Saraka engoliu em seco, sentindo a garganta árida.
Evangeline a encarou com severidade, suspeitando de segundas intenções, mas o único motivo de Saraka estar ali era realmente para entregar o convite para o Rito de Sacrifício.
Como haviam usado sua fera querida como isca, Evangeline Rohanson certamente compareceria.
Não havia mais nada a desejar de Evangeline. Afinal, o carrasco costuma ser muito mais ocupado do que o condenado. A preparação do palco era toda responsabilidade de Saraka.
Evangeline, como se seu objetivo também fosse apenas receber o convite, levantou-se, deixando o Conde adormecido para trás. Seu olhar ao observar o Conde Rohanson estava transbordando desprezo.
— Meu pai…
— O Conde ficará mais confortável se permanecer na Residência do Visconde Hückel.
Saraka respondeu gentilmente. Embora fosse seu próprio tom de voz, ela sentia sua voz estranha aos ouvidos. Isso acontecia porque, normalmente, ela falava e agia como o Bispo Marik.
Ao contrário do que Saraka desejava, o Conde Rohanson sabia pouco. No entanto, ele era uma boa peça para servir de pretexto, então ela não podia entregá-lo a Evangeline.
O fato de ter mencionado que o Conde Rohanson estava dizendo bobagens foi um aviso sutil de que o “Bispo Marik” sabia como usá-lo.
Contudo, Evangeline concordou facilmente com as palavras de Saraka. Era porque ela valorizava mais uma fera asquerosa do que sua própria família.
Evangeline deixou o local imediatamente, sem demonstrar qualquer apego ao Conde Rohanson. Assim que ela saiu do quarto, os criados que esperavam do lado de fora entraram para organizar tudo. Eles arregalaram os olhos ao ver o Conde Rohanson adormecido.
— Por que o Conde Rohanson está dormindo?
Saraka não tinha obrigação de responder. Os criados também não insistiram com Saraka, que optou pelo silêncio.
Os criados arrumaram a sala de recepção e levaram o Conde para o quarto, amparando-o.
Ninguém dava ordens a Saraka, que fora trazida por Muzeta. Isso se devia ao fato de ela estar acompanhada por Muzeta, um cavaleiro imperial, e também graças ao aviso prévio dado pelo Visconde Hückel.
— Ele não acorda nem assim.
— Será que ele não desmaiou? A Lady Rohanson deve tê-lo nocauteado!
— Mas o Conde é o pai da Lady Rohanson?
— Você não ouviu os boatos? Ela até colocou fogo na própria casa, acha que pouparia a família?
O Conde não acordou, mesmo com os pés sendo arrastados pelo chão enquanto era amparado pelos criados. Isso foi consequência de Saraka, que não tinha interesse no bem-estar do Conde, ter lhe dado uma dose excessiva de sonífero sem medir. Saraka desviou o olhar dos criados que cochichavam boatos inúteis e do Conde.
Saraka caminhou até a janela e espiou por uma fresta na cortina. A carruagem de Evangeline ainda não havia partido. Ou melhor, estava prestes a partir.
O cocheiro de Evangeline deu uma chicotada forte no cavalo. O animal relinchou e as rodas deram o primeiro passo com dificuldade, antes de começarem a rolar com um solavanco. Parecia que a água que enchia suas mãos estava escorrendo por entre os dedos e prestes a desaparecer.
Saraka observou persistentemente até que a carruagem sumisse de vista e, só depois de muito tempo, soltou a cortina.
Como não tinha mais nada a fazer na Residência do Visconde Hückel, Saraka também deveria retornar ao templo.
***
Peguei o convite que o Conde me deu e saí do quarto.
Era incômodo deixar o Conde Rohanson ao lado de Saraka, mas eu não podia fazer nada. Se eu tentasse algo contra o Conde por medo do que ele pudesse testemunhar, corria o risco de não ver mais o Jelly.
[pensamento]Espere só até eu encontrar o Jelly. Não vou esquecer esse rancor.[/pensamento] Enviei mentalmente um aviso ao Conde e ao Bispo Marik.
Os criados do Visconde Hückel estavam perambulando em frente à porta. Quando anunciei que estava indo embora, eles pareceram visivelmente aliviados.
— …O Conde não voltará com a senhora?
Um dos criados perguntou hesitante. Olhando bem, era o mesmo criado que se ofereceu para me guiar quando cheguei, elogiando o Visconde Hückel sem parar.
Ele devia achar que eu levaria o Conde, que estava lá como hóspede, de volta comigo. Sinto muito, mas as coisas não funcionam como eu quero.
— Não posso levar alguém que está dormindo por vontade própria.
— Dormindo?
— Sim. Ele parecia estar muito cansado.
O criado fez uma careta estranha e inclinou a cabeça. Deve ser bizarro ele ter caído no sono de repente. Como se não acreditasse em mim, o criado chamou o Conde cautelosamente em frente à porta.
— Conde Rohanson?
Não haveria resposta, mesmo que ele batesse na porta e chamasse. Repeti que o Conde estava dormindo e que ele podia entrar, e então me virei. A criada para quem eu tinha feito pirraça de propósito tomou a frente para me acompanhar até a saída.
A criada, que me guiou até o portão da residência do Visconde, fugiu de volta para dentro sem sequer olhar para trás. Parecia que ela temia que eu fosse agir com arrogância novamente.
Embora eu não tivesse mais essa intenção, de certa forma me senti a pior pessoa do mundo.
A carruagem que eu usei estava parada em frente à residência. O cocheiro não estava em seu assento, mas andava de um lado para o outro, ansioso. Ao me ver, ele ficou visivelmente radiante.
— Lady Rohanson!
— Aconteceu alguma coisa?
— É que… um homem entrou de repente na carruagem! Eu mandei ele sair, mas ele não me ouve.
Ao me ver chegar, o cocheiro recuperou a coragem e chutou a porta da carruagem, gritando para que o invasor saísse imediatamente. Como se respondesse ao chamado, a porta se abriu de supetão.
— [grito]Hic…![/grito]
Pego de surpresa, o cocheiro se assustou e caiu sentado no chão. Eu já imaginava quem seria. Quem saltou da carruagem foi o Pudim.
Pudim correu direto para mim.
— Você estava esperando na carruagem como prometido. Bom garoto.
Eu o elogiei enquanto o acariciava muito. Seus cabelos loiros flutuavam suavemente entre meus dedos. Pudim me abraçou apertado e esfregou o rosto em meu pescoço.
Enquanto eu o abraçava e o acalmava, o cocheiro me observava. Seus olhos tremiam, como se ele estivesse imaginando coisas estranhas sobre a minha relação com o Pudim.
— Lady, esse senhor é…
— É o meu guarda-costas, não se preocupe.
— Guarda-costas? É um rosto que eu nunca vi antes…
O cocheiro parecia desconfiado, mas eu não tinha mais nada a dizer. Afinal, eu não podia apresentá-lo como meu animal de estimação.
— Lady… voltaremos direto para o Ducado Hosaquin?
— Não.
— Então, para onde…?
Para o cocheiro que perguntava o destino cautelosamente, mencionei o atelier da Misha, sobre o qual Gabriel havia me falado.
Deixando para trás o cocheiro confuso com o destino inesperado, subi na carruagem com o Pudim.
Mesmo depois de nos sentarmos, Pudim não se desgrudou de mim. A culpa era minha por tê-lo expulsado sem sequer ouvi-lo. Ele seria mais leve se voltasse à forma de gato, mas Pudim continuava apoiado em mim, como se estivesse me abraçando em sua forma humana.
Como eu havia cometido um erro, não pude reclamar. Bem, eu podia pelo menos emprestar meu ombro para ele.
— Eu não disse que não aconteceria nada de mal?
Em vez disso, eu o tranquilizei, dizendo que havia voltado em segurança.
Pudim devia estar me vigiando, mas provavelmente não conseguiu ouvir a conversa. Depois de explicar a ele que o Bispo Marik havia me proposto o papel de sacrifício, continuei:
— Parece que o Bispo Marik percebeu que Azazel mudou.
— O Azazel?
— Sim. Ele usou o Jelly como isca, mas nem sequer mencionou o Sir Gabriel.
Embora Gabriel seja claramente minha maior fraqueza. O Bispo Marik, tendo o Gabriel sob custódia, não me disse uma única palavra sobre ele.
— Parecia que ele sabia que eu já tinha sido informada de que o Sir Gabriel estava na prisão, mesmo que não soubesse que eu já o tinha resgatado.
Pode ser apenas uma suposição, mas tentei raciocinar. Digamos que o Bispo Marik tenha percebido que “Azazel” não é mais o mesmo de antes.
O Bispo Marik deve ter querido testar se “Azazel” era realmente um espião plantado por mim. E se esse teste fosse o Gabriel?
Tenebrei, seguindo as ordens do Bispo, guiou “Azazel” até a cela onde Gabriel estava preso. Jeremia, que sabe muito bem o quanto Gabriel é importante para mim, me enviou a notícia imediatamente.
Havia uma alta probabilidade de que o Bispo Marik estivesse observando todos os passos suspeitos de Jeremia. Ele deve ter criado uma armadilha óbvia e ficado esperando. Ao vê-la enviando uma carta às pressas, ele não teria ido atrás dela?
Jeremia afirmou com convicção que Tenebrei não contaria ao Bispo Marik sobre o encontro com Gabriel na prisão, mas parecia que, desta vez também, Jeremia fora enganada por sua própria irmã.
— Então a Jeremia está em perigo.
Depois de passarmos um tempo juntas, parecia que eu estava preocupada com ela. O consolo era que eu podia enviar uma mensagem para Jeremia através da Rico.
Segundo o que ouvi da Rico, Jeremia e Tenebrei voltaram à prisão algumas vezes. Tenebrei vinha apenas para observar o sofrimento da Rico e depois ia embora, mas sempre vinha acompanhada de Jeremia. Eu poderia passar o recado quando Jeremia voltasse à prisão com Tenebrei.
Quando pedi o rato para dar o recado à Rico, Pudim tirou o rato do bolso. Ele segurava apenas a ponta da cauda, como se estivesse pegando algo sujo, deixando o rato balançando no ar.
— A Lady Evangeline tem algo a dizer para você, então escute bem.
Pedi para avisar a Rico que eu tive uma breve conversa com o Bispo Marik e para alertar Jeremia para ter cuidado na próxima vez que a visse. Assim que o rato assentiu, dizendo que manteria isso em mente, Pudim o guardou de volta com um gesto bruto.
— Viu como foi bom trazê-lo?
— É verdade.
O rato da Rico ultimamente estava sempre grudado na Mavka. Mavka, achando incrível poder conversar com a mãe através do rato, vivia com ele ao seu lado.
Hazel ficava horrorizada toda vez que via o rato, e os outros criados não sabiam o que fazer, mas a teimosia da Mavka não era fácil de quebrar.
Eu também não pretendia tirar o rato da Mavka até o dia do Rito de Sacrifício, mas, pouco antes de sairmos hoje, Pudim o tomou dela e o trouxe.
Quando perguntei por que ele fez aquilo, a resposta foi: “Como você pode deixar um lacaio de demônio perto de uma criança?”. No fundo, ele estava preocupado com a Mavka. Meu gatinho orgulhoso.
Graças a isso, foi uma sorte poder enviar o recado cedo.
— Quando voltarmos para a mansão, certifique-se de devolver o rato para a Mavka.
Enquanto eu conversava calmamente com o Pudim, o cocheiro me chamou.
— Lady Rohanson… chegamos ao atelier que a senhora mencionou.
— Ah, sim?
Desci da carruagem com a escolta do Pudim.
O atelier da Misha tinha uma aparência bastante luxuosa. Quando a campainha tocou, um funcionário que estava sentado no saguão, concentrado na costura, disse sem sequer levantar a cabeça:
— As reservas para os vestidos do Rito de Sacrifício estão esgotadas. Não aceitamos mais pedidos, por favor, retire-se.
— Gostaria de ver a proprietária.
— Não fará diferença mesmo que veja a Madame.
— Mesmo assim, se a Misha não estiver ausente, poderia chamá-la?
— Argh… Deveria ter feito o pedido antes, vir agora é…
O funcionário apertou a ponte do nariz por baixo dos óculos, como se tivesse encontrado uma cliente difícil. Finalmente, ele deixou a agulha de lado e se virou para mim, disposto a me atender adequadamente. Ao me ver, seus olhos se arregalaram. Sem desviar o olhar, ele gritou a plenos pulmões:
— [grito]Madame… Madame! Venha aqui depressa![/grito]
— [grito]Silêncio! Estou ocupada![/grito]
— [grito]Mesmo que esteja ocupada, venha! Isso não é algo que eu possa decidir![/grito]
Felizmente, parecia que a Misha não estava ausente. Ouvi uma resposta ríspida vinda do interior. Depois de ouvir apenas os elogios e a bajulação exagerada da Misha, ouvir aquela resposta irritada foi, de certa forma, uma experiência nova.
— [grito]Madame! Depressa![/grito]
— [grito]Estou morrendo de tanto trabalhar, por que fica me chamando? Algum cliente estranho apareceu? Eu não disse para não aceitar mais pedidos para o Rito de Sacrifício? Era só mandar embora, por que está me chamando![/grito]
Com a insistência do funcionário, Misha saiu resmungando para o saguão.
— …Meu Deus, Lady?
Então, ao me descobrir, ela se assustou e tapou a boca com as mãos.
— Sinto muito por ser uma cliente estranha.
— Não diga isso! A senhora é sempre bem-vinda!
A afirmação de que estava ocupada não era mentira; havia olheiras escuras sob seus olhos. Mesmo tendo encontrado um estorvo em uma situação de extremo cansaço e correria, Misha me cumprimentou com imensa alegria.
— Fico tão aliviada que a senhora esteja bem. Estava muito preocupada por não ter notícias desde o banquete de aniversário.
— Boatos terríveis estavam por toda parte, e você, que é sensível a eles, deve ter sido muito influenciada.
— Lady!
Falei em tom de brincadeira, lembrando-me de quando ela me perguntou diretamente, na primeira vez que nos vimos, se eu fazia roupas com pele humana. Misha estufou as bochechas e me lançou um olhar enviesado, mas logo seus olhos começaram a marejar.
— Eu realmente, realmente fiquei muito preocupada… De repente, dizem que a senhora foi para a prisão por tentar assassinar o Príncipe Herdeiro, e quando achei que as coisas tinham melhorado, a Mansão Rohanson sofre um incêndio repentino…
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