De qualquer forma, já estava descartado, então não podia ser chamado de herança. E como não podia deixar a Marquesa Toten andar descalça, foi perfeito.
Saí com a Marquesa Toten, que já calçava os sapatos, para pegar a carruagem. Pedi que preparassem tudo com antecedência, pois iríamos direto para o Palácio Imperial depois de passar pela residência do Marquês.
Quando Melek, com a venda bem ajustada, trouxe a carruagem puxada por corcéis negros, comecei a entender por que o Conde havia partido primeiro. A chuva forte embaçava a visão, fazendo os cavalos parecerem sem patas. Era uma carruagem digna de um filme de terror. Na verdade, como era guiada por um fantasma, estava meio certo. A esse ponto, eu não gostaria de entrar nela nem que me pagassem.
[grito]“Vamos entrar nisso…?”[/grito]
[grito]“Sim. Por favor, entre.”[/grito]
A Marquesa Toten hesitou por um momento. Mas, sem forças para resistir, ela subiu na carruagem e se sentou calmamente à minha frente.
[grito]“Pretendo ir direto para o Palácio Imperial depois de passar pela residência do Marquês Toten.”[/grito]
[grito]“Sim. Tenha uma boa viagem.”[/grito]
Daisy curvou-se em despedida, e Kanna acenou com um lenço, parecendo triste. Dei um tapinha no ombro dela e subi na carruagem. Henna, que era a mais familiarizada com a etiqueta do Palácio Imperial, seria minha acompanhante.
E Jelly também subiu na carruagem, a pretexto de ser um guarda-costas. Dizia-se que era um guarda-costas, mas na verdade era uma arma secreta para usar magia e controlar a situação, caso algo acontecesse na residência do Marquês. Ele estava sentado com as pernas cruzadas, assobiando atrevidamente, e a Marquesa Toten franziu a testa ao vê-lo.
[grito]“Aquele homem é….”[/grito]
[grito]“Eu sou o cão da minha mestra,”[/grito]
[grito]“Ele é meu braço direito.”[/grito]
Jelly estava prestes a dizer alguma bobagem na frente da Marquesa Toten, então mudei de assunto apressadamente. Piadas devem ser feitas com a pessoa certa! Rafaela e a Marquesa Toten são a mesma coisa?
[grito]“Entendo, da Jovem Lady…”[/grito]
[grito]“Então, vamos partir.”[/grito]
A Marquesa Toten parecia estar pensando em algo estranho, mas antes que eu pudesse corrigi-la, Melek moveu a carruagem. Mesmo com tanta chuva, não houve um único solavanco; sua habilidade de condução era realmente excelente. Queria que ele fosse meu motorista para sempre.
Não demorou muito para chegar à residência do Marquês Toten. Logo, a velocidade da carruagem diminuiu gradualmente. Chegamos? Afastei a cortina da carruagem e olhei pela janela. A residência do Marquês Toten era visível através do vidro. Parecia sombria e melancólica, diferente de como a vi antes. Deve ser por causa da chuva, certo?
***
Kinder prendeu a respiração durante toda a viagem de carruagem. Sem perceber, ela encolheu o corpo e prendeu a respiração, temendo que seu som pudesse incomodar os ouvidos dos que a ouviam. Ela espiou Evangeline.
Evangeline Rohanson não rejeitou a mão que Kinder estendeu. Quando Kinder pediu ajuda, ela prontamente se ofereceu para ajudar. Embora Evangeline a tenha avisado que não poderia ser uma “solução perfeita”, não era muito melhor do que os tempos em que ela rezava a vida inteira e nunca recebia uma única resposta?
[pensamento]Por que ela disse que não era perfeita? Haveria algum problema em ressuscitar Rider?[/pensamento]
Kinder bateu as pontas dos sapatos, que eram um pouco grandes demais. Ela estava usando os sapatos da mãe da Jovem Lady, a falecida Condessa. A Jovem Lady parecia ter dito para ela calçar os sapatos sem segundas intenções, mas Kinder foi tomada por uma emoção estranha.
Na voz da Jovem Lady, ao recordar a Condessa, não havia nenhuma emoção. Ela entendia por que havia rumores de que a Lady Rohanson era outra pessoa. Seria esse o problema? Se Rider também ressuscitasse, ele agiria como uma boneca, esquecendo todo o afeto por Kinder, assim como a Jovem Lady?
[grito]“Chegamos.”[/grito]
[grito]“Bom trabalho, Melek.”[/grito]
O cocheiro vendado, que conduzia cavalos sem patas, anunciou a chegada. Embora estivesse falando do lado de fora da carruagem, onde o som da chuva poderia engolir suas palavras, sua voz era tão clara quanto se estivesse falando ao lado dela.
A Jovem Lady Rohanson desceu da carruagem, escoltada pelo monstro que ela chamava de seu braço direito. Na frente da Jovem Lady, ele se virava submissamente, abanando o rabo, como um verdadeiro cão.
A criada que a acompanhava apressou-se em segurar um guarda-chuva sobre a Jovem Lady Rohanson. Em seguida, o monstro estendeu a mão, como se fosse escoltar Kinder também. Kinder ignorou a mão e desceu da carruagem sozinha.
O monstro riu, como se achasse a cena engraçada. Quando Kinder hesitou, parada em frente à Mansão do Marquês, aquele homem apareceu de repente, sem aviso, e apertou o pescoço de Kinder.
[grito]“Ah, que descuido. Quase te matei de tanto barulho. Você pode manter em segredo que eu te estrangulei? A mestra me disse para te trazer de volta intacta.”[/grito]
Então, ele a ameaçou, dizendo que foi um acidente e que ela deveria manter segredo da Jovem Lady Rohanson. Kinder nunca havia gritado ou feito barulho, então o que ele queria dizer com “barulho”? O coração de Kinder disparou. [pensamento]Será que “barulho” se referia ao som do meu coração?[/pensamento]
[grito]“Está barulhento lá dentro, não está?”[/grito]
Ao ouvir a palavra “barulhento”, Kinder estremeceu, lembrando-se do momento em que conheceu o monstro disfarçado de guarda-costas, e desviou o olhar.
[grito]“Será que algo aconteceu?”[/grito]
Com a suposição da criada, Kinder inclinou a cabeça, mas de repente seu rosto empalideceu e ela correu para dentro. Não teve tempo de verificar se Evangeline a seguia.
Se houvesse algo que pudesse causar alvoroço na mansão, apenas uma coisa vinha à mente: a morte de Rider havia sido descoberta! Normalmente, ninguém procurava a criança, exceto Kinder, então por que, justo hoje, eles sentiriam que algo estava errado porque Kinder não agiu como de costume e foram procurar Rider?
[grito]“Senhora! A senhora precisa ir até o Jovem Mestre! O Senhor Dies…!”[/grito]
[grito]“Senhora, é verdade que o Jovem Mestre faleceu?”[/grito]
Os criados, que cochichavam entre si, correram para Kinder, bombardeando-a com perguntas. Kinder os ignorou, como se não ouvisse nada, e apressou os passos, cerrando os dentes.
Kinder parou em frente ao quarto de Rider, que normalmente era o lugar mais ensolarado da mansão. No entanto, agora, era o lugar mais sombrio e hediondo.
[grito]“Por que a senhora chegou tão cedo… Justo agora.”[/grito]
Os criados reunidos em frente ao quarto de Rider murmuravam.
[grito]“Mordomo, ama. O que está acontecendo?”[/grito]
A voz de Kinder tremia. A ama, ao lado do mordomo, evitou o olhar de Kinder, como se não tivesse coragem de encará-la. [pensamento]Parece que ela ainda tem alguma consciência de que está agindo de forma irracional.[/pensamento]
[grito]“Senhora.”[/grito]
O mordomo chamou Kinder, parecendo surpreso.
Kinder cerrou os punhos. A porta do quarto de Rider estava esmagada pela metade, como se tivesse sido atingida por um machado. Através da grande fenda na porta quebrada, a cena do quarto de Rider era visível. Uma criada tremia, abraçando a criança com força, atrás da porta destruída.
[grito]“Cunhada, você chegou cedo.”[/grito]
O culpado era Dies. Dies, segurando um machado, cumprimentou Kinder com um sorriso astuto e descarado. Ele havia chegado tarde da noite, mas aproveitou a ausência de Kinder para causar estragos.
[grito]“Dies, o que você está fazendo?!”[/grito]
[grito]“O que estou fazendo? Eu só queria ver o estado do meu sobrinho. A criada é quem deve ter feito algo.”[/grito]
Dies apontou para a criada que abraçava Rider com força, atrás da porta quebrada, com um rosto descarado.
[grito]“Se-senhora….”[/grito]
A criada chamou Kinder desesperadamente. Era Weather, a criada a quem Kinder havia confiado Rider. Havia sangue escorrendo de seu rosto, provavelmente arranhado pelos pedaços da porta quebrada. Mesmo atordoada pela dor, ela protegia Rider, abraçando-o bem enrolado no lençol.
Kinder sentiu a cabeça girar. Abraçando Rider tão de perto, Weather certamente teria percebido que a criança estava morta. Mas por que ela continuava a protegê-lo?
Kinder não conseguia entender. Weather, por alguma razão desconhecida, havia cumprido o pedido de Kinder até o fim. Se Weather não tivesse intervindo, a morte de Rider já teria sido anunciada.
[grito]“Eu só queria ver o rosto do meu sobrinho, mas ela me impediu de entrar. Não é suspeito? Então, peguei um machado e estava quebrando a porta.”[/grito]
[grito]“Não há nada de suspeito. Fui eu quem pediu. Ele finalmente se acalmou depois de dias doente, então pedi para não deixar ninguém entrar. Aquela criada apenas seguiu minhas ordens. Ela não te disse?”[/grito]
[grito]“Ah… Agora que você mencionou, eu ouvi. Mas pensei que fosse mentira. Meu erro.”[/grito]
Dies abaixou o machado, com um sorriso torto nos lábios. Era um sorriso bizarro, sem nenhum traço de alegria nos olhos. Ele ainda não havia largado o machado completamente.
[grito]“Já que voltei, está tudo bem agora, não está? Você deve estar cansado de vir para a residência do Marquês, então vá descansar.”[/grito]
[grito]“Sim. Farei isso. Mas, cunhada… Não é estranho? Com todo esse barulho, meu sobrinho não pisca os olhos e dorme profundamente. Não parece que ele está dormindo como um morto?”[/grito]
[grito]“Eu não te disse? Ele adormeceu profundamente depois de cinco dias doente. Ele deve estar tão exausto que não consegue ouvir o barulho ao redor.”[/grito]
Com as palavras de Kinder, Dies apagou o sorriso e ergueu o machado. Kinder fechou os olhos com força, assustada, mas não sentiu dor alguma. Quando ela abriu os olhos, Dies estava com o machado apoiado no ombro.
[grito]“Você realmente acha que eu continuaria a brandir um machado de forma tão ignorante? Eu também sou uma pessoa sensata.”[/grito]
O rosto de Kinder corou de vergonha pela humilhação. Dies a havia ameaçado de propósito, balançando a mão de forma exagerada.
[grito]“E já que a cunhada chegou, não preciso quebrar a porta de propósito. Aquela criada abrirá a porta para a cunhada. Se a cunhada estiver por perto, não haverá problema em eu verificar o estado do meu sobrinho, certo?”[/grito]
Kinder mordeu os lábios. Não havia como refutar. Dies já parecia convencido de que Rider estava morto. Aos olhos de Kinder, Rider, que estava doente há dias, parecia ainda mais magro e sem vida, como um cadáver. Sem respirar ou se mover, como se estivesse dormindo, qualquer um que o observasse por um longo tempo perceberia que a criança já havia partido. E se o cobertor que Weather o envolvia fosse removido, certamente haveria manchas cadavéricas por todo o corpo.
[grito]“Peça para ela abrir a porta. Por que você não verifica? Você não está preocupada com seu filho, cunhada? Vamos, entre comigo.”[/grito]
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