“Peço perdão, mas, mesmo sendo o senhor um bispo, não pode se aproximar do sacrifício sem autorização.”
O cavaleiro cortou as palavras de Jabaniya com firmeza. No entanto, Jabaniya não se deu por vencido e respondeu com astúcia.
“Haha, eu sei muito bem disso. Passo a vida inteira rezando a Deus, como poderia desconhecer tal fato?”
Se o tom do Bispo Marik era uma ordem baseada em uma falsa gentileza, Jabaniya era especialista em distorcer os pontos da discussão e falar por enigmas. Claro, como ele dizia tudo com um sorriso no rosto, era difícil adivinhar suas verdadeiras intenções.
O significado daquelas palavras era um escárnio: ele insinuava que, se até um simples cavaleiro sabia daquilo, como um bispo não saberia? E, ao mesmo tempo, provocava o cavaleiro por estar pregando para um superior.
“Mas, como você bem sabe, o laço entre mim e Gabriel não é algo trivial, não é? Fui eu mesmo quem acolheu Gabriel.”
Em seguida, ouviu-se um som de batidas leves. Jabaniya havia dado tapinhas no ombro do cavaleiro. Ele soltou um suspiro profundo e acrescentou:
“O fato de Gabriel ter se desviado… sinto como se fosse minha própria culpa.”
“Ah…”
“Não, não é. O senhor, Bispo Jabaniya, não tem culpa alguma.”
Os cavaleiros negaram apressadamente, ficando do lado de Jabaniya.
“Agradeço por dizerem isso. Mas a perspectiva do próprio envolvido é diferente. Por isso, quero perguntar pessoalmente se cometi algum erro que tenha levado Gabriel a seguir um caminho profano. Se houve algo que fiz de errado, não deveria eu mesmo corrigir?”
“Mas…”
Como o Bispo Jabaniya insistia, os cavaleiros começaram a hesitar.
No templo, ninguém ignorava que Jabaniya estava sob a proteção do Bispo Marik. Era óbvio que Marik se tornaria arcebispo, e Jabaniya seria o pilar que sustentaria sua posição.
Não seria nada bom cair em desgraça com os dois. Afinal, não havia um exemplo perfeito disso dentro daquela sala?
Ao ver que a determinação dos cavaleiros vacilava, Jabaniya cravou o golpe final.
“Não se preocupem. Eu mesmo falarei com o Bispo Marik.”
Assim que o nome do Bispo Marik foi mencionado, a atmosfera mudou instantaneamente. Os cavaleiros trocaram olhares furtivos e assentiram.
“B-bem, se é assim…”
Os cavaleiros assentiram e se afastaram para que Jabaniya pudesse entrar. Contudo, Jabaniya não se moveu.
Quando o cavaleiro perguntou: “Bispo?”, Jabaniya vasculhou suas vestes e entregou uma bolsa aos cavaleiros. Era óbvio o que continha aquela bolsa pesada.
“Parece que nossa conversa será longa, poderiam nos deixar a sós, nem que seja por um breve momento?”
“Isso é…”
Enquanto os outros hesitavam, um cavaleiro, cego pela ganância, agarrou a bolsa. Ele a jogou levemente para o alto e a pegou de volta, avaliando o peso. O peso que caiu pesadamente em sua mão arrancou um suspiro de admiração.
Seriam todas moedas de prata? Mesmo que fossem de cobre, já equivaleria a um ano de salário. O cavaleiro, salivando, olhou ao redor para ver se alguém observava, espiou o interior da bolsa e cobriu a boca. Antes que Jabaniya pudesse pedir a bolsa de volta, ele se apressou em falar:
“Claro! Conversem o quanto quiserem! Nós vamos fazer uma patrulha rápida e já voltamos.”
“Ei!”
“O bispo disse que tem assuntos urgentes para tratar. Você não tem consideração?”
O cavaleiro que bajulava Jabaniya arrastou os outros, que ainda estavam confusos e segurando a bolsa com tanta força que as veias saltavam, e abriram caminho.
Como eles caminhavam na direção onde Gabriel estava escondido, ele prendeu a respiração, tenso. Felizmente, os cavaleiros estavam ocupados conversando entre si e nem olharam para a fresta da porta aberta. Podia-se ouvir o sussurro deles, com as vozes baixas.
“Você ficou louco? Sabe o que pode acontecer se aceitarmos isso?”
“Que acontecer o quê? Vocês deveriam me agradecer. Sabem o que tem aqui dentro?”
A mulher riu maliciosamente e sussurrou, contendo a respiração.
“Moedas de ouro, moedas de ouro! Está cheio de moedas de ouro!”
Se dividissem aquilo entre todos os cavaleiros presentes, daria para comprar uma casa na capital. Com essa revelação, os outros cavaleiros ficaram em silêncio, chocados.
“Viram como valeu a pena me seguir? Francamente, o que o Bispo Jabaniya poderia fazer? Todos sabem que aquele velho guaxinim está na mão do Bispo Marik, será que ele realmente se atreveria a tirar o Sir Gabriel daqui?”
Isso era algo realmente impossível. O quanto o Bispo Jabaniya não explorava Gabriel habitualmente? Havia até quem chamasse a Ordem dos Cavaleiros de Phararos de “cães de Jabaniya”.
“O bispo também é demais. Explora o rapaz quando precisa e agora vem com essa de se distanciar.”
“Pois é, o Sir Gabriel também é um coitado. Dizem que até os subordinados dele fugiram, não é?”
“Quem iria querer ficar preso a uma corda que já se rompeu?”
“Certo, parem de falar e vamos. O Bispo Jabaniya precisa se despedir.”
À medida que os cavaleiros se afastavam, o som de suas vozes foi diminuindo. O rato, que ouvia a conversa prendendo a respiração, observou a reação de Gabriel. Ele estava preocupado se Gabriel ficaria ferido por ter ouvido insultos tão diretos. No entanto, Gabriel levantou-se, pegou o rato e agiu como se aquilo não tivesse tido efeito algum.
Ao abrir a porta furtivamente, viu o corredor vazio, diferente de momentos atrás. Os cavaleiros haviam partido.
“Graças ao bispo, o trabalho ficou mais fácil.”
“Você realmente pretende vir agora?”
“Como não há ninguém vigiando, é o momento ideal. O que o Bispo Jabaniya está dizendo?”
“Ele está apenas parado, me observando.”
Como o ‘Gabriel’ disfarçado por [glossario termo=”Híbrido”]Rico[/glossario] estava com os olhos vendados, ele deveria fingir não saber que o Bispo Jabaniya havia chegado, por isso estava confuso sobre como reagir. Rico também estava intrigado. Por que, depois de subornar com uma fortuna em moedas de ouro para entrar, ele estava apenas parado observando? No fim, Gabriel chegou antes que Jabaniya pudesse iniciar a conversa.
“Bispo.”
Jabaniya, que observava Gabriel com olhos cheios de emoções complexas, deu um pulo e virou a cabeça. Ele piscou os olhos ao ver outro Gabriel parado diante da porta.
O Bispo Jabaniya alternava o olhar entre o Gabriel alto e esguio que estava de pé e o outro Gabriel, que estava caído no chão com os olhos e o corpo amarrados.
“…Agora, estou vendo coisas?”
“Como o senhor ainda está lúcido, não creio que seja a idade.”
Gabriel respondeu de forma brincalhona e desamarrou Rico. Rico inclinou a cabeça em agradecimento. A sensação era duas vezes mais estranha do que quando ele estava na forma de rato.
O rato que estava com Gabriel saltou e correu até Rico. O corpo de Rico ondulou e o rato penetrou em sua carne.
“I-isso é…!”
Testemunhando a cena terrível, o Bispo Jabaniya empalideceu e gaguejou. Como seu corpo vacilou, Gabriel apressou-se em ampará-lo.
“O senhor está bem?”
“Eu! …Você acha que eu ficaria bem depois de ver isso?”
O Bispo Jabaniya gritou involuntariamente, mas, após verificar a direção da porta, baixou a voz. Ele julgou que, mesmo tendo enganado as pessoas, não seria bom causar um alvoroço e ser pego naquela cena.
O Bispo Jabaniya respirou fundo e voltou-se para Gabriel.
“Você é o verdadeiro Gabriel, não é? Diga-me.”
Gabriel não se deu ao trabalho de responder. Se havia alguém que permanecia intacto mesmo após um rato entrar em seu corpo, qualquer um veria que o outro lado era o verdadeiro.
“Obrigado. Graças ao senhor, foi fácil entrar.”
“Sim. Só você seria capaz de agir com tanta audácia.”
Jabaniya, segurando a cabeça que latejava, olhou para Rico.
“Então, o que é aquilo, afinal?”
“O senhor já não suspeita?”
“Aquilo… aquilo é um demônio?”
“Se o senhor pensa assim, então é.”
Com a resposta evasiva de Gabriel, Jabaniya sentiu sua dor de cabeça piorar.
“Por que diabos você veio? Se, como você disse, aquele demônio estava preso no seu lugar, você deveria ter fugido imediatamente, em vez de ficar rondando por aqui.”
Jabaniya repreendeu Gabriel. No entanto, mesmo ouvindo as críticas, Gabriel mantinha uma expressão serena. Parecia até um pouco animado.
Deve ser divertido zombar de seu antigo mentor. Quando criança, ele era um garotinho dócil que segurava a barra de suas calças com lágrimas nos olhos; como ele pôde crescer assim?
O Bispo Jabaniya se arrependeu por um momento. Por que ele arriscaria a reputação e a riqueza que acumulou até agora para apostar em um jogo, apenas lembrando-se do rosto de um Gabriel criança que se agarrava a ele desesperadamente, como se o mundo tivesse acabado?
Ele gastou uma fortuna imensa e até usou o nome do Bispo Marik para chegar ali. E, no entanto, aquele ‘Gabriel’ não só não era o verdadeiro, como era um maldito demônio. O Bispo Jabaniya rangeu os dentes, pensando que sua preocupação fora em vão.
“Por que apareceu diante de mim? E se eu o entregasse ao Bispo Marik?”
À pergunta de Jabaniya, Gabriel respondeu com um sorriso suave.
“Bispo. Quando eu era criança e pedi ajuda, o senhor foi o único que me estendeu a mão.”
Gabriel deu uma resposta que parecia fugir da pergunta de Jabaniya. No entanto, foi uma resposta suficiente. Significava que Gabriel acreditava, como naquele tempo, que Jabaniya acabaria por ajudá-lo.
Embora agora fosse menosprezado como um guaxinim ganancioso, o Jabaniya do passado era alguém que realmente condizia com um sacerdote.
Graças às boas ações que acumulou no passado, ainda havia muitos que respeitavam Jabaniya, e Gabriel era um deles. Rafaela costumava olhar para Gabriel como se ele fosse um tolo por ser leal a Jabaniya sem ter recebido nenhum grande favor, mas Gabriel nunca esqueceu aquela ajuda.
Quando ninguém mais lhe estendeu a mão, apenas um sacerdote o ajudou. Embora a boa ação de Jabaniya não passasse de cumprir seu dever como sacerdote, e sua base fosse apenas uma compaixão superficial e insignificante.
Jabaniya era alguém que sabia ajudar uma criança desamparada. O Gabriel que pensava em Jabaniya acreditava que, no fim, ele acabaria estendendo a mão para ajudar.
Assim como ele fez agora, vindo até ali para ajudar Gabriel a escapar, sem saber que estava atraindo o olhar de desaprovação do Bispo Marik.
Jabaniya não disse nada. Mas, através daquela troca de palavras, ambos sabiam que o silêncio era a resposta correta.
“Rico, deixe isso comigo e apresse-se em encontrar [glossario termo=”젤리”]Jelly[/glossario].”
Ao ouvir as palavras de Gabriel, Rico, que observava a situação, assentiu. Logo, a forma de ‘Gabriel’ que Rico havia assumido começou a se distorcer, dividindo-se em vários pedaços e se desfazendo.
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