De alguma forma, a criança era gentil demais! E tinha determinação! Pensando assim, a situação ficou clara num instante. Com a minha experiência em romances de fantasia, era óbvio como a obra original deveria ter se desenrolado.
Aqui temos a vilã Evangeline, o servo leal da vilã, Donau, e Kanna, a irmã mais nova da criada que serve a vilã.
Evangeline costumava atormentar os criados do Condado, e entre eles, Hena era a que mais sofria. O bullying passou dos limites e ela ordenou que Donau sequestrasse Kanna, a única irmã de Hena. E então, ao salvar Kanna do perigo, ocorreria o evento do primeiro encontro com o protagonista masculino!
Mesmo que eu tenha possuído o corpo de Evangeline, será que Donau não sequestrou Kanna por causa da força de coação da obra original?
Isso explicaria por que Donau estava balbuciando aquelas bobagens. Ele murmurou que só estava fazendo o que eu mandei. Uau… A força de coação da obra original é assustadora, realmente assustadora.
Então, será que eu roubei a cena de entrada do protagonista masculino? Eu deveria ter deixado como estava? Não, mas mesmo sendo personagens de um livro, como eu poderia apenas observar aquela situação?
— Você não tem mais nada a perguntar, certo? A senhorita parece cansada, então vamos indo.
Kanna, que terminou de explicar a situação, cortou a conversa. Era uma atitude fria demais para alguém que deveria estar diante do protagonista masculino.
Isso também deve ser um efeito de eu ter salvado Kanna no lugar dele, certo? A protagonista original da obra se apegando à vilã, isso é literalmente uma história de possessão de vilã! Como esperado do mundo de um romance de fantasia!
— Se algum problema surgir, procurem pelo Condado Rohanson.
Enquanto admirava a situação internamente, cumprimentei o protagonista e me virei. Como o sequestrador, a vítima e a pessoa que salvou eram todos do Condado Rohanson, eu disse para me procurarem caso ficassem travados ao escrever o relatório. Ótimo, mais um ponto de bondade acumulado.
Hena tomou a frente, dizendo que nos guiaria até onde a carruagem estava estacionada. Enquanto a seguia, senti um olhar penetrante nas minhas costas. Ao me virar, vi o protagonista me encarando com ferocidade.
Eu não fiz nada que uma vilã faria, então por que ele está me encarando? Será que ele está com ciúmes porque Kanna ficou do meu lado? Droga. Parece que, em vez da rota da vilã, acabei entrando na rota da rival…
***
— Comandante, o fogo foi controlado.
— Bom trabalho, Rafaela.
Gabriel, que continuava observando o beco onde a boneca de neve havia desaparecido, finalmente voltou a si com o chamado de sua subordinada. Ele estava tão distraído que o fogo foi controlado nesse meio tempo. O edifício, varrido pelas chamas, estava tão deformado que mal podia ser chamado de casa.
Diferente da mulher de pele alva, que não tinha um pingo de fuligem apesar de ter fugido do fogo, todos os outros estavam cobertos de fuligem em seus uniformes, o que mostrava o quanto se esforçaram para limpar os escombros.
— Me desculpe. Eu estava investigando a senhorita e não pude ajudar.
— Não se preocupe. Aquele fogo se apagou sozinho.
— O quê?
Quando Gabriel perguntou, Rafaela coçou a cabeça e explicou.
— É verdade. Estava queimando intensamente e, de repente, diminuiu. Para começar, já era estranho que o fogo não tivesse se espalhado para os arredores e estivesse queimando apenas esta casa…
Gabriel olhou para os escombros com uma expressão de profundo desconforto.
No momento em que Gabriel viu a cena, ele pensou que até ele tinha sido enfeitiçado por um demônio. Se um incêndio ocorresse em uma favela tão estreita e densa, o fogo inevitavelmente se espalharia por toda a área ao redor. Por isso, ele correu apressado com seus cavaleiros para evacuar as pessoas.
Ele previu a tragédia e correu para lá, mas, ao chegar, as pessoas não estavam evacuando; elas apenas observavam a casa queimar sozinha, como se houvesse uma barreira de fogo invisível protegendo o local.
No entanto, o que roubou a atenção de Gabriel não foi esse fenômeno bizarro, mas a mulher que estava diante daquele fogo.
A princípio, Gabriel pensou que havia uma estátua colocada entre a multidão. Mesmo sendo impossível que houvesse um mármore esculpido com tanta delicadeza em uma favela como aquela.
Ele não a reconheceu como um ser humano porque não havia nada que pudesse ser chamado de força vital nela. Comparando, um galho quebrado seria mais próximo de um humano do que ela.
Por isso, quando ele testemunhou a cena bizarra daquilo que deveria estar morto abrindo seus olhos vermelhos em sua direção e sua boca vermelha proferindo a linguagem humana, ele ficou tão chocado que quase perdeu a fala.
Gabriel fingiu compostura e conversou com a mulher. Como esperado, ela estava longe de ser humana.
Mesmo quando ela mencionou que o servo estava morto, ou quando olhava para o próprio Gabriel, não havia um pingo de calor ou compaixão. Assim como um humano não se importa com uma formiga passando, para aquela mulher, Gabriel provavelmente não passava de uma formiga.
A mulher parecia ter algum interesse na criada chamada Kanna ao seu lado. Talvez por estar recebendo a atenção de algo que não era humano, o estado da criada também não parecia normal. Sua aparência cega e fervorosa parecia a de uma fanática religiosa.
— Comandante! Encontramos o corpo!
O subordinado gritou em voz alta. Gabriel verificou o cadáver. Donau, era esse o nome? O corpo, que estava carbonizado e com os membros decepados mesmo após a morte, parecia uma escultura.
— Isso é…
— É estranho. Deve ser coincidência, certo?
Atrás do corpo, cujos membros haviam sido cortados, a fuligem no chão se espalhava como asas, e atrás da cabeça, uma [glossario termo=”Representação artística de figuras sagradas, comum em contextos religiosos.”]성화[/glossario] estava desenhada como se emitisse luz ao redor da cabeça do cadáver. Parecia exatamente com a auréola que os anjos ou deuses teriam em pinturas famosas.
— Com essa aparência, parece um anjo.
Gabriel não foi o único a pensar assim. Ele soltou um gemido. Um anjo… As asas feitas de cinzas se quebrariam antes mesmo de baterem, caindo no abismo. O mesmo valia para aquela auréola. Para ele, parecia que aquele halo circular estava prestes a piscar.
***
— Quer que eu te dê um quarto na mansão?
Na carruagem de volta, a senhorita Evangeline abriu a boca. Hena duvidou do que ouviu, mas não teve coragem de perguntar novamente.
— Deve ser assustador voltar para casa. Eu vou cuidar de vocês.
Como esperado, ela não ouviu errado. Hena, que pretendia recusar dizendo que estava tudo bem, fechou a boca ao perceber que o olhar da senhorita não estava nela, mas em sua irmã.
Ela estava perguntando a Kanna, não a Hena. Hena segurou a mão de Kanna com força. No fundo, ela queria dizer para recusar. Mas e se ela desse um sinal e acabasse irritando a senhorita?
A cena de como Donau morreu por ter desagradado a senhorita ainda estava vívida em sua mente. O que era ainda mais incompreensível era o fato de que Kanna estava satisfeita com aquela morte grotesca e repugnante.
A senhorita não apressou a resposta.
Com aquela consideração que não combinava em nada com ela, a espinha de Hena gelou. Era estranho não sentir medo, já que ela estava usando uma pele humana e fingindo ser uma pessoa benevolente.
A senhorita Evangeline era até que tolerante com Hena, mas parecia especialmente gentil com Kanna. Embora parecesse não ser diferente de salvar e recolher um animal preso em uma armadilha.
— Irmã, podemos ficar também?
— Claro.
— Eu também quero escolher o quarto.
— Pode fazer como quiser.
E Kanna era a mesma coisa. Hena sentiu o fôlego faltar ao ver a irmã tagarelando animada com a senhorita.
Embora ela sempre tivesse sido destemida desde pequena, Hena não sabia que ela seria capaz de agir com tanta ousadia até mesmo na frente da senhorita. Hena vislumbrou um fragmento do passado no sorriso satisfeito de Kanna.
Enquanto o pai ainda era vivo, a adorável Kanna às vezes virava a comida e fazia birra para confirmar o afeto dele. Depois que o pai morreu, ela amadureceu e parou com isso.
Será que ela abriu o coração porque a senhorita a salvou?
Como ela roubou a [glossario termo=”Substância sagrada usada para purificação e tratamento de vícios.”]성수[/glossario] e inventou que foi a senhorita Evangeline quem deu, talvez ela pensasse que foi salva duas vezes. Na verdade, não era uma mentira. Se não fosse pelo gato da senhorita, Kanna ainda estaria de cama, e se a senhorita não tivesse ido hoje, o ferimento de Kanna não teria parado apenas no pescoço.
— Então, o quarto logo abaixo do da senhorita estaria bom?
A senhorita disse para escolher qualquer quarto, exceto o 4º andar onde ela ficava, e o que Kanna escolheu foi exatamente abaixo do quarto da senhorita, no 3º andar.
Como Kanna nunca trabalhou na mansão, ela deve ter escolhido aleatoriamente, mas o 3º andar era onde a falecida Condessa Rohanson residia. Além disso, aquele quarto não era o que a Condessa usava? É claro que a senhorita Evangeline não teria interesse nos parentes mortos da casca que ela estava usando.
— Senhorita. Aquele quarto era o que a Condessa usava.
— Ela já faleceu, então não tem dono, não importa. Como já está mobiliado, será confortável para morar imediatamente.
Hena explicou cautelosamente, mas a senhorita apenas bateu o martelo, dizendo que não importava, já que o andar estava vazio e sem dono. Ela até disse que avisaria o Conde Rohanson e o mordomo.
Hena não conseguiu nem contestar o fato de que ela daria o quarto da Condessa para uma criada, e inconscientemente assentiu antes de hesitar.
O mordomo sabia que a irmã de Hena estava gravemente doente. Se ele soubesse que a criança que estava doente estava andando por aí curada da noite para o dia, ele acharia estranho. Talvez ele se lembrasse da água benta e descobrisse que ela a roubou.
‘Isso não pode acontecer…’
— Senhorita. Eu mesma falarei com o mordomo.
— Pode ser. Então eu falarei apenas com o Conde.
Vamos tentar ao máximo não ser descobertas pelo mordomo. Hena lembrou-se da rotina do mordomo. Ele ficava no 2º andar e não subia para os andares superiores. Especialmente porque o mordomo evitava a senhorita Evangeline, então se Kanna ficasse perto da senhorita, ele não a descobriria.
Só preciso aguentar um pouco. O Conde Rohanson nunca permitiria que a irmã de uma simples criada usasse o quarto da Condessa, então logo ela seria expulsa. Vamos apenas viver em silêncio até lá.
Assim que o acordo foi feito, a carruagem deu meia-volta e parou na casa de Hena. Em casa, Hena e Kanna pegaram as bagagens para alguns dias. Na verdade, como nenhuma das duas tinha muita coisa, não demorou muito para pegar quase todas as roupas.
Carregaram a bagagem na carruagem e, após viajar por um bom tempo, chegaram à mansão Rohanson.
Normalmente, a criada desceria primeiro para fazer a escolta, mas Evangeline desceu primeiro sem hesitação.
— Pudim! Você veio me receber.
E ao encontrar o gato esticado sobre as grades do portão, um sorriso surgiu em seu rosto antes indiferente.
A senhorita Evangeline amava muito aquela criatura bizarra. A cena em que o monstro se reduzia a um simples animal de estimação nos braços da senhorita era estranha de se ver, não importava quantas vezes acontecesse.
O gato olhou para Hena e Kanna com seus três olhos brilhando e fechou os olhos lentamente. Kanna murmurou em voz baixa:
— O olho desapareceu?
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