E então, o investigador agarrou o braço de Daisy com uma força descomunal antes mesmo que ela pudesse dizer qualquer coisa.
Daisy tentou se soltar, mas a força do investigador era surpreendentemente avassaladora. Havia muitos rumores sobre o Padre Berga, mas ela nunca tinha ouvido falar que ele agisse de forma tão coercitiva.
Mesmo que o Padre Berga tivesse uma posição imensa no mosteiro, ele ainda deveria se preocupar com os olhos da sociedade. Será que ele achou que não importava, já que Daisy não tinha ninguém para protegê-la?
Eles já estavam diante do quarto do Padre Berga. Um dos investigadores, que vigiava a porta como se estivesse de guarda, sorriu maliciosamente ao ver Daisy.
— Você realmente a trouxe.
— E o Padre?
— Ele ainda está fora de si. Fica murmurando sozinho, acho que enlouqueceu.
— Não diga coisas tão profanas.
— Você é quem é profano, seu idiota. Tão intrometido. Acha que o Padre vai voltar ao normal só por vê-la?
— Pode ser que sim.
Pela conversa deles, Daisy percebeu que o Padre Berga nunca a tinha chamado.
O investigador abriu a porta e empurrou Daisy para dentro. Ela tentou girar a maçaneta apressadamente, mas a porta não abriu, como se estivesse sendo segurada pelo lado de fora.
— Quando o estado do Padre melhorar, nós a deixaremos sair.
A voz do investigador ecoou do outro lado da porta. Daisy soltou a maçaneta. Uma sensação de impotência tomou conta de seu corpo. As lágrimas ameaçavam transbordar, mas ela mordeu os lábios com força.
Se o Padre Berga não a tinha chamado, talvez ela pudesse simplesmente ir embora se tivesse sorte.
Mas, afinal, o que o Padre Berga estava fazendo? Como alguém que tanto prezava pela autoridade podia estar em um estado que permitia aos investigadores agirem por conta própria?
Daisy deu um passo para dentro. O quarto do Padre Berga parecia ser o dobro do tamanho dos quartos usados pelos outros monges. Sons de gemidos vinham de dentro. Não, seriam arquejos?
E, no momento em que Daisy viu a figura do Padre Berga, ela recuou instintivamente.
Essa era uma situação que ela jamais teria previsto.
O Padre Berga estava com a cabeça enterrada no chão, desenhando. Algumas folhas de papel estavam amassadas e frascos de tinta haviam tombado, manchando o chão de preto.
Como ele não mergulhava a pena na tinta corretamente, os desenhos no papel pareciam apenas marcas de pressão.
Embora a forma não fosse clara, Daisy reconheceu o que estava desenhado no papel num piscar de olhos. Como poderia não reconhecer? Aquele era o mesmo padrão que “Aquilo”, que vestia a pele da senhorita, costumava desenhar.
— Preciso completar a parte oculta. É isto? Acho que é isto…
Mesmo com todo o barulho que ele fizera, o Padre Berga parecia nem notar que Daisy estava ali.
As mãos do Padre Berga moviam-se freneticamente. Daisy ficou parada atrás dele, observando-o fixamente. Sua respiração ficou curta. Parecia que ela tinha voltado ao tempo em que espionava o depósito do 4º andar na Mansão Rohanson. Parecia que, a qualquer momento, algo indescritível surgiria do [glossario termo=”Símbolo ou padrão mágico usado para realizar feitiços ou rituais.”]Círculo de Conjuração[/glossario] no chão, como daquela vez.
Se eu deixar como está, ele realmente vai invocar aquele olho novamente.
Não. Ele não pode completar aquilo. Eu mal consegui escapar. Não posso ver aquele olho de novo. Tenho que impedi-lo… tenho que impedi-lo.
Procurando por um meio, Daisy pegou a estátua de Rahel que estava logo ao lado. A pedra esculpida com a imagem do deus era muito pesada. Daisy ergueu as mãos bem alto e golpeou para baixo.
Uma vibração surda ecoou pelas pontas de seus dedos.
O padre caiu para frente. Quando Daisy soltou a estátua, a escultura do deus sol Rahel caiu no chão e partiu-se ao meio. As vestes brancas de Rahel, agora divididas, estavam manchadas de vermelho.
O sangue que escorria da cabeça do padre começou a encharcar o desenho. Sem que Daisy percebesse, o líquido preencheu o desenho seguindo os sulcos deixados pela pressão da pena, como se percorresse um canal.
— O que, o que eu fiz…
Daisy percebeu a tragédia que tinha causado e arfou. Eu, eu só queria impedi-lo.
O que farei se descobrirem? Matar um padre era um pecado muito maior do que matar qualquer outra pessoa. Porque ela ousou matar alguém que recebia o amor de Deus. Se descobrirem, ela será condenada à morte.
— Preciso fugir…
No entanto, como era o 4º andar, ela não podia pular. Havia dois investigadores vigiando do lado de fora da porta. Não havia para onde fugir. A menos que alguém a ajudasse.
— Quer ajuda?
De repente, um sussurro soou perto de seu ouvido.
Quando Daisy se virou, tremendo, um homem que não deveria estar ali brilhava os olhos bem ao seu lado. Uma língua vermelha deslizava entre dentes afiados. Cabelos negros, como um pântano, preencheram todo o campo de visão de Daisy.
— Shh. Fique quieta.
O homem cobriu a boca de Daisy com a mão. Ela até parou de respirar.
— Ei. Ouvi um barulho, o que está acontecendo?
— Por que você pergunta isso? Finja que não sabe e deixe para lá.
— Ah…
Parece que eles mesmos interpretaram o estrondo que acabara de ocorrer, pois a porta não foi aberta. Quando a mão do homem se afastou, Daisy soltou o fôlego que prendia. O oxigênio voltou aos seus pulmões e sua mente, antes distante, retornou. O homem olhou para Daisy e inclinou a cabeça.
— Senti o cheiro daquele sujeito e vim, mas por que você está sozinha?
— Aquele sujeito… você diz?
— Não sabe? Aquele cara com muitos olhos. O nome dele é Flauros.
Ao ouvir a palavra “olho”, Daisy estremeceu. Será que o olho de que o homem falava era “Aquilo” que ela viu na Mansão Rohanson?
— Ah, você sabe, não é? Eu tenho assuntos com ele. Você vai ter que me levar até lá.
Daisy balançou a cabeça. Voltar para lá? De jeito nenhum.
— Não tem escolha. Você já fez um pedido, não fez? Eu apareci por um preço baixo, então o mínimo que você pode fazer é isso para compensar.
Pedido? Enquanto Daisy se perguntava, o homem estalou os dedos. Ao mesmo tempo, o padre, que estava morto, começou a se levantar.
Aquela cena lembrou o momento em que Evangeline ressuscitou. O pesadelo daquele dia estava se repetindo, ainda mais terrível.
— Eca. Aliás, você ofereceu esse tipo de coisa como sacrifício? Se não fosse alguém faminto como eu, ninguém nem olharia para isso.
O homem sentiu ânsia de vômito ao ver o cadáver do padre. Talvez por causa de sua atitude alegre, a cena do cadáver se movendo parecia quase cômica.
— Pronto. Já fiz isso se mover, agora é sua vez de fugir.
Antes que Daisy pudesse resistir, o homem estalou os dedos.
Quando recuperou a consciência, Daisy estava na floresta fora do mosteiro. No lugar onde Daisy e o homem desapareceram, dentro do quarto bagunçado de sangue e tinta, o padre estava sentado, atordoado. Embora, se alguém olhasse para dentro dele, certamente estaria vazio.
— Ah, esqueci do serviço pós-venda.
E então, o homem, como se tivesse esquecido algo ao sair, voltou, passou pelo padre e abriu a porta. Antes que os dois investigadores que vigiavam do lado de fora pudessem se assustar com a figura estranha, linhas apareceram em seus pescoços e suas cabeças caíram.
O estranho era que, em vez de caírem, os decapitados pegaram suas próprias cabeças que rolavam no chão e as colocaram de volta sobre os pescoços.
— Perfeito. Sim, muito bom.
O homem desapareceu, satisfeito. O fato de as duas cabeças terem sido trocadas não era algo importante.
***
— …O que você procura deve estar ali.
Daisy disse, apontando para a Mansão Rohanson. O homem, que confirmou a mansão pela janela da carruagem, olhou para Daisy como se a avaliasse e assentiu. Como ele tinha pedido para ser guiado até o destino, parecia ter reconhecido que Daisy não precisava ir até a Mansão Rohanson com ele.
— É verdade. O cheiro é forte. Será que ele montou morada ali?
— …Provavelmente.
Se o olho de que o homem falava não saía da Mansão Rohanson, então ele estava certo.
Daisy queria sair dali imediatamente. Ela queria se afastar da Mansão Rohanson o mais rápido possível, com medo de que o olho a observasse novamente, e também queria fugir daquele homem que, apenas pela aparência, parecia refrescante e gentil.
Aquilo era um monstro que Daisy tinha invocado. Apenas o fato de que o erro que ela cometeu estava andando por aí já a sufocava.
O trato com o homem terminava ali. Ele disse que tinha assuntos com aquele olho, então, quando terminasse, ele voltaria por conta própria.
Ele não vai ficar aqui para sempre, vai?
Não sei quantos ele matou enquanto vínhamos até aqui. Ele cortou pescoços de pessoas dizendo que era um banquete, e, por algum gosto peculiar, colocou as cabeças de volta.
As pessoas que deveriam estar mortas, como o Padre Berga, levantaram-se novamente e andavam por aí como se nada tivesse acontecido. Se não fosse pela linha vermelha em seus pescoços, seria impossível distingui-los de pessoas comuns.
Além de procurar pelo olho, será que este homem também ressuscitou a senhorita Evangeline? Não, o homem não conhecia a Mansão Rohanson.
— Se precisar de ajuda, chame-me de novo. Da próxima vez, cobrarei o preço justo.
O homem desceu da carruagem, balançando as mãos. Pela pequena janela, ela viu as costas do homem. Havia uma cerejeira em plena floração para onde ele se dirigia. Aquela árvore ainda não tinha perdido as flores desde que a senhorita se enforcou.
— Para onde deseja ir?
O cocheiro perguntou.
— Para onde deseja ir?
O cocheiro virou o pescoço para olhar para Daisy. A cena era tão assustadora que Daisy engoliu em seco.
— Para onde deseja ir?
Como Daisy não respondeu, a pergunta continuou a ser repetida, sem qualquer mudança no tom ou na velocidade. Ele pretende perguntar até obter uma resposta? Daisy olhou de relance para a linha vermelha no pescoço do cocheiro.
Daisy, relembrando aquele dia de pesadelo e o dia de hoje, decidiu o destino.
— Para o templo.
***
— Socorro!
Encontrei um lobo preto que falava. Capturá-lo dando um golpe… não, não é isso.
Ele está ferido? Se não fosse pelo fato de falar, eu teria pensado que era um animal selvagem sendo caçado.
Mas ele falou, não falou?
Os romances de fantasia que li até agora passaram pela minha cabeça. Eu já suspeitava por causa da presença de espíritos e do clima estranhamente decadente, mas este romance parecia ser uma obra um pouco antiga. Por quê?
Aquele ali é um [glossario termo=”Seres com características animais que podem assumir forma humana.”]Híbrido[/glossario]… um lobo preto que fala? Não preciso pensar em mais nada. É como uma fórmula matemática.
O protagonista masculino provavelmente é Gabriel, então este aqui seria o segundo protagonista masculino? As suspeitas brotaram em mim.
Eu já consigo imaginar o conteúdo…
Comentários