[grito]“Bispo Javaniya, o Bispo Marik…!”[/grito]
[grito]“O Bispo Marik pegou fogo… a água benta…!”[/grito]
[grito]“…Dizem que há um demônio no subsolo!”[/grito]
[grito]“Não, não é isso! Dizem que o Bispo Marik era o demônio e mantinha uma criança presa lá embaixo!”[/grito]
As pessoas tagarelavam para Javaniya, relatando tudo o que havia acontecido até então. As vozes se misturavam em um ruído caótico onde mal se distinguia o que era dito, mas Javaniya permanecia em silêncio, como se estivesse ouvindo atentamente a cada palavra.
Após um momento imóvel, apenas escutando, Javaniya abriu a boca lentamente.
“O senhor Marik…”
Javaniya soltou um suspiro profundo, como se estivesse em agonia.
“Eu também vi tudo, assim como vocês.”
[pensamento]Se estava vendo, por que não ajudou antes?[/pensamento]
“O Sol, decepcionado, ocultou seu rastro por um momento e chorou diante do massacre que lamentavelmente ocorria. No entanto, Deus nos enviou uma pessoa nobre para nos despertar e, finalmente, a [glossario termo=”Representação artística de figuras sagradas, comum em contextos religiosos.”]성화[/glossario] ardeu, removendo o véu que cobria nossos olhos.”
A habilidade dele de embelezar a minha farsa era simplesmente fenomenal.
Enquanto dizia isso, Javaniya se aproximou de mim e do Bispo Marik. Rafaela, que o seguia, pareceu finalmente notar Gabriel; ela arregalou os olhos, mas logo soltou uma tosse seca, tentando recompor sua expressão. Eu vi que você se assustou, sabe? Ver Gabriel coberto de sangue deve ser uma visão rara até para sua ajudante.
“Lady Rohanson.”
Javaniya parou diante de mim.
“Agradeço à senhorita. Se não fosse pela Jovem Lady, teríamos esquecido nosso dever e ainda estaríamos sendo manipulados pelas mãos de Marik. Graças ao fato de a senhorita ter arriscado a própria vida para nos transmitir as palavras de Deus, pudemos despertar.”
Quem visse, pensaria que ele era um clérigo de verdade. Será que atuação e lábia são requisitos obrigatórios para ser um Bispo? E a lábia de Javaniya funcionou perfeitamente com os fiéis. Agora que o Bispo Marik havia caído em desgraça, era natural que a palavra de Javaniya ganhasse força.
Após dizer isso, Javaniya hesitou por um instante e curvou-se profundamente diante de mim em sinal de respeito.
“O Bispo está…”
Era uma saudação que um Bispo reservava apenas para o próprio Deus. Nem mesmo o Imperador receberia tal gesto. Ao verem aquilo, muitos ao redor estremeceram de choque.
“Saúdo a Santa.”
…Ele me chamou de Santa. Pensando bem, foi o conceito que eu mesma forcei, mas ouvir isso diretamente foi terrivelmente constrangedor. Foi um sacrifício manter o controle da minha expressão. Gabriel, ao meu lado, também parecia estar sofrendo para conter o riso.
Gabriel, que apertava os lábios tentando não rir, mudou drasticamente de semblante assim que nossos olhos se cruzaram, assumindo uma expressão fria e implacável. Eu já vi que você estava rindo, tá? Ele nem se mexeu enquanto Javaniya fingia ser o Bispo benevolente, mas agora…!
No entanto, o canto da minha boca também estava tremendo. Droga, quase comecei a rir só de olhar para o Gabriel. Calma. Preciso aguentar. Se eu demonstrar que estou morrendo de vergonha agora, tudo vai por água abaixo.
Exceto por mim e Gabriel, o interior do templo estava em absoluto silêncio. A atmosfera era solene, como se estivessem realmente em uma audiência com uma Santa. Com as palavras de Javaniya, a situação entre o Bispo Marik e eu foi resolvida instantaneamente. É um pouco frustrante. No fim, o poder é mesmo a resposta?
Javaniya deu tapinhas nas costas ao se erguer.
“Ai, ai, parece que estou ficando velho mesmo.”
Eu quis dizer que ele não tinha feito nada para estar reclamando, mas como a chegada dele ajudou a resolver a situação rapidamente, permaneci calada.
“Mantive uma longa amizade com Marik, mas nunca imaginei que fosse uma pessoa tão jovem.”
“Bispo Javaniya…”
Diante de Javaniya, Saraka agiu por um momento como se estivesse normal. Era como uma força de inércia. Quanto esforço excruciante ela deve ter feito para imitar o Bispo Marik a ponto de reagir assim?
“…Por que o Bispo Javaniya apertou a mão do demônio? Foi pelo ouro que você tanto ama? Ou queria monopolizar a honra?”
Javaniya deu de ombros.
“Riqueza e poder são bons, mas nesta idade o coração tende a amolecer. Como eu poderia ignorar um cachorrinho que eu costumava alimentar quando ele começa a ganir e choramingar? Embora a senhora Marik, que ainda tem um futuro brilhante, talvez não compreenda os sentimentos deste velho. Ho ho.”
Javaniya respondeu com um sorriso benevolente e gentil. O que ele disse? Cachorrinho? Mesmo sendo nosso aliado, não sei por que ele consegue ser tão irritante.
Então ele está dizendo que o Gabriel é um cachorrinho? Olhei de relance para Gabriel. Ele, ganindo e chorando? O problema era que a imagem vinha à mente com facilidade demais.
Após a breve troca com Saraka, Javaniya convocou os cavaleiros.
“Rapazes.”
“Sim, senhor!”
“Cuidem bem da senhora Marik até que seu destino seja decidido.”
Os cavaleiros que detinham Saraka responderam prontamente, cheios de disciplina. Amarraram as mãos dela para trás e colocaram uma focinheira para impedir que ela mordesse a própria língua. Como ela já havia tentado se autoflagelar antes, redobraram a atenção com as amarras.
Antes que sua boca fosse amordaçada, falei para Saraka, que gritava para que ninguém descesse ao subsolo:
“Sabe, não vou revelar a ninguém que você é a Saraka.”
Não sei o que minhas palavras significaram para ela, mas ao ouvi-las, Saraka parou sua resistência inútil. O olhar dela se fixou inteiramente em mim.
“Vou permitir que você morra, pelo menos, como o Bispo Marik.”
Saraka nem sequer piscou. Como sua expressão era vazia, demorei a perceber que ela estava chorando. Saraka apenas deixou as lágrimas caírem silenciosamente.
Felizmente, eu era a única que a olhava com piedade. As pessoas que foram oprimidas pelo templo riram de suas lágrimas, e os sacerdotes e cavaleiros desviaram o olhar. Isso porque, como o Bispo Marik sempre pregou, as pessoas do templo não viam hereges como seres humanos. É irônico. Neste momento, a única pessoa que vê Saraka como um ser humano sou eu.
Desviei o olhar enquanto Saraka era levada pacificamente.
Isso era o suficiente. Bastava que eu fosse a única a sentir compaixão por ela. Vilões não precisam de histórias tristes. Saraka não deveria ser vista como uma criança pobre que cresceu sendo abusada e sofrendo lavagem cerebral, mas sim como uma vilã terrível que, seduzida pelo poder e pela imortalidade, foi possuída por um demônio e assassinou pessoas cruelmente.
***
“Então, vamos ao subsolo.”
“Sim, Bispo Javaniya.”
Javaniya dirigiu-se ao quarto do Bispo Marik acompanhado pelos cavaleiros.
Embora não soubessem a localização exata, Harut, o único que conhecia a existência do subsolo, ofereceu-se para acompanhá-los. Javaniya não queria impor mais sofrimento ao sacerdote que já sofria por ter denunciado seu mentor, mas como ele expressou sua vontade firmemente, não houve escolha. Se era a escolha de Harut, restava apenas respeitá-la.
“Vou abrir a porta.”
Sob as ordens de Javaniya, sacerdotes e cavaleiros moveram-se em sincronia. Era uma sensação estranha. Até pouco tempo atrás, quando libertou Gabriel, Javaniya pensava que aquele poderia ser o seu fim. Era irônico que o poder lhe fosse entregue justamente quando ele havia desistido de tudo, e não quando mais cobiçava a riqueza.
O quarto do Bispo Marik era mais simples do que o esperado. Comparado ao quarto onde Javaniya ficava, a diferença era nítida.
Olhando de perto, os móveis eram todos antigos, porém valiosos. Mesmo assim, para um Bispo, não chegava a ser considerado luxo. Afinal, quantos não haviam louvado a frugalidade do Bispo Marik? Tudo isso, agora, era completamente inútil.
Os cavaleiros revistaram o quarto. O cômodo, antes impecavelmente organizado, tornou-se um caos em instantes.
“Deve haver uma entrada em algum lugar…”
Harut tentava desesperadamente recordar, mas não era fácil encontrar a passagem para o subsolo que havia permanecido oculta de todos por tanto tempo. No momento em que pensaram que teriam de arrancar as paredes e o chão, ouviu-se o som de algo roendo.
“Ah, um rato!”
“Por que tem tantos ratos hoje…?”
Enquanto os cavaleiros, horrorizados, levavam as mãos aos punhos das espadas, Javaniya apressou-se em detê-los.
“Esperem! Não o matem. Guardem as espadas.”
Aqueles ratos não deviam ser comuns. Provavelmente eram “aquilo” que fingiu ser Gabriel. Se surgiram de repente, o motivo era óbvio: queriam mostrar o caminho.
“Certamente deve haver um buraco por onde o rato entrou.”
Como se confirmasse a suspeita de Javaniya, o rato entrou rapidamente em um pequeno buraco na parede. Um cavaleiro atento encostou o ouvido e bateu levemente na parede; o som foi diferente de quando bateu nas outras partes.
“Aqui, parece ser aqui.”
Como não sabiam como abrir a porta, destruíram a parede com força bruta. Era uma parede consideravelmente espessa, e a escadaria que levava para baixo era bastante longa. Não importava o quanto alguém gritasse lá embaixo, o som jamais chegaria ao topo.
“Realmente havia um subsolo…”
Javaniya tentou imaginar o propósito original daquele quarto. Por mais que pensasse, não era um quarto adequado para um Bispo. Provavelmente era um quarto usado por um carcereiro para vigiar os prisioneiros confinados no subsolo.
“Então, eu descerei primeiro.”
Um cavaleiro, tenso, engoliu em seco e tomou a frente. À medida que desciam, um cheiro metálico misturado com odor de podridão começou a empestear o ar. O fedor era tão forte que chegava a causar tontura, fazendo com que vários cobrissem o nariz.
E assim, após descerem toda a escadaria, o que encontraram foi uma massa de aparência terrível.
“…Meu Deus.”
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