Kanna apertou as mãos que envolviam minha cintura uma última vez e se afastou. Seu rosto estava uma bagunça. Mesmo chorando aos prantos, chorar de forma tão bonita é um talento, se é que se pode chamar assim. Limpei as lágrimas de Kanna com o polegar.
[pensamento]Eu sou a culpada. Quantas pessoas vou fazer chorar por dia?[/pensamento] Kanna logo recuperou o ânimo e, em vez disso, me olhou com preocupação.
— A Lady é quem está bem agora?
Assenti em silêncio. Parece que, aos olhos de Kanna, meu estado parecia aceitável. Ela soltou um suspiro de alívio.
— A Duquesa disse algo maldoso para a Lady?
— E se tivesse dito, você iria castigar minha avó?
[grito]— Com certeza! Se a Lady permitir, irei até ela agora mesmo tirar satisfação![/grito]
— E o que você diria?
[grito]— Depois de tudo o que a Lady fez enquanto estava no castelo, ela nem a trata como neta? É a pessoa mais cruel do mundo![/grito]
Kanna gritou, indignada. Ela parecia prever que Agera, tendo recuperado a memória, teria dito palavras duras recusando-se a me reconhecer como neta, assim como o Duque fizera.
[pensamento]Será que na cabeça da Kanna eu sou alguém que se magoa com esse tipo de coisa? Mesmo diante do Duque, eu só sentia raiva, nunca fiquei deprimida…[/pensamento]
Kanna batia os pés, incapaz de conter a fúria. Parecia tanto que ela estava prestes a sair disparada que quase comecei a rir.
— Não é isso, Kanna. Pelo contrário, minha avó pediu para que eu a chamasse de vovó.
— É… sério?
Ao defender Agera, Kanna perdeu instantaneamente sua vontade de lutar e pareceu desorientada.
— Então… por que a Lady estava…
Kanna deixou a frase no ar. Como eu não havia contado antes, ela parecia incerta se deveria perguntar.
[pensamento]Pois é, por que será?…[/pensamento]
Essa era uma pergunta que não havia sido resolvida mesmo depois de acalmar minhas emoções fervilhantes através da conversa com Gabriel. Por que eu me envolvi tanto na história de “Evangeline Rohanson”? E por que me senti aliviada quando Gabriel disse que não importava quem eu fosse, que qualquer coisa estava bom?
— Deve ser porque eu gosto de você, Kanna.
— Lady…!
Kanna pareceu ficar emburrada, achando que eu estava apenas mudando de assunto por não querer revelar a situação, mas o que eu disse foi uma resposta a que cheguei após muita reflexão.
Eu não apenas possuí o corpo de Evangeline Rohanson; eu me infiltrei demais nele, e me tornei excessivamente ligada às pessoas conectadas a este corpo.
Eu gostava da Kanna. Gostava do Pudim e do Jelly. E não conseguia mais afastar o Gabriel. O fato de eu ter sido tão sensível ao segredo de nascimento de Evangeline foi inteiramente por causa disso.
“Lady Evangeline.” “Senhorita Evangeline.” “Jovem Lady Evangeline.” Mesmo sabendo que eu era uma [glossario termo=”Pessoa que habita o corpo de outra pessoa em outro mundo.”]Possuída[/glossario], eles me chamavam de Evangeline com carinho, respeito ou até mesmo com um toque de medo.
Assim, acabei ficando presa a Evangeline.
Portanto, eu… Eu não era mais uma simples possuída.
Meu nome é Evangeline Rohanson.
***
Evangeline aconselhou Gabriel a descansar o suficiente e saiu do quarto.
O quarto, agora sem a luz dela, estava muito escuro. O sol ainda não havia mostrado as caras. Gabriel desejava que esta noite fosse muito longa, para que pudesse aproveitar o rastro que ela deixou.
Ele preferia que a manhã nunca chegasse, para que pudesse desfrutar desse momento para sempre. Se o sol desaparecesse, Gabriel, preso na noite, poderia permanecer eternamente no tempo parado.
Ao tentar se mexer, sentiu as mãos formigarem. Seus dedos, sem controle, não se moviam nem um pouco. Em vez de acariciar os lábios com os dedos, Gabriel levantou o braço e pressionou os lábios firmemente contra as costas da própria mão. Ele temia que o ar frio roubasse a sensação que restara em seus lábios.
Através dos lábios encostados, sentiu o pulso disparado. Com o coração batendo forte sem um momento de trégua, Gabriel percebeu o quanto estava abalado. Se seu ajudante popular visse o estado de Gabriel, zombaria perguntando se ele era uma criança que teve seu primeiro beijo.
Gabriel ficou com o rosto vermelho só de imaginar tamanha impudência. Um beijo era algo impensável. Embora estivesse tão abalado, na verdade, o que Evangeline fizera fora apenas uma saudação formal. Uma saudação ritualística de apenas encostar as costas da mão nos lábios.
O problema aqui era que Gabriel agora se tornara um inválido que não conseguia sequer controlar os próprios membros. Em tal situação, havia apenas uma maneira de os dois se despedirem: Evangeline levar pessoalmente as costas da mão até os lábios de Gabriel.
Evangeline pressionou as costas da mão contra os lábios de Gabriel. Seus lábios tocaram a mão da Lady. Ele beijou a mão da Jovem Lady Evangeline.
Não importava como ele combinasse as palavras, para Gabriel, aquilo era algo excessivo, quase uma forma de violência sensorial.
Havia um motivo para ele estar tão perturbado, logo ele, que sempre beijava as costas da mão de Evangeline como saudação de despedida.
Primeiro, Gabriel nunca havia beijado a mão de Evangeline por iniciativa própria de forma tão íntima. Segundo, desta vez não fora um pedido de Gabriel, mas algo que a própria Evangeline fizera.
Fora apenas uma saudação. Apenas uma saudação, mas… o problema era que, para Gabriel, não pareceu apenas isso. Seus olhos ficaram marejados pela vergonha que o invadia.
Ele não sabia que sentiria de forma tão vívida como a pele dos lábios é fina. Ele já sabia que a temperatura corporal de Evangeline era fria. Sua pele branca como mineral era, exagerando, como gelo.
A sensação era de que os lábios encostados ficariam grudados e não se soltariam. Por isso, achou estranho quando Evangeline retirou a mão rapidamente.
Mesmo sem nunca ter provado, sentiu um gosto doce. Se seu ajudante popular visse isso, diria que seu superior desenvolvera um fetichismo, devolveria a insígnia da ordem e transportaria Gabriel pessoalmente para a prisão.
Também lhe veio à mente o que Rafaela diria. Perguntaria se ele enlouqueceu de vez. Ao imaginar as palavras venenosas que ela despejaria, Gabriel decidiu parar de pensar em Rafaela.
Em vez disso, quem ocupou o lugar foi, novamente, Evangeline.
[sussurro]— Lady…[/sussurro]
Lady. Lady Rohanson. Jovem Lady Evangeline.
Gabriel pronunciou mentalmente, mais uma vez, o título que já havia engolido milhares de vezes. Uma emoção intensa explodiu de seu coração, tornando-se insuportável.
Mesmo excluindo a saudação, tudo o que Gabriel passara era pesado demais. Na verdade, ele chegava a pensar que já havia morrido de hemorragia na prisão e que tudo isso era um sonho após a morte.
Até o fato de a Lady ter vindo resgatá-lo parecia uma alucinação de Gabriel.
Após a morte, normalmente se descansava nos braços de Deus. Aqueles rejeitados por Deus repetem ciclos infinitos até que seus pecados sejam lavados. No entanto, o que Gabriel acreditava não era em um Deus.
Portanto, Gabriel não tinha dúvidas de que, após a morte, pertenceria a Evangeline. O sentimento de ter até a morte hipotecada era melhor do que imaginava. Pelo contrário, sentia uma sensação de plenitude.
A silhueta branca ainda pairava diante de seus olhos. Ele a encontrava até em seus sonhos e, a certa altura, já era capaz de desenhá-la mesmo de olhos fechados.
Gabriel orbitava ao redor de Evangeline desde quando ela era a mais racional. Um ser que escapava da lógica, que ignorava o poder divino. Ela, que ele imaginava não ter vitalidade, tornou-se a salvadora que estendia a mão para pessoas como Gabriel.
Sua fé.
Gabriel idolatrava a garota. E, ao mesmo tempo, nutria sentimentos por quem era o objeto de sua fé.
Sua fé é profana.
Sua fé é feia.
Seu afeto era vil.
Ele derrubou a estrela que admirava, rebaixando-a a algo terreno. Dizer que a estrela estava caindo era culpa das emoções de Gabriel que transbordavam.
O ser que estava preso na moldura de “Evangeline Rohanson” agora era chamado de Evangeline Rohanson. No passado, ocasionalmente, sempre que Evangeline mostrava um lado humano, seus olhos se voltavam para ela.
Gabriel ficava radiante, sem saber o que fazer com os fragmentos de emoções humanas revelados por Evangeline. Além disso, não fora o próprio Gabriel quem vira aquele lado de perto?
Ele achava que não teria valor algum para Evangeline. Mas não era verdade. Ao consolar Evangeline, Gabriel percebeu que se tornara a corrente dela e, tomado pela emoção, quase sentiu seu coração saltar pela boca.
Se o [glossario termo=”Título dado ao Bispo Marik, indicando ser o escolhido ou mais amado pela divindade.”]Favorito do Deus Sol[/glossario], o Bispo Marik, sentia esse tipo de exaltação e agia de forma cega, Gabriel achava que poderia entender perfeitamente o sentimento dele.
— Está feliz? Parece que sim. Naturalmente, deve estar.
Ouviu-se um sarcasmo que parecia uma bronca vindo de algum lugar. Não se ouviu o som da porta abrindo. Era uma situação para se assustar, mas a voz era familiar. Gabriel recebeu com alegria o interlocutor conhecido.
— Senhor Pudim.
Quando Gabriel o cumprimentou, o jovem de cabelos loiros deslumbrantes rangeu os dentes e sentou-se na cadeira ao lado da cama. Era onde Evangeline estivera sentada.
— E a Lady?
Quando Gabriel perguntou, Pudim respondeu honestamente, embora não quisesse.
— Foi dormir depois de conversar com a Kanna.
Pudim não pôde ficar ao lado dela devido à ordem de se retirar de Evangeline, então Kanna transmitiu as notícias em seu lugar. Gabriel sentiu-se aliviado por Evangeline parecer ter afastado suas angústias. Ele estava feliz por poder ser útil a ela, mesmo com um corpo naquele estado.
— Com esse corpo de merda, você até que conseguiu agradá-la bem.
Como se preocupavam com a mesma pessoa, Pudim seguiu um raciocínio semelhante ao de Gabriel. Gabriel deduziu que Pudim devia estar pensando que ele estava fazendo valer o preço de ter sido salvo.
Pudim observou Gabriel por um longo tempo antes de desabafar.
— Diante de mim, ela não mostrou nem uma brecha.
O jovem franziu profundamente a testa. Era um rosto que ele nunca fizera diante de sua dona, querendo mostrar apenas seu lado bonito. Teria sido demais querer apenas ser amado?
Sua expressão era de quem não conseguia acreditar que um cadáver, que mal mantinha a vida, era mais confiável do que ele.
— Eu não sabia que o gosto da Lady Evangeline seria por pássaros de pernas quebradas em gaiolas. Escolhi mal o corpo que habitei.
O gato chamou o novo recruta, que entrara no jardim onde residiam feras e flores vermelhas, de pássaro na gaiola.
— A meu ver, parece que você escolheu muito bem.
Gabriel, que sabia muito bem o quanto Evangeline adorava o demônio em forma de animal, retrucou. Com isso, Pudim logo recuperou a arrogância e se gabou.
— Bem, é que ela sempre gostou de gatos, afinal.
Gabriel estranhou a atitude de Pudim, que agia como se conhecesse a Evangeline de antes. Pelo que Gabriel sabia, o demônio apareceu após o funeral realizado na mansão Rohanson.
Sendo assim, a que tempo esse “sempre” de Pudim se referia?
Seria uma história de que ele conhecia a “Evangeline Rohanson” de antes do funeral, ou ele estava falando da Lady antes de ela assumir o corpo de Evangeline?
Como o interlocutor não era Evangeline, Gabriel não sentiu necessidade de reprimir sua curiosidade e lançou a pergunta.
— Esse “sempre” seria de antes de a Lady assumir o nome de Evangeline Rohanson?
— Antes de assumir o nome?
Pudim inclinou a cabeça, como se não entendesse. Gabriel hesitou se aquela expressão seria apropriada, mas abriu a boca com cautela.
— Eu quis perguntar se vocês já se conheciam desde antes de a Lady habitar o corpo de Evangeline Rohanson.
Como era relutante em mencionar diretamente a morte de Evangeline diante do demônio que a adorava, ele explicou rodeando o assunto.
Ao perceber o significado da pergunta de Gabriel, Pudim balançou a cabeça negativamente.
— Ah, não. Eu não conheço bem a Lady Evangeline daquela época.
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