Ordenei com tom de comando ao homem que hesitava, e ele engoliu o frasco às pressas. Felizmente, por entre os trapos rasgados, era possível ver que a pele de suas costas havia se regenerado completamente. A eficácia nunca deixa de me impressionar. É por isso que as pessoas acreditam tão fervorosamente no Deus Sol.
Entreguei o outro frasco restante ao homem, que o segurou com firmeza, como se tivesse recebido uma joia preciosa. Não, olhando bem, ele não aplicava força alguma nos dedos, com medo de que o vidro quebrasse.
Vendo aquela reação, não precisei gastar saliva explicando o que havia dentro. Como ele mesmo experimentou a eficácia em seu próprio corpo, sabia muito bem que se tratava de Água Benta. A segunda dose que entreguei era a parte da esposa, que sofria com as dores.
— Aquele… quem é a senhorita para me ajudar…?
O homem perguntou, hesitante.
— E… por que, como é que ninguém consegue ver a senhorita?
O homem estava perplexo ao ver as pessoas que não me davam atenção. Além disso, deveria ser estranho que, apesar de ele ter causado um alvoroço, ninguém voltasse o olhar para nós. As pessoas ao redor agiam como se eu e o homem fôssemos invisíveis.
— Quem sabe? Talvez eu seja um demônio?
Pensei no que responder e acabei retrucando com um sorriso. Para minha surpresa, o homem não pareceu assustado com minha resposta. Bem, se ele tivesse medo de qualquer coisa, não teria tentado mergulhar no portão guardado por paladinos armados.
— Tenho um pedido em troca da Água Benta, pode atender?
— O que… a senhorita deseja de mim…?
Sua voz tremia, mas seus olhos estavam cheios de determinação ao me encarar.
— …Se for algo que eu possa fazer, farei qualquer coisa.
Ele parecia disposto a entregar tudo, menos a própria vida. Talvez por causa da confusão com espadas que ocorrera pouco antes, observei as pessoas ao redor, cujo ímpeto havia diminuído um pouco.
— Basta gritar para abrirem o portão, como fez agora. Quando o portão abrir, só precisa entrar junto com essas pessoas.
— O portão… vai abrir?
— Sim.
Para ser exata, eu farei com que abram.
— Eu quero que o Rito de Sacrifício seja arruinado de forma grandiosa.
Para que o Bispo Marik nunca mais possa ferir meu povo.
Expliquei vagamente ao homem o que ele precisava fazer. Incitar as pessoas que, como ele, estavam insatisfeitas com o templo, medir bem o tempo e elevar a voz exatamente quando o Rito de Sacrifício estivesse começando. E, quando o portão estivesse escancarado, bastaria entrar e causar o caos à vontade.
Pedi isso porque, para o que eu pretendia fazer a seguir, precisaria de muitos olhos observando. Além disso, quanto mais bocas para espalhar o boato, melhor.
Originalmente, eu planejava que Rico dividisse seu corpo e roubasse as vozes das pessoas para incitá-las, mas, vendo agora, parecia haver muitas pessoas insatisfeitas com o templo, assim como aquele homem.
O homem assentiu, repetindo para si mesmo “quando o Rito de Sacrifício começar”, talvez para não esquecer. Ele poderia ser cortado por uma espada cega novamente, mas será que não sentia medo?
Assim que terminei o compromisso com o homem, vi os ratos familiares correndo para fora. Algumas pessoas se contorciam de nojo ao sentir algo roçando entre seus pés. Como eram muito rápidos, eu era a única que conseguia vê-los a olho nu.
— Rico?
— Jovem Lady!
Rico também não me reconheceu de imediato, mas, ao ouvir meu chamado, deu um pulo de susto e correu em minha direção.
Rico disse que havia trocado de lugar com Gabriel em segurança e que, dividida em várias partes, metade estava espalhada procurando por Jelly, correndo pelo teto e rastejando pelo chão, revirando o templo.
A outra parte restante havia saído para atender ao meu pedido. Expliquei a Rico que o homem havia concordado em nos ajudar.
— R-rato, o rato, está falando…
O homem gaguejou, com os olhos arregalados. Ele não se assustou quando me apresentei como um demônio, mas acha fascinante um rato falar?
Entreguei um dos ratos na mão do homem e entrei no templo. Alguns ratos entraram comigo. Assim que passei, o portão se fechou imediatamente.
— Pudding, como está? Consegue encontrar?
Enquanto discutíamos lá fora, Pudding continuava se esforçando para localizar Jelly. Mas, como não parecia ter tido sucesso, ele balançou a cabeça.
Disse que os vestígios divinos estavam espalhados por toda parte, dificultando o uso de suas habilidades. Afinal, o estado de Rico, que esteve presa na cela como substituta de Gabriel o tempo todo, parecia muito melhor que o dele.
Se nem a habilidade de Pudding conseguia encontrar, não restava alternativa a não ser correr por conta própria.
O Bispo Marik não pretendia me usar como sacrifício, e ainda havia tempo até o início do Rito de Sacrifício, então estava tudo bem. Eu encontraria Jelly.
Primeiro, o lugar mais suspeito seria o subsolo? Como não podiam mostrar cenas feias ao Deus Sol, a maioria das prisões ficava no subsolo. Rico inclinou a cabeça, como se estivesse se comunicando com os outros ratos, e se ofereceu para guiar o caminho.
— É por aqui!
Segui Rico até a cela subterrânea. Isso é o subsolo do templo? Ao contrário da superfície, que era luxuosa e branca, o caminho para o subsolo era extremamente escuro e úmido.
Sem ventilação, o cheiro de ferro e um odor nauseante de origem desconhecida atacavam minhas narinas. Quando iluminei o local com uma tocha, senti ânsia de vômito ao ver marcas vermelhas secas que não saíam em vários lugares.
Havia muitas celas vazias, mas também muitas pessoas detidas. Verifiquei por precaução, mas Jelly não estava lá.
Gastei tempo revistando todas as celas do subsolo, mas não tive sucesso. Apenas fiquei com o estômago embrulhado. Não é no subsolo? Então, onde está Jelly?
Forcei meu cérebro, que já não estava funcionando bem, a pensar. Não era no subsolo. O subsolo era…
Disseram que usavam o subsolo para evitar os olhos de Deus. Mas Jelly… como Jelly não é humana, não havia necessidade de escondê-la dos olhos de Deus.
Então, é o oposto? Não o subsolo, mas o lugar mais alto? O lugar mais próximo do Deus Sol, onde ele gostaria de mostrar a punição aos seres profanos?
Se fosse o Bispo Marik, ele exibiria seus feitos como se quisesse mostrar a Deus. Mas, como precisa evitar os olhos dos outros, não pode ser em um lugar exposto. Então, havia um lugar que me veio à mente.
O lugar mais alto do templo, mais próximo do sol, era a torre do sino.
Enquanto corria em direção à torre do sino, Pudding, em meus braços, começou a gemer de dor. Será que consumiu muita energia mental? Ele continuou expandindo seus olhos para observar as pessoas, procurando por Jelly e usando truques para que os outros não me percebessem.
— Pudding, está tudo bem. Descanse um pouco.
Acariciei suas costas e pedi que descansasse. Ele não podia se forçar agora, pois haveria trabalho a fazer depois. Pudding assentiu com dificuldade e fechou os olhos por um momento.
— Vamos, Rico.
Rico assumiu parte do papel de Pudding. Ela observava os arredores com seus corpos de rato divididos e me guiava por caminhos sem ninguém. No entanto, à medida que nos aproximávamos da torre do sino, o número de pessoas vigiando aumentava.
— Jovem Lady, tenho certeza de que Jelly está aqui. A vigilância é muito mais rigorosa do que onde eu estava presa.
Uma pequena esperança surgiu com as palavras de Rico. Espero que minha suposição não esteja errada.
O problema é como passar por aquela rede de vigilância. Agora que Pudding não pode usar seus poderes, não consigo esconder minha aparência… Como o objetivo é resgatar Jelly, devo simplesmente subjugar todos? Estava pensando nisso quando…
— Se pretende lidar com todos eles, não recomendo.
Uma voz veio de trás. Senti um calafrio na espinha e me virei. Como ele se aproximou sem que eu sentisse sua presença? Além disso, nem eu nem Rico sabíamos o que estava acontecendo, e ela inclinou a cabeça, confusa.
O dono da voz era um rosto conhecido. Era o padre que vi lá fora há pouco. O nome dele era…
— É a Lady Rohanson, não é? Prazer em conhecê-la. Meu nome é Harut.
Sim, Harut. Ele era o único que se preocupava com o homem caído e foi repreendido pelo cavaleiro, por isso me lembrei dele.
Mas era evidente que ele tinha ligações com o Bispo Marik. Será que foi enviado pelo Bispo Marik? Enquanto eu o observava com cautela, Harut estendeu as duas mãos.
— Não precisa ficar na defensiva. O mesmo vale para… aquele rato.
— O padre não é um dos homens do Bispo Marik?
Além disso, era suspeito que ele tivesse se aproximado sem que eu e Rico percebêssemos; que método ele teria usado? Como eu não baixei a guarda, Harut tirou Água Benta de dentro de suas vestes.
— Água Benta?
Harut assentiu.
— Sim. Se está na defensiva porque não conseguiu sentir minha presença, saiba que não tenho habilidades especiais. É apenas por causa disso.
— Os animais de estimação da senhorita não são seres profanos? A Água Benta purifica seres profanos, mas também tem a propriedade de enganar seus olhos.
Harut disse que, como esse era um fato pouco conhecido, era natural que eu não soubesse. O fato de Harut saber até disso deve ser porque ele está sob o comando do Bispo Marik.
— Mesmo que eu não pareça, sou alguém de muita confiança, então carrego um pouco mais de Água Benta comigo. Provavelmente é por isso que a senhorita não conseguiu encontrar o que procura e ficou vagando por aí.
Então… Jelly estava presa em um lugar cheio de Água Benta, e foi por isso que Pudding e Rico não conseguiram encontrá-la até agora? E é por isso que Pudding ficava exausto quanto mais procurava por Jelly? Cerrei os dentes.
— Existe algum depósito de Água Benta na torre do sino?
— Originalmente não… mas, recentemente, a quantidade de Água Benta aumentou muito, então costumamos guardá-la na torre do sino. A senhorita pretende subir na torre, não é? Eu a ajudarei.
— E se eu não precisar de ajuda?
Perguntei, cautelosa com as palavras de Harut. Como poderia confiar plenamente em um padre que tem laços com o Bispo Marik? Então, Harut apontou para os cavaleiros que estavam alinhados e disse:
— Há pessoas guardando a torre do sino. É claro que a senhorita seria capaz de lidar com eles, mas logo será meio-dia.
Harut acrescentou, como se estivesse tagarelando.
— O sino deve tocar quando o Rito de Sacrifício começar. Se a senhorita não quiser tocar o sino doze vezes pessoalmente, seria melhor aceitar minha ajuda.
Harut deu de ombros ao dizer isso. Não percebi quando cuidei do homem caído na entrada do templo, mas o tom de voz de Harut era bastante autoritário. Parecia até um pouco com o do Bispo Marik.
Enquanto eu não conseguia baixar a guarda, Harut me estendeu algo.
O que é isso? Era um tecido que parecia seda. Como eu estava confusa, Harut explicou:
— É um véu.
Um véu? No momento em que ouvi isso, fiquei atordoada e olhei para Harut… Pelo que me lembro, só havia uma pessoa que usava um véu… Então, este é o verdadeiro véu do Bispo Marik?
— …É do Bispo Marik?
Não pode ser, pode?
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