[pensamento]Não. Aquele não é o Gabriel. Ela disse que era um teatro de marionetes. Aquele era apenas um boneco que Leah criou para zombar de mim. O verdadeiro Gabriel não está em meus braços?[/pensamento]
Recordando o calor em meu peito, apertei Gabriel com ainda mais força. O som de seu coração batendo lentamente acalmou minha respiração agitada.
— Como eu disse, não possuo o poder de criar vida. Posso criar um corpo físico tão parecido quanto eu queira, mas…
Leah segurou a cabeça do boneco e a balançou como se estivesse brincando. O boneco movia a cabeça e piscava seus olhos azuis conforme Leah o manipulava. Entendi o que ela queria dizer. Aquilo era, acima de tudo, apenas um boneco; não poderia se tornar um ser vivo.
Leah soltou o boneco e estendeu a mão para o ar. O corvo que estava em seu ombro voou para sua mão e inclinou a cabeça. Leah agiu como se fosse acariciá-lo, mas agarrou o pescoço do corvo com força. A ave se debateu, agitando as asas freneticamente.
— E quanto à alma que habitará esse corpo?
Como sua garganta estava sendo apertada, a voz que saiu foi um som arranhado e sufocado. Então, Leah, sem hesitação, quebrou cruelmente o pescoço do corvo. A ave ficou inerte. Meus olhos se franziram involuntariamente diante da cena brutal.
Quando o corvo silenciou, um silêncio sepulcral dominou o ambiente.
O pássaro morto nas mãos de Leah começou a se distorcer e a ser comprimido. Suas pernas se quebraram, seu corpo se dobrou e, por fim, transformou-se em algo minúsculo. Era como uma pequena conta.
Com sua mão esquerda, agora completamente regenerada, Leah segurou o pescoço do boneco. A imagem dela quebrando o pescoço do corvo momentos antes me fez arrepiar da cabeça aos pés.
Leah fez o boneco engolir a conta negra. Assim que ele a engoliu, um brilho de inteligência surgiu em seus olhos.
A vida havia habitado o corpo. Para ser exata, Leah provavelmente inseriu a alma do corvo no corpo do boneco.
Com um gesto de Leah, a forma do boneco transformou-se instantaneamente de volta em um corvo. O corvo bateu as asas novamente, como se nada tivesse acontecido.
Era um teatro de marionetes verdadeiramente sinistro.
— E o que isso que você acabou de me mostrar tem a ver comigo?
O corvo começou a tagarelar novamente, transmitindo as palavras de Leah.
— Agora que viu, você deve saber. Foi o mesmo quando eu criei você. Preenchi a bela casca de Amaranth com minha própria carne. No entanto, não havia nenhuma alma adequada para colocar dentro. Por isso, não tive escolha a não ser trazer uma [glossario termo=”Conceito de uma alma proveniente de outro mundo ou dimensão, fora da criação da divindade local.”]alma do exterior[/glossario], que não fosse uma das vidas criadas por Rahel.
[pensamento]Uma alma do exterior? …Que estranho. Para os meus ouvidos, isso soa exatamente como se ela estivesse falando de mim.[/pensamento]
— Exatamente. Estou falando de você.
[pensamento]Mas ela acabou de dizer que foi quando criou a Evangeline? Eu possuí este corpo muito tempo depois. Foi depois que a Evangeline já havia morrido.[/pensamento]
Leah observou, parecendo achar graça da minha confusão, e acrescentou:
— Você é a própria Evangeline.
Foi a confirmação final.
[pensamento]…Eu?[/pensamento]
— Sim. Você.
[pensamento]Eu entendi direito? Então, em vez de eu ter possuído o corpo, eu era a Evangeline desde o início?
Será que consigo acreditar nisso tão facilmente? Eu achava que era uma história de possessão, mas na verdade era amnésia? É o mesmo que cometer uma fraude de gênero.[/pensamento]
Se fosse uma brincadeira, teria sido melhor, mas Leah não mostrava nenhum sinal de estar tentando me convencer. Sua atitude indiferente, como se estivesse apenas listando fatos, fazia com que suas palavras parecessem ainda mais verdadeiras.
[pensamento]Eu sou a Evangeline…
Não parecia real. Como poderia parecer real se eu não tinha memórias? Além disso, não mudava muita coisa. Desde que percebi que este mundo não era apenas um livro, parei com o hábito de distinguir entre eu e a Evangeline. A partir de certo ponto, passei a viver tratando este corpo como meu.[/pensamento]
[pensamento]Mas pense bem. Kanna grita “Senhorita Evangeline!” e Pudim me chama de “Lady Evangeline”. E acima de tudo…[/pensamento]
[sussurro]— Lady Evangeline.[/sussurro]
Houve alguém que, embora sempre me chamasse formalmente de Lady Rohanson, percebeu imediatamente quando abri meu coração e começou a me chamar assim.
[sussurro]— Não importa o que você seja, eu a aceito.[/sussurro]
Apesar dos meus avisos, houve alguém que se aproximou sem medo e, por fim, me disse que não importava se eu era humana, demônio ou qualquer outra coisa. Sendo chamada assim por ele, como eu poderia não me apaixonar?
[pensamento]Pensando bem, isso é ainda mais ultrajante. Depois de me seduzir assim, e de prometer que não se machucaria, ele tenta me abandonar?
Eu cheguei a hesitar se deveria contar meu nome verdadeiro ao Gabriel…? Hein? Espere um pouco, eu acabei de dizer “nome verdadeiro”…? De repente, uma sensação de estranheza percorreu todo o meu corpo.[/pensamento]
[pensamento]Qual é o meu nome?[/pensamento]
Eu não conseguia me lembrar de qual era o meu nome antes da possessão. Como é possível alguém esquecer o próprio nome? Era estranho que eu só tivesse percebido isso agora.
Minha memória havia sido apagada de forma tão limpa que eu nem sequer tinha consciência disso. Senti que isso era semelhante ao fato de eu não ter consciência de ser a Evangeline. Ou seja, parecia que alguém havia manipulado isso intencionalmente.
Olhei para o ser que eu suspeitava ser o culpado.
— O fato de eu ter perdido a memória…
— Sim. Fui eu quem agiu. Para ser exata, você não perdeu a memória, você a recuperou.
— Recuperei…?
Refleti sobre o que Leah disse. Ela colocou a mão, que havia crescido limpa novamente, sobre a minha cabeça. A forma como ela me acariciava com um sorriso benevolente me lembrava Amaranth, e por algum motivo, senti um nó na garganta.
— Amaranth queria uma criança que a amasse. Patinhos recém-nascidos sofrem um [glossario termo=”Processo psicológico e instintivo de vínculo profundo que ocorre logo após o nascimento.”]imprinting[/glossario] com a primeira coisa que veem ao sair do ovo, não é? Por isso, deixei sua mente em branco e a abençoei. Para que você pudesse amar apenas uma pessoa. Para que apenas Amaranth fosse especial para você.
Eu tinha visto um trecho semelhante no diário de Amaranth. Ela dizia que um ser que a amaria havia nascido. Eu não sabia que tinha esse significado.
Embora não pudesse compreender totalmente, eu conseguia aceitar. Não se pode controlar as emoções de alguém simplesmente ordenando que ela ame outra pessoa de repente. Por isso, ela deve ter agido. Apagou minhas memórias e manipulou minha mente para que eu considerasse apenas Amaranth especial, transformando isso em amor. Que modo de pensar desumano.
— Você deve saber bem, pois essa influência ainda permanece em você.
[pensamento]Hã. Era tão absurdo que eu quase soltei uma risada sarcástica. Havia mais de uma coisa que fazia sentido agora.
O fato de eu ter definido este mundo, que nunca tinha lido, simplesmente como o interior de um livro. O fato de eu ter tratado pessoas que vivem e respiram apenas como meros caracteres escritos. Estava claro que tudo isso era a influência de que Leah falava.[/pensamento]
— Após a morte de Amaranth, você perdeu o propósito de viver e acabou se enforcando em um galho daquela [glossario termo=”Uma árvore de grande porte, com tronco tão largo que exige várias pessoas para abraçá-lo.”]grande cerejeira[/glossario] que Amaranth tanto estimava.
Evangeline morreu sete anos após a morte de Amaranth. Então, ela viveu esses sete anos submersa em uma depressão sem fim, sobrevivendo de forma letárgica?
Afastei a mão de Leah, que ainda estava sobre a minha cabeça. Leah recuou facilmente e ficou de pé. Embora ela tivesse um sorriso gentil no rosto, eu a sentia como alguém repulsivo.
Mais do que o fato de ela cortar o próprio braço sem hesitar ou de não ter globos oculares, o que causava uma sensação de estranheza era o fato de ela não conseguir compreender adequadamente as emoções humanas.
— Portanto, sua vida, que já encontrou a morte uma vez, não tem mais valor para mim.
Caminhamos um longo caminho até chegar aqui. Agora eu entendia o que Leah quis dizer quando disse que eu tinha uma imperfeição. Em um mundo onde tirar a própria vida era um pecado, eu claramente não poderia ser o sacrifício perfeito mencionado no livro de feitiços.
[pensamento]Ah. Por pouco eu não falhei logo no início, ao tentar invocar Leah. Afinal, eu pretendia oferecer minha vida para invocá-la.
Se não fosse pelo capricho de Leah, em vez de salvar Gabriel, eu teria acabado estampada nos jornais, romantizada como um amor trágico que tirou a própria vida para seguir o amante.[/pensamento]
O espetáculo bizarro de corvos batendo a cabeça contra a janela e morrendo era, na verdade, por minha causa. Não. Eu não deveria confundir aquela malícia sombria com boas intenções.
O corvo cantarolava uma melodia. Embora pudesse imitar a voz humana, não conseguia imitar o canto, então eram apenas grasnidos seguindo uma escala musical, mas parecia tão animado com a situação que não conseguia se conter.
Como esperado, Leah certamente não apareceu para me ajudar, mas apenas por seu próprio interesse. Será que ela não me trata como um de seus brinquedos? Ela devia estar apenas curiosa para ver como o subproduto que criou reagiria. Não parecia uma criança observando uma tartaruga virada de costas tentando se desvirar?
No entanto, uma dúvida ainda permanecia sem resposta.
Olhei de soslaio para Leah.
[pensamento]Então, por que Leah ressuscitou a Evangeline… por que ela me ressuscitou?[/pensamento]
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