As alucinações criadas por Pudim pareciam ser visíveis também para Agera, pois ela piscava rapidamente, demonstrando grande agitação.
[sussurro]— O que é… o que é isso?[/sussurro]
— Está tudo bem, Lady Agera. É apenas um pesadelo. Como deve estar cansada hoje, por favor, durma.
Segurei a mão de Agera para acalmá-la e dei leves batidinhas em seu peito em um ritmo constante.
— Amaranth, você não vai a lugar nenhum, vai?
Agera perguntou, apertando minha mão com força. Mesmo com a demência, o fato de Amaranth ter partido parecia ter deixado um trauma profundo; ela não suportava a ideia de eu desaparecer. Disseram que, quando fui brevemente à mansão Rohanson, ela virou o lugar de cabeça para baixo à minha procura.
— Sim. Amanhã iremos juntas à estufa novamente. É uma promessa.
Agera fechou os olhos, tranquilizada por minhas palavras. Logo, ouvi o som de sua respiração compassiva. O Rato, que estivera apenas observando em silêncio até então, abriu a boca.
— Era mentira que minha mãe estava em estado crítico?
Parece que só agora ele percebeu que Agera estava perfeitamente bem, sem nenhum ferimento. É mais esperto do que eu pensava.
[pensamento]Armadilhas não são algo que só você pode armar.[/pensamento]
Usei Agera como isca para capturar o Rato rapidamente. Eu também não queria usar um método tão cruel. Afinal, Agera é parente de sangue de Evangeline e, vivendo no Ducado Hosaquin, construí uma amizade com ela como “Amaranth”.
Sinceramente, era um método que eu não achei que o Duque permitiria. Afinal, era o mesmo que usar a preciosa Agera. Além disso, envolvia espalhar o boato de que ela estava moribunda, algo que ele nem sequer gostaria de imaginar.
No entanto, talvez por ter completado a conquista, o Duque aceitou minha proposta inesperadamente. Talvez ele tenha pensado que, como o ponto de partida para o surgimento do Rato foi a obsessão doentia de Agera, ela mesma deveria ser a solução.
Claro, havia a condição de que a segurança de Agera fosse garantida. Mas eu também não tinha intenção de colocá-la em perigo. Além disso, como o Rato é terrivelmente vulnerável a Agera, estava claro que ela jamais seria ferida.
O Rato não conseguia esboçar nenhuma reação decente, talvez porque Pudim estivesse com a foice apontada para seu pescoço, ou talvez porque eu estivesse ao lado de Agera. Com isso, sinto que realmente me tornei a vilã da história.
— Nem percebeu que enfiou a própria cabeça na boca da fera… Sua piedade filial é bem profunda.
— Minha mãe deveria saber que você é um ser tão sinistro! — o Rato respondeu com sarcasmo.
Não sei quantas pessoas ele devorou, mas sua eloquência melhorou bastante.
— Não quero ouvir isso de você — retruquei com seriedade.
Eu, pelo menos, não fiz nada que me rebaixasse ao nível de um demônio que sai por aí matando gente.
— Você sabe o que significa tornar-se “Amaranth”?
— Não preciso de significados. Eu sou uma semente. Eu deveria ter brotado e florescido como Amaranth. Embora meu corpo tenha sido dilacerado por meu pai antes de estar completo, forçando-me a assumir a forma de um rato asqueroso… Se você não tivesse roubado o meu lugar, ele seria meu!
O Rato gritou a plenos pulmões. Fiquei preocupada que o barulho acordasse Agera, mas felizmente ela continuava em sono profundo. A força em sua mão que me segurava relaxou; movi a mão dela com cuidado para o lado e me dirigi ao Rato.
O Rato tentou avançar assim que me afastei de Agera, mas foi contido novamente por Pudim e forçado a se ajoelhar. Agera é mais importante que a própria vida para ele? Era um afeto muito mais cego do que eu imaginava.
Eu não fazia questão de encontrar seu olhar, então não me curvei; apenas permaneci de pé, olhando-o de cima. Para que ele se sentisse ainda mais humilhado ao me encarar.
— Escute. Tornar-se Amaranth não significa apenas ser filha de Agera…
Respirei fundo antes de continuar.
— …Significa que você quer ser minha mãe.
Só de imaginar, sinto um nojo insuportável. Como ousa tentar ocupar o lugar de alguém? O lugar de Amaranth? Mesmo ao dizer isso, minhas palavras transbordavam negação.
É como o sentimento de ver um intruso aparecer durante um jantar tranquilo em família. Se esse intruso matou sua mãe e está usando a pele do rosto dela, é natural sentir repulsa, não é?
O Rato não desviou o olhar. O rosto de Rico me encarava, transbordando fúria. Que bom que aquele rosto voltou ao normal. Se fosse o rosto de Amaranth, eu teria ficado profundamente ferida e abalada. Não sei o motivo, mas tive esse pressentimento intuitivo.
— Que tipo de mãe no mundo colocaria a própria filha em perigo?
Claro, era uma mentira para desestabilizar o Rato. Não preciso nem explicar com contos de fadas sobre madrastas. Basta olhar os jornais para ver quantos casos existem de abuso por parte de mães biológicas.
— Portanto, se você fosse realmente “Amaranth”, não deveria nutrir essa hostilidade contra mim, que tomei o seu lugar.
Toquei levemente a bochecha do Rato e sorri suavemente. Imitei o sorriso de Amaranth que vi no retrato.
— Não é verdade, mamãe?
Senti que minha raiva diminuiu um pouco após terminar de falar. Desde o momento em que o Rato começou a imitar Amaranth, experimentei uma fúria que fervia nas profundezas do meu ser.
A princípio, achei que estava brava porque o Rato incendiou a mansão, mas parece que meu estômago revirou simplesmente por ele ter cobiçado aquele lugar ao imitar Amaranth. Seria um desejo de retribuir a gentileza por estar usando o corpo de Evangeline?
— Amaranth.
Eu odiava chamá-lo assim, mas forcei-me a usar esse nome. O outro lado parecia igualmente desagradável. Significa que, apesar do que acabei de explicar, você não quer ser reconhecido por mim, mas sim por Agera, certo? Tanto faz.
— Você não morreria pela Agera?
Pudim moveu a mão. Sangue começou a brotar do pescoço do Rato. Uma atmosfera tensa preencheu o quarto. No exato momento em que parecia que a cabeça seria decepada, a porta se escancarou.
[grito]— Não![/grito]
O grito histérico de uma criança interrompeu o movimento.
— Mavka?
Quem apareceu ao abrir a porta foi ninguém menos que Mavka. O que Mavka está fazendo aqui? Olhei perplexa enquanto Hazel, parada atrás dela, cobria a boca com o rosto pálido, como se estivesse arruinada. Ela parecia aterrorizada com a cena dentro do quarto.
— Sinto muito, sinto muito mesmo. É que a Mavka insistiu tanto que queria ver a Lady Rohanson…
Hazel se desculpou freneticamente, curvando-se até quase encostar a cabeça no chão. Mavka se soltou das mãos de Hazel e, sem se intimidar com a aparência sinistra do quarto, correu e se colocou na minha frente.
[grito]— Mamãe! Não machuque a mamãe![/grito]
Dito isso, Mavka começou a berrar de chorar. Senti uma pontada de dor de cabeça. Tinha que ser logo a Mavka? Do ponto de vista dela, eu só parecia estar prestes a degolar a mãe dela.
Primeiro, preciso dar um jeito nesse visual que não é nada bom para o psicológico de uma criança. Ao meu comando, Pudim estalou os dedos, e os globos oculares cravados nas paredes desapareceram, fazendo o quarto da Duquesa retornar à sua aparência aristocrática.
Eu não tinha a menor ideia de como resolver essa situação, então apenas massageei as têmporas doloridas. Mavka chorava convulsivamente ao olhar para a foice ameaçadora apontada para o “Rato”.
[grito]— Buááá! Não mate a mamãe…![/grito]
Mavka chorava aos prantos, com lágrimas e catarro escorrendo. Primeiro, preciso acalmar a criança e tirá-la daqui. Não posso capturar o Rato com o rosto de Rico na frente de Mavka.
— Mavka. Os adultos têm algo para conversar, você poderia sair um pouco?
— S-sim. Vamos sair comigo.
Hazel também parecia não ter forças para carregar a criança, então apenas pegou a mão de Mavka e tentou levá-la para fora. No entanto, devido à sua personalidade gentil e atenciosa, ela não conseguia ser firme o suficiente ao puxar a menina.
Assim, era impossível vencer a resistência desesperada de uma criança tentando salvar a mãe.
Quando Hazel soltou sua mão, Mavka aproveitou a oportunidade, mudou o alvo e agarrou-se à barra da roupa de Pudim. Pudim fez uma careta de total repulsa, demonstrando estar farto.
Ao imaginar que ele devia fazer essa mesma expressão enquanto lidava com Mavka quando ainda era um gato, acabei soltando um risinho, apesar da situação não ser apropriada. Pudim olhou para ela com um olhar feroz, como se estivesse decidindo se a jogava longe ou não, mas ao notar meu olhar, assumiu instantaneamente uma expressão dócil, como se nada tivesse acontecido.
Desviei o olhar de Pudim e encarei Mavka novamente.
— Mavka. Prometo que não vou matar a Rico.
[grito]— Mentira…![/grito]
Sim, é mentira. Como ela descobriu? Ter a intenção de matar a mãe de uma criança que a ama tanto… não importa como se olhe, eu pareço a vilã aqui.
[grito]— Eu não vou sair daqui de jeito nenhum! A Mavka vai proteger a mamãe![/grito]
Mavka gritou com determinação, apesar do choro. A criança era inteligente demais. E Mavka era esperta o suficiente para perceber que eu estava dizendo palavras vazias.
Ela notou que, se fosse embora, Rico morreria imediatamente. E, astutamente, estava usando o fato de eu ter um ponto fraco por crianças.
Seria porque eu me sentia culpada por não ter protegido Rico e acabava fazendo tudo o que Mavka pedia, ou o erro começou desde quando eu a consolava gentilmente quando ela chorava?
— Isso é interessante…
O Rato sorriu de orelha a orelha, parecendo muito satisfeito com a intrusão de Mavka. Era tão irritante que dava vontade de lhe dar um soco. Ainda assim, eu entendia o sentimento. Estar encurralado à beira de um precipício e ver uma corda de salvação aparecer… é claro que ele ficaria radiante.
Sua intenção de usar Mavka era evidente para qualquer um. Rico, o que você está fazendo? Sua filha está sendo visada por um demônio agora mesmo. Como isso é um livro, eu gostaria que a alma de Rico, que ainda deve estar lá dentro, ganhasse forças como em um drama. Tome as rédeas milagrosamente e apareça!
— Mavka. Minha filha.
O Rato chamou Mavka com uma voz melosa. Sua voz era tão doce que chegava a dar arrepios. Se o modo como o Rato tratava Agera era 100% sincero, agora não passava de puro fingimento.
— Mavka. Você poderia matar a Evangeline e salvar a mamãe? Se você é minha filha amada, certamente faria isso, não faria?
— …….
Pedir para uma criança matar alguém? Para começo de conversa, não faça gaslighting com seu próprio filho para que ele cometa algo tão terrível.
Bem, aquilo não era a Rico, era um demônio. O erro foi meu por esquecer momentaneamente o quão baixo a humanidade de um demônio pode cair, só porque ele era uma “filha exemplar” para Agera.
— Aquela bruxa vai torturar a mamãe. Ela vai me retalhar com aquela foice até eu morrer. Mavka, você pode matar aquela bruxa e me salvar? Você vai proteger a mamãe, não vai?
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