Parecia que ele estava olhando para uma pilha de lixo. Era claramente um cadáver em decomposição, mas com o som ofegante do vento, o lixo inchava e desinchava repetidamente. A pele seca rachava a cada respiração. Parecia mais uma criatura grotesca do que um ser humano.
Os olhos estavam bem abertos, sem piscar, e moscas estavam presas sobre as pupilas. Como não havia mudança mesmo quando a luz se aproximava, a visão estava claramente perdida.
Um cavaleiro, tomando coragem, levou a mão à abertura que parecia ser o nariz, e sentiu um hálito quente.
[sussurro]“…Está, está vivo.”[/sussurro]
Os olhos rolaram na direção de onde a voz vinha. O cavaleiro quase parou de respirar quando as pupilas turvas o encararam. As moscas que haviam voado assustadas voltaram a pousar no rosto. Parecia que ele conseguia distinguir os sons, pelo menos.
[grito]“Meu Deus…”[/grito]
Harut murmurou, incapaz de conter sua angústia. A massa de lixo reagiu fortemente à voz de Harut. Isso porque a voz que ouvia era a de uma criança que ele amava.
[pensamento]‘Harut, você veio me salvar!’[/pensamento]
No entanto, Marik logo ficou furioso com o que os sacerdotes disseram.
[sussurro]“É a herege Saraka que o Padre Harut mencionou?”[/sussurro]
Como ousam associar o nome daquele ser terrível a alguém! Herege? Não era simplesmente uma herege. Era um monstro.
Marik, a princípio, havia acolhido Saraka com a intenção de usar a criança herege corretamente. Saraka, exceto por uma vez em que tentou escapar, conhecia seu lugar e obedecia a Marik.
No entanto, a partir de um certo dia, começou a revelar sua verdadeira natureza. Deve ter sido desde que Marik invocou o demônio.
Ah, sim. Ele havia invocado um demônio. Não suportando o corpo que definhava e morria de doença, ele… Marik tinha uma quantidade considerável de informações coletadas ao longo do tempo, massacrando hereges, então desenhar um [glossario termo=”Círculo de Conjuração”]Círculo de Conjuração[/glossario] não foi difícil. O sacrifício também foi fácil de obter.
Marik só queria recuperar seu corpo jovem e saudável. O demônio respondeu que não poderia devolver sua juventude, mas poderia transferi-lo para outro corpo. Por acaso, Marik tinha um corpo bem cuidado. Então, bastava apenas se transferir.
Mas o demônio traiu Marik. A criança herege, com sua língua astuta, roubou o demônio. Saraka usurpou a posição, o status e até o nome de Marik, e o aprisionou no subsolo, cuidando dele. Assim como Marik havia feito com Saraka.
Marik definhava cada vez mais. A [glossario termo=”Água Benta”]Água Benta[/glossario] não fazia efeito devido ao pecado de invocar um demônio, então ele não podia curar seu corpo em decomposição.
Seu corpo inteiro apodrecia. Mas ele não podia morrer. Saraka cuidava dele com extremo zelo, mantendo-o vivo. Porque, como o Bispo Marik havia dito uma vez, os amaldiçoados devem pagar seus pecados vivendo.
Mas agora estava tudo bem. Ele seria salvo.
Marik percebeu que Harut havia descido para salvá-lo. Meu lindo filho. Uma criança adorável, diferente daquela herege terrível em todos os aspectos.
Marik estendeu a mão para Harut. Harut segurou a mão imunda sem hesitação.
Os sacerdotes ficaram maravilhados com a cena.
Com a reputação do Bispo Marik em ruínas, um novo cometa seria necessário. Embora Evangeline Rohanson fosse uma Santa, ela era, afinal, uma estranha. Harut seria mais adequado para restaurar a honra do templo.
Um sacerdote que escolheu a fé em vez da prata manchada pelo pecado, e que finalmente executou o caminho certo, seria uma boa base para estabilizar a confusão no templo.
Harut relembrou tardiamente a pergunta do sacerdote.
[sussurro]“Você perguntou se era Saraka…?”[/sussurro]
Ele perguntou se essa pessoa parecia Saraka.
[sussurro]“Bem, eu… não sei.”[/sussurro]
Harut desejou que não fosse. Quanto abuso ela teria sofrido enquanto Harut a ignorava, para estar nesse estado? Seu coração parecia se rasgar de culpa.
[sussurro]“…Me… mate. Me… mate…”[/sussurro]
[grito]“Saraka, me desculpe por não ter conseguido te proteger e apenas ter assistido naquela época. Mas agora não. Eu vou te salvar. Eu nunca vou deixar você morrer assim.”[/grito]
Harut, com os olhos marejados, apertou a mão que segurava.
[grito]“Ninguém neste mundo poderá te machucar. Eu prometo.”[/grito]
[sussurro]“Eu… Marik… Me, mate…!”[/sussurro]
O lixo implorou.
Era difícil de entender, pois estava muito distorcido e lento, mas era claro que ele pedia para matar o Bispo Marik, ou melhor, aquele demônio.
O lixo era terrível, mas igualmente lamentável. Um sacerdote, com os olhos marejados, prometeu.
[grito]“Sim. Nós certamente puniremos o demônio que o trouxe a este estado.”[/grito]
Era um pedido para ser morto, mas não foi totalmente compreendido por ninguém. Como o suicídio era um tabu, nenhum fiel entendeu que ele pedia para ser morto.
Não importava o quanto ele pedisse para matar Marik, nada mudaria. Pois aquele não era mais o nome do lixo.
Ele continuaria a viver, recebendo cuidados terríveis e preenchendo sua expectativa de vida em agonia, sem poder morrer.
Assim como a criança atropelada por sua carruagem um dia implorou por ajuda até morrer, o lixo também imploraria por salvação até o fim de seus dias.
***
Uma pessoa foi resgatada do porão do Bispo Marik. Seu estado era tão deplorável que era um milagre que estivesse viva, a ponto de até os cavaleiros com estômagos fortes vomitarem ao vê-la.
[sussurro]“Hum… Como é alguém em quem a [glossario termo=”Água Benta”]Água Benta[/glossario] não faz efeito, precisamos chamar um curandeiro.”[/sussurro]
Havia aqueles que se sentiam incomodados em ter que tratar um herege no templo, mas pareciam relutantes em falar, talvez com medo de serem associados ao Bispo Marik.
Da noite para o dia, a reputação do Bispo Marik desmoronou sem valor.
O Bispo Marik foi detido, mas se todos os seus crimes fossem revelados durante a investigação, ele não escaparia da pena de morte. Por ousar desrespeitar a Deus, ele certamente não teria uma morte tranquila.
Os [glossario termo=”Lacaios”]Lacaios[/glossario] do Bispo Marik também seriam gradualmente eliminados. Basta ver Sir Zerak, que foi arrastado para a prisão em estado de choque.
E os lugares vazios seriam preenchidos pelos membros da facção do Bispo Jabaniya.
Bem, na verdade, essas coisas não se aplicavam a um sacerdote aprendiz que apenas fazia a limpeza.
[grito]“Ei, se terminou de limpar a torre do sino, não descanse e vá ajudar a Santa!”[/grito]
[grito]“Sim, sim!”[/grito]
O sacerdote aprendiz curvou a cabeça em resposta ao grito e desceu da torre do sino. Suas mãos ainda ardiam por ter limpado os frascos quebrados. Mas graças à [glossario termo=”Água Benta”]Água Benta[/glossario] que se acumulou no chão, não restaram ferimentos.
Ele desceu as escadas com cuidado, ouvindo as conversas dos sacerdotes à frente.
[sussurro]“Você ouviu? Dizem que Sir Nakir foi encontrado decapitado. Parece que ele se suicidou assim que soube da queda do Bispo Marik.”[/sussurro]
[sussurro]“Também ouvi dizer que Sir Nakir não suportava a ditadura e que seus subordinados agiram e combinaram suas histórias.”[/sussurro]
[sussurro]“Sir Zerak enlouqueceu completamente. Dizem que ele age como se estivesse possuído por um fantasma…”[/sussurro]
Nomes que até ele, um sacerdote aprendiz, conhecia, surgiam um após o outro. Todos eram pessoas com quem ele teria tentado conversar, se fosse em outras circunstâncias.
Para ser exato, ele não podia seguir a linha do Bispo Marik, mesmo que quisesse. Como um mero sacerdote aprendiz, ele nem sequer podia falar com o Bispo Marik, muito menos com sua facção. Agora, era até uma sorte, não era? Ainda assim…
[pensamento]“…Eu queria ser como o Bispo Marik um dia…”[/pensamento]
Ele murmurou seus pensamentos sem querer, e então percebeu que havia alguém ao seu lado, assustou-se e cambaleou.
[pensamento]‘Droga…! Eu vou cair!’[/pensamento]
Ele fechou os olhos com força, e depois de um longo tempo, percebeu que a dor não vinha e abriu os olhos. Outro sacerdote estava bem na sua frente.
[pensamento]‘Salvo, salvo.’[/pensamento]
Ele quase rolou escada abaixo. Graças ao sacerdote atrás dele que o segurou pelo braço, ele conseguiu se manter vivo.
[sussurro]“Cuidado.”[/sussurro]
O sacerdote que o segurava soltou seu braço.
[sussurro]“…Obrigado. Não, o que eu disse agora não foi… Foi antes, há muito tempo.”[/sussurro]
Depois de agradecer, ele corrigiu suas palavras, como se tivesse cometido um erro. Ele mal havia sobrevivido e não queria morrer injustamente sob suspeita de heresia. Quando ele se desculpou, o outro, para sua surpresa, acenou com a cabeça em compreensão e o acalmou.
[sussurro]“Tudo bem. Eu entendo.”[/sussurro]
[pensamento]‘Ah…’[/pensamento]
Era o Padre Ridwan, da facção do Bispo Marik. Ele estava tão atordoado que demorou a reconhecê-lo.
Ridwan, ao contrário dele, que não tinha conexões ou apoio, era um dos [glossario termo=”Lacaios”]Lacaios[/glossario] do Bispo Marik. Isso significava que, normalmente, ele não ousaria falar com ele. E, ao contrário dele, era alguém cuja queda estava prevista.
Ele só agora percebeu que as histórias sobre como a facção do Bispo Marik havia caído, que os sacerdotes estavam contando um após o outro, eram direcionadas a Ridwan.
[pensamento]‘Se fosse eu, teria fugido na hora…’[/pensamento]
Ridwan parecia bastante calmo. Pelo menos, parecia ter a cabeça no lugar para fazer a limpeza. Ridwan olhou para os outros sacerdotes e então abriu a boca discretamente.
[sussurro]“Eu também respeitava sinceramente o Bispo.”[/sussurro]
A distância do grupo de sacerdotes à frente era considerável, então a conversa que estavam tendo provavelmente não seria ouvida.
[sussurro]“Na verdade, eu me incomodava com o Bispo Jabaniya ser excessivamente mundano, então eu o evitava. Eu pensava que o Bispo Marik era a pessoa mais adequada para ser Bispo. Eu o considerava íntegro e alguém que seguia apenas a Deus e a verdade. Você já o viu executando hereges?”[/sussurro]
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