Mavka, que parecia animada com a voz carinhosa e tingida de falsidade de Rico, logo olhou para mim com os olhos trêmulos e respondeu:
— Mavka não… não faz essas coisas…
— Por que não? Você não ama a sua mãe? Se fosse eu, faria qualquer coisa pela minha mãe!
[pensamento]Isso é porque você é um demônio, por isso é possível.[/pensamento] Critiquei mentalmente enquanto protegia Mavka.
— …Mavka. Você ouviu, não é? Aquilo não é mais a Rico.
— Não é verdade, ela é a mãe da Mavka! A mamãe prometeu que voltaria!
Mavka tentava desesperadamente negar a verdade. Já era difícil convencer uma criança por si só, mas convencer uma que estava tapando os ouvidos parecia uma causa perdida.
Agora, não importava se tivesse que ser à força. Mesmo que Mavka me visse como uma inimiga e guardasse rancor por eu ter matado sua mãe, eu não teria o que dizer. Eu precisava eliminar o rato, tanto pelas minhas fraquezas que restaram na mansão quanto por aqueles que foram feridos e levados para o templo.
— Pudim, a Mavka…
— …Eu!
Fui interrompida enquanto tentava pedir ao Pudim para tirar a criança dali com teletransporte. Mavka, que me cortou, despejou as palavras com a voz embargada pelo choro.
— …Eu ouvi tudo da Hazel… Que por causa do desejo de alguém, a mamãe da Mavka sumiu e ela virou a filha da Duquesa…
Mavka fungava enquanto falava. Surpreendentemente, ela tinha plena consciência de que Rico agora não era sua mãe, mas sim o “rato”. Por isso ela disse agora há pouco que a mãe prometeu voltar.
— Então a Mavka vai fazer um desejo de novo… Por isso, *snif*… Não seja a filha da Duquesa, seja a mãe da Mavka de novo.
Mavka se enterrou nos braços de Rico enquanto falava. Sua voz foi abafada pelas roupas.
Talvez por estar sendo contido pela psicocinese do Pudim, o rato ficou estático, sem conseguir retribuir o abraço da criança. Na verdade, mesmo que não estivesse contido, o rato provavelmente não a abraçaria.
— Hazel, o que você disse para a criança?
— Sinto muito… Mas como precisávamos vigiar a Rico, achei que a Mavka também deveria saber da situação… Ela ficou perguntando, então acabei explicando.
Mavka percebeu que não estavam lhe contando toda a verdade e, quando sua mãe desapareceu, notou vagamente que algo havia acontecido com Rico. Ela deve ter pressionado Hazel até conseguir entender parte da história. Hazel parecia ter contado com a intenção de alertá-la, temendo que Mavka seguisse a Rico possuída pelo “rato”.
— Mamãe, mamãe…
A criança chorava copiosamente. Parecia que ia acabar desidratada. Pudim estava ocupado contendo o rato, e Hazel não conseguia lidar com a teimosia da menina, então eu tive que intervir.
Afastei a criança do rato e a peguei no colo. O rato me observou por um momento. [pensamento]O que foi?[/pensamento] Ignorei o olhar dele e me concentrei em Mavka. Felizmente, ela não me repeliu e se deixou abraçar docemente.
Eu a acalentei, dando tapinhas rítmicos em suas costas. Mavka tentava manter os olhos abertos, desconfiada, lutando contra o sono. No entanto, como eu já a tinha acalmado outras vezes, não demorou muito para que ela caísse no sono. Apenas o som rítmico da respiração típica de uma criança pequena preenchia o quarto.
Limpei com o polegar o rosto da menina, que ainda estava úmido. Senti a temperatura alta característica das crianças na ponta dos dedos. Por ter chorado tanto, ela parecia mais quente que o normal, como se estivesse com febre.
— Essa natureza cega dela se parece com você.
— A Mavka se parece comigo?
— Sim. Você também é dedicada à senhora Agera desse jeito.
Enquanto conversávamos naturalmente, senti que algo estava estranho e olhei para o rato. Pudim também o observava como se visse algo bizarro. O rato ignorava esses olhares e mantinha os olhos fixos em mim — ou melhor, estava gravando a imagem de Mavka em sua mente.
[sussurro]— A Mavka realmente se parece muito comigo…[/sussurro]
O rato sussurrou. Não, não era o rato. Percebendo a diferença entre os dois, observei o rosto de Rico. Senti uma emoção quente como o sol da primavera… como se uma brisa suave soprasse e fizesse o corpo derreter. Percebi instintivamente. Aquela era, sem dúvida, a Rico.
— Rico?
— Sim, Lady Rohanson.
[pensamento]Será que o “rato” está fingindo ser a Rico para sobreviver?[/pensamento] No entanto, não senti nem um pingo de hostilidade na resposta calma que recebi.
Seria a verdadeira Rico? O que aconteceu de repente? A alma dela realmente reuniu forças? Será que o desejo da Mavka se realizou? Inúmeras perguntas passaram pela minha cabeça.
— Como isso é possível?
Sem entender o contexto, a pergunta que soltei acabou abrangendo todas as minhas dúvidas. Rico respondeu com um sorriso fraco:
— A criança está chamando pela mãe com tanto desespero. Como eu poderia apenas ficar assistindo?
Então, parecia que ela realmente havia retomado o controle impulsionada pelo apelo da filha. Que tipo de romance era esse… Bem, era um romance, afinal. Fazia sentido que milagres acontecessem.
— Lady Rohanson.
Rico me chamou enquanto eu ainda estava atônita.
— Por favor, me mate logo.
E então, ela soltou a bomba. Rico parecia alguém que já havia desistido de tentar sobreviver.
Eu estava preparada para matar Rico. Mas isso era quando se tratava de matar o rato, não estava preparada para matar a Rico autêntica, que havia retomado seu corpo. Se ela estivesse na forma do rato, eu não hesitaria em desferir o golpe.
— Espere, espere um pouco. O mordomo voltou, então não podemos apenas deixar como está…?
Hazel interveio, interrompendo o julgamento precipitado de Rico, parecendo apavorada com a possibilidade de eu realmente matá-la ali mesmo.
— …Sinto muito, mas só consigo me manifestar agora. Eu já me tornei parte do demônio. O “rato” foi ferido e, graças à Mavka, consegui assumir o controle por um momento… Mas, com o tempo, perderei o corpo novamente.
Em outras palavras, ela queria ser eliminada agora, em paz, antes de voltar a ser o rato.
— Hazel.
— Sim… senhorita Rico.
— A Mavka ficará bem. A lembrança de que eu morri logo se tornará turva. Em algumas décadas, ela nem se lembrará do rosto dos pais, assim como aconteceu comigo.
Rico previu o futuro de Mavka baseando-se em sua própria experiência.
— Não quero que ela me veja morrer. Por isso, peço que a leve para fora daqui.
— Isso… Então, se eu levar a Mavka, a senhora vai…
Os olhos de Hazel tremeram como se houvesse um terremoto. Entreguei Mavka para a Hazel, que estava visivelmente abalada. Sendo frágil, ela cambaleou por um momento ao receber a criança, mas logo se estabilizou. Hazel segurou a menina, mas hesitou, sem saber o que fazer.
— …Se eu for, a senhora vai morrer?
Hazel finalmente expressou a suposição correta, tremendo de medo da realidade iminente. O fato de que sua saída resultaria na morte de Rico agia como um gatilho; embora não estivesse segurando a espada, ela se sentia como a própria carrasca.
Hazel parecia prestes a desmoronar sob o peso da culpa.
Decidi aliviar o fardo dela. Coloquei a mão em seu ombro, aplicando uma leve pressão enquanto a convencia.
— Hazel. Respeite a escolha da Rico. Ela também não quer continuar vivendo de forma miserável como hospedeira de um demônio.
Hazel ouviu minhas palavras e observou o rosto de Rico. E, ao ver Rico sorrir suavemente como se dissesse que estava tudo bem, ela se curvou em sinal de respeito.
— Senhorita Rico. Obrigada por… me salvar no refeitório.
— Haha. Se formos por esse lado, fui eu quem te colocou em perigo, não? Eu é que agradeço por ter cuidado das minhas mãos.
Após a resposta de Rico, Hazel também se curvou para mim e saiu do quarto soluçando. Quando Mavka acordasse, ela teria muito trabalho para acalmar a criança.
Depois que as duas saíram, Rico e eu permanecemos em silêncio por um longo tempo. Somente quando o som dos passos de Hazel desapareceu no corredor é que Rico se voltou para mim.
— Lady Rohanson… É um pedido descarado, mas, por favor, cuide da Mavka.
Eu era a pessoa que mataria a mãe dela; não havia como Mavka me seguir. Sabendo que era um pedido impossível, nenhuma de nós disse mais nada.
— Por último… posso me despedir da senhora Agera uma última vez?
Rico perguntou, abrindo e fechando as mãos como se o sangue não estivesse circulando bem. Ela estava visivelmente tensa, temendo que eu recusasse. Uma última despedida de Agera… Rico não era cega como o rato, mas via Agera como sua benfeitora e a seguia com lealdade. Se fosse possível, eu queria permitir esse último adeus.
— Tudo bem.
Com a minha permissão, Pudim desfez a restrição. No entanto, como não sabíamos quando o rato poderia ressurgir, não baixamos a guarda. Rico caminhou vacilante até Agera.
— Senhora Agera…
Rico sentou-se à beira da cama e chamou por ela com ansiedade. Rico e o “rato” tinham semelhanças peculiares. Assim como o rato fizera, Rico não conseguia estender a mão para tocar Agera. Já que era a última vez… teria sido bom se ela pudesse segurar a mão dela e dizer adeus adequadamente.
— Eu sou imensamente grata. Por não ter punido uma batedora de carteiras que vagava pelas favelas, mas sim por ter me trazido para sua casa e me dado um emprego.
Rico falava calmamente, como se Agera não estivesse dormindo e pudesse ouvir sua história.
— Por não ter me expulsado quando engravidei solteira e por ter dito que eu poderia criar minha filha aqui. Por ter dito que a Mavka era como uma neta para a senhora. Sou grata por tudo.
Rico forçou-se a conter as lágrimas enquanto dizia suas últimas palavras:
— Eu… eu ousava considerá-la como uma mãe.
Compreendi por que o rato escolheu Rico como hospedeira. O rato é obcecado pelo lugar de filha de Agera. Por isso tentou me ferir e devorou a Rico. E o motivo de ter devorado justamente ela foi… porque Rico via Agera como uma mãe.
Rico limpou os olhos bruscamente com a manga, temendo que suas lágrimas caíssem sobre Agera. No entanto, apesar de sua consideração, Agera despertou.
Agera piscou os olhos como se ainda estivesse sonhando e estendeu a mão para Rico, que estava bem à sua frente. Como Rico não conseguia se aproximar primeiro, parecia que ela mesma estava tomando a iniciativa.
— …Rico.
Duvidei dos meus próprios ouvidos. Eu tinha ouvido direito? Agera não acabou de chamar o nome da Rico?
— Rico.
Ouvi o nome dela mais uma vez.
E, ao ver o choque no rosto de Rico, percebi que não fora a única a ouvir. Agera a reconhecera. Ela estendeu a mão e acariciou o cabelo de Rico.
— Rico… Eu também te considerava como uma filha…
Rico aceitou o toque de Agera em silêncio. Seu corpo parecia ter congelado, incapaz de processar a situação.
O rosto de Rico parecia prestes a transbordar de emoção.
— Então… não diga que foi uma ousadia…
Após essas palavras, Agera começou a cochilar novamente e caiu no sono. Senti como se estivesse sendo enganada por um fantasma. Cheguei a pensar que o demônio estivesse controlando Agera. Mas, como o rato não faria algo bom para a Rico, era óbvio que Agera a reconhecera por vontade própria.
Será que a memória dela voltou por um instante? Ou talvez a demência de Agera não fosse uma doença simples desde o início. Talvez ela tenha oferecido suas memórias como sacrifício ao invocar o demônio e, agora que a influência do rato diminuiu, estivesse recuperando-as fracamente.
Embora não soubesse qual era a resposta correta, era um verdadeiro milagre. Já era incrível que Rico tivesse vencido o rato e retomado o controle do corpo, e agora Agera também se lembrava dela. Por algum motivo, meu coração se agitou.
Por que os milagres nunca vêm sozinhos?
Enquanto vivia na mansão, vi Agera perguntar o nome de Rico inúmeras vezes. Toda vez, Agera olhava para Rico como se visse uma completa desconhecida.
Considerando que Rico era a governanta da mansão e que elas se encontraram tantas vezes, doía um pouco ver que Agera nunca se lembrava de quem ela era. Rico, que via Agera como sua salvadora, não devia sentir o coração partido de tristeza?
Ao vê-la se lembrar apenas de Amaranto, Rico não devia sentir na pele que jamais poderia ser a filha de Agera?
Por isso, eu não conseguia sequer imaginar o que Rico estava sentindo agora.
— *Buááá*. Senhora Agera…
Rico chorou. Esqueceu a idade e chorou como uma criança pequena. Chorou copiosamente, como uma criança perdida que finalmente reencontra os pais. Ela era o [glossario termo=”Expressão coreana para descrever alguém que é a imagem cuspida de outra pessoa.”]Retrato Falado[/glossario] de Mavka naquele momento. Era uma pena que Rico não fosse uma criança para que eu pudesse abraçá-la e confortá-la.
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