, estavam prontos para sacar suas espadas a qualquer momento.
[grito]Não precisam se preocupar, ninguém me fará mal no templo.[/grito]
Quando Saraka disse para não se preocuparem, um cavaleiro retrucou.
[grito]…Mas, Bispo. Aqueles estão aqui, não estão?[/grito]
[grito]Isso mesmo. E se os cavaleiros da [glossario termo=”Ordem dos Cavaleiros de Phararos” definicao=”Ordem de cavaleiros à qual Gabriel pertence.”]Ordem dos Cavaleiros de Phararos[/glossario], enfeitiçados pela bruxa, tentarem prejudicá-la?[/grito]
O cavaleiro que zombou virou a cabeça bruscamente e olhou para um lado.
Naquela direção, havia um homem com a cabeça baixa, como se estivesse envergonhado. Ele havia sido membro da Ordem dos Cavaleiros de Phararos até pouco tempo atrás. Embora tivesse deixado a Ordem dos Cavaleiros de Phararos após ser repreendido em voz alta por [glossario termo=”Gabriel” definicao=”Comandante da Ordem dos Cavaleiros de Phararos.”]Gabriel[/glossario], ele não estava sendo bem tratado.
[grito]Aqueles sujos que não conhecem a graça do [glossario termo=”Deus Sol” definicao=”Divindade adorada no templo, cuja Água Benta é usada.”]Deus Sol[/glossario].[/grito]
[grito]É estranho que eles não sejam hereges.[/grito]
Eles cuspiam, dizendo que Gabriel estava brincando nas saias da bruxa.
Como uma balança, quanto mais Saraka brilhava, mais a reputação da Ordem dos Cavaleiros de Phararos diminuía. Mesmo que tivessem deixado a Ordem dos Cavaleiros de Phararos e se juntado à [glossario termo=”Bispo Marik” definicao=”Bispo do templo, ex-freira, que supervisiona a purificação.”]Bispo Marik[/glossario], o estigma não desaparecia.
[grito]Parem com isso. De que adianta insultar seus próprios irmãos? Além do mais, o Comandante Gabriel não está se esforçando ao máximo para punir os hereges?[/grito]
Saraka defendeu Gabriel de propósito. Ela sabia que quanto mais um superior os defendesse, mais eles se revoltariam.
[grito]Humph. Eles estão apenas fingindo condenar os hereges, seguindo a senhora Bispo, com medo dos próprios pecados.[/grito]
Ao contrário de Saraka, Gabriel apenas capturava os principais suspeitos de feitiçaria ou lidava com as calamidades causadas por ela. Seu trabalho diferia do de Saraka, que queimava e purificava todas as fontes, então, para aqueles que seguiam Saraka, as ações de Gabriel pareciam insuficientes.
Saraka não repreendeu o cavaleiro que tinha uma visão “correta”.
[grito]Ainda assim, acredito que o Comandante Gabriel também tem a vontade divina. E não haverá ninguém no templo, sob a proteção do Deus Sol, que possa me fazer mal.[/grito]
Saraka disse isso e dispensou os cavaleiros que queriam fazer guarda em frente ao seu quarto.
[grito]É verdade. A senhora Bispo não é aquela que espalhará a vontade de [glossario termo=”Rahel” definicao=”Deus Sol adorado no templo.”]Rahel[/glossario] na terra? Ninguém, a não ser os insensatos, ousaria prejudicá-la.[/grito]
O cavaleiro que respondeu, ainda preocupado com Saraka, não conseguiu se afastar.
[grito]…Se ao menos Sir [glossario termo=”Astaroth” definicao=”Indivíduo que enfrentou Flauros e é uma ameaça.”]Astaroth[/glossario] estivesse aqui, eu estaria mais tranquilo.[/grito]
Um cavaleiro, que hesitava em se afastar, lamentou. [glossario termo=”Azazel Astaroth” definicao=”Um indivíduo que serve como guarda-costas pessoal do Bispo Marik, não pertencendo à ordem de Gabriel.”]Azazel Astaroth[/glossario], o cavaleiro que a Bispo Marik empregava com grande confiança, era extremamente habilidoso.
A confiança era tanta que a Bispo Marik o levava como único guarda-costas quando saía do templo, mas agora, por algum motivo, ele estava incomunicável.
Claro, Saraka levava apenas Azazel para facilitar a movimentação sem chamar a atenção, mas eles não tinham como saber o motivo.
[grito]Será que Sir Astaroth não teve algum problema? Ele não é de desaparecer sem avisar…[/grito]
[grito]Deus sempre nos observa, então Sir Astaroth estará seguro.[/grito]
[grito]É mesmo…?[/grito]
Saraka não anunciou a morte de Azazel. Depois que a Bispo Marik informou que o demônio havia sido condenado, ela pretendia anunciar a morte de Azazel, mas estava adiando o anúncio, pensando se não haveria uma maneira mais útil de empregar sua morte.
Aquilo que era intrinsecamente profano deveria existir apenas para ser usado por Saraka, e deveria ser usado mesmo após a morte. E, como se para provar que estava sendo preparado para Saraka, um espião plantado perto da [glossario termo=”Mansão Rohanson” definicao=”A residência principal da família Rohanson.”]Mansão Rohanson[/glossario] enviou uma carta.
[pensamento]’Ele está hospedado na Mansão Rohanson.'[/pensamento]
Era a notícia de que o demônio, que deveria estar morto, estava escondido na Mansão Rohanson.
A carta acrescentava que ninguém na mansão o descobriria facilmente, pois ele estava confinado ao quarto de [glossario termo=”Evangeline Rohanson” definicao=”Protagonista que possuiu o corpo da filha do Conde Rohanson.”]Evangeline Rohanson[/glossario], sem poder dar um passo para fora, e que, a não ser que fosse um confidente íntimo de Evangeline, ninguém saberia que Azazel estava residindo ali.
Saraka não sabia por que o demônio, cuja morte a Bispo Marik havia confirmado, estava na Mansão Rohanson.
[pensamento]A Bispo pode ter mentido para Saraka para encerrar sua vida, ou Evangeline pode ter capturado Azazel.[/pensamento]
[pensamento]Talvez Azazel tenha traído Saraka para se submeter à astuta Evangeline.[/pensamento]
Claro, não importava qual das três fosse a verdade. O importante era como usar Azazel. Evangeline Rohanson provavelmente o estava escondendo, pensando que seria uma adaga para apunhalar Saraka. Saraka decidiu dar importância ao fato de ter descoberto isso de antemão.
A adaga que Evangeline preparou seria inútil. No entanto, o que Saraka havia preparado ainda espreitava sob o queixo de Evangeline Rohanson. O traidor de Rohanson, o [glossario termo=”Ducado Hosaquin” definicao=”Família materna de Evangeline.”]Ducado Hosaquin[/glossario], e até mesmo a identidade de Gabriel eram peões no xadrez de Saraka.
Não. Desde o início, a própria existência de Evangeline Rohanson havia sido arranjada para Saraka. Evangeline havia aparecido como um material para solidificar as conquistas que a Bispo Marik alcançaria.
Evangeline era como um ornamento esplêndido para decorar o plano de Saraka. Assim como Azazel.
O dia final estava próximo. Servindo ao Deus Sol, a vencedora seria, obviamente, a Bispo Marik.
***
Eu perdi.
Uma criança que vence a infame Evangeline Rohanson… De fato, a teimosia de uma criança de seis anos era um nível que nem mesmo a reputação de uma vilã poderia superar.
Isso foi depois de ouvir toda a história de [glossario termo=”Mavka” definicao=”Nome da criança que se comunica com Pudim e se refere a si mesma como ‘Kiki’.”]Mavka[/glossario]. Mavka disse que sua mãe, [glossario termo=”Lico” definicao=”Apelido de Licoradca Palamedes.”]Lico[/glossario], estaria esperando por ela e que precisava ir.
Já era tarde, e Mavka parecia ter se acalmado, então eu ia levá-la até Lico. Minha reputação no ducado ainda estava em frangalhos, então seria problemático andar pela mansão à noite, mas não podia deixar a criança ir sozinha.
[grito]Eu te levo.[/grito]
[grito]Tenho seis anos, posso ir sozinha![/grito]
Mas havia um obstáculo inesperado. A criança Mavka, de “6 anos”, que afirmava ser adulta, insistia que podia voltar sozinha.
Já estávamos discutindo há alguns minutos. Mavka não parecia ter a menor intenção de ceder. Parecia que não teria fim, então decidi ceder.
[grito]Tem certeza que pode ir sozinha?[/grito]
[grito]Sim![/grito]
Mavka, com o nariz vermelho, olhou para mim com os olhos brilhando. A luz do lustre refletia em seus olhos ainda úmidos de tanto chorar, fazendo-os cintilar intensamente. O ataque visual era muito forte.
Argh, dá vontade de atender a todos os seus pedidos… Isso não é trapaça, com esse nível de impacto?
[grito]Mesmo? Não vai ter medo?[/grito]
[grito]Está tudo bem! Porque tenho o [glossario termo=”Pudim” definicao=”O gato de três olhos que a protagonista adotou.”]Pudim[/glossario]![/grito]
Mavka exibiu Pudim em seus braços, como se estivesse orgulhosa. Pudim, pendurado nos braços de Mavka, parecia desconfortável e enviava sinais de socorro com os olhos. Era muito fofo ver a criança abraçando um gato que era metade do seu tamanho.
Se Pudim fosse um gato de verdade e não um [glossario termo=”Híbrido” definicao=”Seres com características animais que podem assumir forma humana.”]Híbrido[/glossario], eu o teria corrigido para não o abraçar daquele jeito, mas como ele era um híbrido, ele aguentaria.
Por mim, eu o teletransportaria com a habilidade de Pudim num instante, mas tenho medo que Lico descubra.
Falar com um gato é algo que pode ser ignorado como um amigo imaginário de criança. Mas teletransporte? Isso é magia inegável.
Se Lico descobrisse, ela me denunciaria por trazer um mago híbrido secretamente para fazer truques, e eu seria expulsa antes mesmo de conseguir a simpatia do Ducado Hosaquin.
Pudim já havia usado o teletransporte uma vez para trazer Mavka até mim, mas, felizmente, Mavka estava tão assustada e chorando na época que nem percebeu a mudança de lugar.
Ela pensou que tinha fugido sozinha, então não havia com o que se preocupar. Por isso, eu queria levá-la, mas…
[grito]…Certo. Entendi.[/grito]
Relutantemente, concordei. Mavka, como se nunca tivesse chorado, curvou a cabeça energicamente.
[grito]Então, Anjo, adeus![/grito]
Eu já devia ter dito umas 50 vezes que não era um anjo, mas ela não parecia ter a menor intenção de corrigir o tratamento. Na verdade, depois de ser sempre tratada como vilã, ouvir “anjo” me deixava secretamente feliz.
Honestamente, a culpa era da [glossario termo=”Misha” definicao=”Apelido de Artemisia.”]Misha[/glossario]. Eu me acostumei mal por ouvir sempre coisas como “Jovem Lady é a personificação da beleza que desceu à terra e blá blá blá…”.
Se Misha tivesse visto Mavka, ela não a teria aceitado como sua aprendiz de bajulação? Enquanto eu divagava, Mavka abriu a porta.
[grito]Vá com cuidado, Mavka.[/grito]
Acenei para Mavka enquanto ela saía do quarto. Mavka retribuiu, pegando a pata de Pudim e acenando. Fofura mais fofura, por que o efeito é ao quadrado…? É uma quebra da matemática.
[pensamento]’Ela foi?'[/pensamento]
Depois que Mavka fechou a porta, fiquei parada ali por um momento e então abri a porta silenciosamente. Enganar uma criança de seis anos é moleza! Tudo era uma retirada estratégica.
Se ela se recusasse a ser acompanhada, eu simplesmente a seguiria em silêncio!
Desculpe por enganar você, Mavka. Mas os adultos são sempre desonestos.
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